Praia

20/12/2009 por rodrigoherrerolopes
Pôr do sol na praia - Itanhaém - SP - 07.09.09

Pôr do sol no feriado - Itanhaém - SP - 07.09.09

Em tempos de férias, nada como uma praia para divertir, relaxar e recarregar as energias para os desafios do próximo ano. Está chegando o meu tempo de descanso.

Enquanto às férias propriamente ditas não vêm, ficamos com imagens e lembranças.

Boa semana a todos.

Ciclos e passagens

19/12/2009 por rodrigoherrerolopes

O sumiço destes dias no blog não foi por falta de vontade de postar. Uma verdadeira tragédia aconteceu com o adeus de um parente de uma querida amiga muito próxima a mim. Foram dois dias que ficarão marcados para todo o sempre, de um extremo pesadelo que ainda não acabou e ainda vai levar um tempo para amenizar, quiçá passar para quem vive o tormento. Abaixo reproduzo algo escrito a partir do Twitter, um singelo desabafo e reflexão da nossa insignificância na Terra.

Estou destroçado física e emocionalmente, nem as horas de cochilo mesclado com sonhos e pensamentos ruins mudaram muita coisa. Quando acontecem tais coisas a gente pensa em muitas outras, nos traz à uma realidade duríssima que lutamos em nosso cotidiano para fugir.

Nossa crença na eternidade é tão vã, que quando uma tragédia dessas ocorre, a gente se vê sem chão e percebe o quão tênue é a linha entre a vida e a morte e o quão estamos dependentes de tudo e vulneráveis. Não temos direito a nada aqui.

Não é alarde, nem revolta, mas é uma triste constatação: a de que “viver é uma dádiva fatal no fim das contas ninguém sai vivo daqui”. Tudo fica meio sem sentido, viver, amar, procurar crescer, trabalhar, sair, etc., porque você sabe que tudo acaba mais cedo e surpreendentemente do que imaginamos, mesmo que saibamos que tudo tem um fim. E a cada “surpresa” dessas você também morre um pouco. Com aquele que amamos se vai uma parte de nossa rápida existência. E dói.

Mas, como diz o próprio poeta: “vamos com calma”. O jeito é seguir vivendo, tentando achar um motivo, manter-se firme em homenagem e agradecimento a quem já foi, mas também a quem aqui está. É duro, mas é preciso. Ainda não sabemos porquê, mas é preciso.

Dizem que o homem comeu a maçã da sabedoria e desde então adquiriu conhecimento. Mas faltou o conhecimento da vida e da morte, para que ele pudesse viver mais em paz, despreocupado e menos angustiado com suas perdas.

Mas assim é a vida e seu ciclo: nascemos, vivemos, procriamos, outros assumem nosso postos, antes de morrermos, para que o ciclo prossiga. E assim a vida caminha, entre alegrias e tristezas, lágrimas e sozinhos, dor e paz…

Espero apenas que tenhamos calma e força a cada manhã para seguirmos em frente…

Para concluir esta reflexão em homenagem a quem fez muita gente feliz e também deixou muitas saudades, deixo uma canção que tem a ver com o tema: “For Martha”, da banda The Smashing Pumpkins, pertencente ao álbum Adore de 1998.

For Martha
Para Martha

whenever I run

Sempre que procuro

whenever I run to you, lost one

Sempre que te procuro, desaparecida

it’s never done

Nunca consigo

just hanging on

Apenas aguardo

the past has let me be

O passado fez me ser

returning as if dream

Solícito como se num sonho

shattered as belief

Destroçado como a fé

if you have to go, don’t say goodbye

Se tiveres que ir, não diga adeus

if you have to go, don’t you cry

Se tiveres que ir, não chores

if you have to go, I will get by

Se tiveres que ir, eu aceitarei

someday I’ll follow you and see you on the other side

Um dia te seguirei e te verei no outro lado

but for the grace of love

Mas pela benção do amor

I’d will the meaning of

Eu desejaria o sentido do

heaven from above

Paraíso lá de cima

your picture out of time

Seu velho retrato

left aching in my mind

Doendo em minha memória

shadows kept alive

Sombras mantidas vivas

if you have to go, don’t say goodbye

Se tiveres que ir, não diga adeus

if you have to go, don’t you cry

Se tiveres que ir, não chores

if you have to go, I will get by

Se tiveres que ir, eu aceitarei

someday I’ll follow you and see you on the other side

Um dia te seguirei e te verei no outro lado

but for the grace of love

Mas pela benção do amor

I’d will the meaning of

Eu desejaria o sentido do

heaven from above

Paraíso lá de cima

long horses we are born

Longa-Marchas nós nascemos

creatures more than torn

Criaturas mais que dilaceradas

mourning our way home

lamentando nossa volta ao lar

Novo, velho conto

15/12/2009 por rodrigoherrerolopes

Aproveitando a proximidade com as festas de fim de ano, aquui vai um conto que é mais um desabafo, uma reflexão sobre vários assuntos. Aproveitem, critiquem, debatam, leiam!

Ah, a propósito, o conto de ontem não foi o primeiro do ano, escrevi “Lembranças de um tempo perdido” esse ano direto no blog, portanto, não o tinha nos meus arquivos, logo, havia descartado-o. Mas, revisto o erro, vamos ao novo, velho conto!

Conto de pensamentos desconexos

Num feriado remoto, um jovem estudante vê o mundo desabar em sua cabeça

Mais um feriado idiota no calendário. A ausência de movimento num dia considerado santo, em que a falsidade puritana recobre as aparências de boa parte da população, enquanto você procura entender o real sentido para sua angústia.

O mais engraçado é que na segunda-feira você fica na expectativa de que a semana passe rápido para que o feriado chegue e você possa se livrar do cotidiano imbecil e agressivo dos dias chamados úteis, mas que você faz de tudo para que pareçam inúteis. Nada na cabeça, as tarefas parecem entediá-lo cada vez mais, enquanto nenhuma música lhe toca o coração como antigamente. Nenhum amor toca seu coração como antigamente. Nenhuma dor, nenhuma alegria faz sua vida se movimentar para um outro caminho, que não seja para frente, ou para trás, isso depende do estado de espírito.

A véspera da folga chega, mas não há planos do que fazer com esse dia a mais de descanso. E os eternos pedidos para um dia considerado inútil perdem sentido, pois não há lado nenhum para correr. O famigerado dia chega e o desânimo acomete de vez a alma do pobre coitado que não sabe mais o que pensar. O tédio domina suas ações e nada além do alienante cotidiano o move para algo satisfatório. A cabeça está vazia, o coração está vazio, tudo aquilo que sempre pensou é questionado por todos, e por si mesmo.

Seus ideais ligados ao passado querem sobreviver ao bombardeio do presente, mas sofrem com tamanha descrença, desunião e hipocrisia dos seres humanos. Nada mais do que falam se acredita ou vale para alguma coisa. Você diz: isso eu não faço. Mas basta alguém mandar você fazê-lo que tudo é esquecido. Por quê? E aí alguém diz que você também fará o mesmo um dia, pois quando você ficar velho, tua família, teu status, tuas obrigações o farão ser igual aos outros.

Mas se você não se enquadra ao que todos são, é taxado de bitolado, antiquado, alguém que não vai crescer. Contudo, o que significa crescer? As pessoas se esquecem que o que pode ser importante para um, pode não ser para outro. Se não fizermos algo para mudar, qual sentido fará nós estarmos aqui? Que algo é esse que trará alguma razão? Será que existe alguma razão para tudo isto?

O ser humano é de extrema mutação. Porém, o que ele pretende mudar é a si mesmo, enquanto o mundo que se espatifa em suas brincadeiras de guerra e de justiça. Quando alguém quiser fazer alguma coisa, que vá a rua e faça por si mesmo. Cadê aquele espírito jovem de união e desejo de um mundo melhor? Não se faz nada sozinho, mas também ninguém quer fazer, apenas aparecer.

O mundo é uma eterna briga entre o novo e o velho, entre o justo e o certo, entre o buscar e o esquecer, entre o ser e o agora. E você, nesse mundo caótico, vê as pessoas se dominarem por dizeres dos outros, crêem com uma fé cega em uma coisa que nunca viram ou sentiram de verdade, e pensa ser mais fácil isso do que se deparar com a vida como ela é, com a impossibilidade das coisas. É mais preferível ao ser humano culpar alguém, aceder a uma entidade superior que decide por nós, do que encarar o mundo de frente e perceber que somos todos culpados pelo que somos, e somente nós.

Porque quando você encara a vida de forma independente, você sente que nada faz sentido, que o certo e o errado são abstrações humanas de compreensão improvável. Nota, portanto, que sua vontade de fazer se perde no desejo de todos em deixar como está, pois o ser humano não é piedoso. E aí vem a depressão, o tédio, a raiva, a letargia, e você acredita ser um maluco doente que só resmunga, enquanto a vida corre a rédeas soltas lá fora, como sempre desejou que fosse realmente, mas que apenas aparenta ser, enquanto todos crêem ser livres.

* Escrito em 2005.

Em branco

14/12/2009 por rodrigoherrerolopes

Olá. Há muito não apareço por aqui. Mas hoje venho com algo diferente: o primeiro conto que escrevo esse ano, em meio a um mestrado que me conseome avassaladoramente. Espero que gostem. Até mais.

Em branco

Hugo Luiz enxerga a sua direita uma pilha de livros caindo da cadeira da cozinha que serve de apoio em seu quarto. Sem esboçar a menor reação, continua observando um a um os livros irem de encontro ao piso gelado: uma rajada de vento vinda da janela foi a responsável pela quebra da harmonia no quarto de Hugo Luiz.

Concentrado, olhos fixos para a tela do computador, aturdido, não foi capaz de fazer qualquer movimento. Sua preocupação é outra: a falta de inspiração que lhe aflige há dias, impingindo uma angústia enorme em si ao permanecer com olhar petrificado para a página em branco do editor de textos.

Mesmo assim, fugiu de sua tormenta mental e recolheu todos os livros de volta à cadeira. Mas se deteve em um em específico: um livro sobre política que falava sobre esperança, determinação, ação. Folheou um pouco, lembrou-se da parte da sua vida que estava atrelada àquelas páginas e se estremeceu com o que lhe vinha à memória. As crenças mais simples quando se é jovem e a vontade na ponta dos cascos não passava do que hoje é um conceito genérico de um teórico francês.

Hugo Luiz, num balançar rápido de cabeça para afastar tais pensamentos, voltou-se para sua tela em branco: já estava há quatro dias sem sair daquele quarto, sem idéias, sem perspectivas, sem o que preencher aquele espaço em branco. Desligara-se do mundo e, com ele o Msn permaneceu fechado, assim como o Google Talk e o Skype. O Orkut abria apenas para ver suas próprias fotos antigas de vez enquando, como que em um arroubo patético de querer voltar àqueles momentos e congelá-los para sempre, sem viver a dor cotidiana da rotina e da negação a amedrontar sua alma.

Apenas o Twitter continuava aberto, para prosseguir com o ritual insólito desta humanidade em saber o que se passa com a vida dos outros, o que as pessoas fazem, com quem saem, o que lêem, o que escrevem, como se já não bastasse cada um preocupar-se com a própria vida. Mas se ocupar do microcosmo do cotidiano de celebridades e pessoas comuns serve como uma ótima droga para narcotizar-nos enquanto esquecemo-nos das mazelas desta sociedade mal construída. De repente, um recado em “caixa alta”: “vou comprar o celular tal, tô super feliz”. Outro perfil transcreve o pronunciamento do presidente e “ainda bem que não há mais perfis on line, assim não me ocupo com essas baboseiras a cada aviso do programa”, alivia-se Hugo Luiz, pois até em seus momentos toda essa encheção chateia, entedia os viciados por desinformação.

Sentia-se deslocado, descolado de tudo aquilo. Esse sentimento de não-pertencimento fazia mal dentro de si. Não conseguia sentir-se parte nem de sua própria vida ou de seu corpo. Sentia-se despedaçado por dentro, como se tivesse tentado lutar tanto para sair dali e alcançar outro espaço que o preenchesse.

Após passear seus olhos cansados pelos perfis dos outros, Hugo Luiz volta para sua tela em branco para tentar dar seqüência à sua missão, apesar de não saber mais de onde buscar para preencher uma linha que seja daquilo. Ao mesmo tempo, uma ansiedade consome seu coração e mente, na espera de um e-mail que pode facilitar ou complicar sua vida. Enquanto não chega, a ansiedade transforma-se em uma angústia virulenta que quase o leva a uma depressão desesperada.

E entre e-mail e o editor de textos, entre uma agonia e outra, o tocador de música repete insistentemente a mesma voz, as mesmas notas, a mesma canção de 15 minutos durante toda a noite. O violão é repetitivo, a voz é aguda, a qualidade é baixa também por ser uma gravação ao vivo do que parece um bar. Há muita gritaria e conversação. Mesmo assim, a canção permanece vitoriosa no tocador, falando de uma garota má e de conversas de bar, da cidade, das ruas, de qualquer coisa que ele não entende.

De repente, o Twitter começa a infernizar com tantos avisos de mensagens novas. E, como forma de fuga, Hugo Luiz volta-se a todo o momento para a página do programa para saber quem escreveu o quê e porquê, como que em uma necessidade obsessiva de se desviar do que precisa fazer, mascarada por uma pseudo-preocupação em obter novas informações, alguma novidade, ou notícia importante sobre qualquer coisa.

O desespero é tanto que ele fecha o programa para tentar se concentrar no seu dilema. Muda a canção no tocador e finalmente obtém uma centelha de inspiração, alguma idéia passa por sua mente e ele a segura com todas as suas forças, fazendo daquilo seu momento máximo em dias. É uma música que fala de amor, mas não é isso que chama atenção. O que lhe importa é o retorno da sensibilidade e gana necessárias, por um instante, para voltar a escrever. E começa.

14 de dezembro de 2009.

O DEBATE DA POLÍTICA EXTERNA: OS CONSERVADORES

03/12/2009 por rodrigoherrerolopes

Muito bom esse texto do grande teórico José Luís Fiori, professor de Economia Política Internacional no Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O DEBATE DA POLÍTICA EXTERNA: OS CONSERVADORES

JOSÉ LUÍS FIORI

“É desconfortável recebermos no Brasil o chefe de um regime ditatorial e repressivo. Afinal, temos um passado recente de luta contra a ditadura, e firmamos na Constituição de 1988 os ideais de democracia e direitos humanos. Uma coisa são relações diplomáticas com ditaduras, outra é hospedar em casa os seus chefes”.

José Serra, “Visita indesejável”, FSP, 23/11/2009

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Já faz tempo que a política internacional deixou de ser um campo exclusivo dos especialistas e dos diplomatas. Mas só recentemente, a política externa passou a ocupar um lugar central na vida publica e no debate intelectual brasileiro. E tudo indica que ela deverá se transformar num dos pontos fundamentais de clivagem, na disputa presidencial de 2010. É uma conseqüência natural da mudança da posição do Brasil, dentro do sistema internacional, que cria novas oportunidades e desafios cada vez maiores, exigindo uma grande capacidade de inovação política e diplomática dos seus governantes. Neste novo contexto, o que chama a atenção do observador, é a pobreza das idéias e a mediocridade dos argumentos conservadores, quando discutem o presente e o futuro da inserção internacional do Brasil.

A cada dia aumenta o numero de diplomatas aposentados, iniciantes políticos e analistas que batem cabeça nos jornais e rádios, sem conseguir acertar o passo, nem definir uma posição comum sobre qualquer dos temas que compõem a atual agenda externa do país. Pode ser o caso do golpe militar em Honduras, ou da entrada da Venezuela no Mercosul; da posição do Brasil na reunião de Copehague ou na Rodada de Doha; da recente visita do presidente do Irã, ou do acordo militar com a França; das relações com os Estados Unidos ou da criação e do futuro da UNASUL. Em quase todos os casos, a posição dos analistas conservadores é passadista, formalista, e sem consistência interna. Além disto, seus posicionamentos são pontuais e desconexas, e em geral defendem princípios éticos de forma desigual e pouco equânime. Por exemplo, criticam o programa nuclear do Irã, e o seu desrespeito às decisões da comissão de energia atômica da ONU, mas não se posicionam frente ao mesmo comportamento de Israel e do Paquistão, que além do mais, são Estados que já possuem arsenais atômicos, que não assinaram o Tratado de Não Proliferação de Armas Atômicas, e que tem governos sob forte influencia de grupos religiosos igualmente fanáticos e expansivos.

Ainda na mesma linha, criticam o autoritarismo e o continuísmo “golpista” da Venezuela, Equador e Bolívia, mas não dizem o mesmo da Colômbia, ou de Honduras; criticam o desrespeito aos direitos humanos na China ou no Irã, e não costumam falar da Palestina, do Egito ou da Arábia Saudita, e assim por diante. Mas o que é mais grave, quando se trata de políticos e diplomatas, é o casuísmo das suas análises e dos seus julgamentos, e a ausência de uma visão estratégica e de longo prazo, para a política externa de um Estado que é hoje uma “potência emergente”.

Como explicar esta súbita indolência mental das forças conservadoras, no Brasil? Talvez, recorrendo à própria história das idéias e das posições dos governos brasileiros que mantiveram, desde a independência, uma posição político-ideológica e um alinhamento internacional muito claro e fácil de definir. Primeiro, com relação à liderança econômica e geopolítica da Inglaterra, no século XIX, e depois, no século XX – e em particular após à Segunda Guerra Mundial – com relação à tutela norte-americana, durante o período da Guerra Fria. O inimigo comum era claro, a complementaridade econômica era grande, e os Estados Unidos mantiveram com mão de ferro, a liderança ética e ideológica do “mundo livre”.

Depois do fim Guerra Fria, os governos que se seguiram adotaram as políticas neoliberais preconizadas pelos Estados Unidos e se mantiveram alinhados com a utopia “cosmopolita” do governo Clinton. A visão era idílica e parecia convincente: a globalização econômica e as forças de merca¬do produziriam a homogeneização da riqueza e do desenvolvi¬men¬to, e estas mudanças econômicas contribuíram para o desaparecimento dos “egoísmos nacionais”, e para a construção de um governo democrático e global, responsável pela paz dos mercados e dos povos. Mas como é sabido, este sonho durou pouco, e a velha utopia liberal – ressuscitada nos anos 90 – perdeu força e voltou para a gaveta, junto com a política externa subserviente dos governos brasileiros, daquela década.

Depois de 2001, entretanto, o “idealismo cosmopolita” da era Clinton foi substituído pelo “messianismo quase religioso” da era Bush, que seguiu defendendo ainda por um tempo o projeto ALCA, que vinha da Administração Clinton. Mas depois da rejeição sul-americana do projeto, e depois da falência do Consenso de Washington e do fracasso da intervenção dos Estados Unidos a favor do golpe militar na Venezuela, de 2002, a política externa americana para a América do Sul ficou à deriva, e os Estados Unidos perderam a liderança ideológica do continente, apesar de manterem sua supremacia militar e sua centralidade econômica. Neste mesmo período, as forças conservadoras foram sendo desalojadas do poder, no Brasil e em quase toda a América do Sul. Mas apesar disto, durante algum tempo, ainda seguiram repetindo a sua ladainha ideológica neoliberal.

O golpe de morte veio depois, com e eleição de Barack Obama. O novo governo democrata deixou para trás o idealismo cosmopolita e o messianismo religioso dos dois governos anteriores, e assumiu uma posição realista e pragmática, em todo mundo. Seu objetivo tem sido em todos os casos, manter a presença global dos Estados Unidos, com políticas diferentes para cada região do mundo. Para a América do Sul sobrou muito pouco, quase nada, como estratégia e como referencia doutrinária, apenas uma vaga empatia racial e um anti-populismo requentado. Como conseqüência, agora sim, nossos conservadores perderam a bússola. Ainda tentam seguir a pauta norte-americana, mas não está fácil, porque ela não é clara, não é moralista, nem é binária. Por isto, agora só lhes resta pensar com a própria cabeça para sobrevier politicamente. Mas isto não é fácil, toma tempo, e demanda um longo aprendizado.

O que é o Iluminismo? – Immanuel Kant

02/12/2009 por rodrigoherrerolopes

Mais um texto do curso Modalidades do Pensamento Político Moderno, discutido recentemente. O texto desta semana é “O que é o Iluminismo”, de Immanuel Kant. Lembrem-se: é só uma leitura livre do que apreendi do texto, não é uma resenha técnica, muito menos precisa do conteúdo.

No texto que procura responder a esta pergunta, Kant traz à baila a idéia do período Iluminista, do conhecimento, do livre pensar e criar, ou seja, o fim da chamada “era das trevas” para a vivência da “era das luzes” tanto na vida acadêmica, artística, bem como da sociedade, liberta do jugo dos padres e dos reis. Ele coloca que o Iluminismo é o caminho para o homem sair do que ele chama de “menoridade”, que ele especifica como sendo a “incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem[1]”. Ou seja, se esta é a menoridade, o Iluminismo é a capacidade do homem pensar e agir por si mesmo, de forma livre, sem os indicações ou imposições de uma outra pessoa ou instituição.

E como se está vivendo em uma época em que a liberdade de pensamento e ação estão em voga, Kant critica e ironiza o ainda servilismo com que boa parte dos homens permanecem nas suas relações, delegando a outros o que devem pensar, dizer, discutir, fazer, enfim. “É tão cômodo ser menor. Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um diretor espiritual que tem em minha vez consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar[2]”. Ele complementa, indicando ser realmente difícil passar de menoridade para a maioridade, daí o medo e a apatia para dar esse passo à frente.

Toda essa reflexão é importante, dentro do contexto da formação dos Estados, do pacto social para a criação de uma sociedade regida por leis, pois, se todos não estão mais sob os desejos e desvios de um rei, seguindo, agora, um corpo de leis e representantes que atuam para o bem da sociedade, não há mais nada para o homem comum fazer, a não ser cuidar da sua própria vida, já que há alguém para cuidar de sua segurança, criando leis que impeçam que hajam excessos na sociedade. Dentro da perspectiva de Kant, no entanto, isso acaba sendo nocivo, pois a participação dos homens nos debates e no pensamento é minada pelo comodismo de uma vida em que suas atitudes, no plano da razão, estão na mão de outro.

Voltando à análise do texto, Kant afirma que a liberdade é fazer o uso público da sua razão, mas que esta é ameaçada pelo momento contrário que desmotiva que isso ocorra. Mas, o que seria uso público da razão? Ele explica: “Por uso público da razão entendo aquele que qualquer um, enquanto erudito, dela faz perante o grande público do mundo letrado[3]”. Existe também o uso privado da razão, que Kant coloca como o uso da razão em um cargo público ou em alguma função específica.

Ocorre que, em muitos casos, os assuntos de interesses de todos acabam sendo resolvidos de forma passiva, sob a forma de uma “unanimidade artificial”, tendo a orientação do governo, causando o impedimento de raciocinar e, mais, apenas e tão somente obedecer ao que foi definido. Ele ressalta que não é possível a insubordinação ou não-cumprimento das normas ou leis estabelecidas, mas que faz sentido que se as questione, de forma erudita, por meio de escritos, dirigindo-se a um “público genuíno”, declarando sua insatisfação sobre determinado tema. Como esclarecimento, este seria um uso público da razão, enquanto que, uma palavra de um professor sobre qualquer tema seria um uso privado, por se tratar de um público restrito e direcionado.

O papel de um governante seria o de tornar o povo livre para pensar e escolher seus próprios caminhos, no que diz respeito à consciência, principalmente quando o tema é religião, já que, como diz Kant, nas ciências e nas artes, os governantes não desejam exercer tutelas sobre seus governados, sendo a tutela religiosa mais prejudicial e até desonrosa. Sendo assim, “um príncipe que não acha indigno de si dizer que tem por dever nada prescrever aos homens em matéria de religião, mas deixar-lhes aí a plena liberdade, que, por conseguinte, recusa o arrogante nome de tolerância, é efetivamente esclarecido e merece ser encomiado pelo mundo grato e pela posteridade como aquele que, pela primeira vez, libertou o gênero humano da menoridade, pelo menos por parte do governo, e deu a cada qual a liberdade de se servir da própria razão em tudo o que é assunto de consciência[4]”.

O autor afirma, ao dizer que sua época ainda não era uma “época esclarecida”, apesar de já se viver num período do Iluminismo: “Falta ainda muito para que os homens tomados no conjunto, da maneira como as coisas agora estão, se encontrem já numa situação ou nela se possam apenas vir a por de, em matéria de religião, se servirem bem e com segurança do seu próprio entendimento, sem a orientação de outrem[5]”. Isto é, o caminho para se desvincular do outro, principalmente dos clérigos, símbolos da supremacia eclesiástica na “era das trevas” ainda parecia árduo.


[1] Kant, Immanuel: A Paz Perpétua e Outros Opúsculos. Lisboa: Edições 70, 2004. Página 11.

[2] Idem, p. 11-12.

[3] Idem, p. 13.

[4] Idem, p. 17.

[5] Idem, p. 17.

Quadrinhos narra criação do universo com humor

28/11/2009 por rodrigoherrerolopes

Aproveito que hoje é sábado para indicar um blog de quadrinhos fantástico que conheci por algumas retuitadas no Twitter. Trata-se de Um Sábado Qualquer, feito pelo designer e ilustrador Carlos Ruas, que aborda a criação do mundo de uma forma bem humorada, através de tirinhas curtas e muito bem sacadas.

O blog tem cerca de 15 mil acessos diários com tiras engraçadíssimas, feitas de “uma forma fofinha”, como comenta Carlos Ruas em entrevista à CBN, que blogo abaixo. Outra coisa interessante é que as tiras seguem uma ordem cronológica da criação do universo, como se estivéssemos “lendo” a Bíblia, pelo menos na semelhança dos temas tratados no livro.

Os personagens principais são, claro, Deus, o Diabo (chamado hilariamente de Luciraldo), Adão e Eva. Mas além desses, as tirinhas também possuem outros personagens, como o naturalista inglês Charles Darwin e o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Para ir direto nas tiras desses dois pensadores, clique aqui e aqui. Vale a pena.

Para conhecer o site, acesse: http://www.umsabadoqualquer.com.

Para ouvir a entrevista com o criador do blog, Carlos Ruas, vá ao site da CBN, clicando aqui!

18 Brumário de Luis Bonaparte

27/11/2009 por rodrigoherrerolopes

Mais um texto do curso Modalidades do Pensamento Político Moderno. A discussão ddesta semana girou em torno do “18 Brumário de Luis Bonaparte”, de Karl Marx.

Esta obra de Marx trata a respeito da conjuntura social, política e econômica da França no período em que Luis Bonaparte assume o controle do Estado por meio de uma eleição (1848) até a consecução de um golpe de Estado (1851) pelo próprio mandatário. Vários temas podem ser observados nesse livro e que são importantes dentro do contexto da obra do autor, tais como: teoria das lutas de classes, a revolução proletária, a doutrina do Estado e a ditadura do proletariado. Mas o objetivo da obra é analisar os fatores históricos e sociais que propiciaram a tomada do poder por Bonaparte de forma tal que seu modelo de Estado autoritário seja base de análise de outros Estados semelhantes nos dias de hoje.

A análise parte da revolução proletária e 1848 que foi frustrada e esmagada pelo exército, através de uma aliança burguesa com a aristocracia francesa. Mas, antes desse fim trágico, abordemos as condições de sua breve vitória, o “período de fevereiro”, que vai de 24 de fevereiro (quando da queda de Luís Felipe) até 4 de maio de 1848 (quando da instalação da Assembléia Constituinte): é a época que Marx chama de “prólogo da revolução”, onde todas as decisões tem caráter provisório, ocorrida após a fuga da monarquia e a condescendência do exército que não se opôs ao levante, tornando-se lógica a criação de uma República. E já que eram os proletários que conseguiram conquistá-la (apesar de terem iniciado com apoio da burguesia, que almejava tomar o poder do monarca e derrubar a aristocracia financeira), eles deram o nome de República social: “Indicava-se, assim, o conteúdo geral da revolução moderna, conteúdo esse que estava na mais singular contradição com tudo que, com o material disponível, com o grau de educação atingido pelas massas, dadas as circunstâncias e condições existentes, podia ser imediatamente realizado na prática[1]”.

No entanto, Marx revela que todos os grupos que fizeram parte da Revolução de Fevereiro tiveram seu quinhão no governo, provocando vozes diversas e contraditórias dentro de um processo que, a bem da verdade, não se sabia onde ia dar, principalmente porque os proletários não tinham em mente o que fazer com aquilo. Enquanto isso, os velhos grupos derrotados temporariamente estavam se agrupado para uma contra-ofensiva para por no chão os trabalhadores e retomar o poder, o que de fato ocorreu e desembocou no que o autor chama de segundo período, de 4 de maio de 1848 até o fim de maio de 1849, em que a República burguesa é constituída.

A vitória da burguesia – e o conseqüente massacre aos trabalhadores insurretos – teve entre seus aliados a aristocracia financeira, a burguesia industrial, a classe média, a pequena burguesia, o exército, o lumpen-proletariado, intelectuais de prestígio, o clero e a população rural – o que acabou por se congregar num partido único, o Partido da Ordem. O que indica, sob o ponto de vista dos trabalhadores: “sempre que uma das camadas sociais superiores entra em efervescência revolucionária o proletariado alia-se a ela e, conseqüentemente, participa de todas as derrotas sofridas pelos diversos partidos[2]”. Essa derrota proletária evidencia outro item, ainda mais importante, segundo Marx, de que “República burguesa significava o despotismo ilimitado de uma classe sobre as outras”. Ou seja, o central aqui é o tema da luta de classes no cerne da análise de Marx, não apenas de uma vitória de um grupo sobre o outro, mas de uma classe sobre a outra, sendo que o resultado desta disputa é que vai condicionar o tipo de governo, Estado, Constituição a serem elaborados, privilegiando a classe vencedora.

Esse justamente vem a ser o problema a seguir, pois, a partir da vitória das velhas forças da sociedade, a preocupação agora é criar uma Constituição, por meio de uma Assembléia Constituinte, que atenda aos interesses vários do Partido da Ordem, encabeçado pela burguesia, promulgando todas as liberdades para os “amigos da ordem”, sendo vedadas as liberdades “aos outros ou permitindo o seu gozo sob condições que não passam de armadilhas policiais, isto é feito sempre, apenas no interesse da ‘segurança pública’, segurança da burguesia, como prescreve a Constituição[3]”. O problema é que de um lado há os representantes eleitos por sufrágio universal para compor uma Assembléia Nacional “que desfruta da onipotência legislativa”, sendo que do outro está o presidente, Luis Bonaparte, com “todos os atributos do poder real, com autoridade para exonerar seus ministros independente da Assembléia Nacional”, com toda a verba disponível para realizar a governança sem a participação do Legislativo, evidenciando um problema sério na divisão de poderes da Constituição francesa à época, o que vai facilitar a realização do golpe de Estado pelo próprio Luis Bonaparte, em 1851. Isso porque, “enquanto a Constituição outorga poderes efetivos ao presidente, procura garantir para a Assembléia Nacional o poder moral[4]”, o que, em termos práticos não garante nada, além de poderes máximos ao mandatário.

Essa disputa pelo poder via Constituição vai desembocar, justamente, no Golpe de Estado de Luis Bonaparte, tornando o governo despótico da burguesia num despotismo único, do velho novo imperador Bonaparte, agora III. Isso porque houve um embate entre monarquistas e os republicanos burgueses a respeitos das leis orgânicas suplementares à Constituição, casos de lei do ensino, culto religioso, sendo importante, na visão dos monarquistas, que eles próprios elaborassem essas leis, evitando que os republicanos as escrevessem. Contribuiu também para o encurtamento da Assembléia Constituinte, a discussão sobre uma lei sobre responsabilidade do presidente da República, que estava sendo escrita na Assembléia, mas, antes desta ser colocada em prática, Bonaparte fez o conhecido golpe de 2 de dezembro de 1851, impedindo que ele fosse submetido também a regras constitucionais.

A tomada do poder definitivo por Luis Bonaparte encurrala os burgueses republicanos, que não tem mais saída, por viver sob o jugo de um déspota que, mesmo garantindo a aparência da Assembléia Nacional e a Constituição, impõe a força para fazer valer suas predileções e objetivos, como no caso da reeleição de seu mandato, impossível pela Constituição, mas que, com a votação na Assembléia se tornaria factível, mas sendo necessário o apoio dos burgueses para a confirmação desta mudança constitucional. Só que, caso se opusessem, impulsionariam Bonaparte a um novo golpe para permanecer no poder; caso legitimasse a eleição, se colocariam em má posição, acabando, pois, reféns do próprio golpe imposto aos proletários, anos antes, como bem destaca Marx: “No Parlamento a nação tornou lei a sua vontade geral, isto é, tornou sua vontade geral a lei da classe dominante. Renuncia, agora, ante o poder executivo, a toda vontade própria e submete-se aos ditames superiores de uma vontade estranha, curva-se diante da autoridade. (…) A França, portanto, parece ter escapado ao despotismo de uma classe apenas para cair sob o despotismo de um indivíduo e, o que é ainda pior, sob a autoridade de um indivíduo sem autoridade[5]”. Ou seja, o uso da classe trabalhadora pela burguesia proporcionou que alçasse espaço em um governo que não desejava o proletariado e que acabou por suplantá-lo através de um golpe, colocando-a, por sua vez, no cabresto de um governo despótico, revivendo os tempos da Monarquia, ou seja, um grande passo atrás, não só para os proletários, que se viram sozinhos após o massacre em 1848, mas principalmente para a burguesia, que apostou em uma aliança com os monarquistas e a aristocracia financeira, membros de um regime anterior que almejava revivê-lo e viram em Bonaparte o personagem para a concretização desse objetivo, derrubando os burgueses em um momento oportuno.


[1] Marx, Karl. O 18 Brumário de Luis Bonaparte. São Paulo: Escriba, 1968. Página 23.

 

[2] Idem, p. 25.

[3] Idem, p. 31.

[4] Idem, p. 33.

[5] Idem, p. 129.

11ª Festa do livro da USP vai até sexta 27/11

25/11/2009 por rodrigoherrerolopes

Vai de hoje até sexta-feira (27) a 11ª Festa do livro da USP, com mais de 100 editoras e cerca de 15 mil títulos a preços bem mais em conta que nas livrarias. As editoras prometem desconto mínimo de 50% para as mais diversas obras, estando contempladas não apenas antigas, mas também lançamentos. O acesso é gratuito.

O horário é das 9h às 21h no saguão do prédio da Geografia e História da USP (Av. Professor Lineu Prestes, 338 – Cidade Universitária – São Paulo – SP).

Banner do evento (Ilustração: Edusp)

 

Com informações do spmetropole.

Democracia na América

24/11/2009 por rodrigoherrerolopes

Retomo a publicação de textos do curso Modalidades do Pensamento Político Moderno. Esta, uma resenha muito singela e pobre de alguns pontos específicos da obra “Democracia na América”, de Alexis de Tocqueville, discutidos na semana passada.

A obra de Tocqueville analisa as origens da Revolução Americana e seus efeitos, para entender como se deu a constituição da democracia como tal naquele país, como uma proposição de estabelecer um comparativo com o que estava em andamento no continente europeu, mais especificamente na França, sua terra natal. Ele enxerga proximidades entre França e EUA, mas vê peculiaridades que caracterizam a sociedade democrática americana em desenvolvimento que não poderiam ser igualadas na Europa, pois ambos são muitos diferentes um do outro.

De início é possível perceber o deslumbramento de Tocqueville com a sociedade americana com “igualdade de condições”, partindo de que todos os membros da sociedade são socialmente iguais, sendo este seu foco, já que economicamente ele crê ser impossível a igualdade. Isto é, a característica desta sociedade democrática não é exatamente a igualdade pura e simples, mas a possibilidade de ascensão de classe, tanto de baixo para cima quanto o inverso. É uma igualdade de condições que cada cidadão possui para desenvolver-se, e que não é inferior na sociedade civil em relação ao Estado, influenciando os costumes políticos e das leis, abarcando todos e de todas as formas: “cria opiniões, faz nascer sentimentos, sugere usos e modifica tudo o que não é produtivo[1]”.

Um aspecto importante é a divisão que ele faz entre a revolução pacífica e a revolução violenta, sendo a primeira de caráter irresistível, avançada apesar dos esforços opostos, sendo, pois, não-humana, ou seja, ela acontece independentemente do que se faça. Em oposição a esta forma há a revolução violenta, que rompe com o passado e modifica o curso dos acontecimentos, sendo, pois, provocada pelo homem. Tocqueville afirma que a democracia é uma revolução social e não meramente uma forma de governo, se caracterizando por um processo histórico de igualização que está mais próximo da revolução pacífica e que acabou por vigorar nos EUA.

Outra questão importante é a ausência da aristocracia nos EUA, por se tratar de um Estado jovem na época, já que seu governo anterior era a representação monárquica da Grã-Bretanha, fazendo com que não houvesse esse agrupamento social, e, conseqüentemente, estando democracia nos EUA em estado puro. Em comparação com a França,e sta constituiu seu regime democrático após uma revolução violenta que buscou destruir justamente as instituições aristocráticas, basilares do período monárquico, que mantinham uma sociedade de desiguais, fundamentada em hierarquias fixas e num sistema fundiário que concentrava as terras entre os nobres (aristocracia) e, principalmente, à coroa. Mesmo com a derrubada dos aristocratas, alguns vícios permanecem, como Montesquieu cita a respeito da derrubada do Antigo Regime francês, em relação ao instauro de uma revolução burguesa e uma recaída ao sistema anterior por repetição de práticas e ausência dos expurgos necessários. Isso, de acordo com o raciocínio tocquevilliano, impossibilitaria uma democracia pura, que privilegiasse os princípios de igualdade de condições.

A liberdade no texto de Tocqueville é tratada no campo da liberdade política, ou seja, numa participação direta e sistemática da população, não meramente representativa. É o que em inglês e chama de self-government, ou, autogoverno, em que a sociedade age para se regular e estabelecer obrigatoriedades, padrões em relação a si mesma. Isto fica claro no fato de que o legislador que faz a regra também está vinculado a ela, isto é, a pessoa que participa das decisões e rumos do país também está sujeita às regras e leis criadas por ela mesma, ao contrário de um monarca que faz as leis para seus súditos cumprirem, estando este acima da lei, de tudo e de todos.

A questão da soberania é tema relevante na obra de Tocqueville, em que ele coloca que a soberania precisa ser limitada, para não pôr em risco a democracia, transformando o governo em uma tirania, com um poder ilimitado que acabaria por impedir a liberdade política citada acima. Aconteceria o que se chama de despotismo, cuja característica principal é a de indivíduos dispersos, já que eles consentiram a uma autoridade central a concentração de todos os poderes, tirando dos homens a atuação política, pois eles se sentem representados pelo déspota.

Tocqueville denomina essa forma de governo de despotismo democrático, justamente por conta desta especificidade que é esse consentimento dado pelos indivíduos, não sendo, por isso, opressivo, sem deixar de ser tirânico. O grupo ou o déspota, então, que recebeu esse poder, toma a voz da totalidade dos indivíduos, privando-os de participação política ativa, levando-os à condição de irreversível infância, de animais passivos, sem capacidade de desenvolvimento, acéfalos politicamente e socialmente.


[1] Tocqueville, Alexis de. La Democracia em América. México D. F.: Fondo de Cultura Económica, 1957. Página 01.