2.4 Venezuela e o Mercosul

A Venezuela saiu em abril de 2006 da Comunidade Andina de Nações e assinou sua entrada no Mercosul como membro pleno em 4 de julho daquele ano, fazendo com que o bloco passasse a ter mais de 250 milhões de habitantes, uma área de 12,7 milhões de km², um PIB superior a US$ 1 trilhão e um comércio global superior a US$ 300 bilhões (BACOCCINA, 2006, p, 03). A entrada da Venezuela no bloco só foi possível graças ao artigo 20 do Tratado de Assunção, que abre espaço para entrada de membros da ALADI, confirmado pelo artigo 50 do Protocolo de Ouro Preto.

O Protocolo de Adesão, assinado em Caracas, estabelece como prazo quatro anos para a Venezuela se adaptar às principais regras aduaneiras do bloco, como a adoção da Tarifa Externa Comum e todo o acervo normativo. Além disso, a partir de 2010, Brasil e a Argentina não mais cobrarão tarifas de importação dos produtos venezuelanos, exceto uma lista de mercadorias sensíveis. Em 2012, é a vez das exportações brasileiras e argentinas, também exceto produtos sensíveis, entrarem com tarifa zero na Venezuela. Já Paraguai e Uruguai foram beneficiados com tarifa zero desde a assinatura do protocolo.

No entanto, para que o protocolo seja colocado em prática, é preciso que os parlamentos dos países membros ratifiquem-no, o que continua pendente nos Poderes Legislativos de Brasil e Paraguai. Aprovado pela Câmara dos Deputados e pela Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal, a entrada da Venezuela vai agora para votação no plenário, para só então o país ratificar sua entrada, faltando apenas o Paraguai, cuja oposição ao presidente Fernando Lugo é maioria no Congresso, e já avisou que votará contra. Mas, após a aprovação do Brasil, a pressão poderá ser maior para que o pequeno país também ratifique sua assinatura.

Apesar desse entrave, a Venezuela já faz parte do Mercosul como membro pleno desde a assinatura do protocolo, como esclarece o artigo oitavo, estabelecendo uma categoria não prevista no Tratado de Assunção, que indica primeiro a adequação do país às normas do Mercosul para depois fazer parte do mesmo. Neste caso, o novo membro já integra a delegação nas negociações com os países fora do bloco: “As Partes acordam que, a partir da subscrição do presente Protocolo, e até a data de sua entrada em vigor, a República Bolivariana da Venezuela integrará a Delegação do MERCOSUL nas negociações com terceiros” (MERCOSUL, 2006, p. 03). Uma explicação possível para isto pode estar no próprio texto do protocolo, que afirma “a importância da adesão da República Bolivariana da Venezuela ao Mercosul para a consolidação do processo de integração da América do Sul no contexto da integração latino-americana” (MERCOSUL, 2006, p. 01).

Tanto sob o ponto de vista brasileiro quanto do bloco, a participação da Venezuela no Mercosul amplia o alcance dos produtos dos Estados-membros a um novo país, ávido por produtos, já que produz muito pouca coisa, tendo sua economia baseada no petróleo. Tanto que as exportações brasileiras entre 2004 e 2005 já tinham crescido 51,3%, enquanto que no caso argentino a elevação foi de 17,9% (MARREIRO, 2006, p, 01). Sem falar na possibilidade de uma integração energética, a partir do abundante petróleo venezuelano e também pelo país ser dono de parte importante da Amazônia, o que apontaria para outras fontes de energia, a partir da água de seus caudalosos rios.

Há também uma perspectiva estratégica que deve ser observada nesse ingresso, que é a ampliação a participação do Mercosul na região como um bloco que vai agora da Patagônia até o Caribe, tornando mais forte no sentido de obter mais demandas nas negociações comerciais. O discurso de Lula na cerimônia de assinatura do protocolo vai pelo mesmo caminho:

A adesão da Venezuela ao Tratado de Assunção é mais do que um voto de confiança na força de nosso projeto comum. A expansão de nosso bloco até o Caribe reforçará a percepção de que o Mercosul é uma realidade continental, ajudará a visualizar o Mercosul como a espinha dorsal da integração da América do Sul” (SILVA, Luiz, 2006, p. 01).

Sob o ponto de vista venezuelano, a entrada do país no Mercosul pode ser analisada sob dois aspectos. O primeiro deles é a possibilidade de abrir um mercado importante para a aquisição de produtos dos atores do bloco, com tarifas reduzidas, suprindo parte significativa de suas necessidades, pois seu parque industrial está direcionado, majoritariamente, ao petróleo e seus correlatos. Mas o mesmo vale no sentido inverso: são novos países compradores de seu petróleo, numa tentativa de diminuir a dependência em relação aos Estados Unidos. Isto pode nos fazer acreditar que os esporádicos ataques de Chávez ao Mercosul se dariam muito mais quanto ao projeto político do bloco, desejando reformá-lo, enquanto deseja aproveitar as benesses econômicas do processo de integração.

O segundo aspecto é estratégico: a Venezuela no Mercosul aproxima Caracas a Brasília e Buenos Aires, os dois pilares do Mercosul, sendo, por isso, prioritária essa ligação com o bloco. E principalmente no que se refere ao Brasil, ator pujante no contexto internacional atual. Chávez busca, ao se relacionar com Lula, legitimidade nas ações venezuelana dentro de um contexto maior de integração latino-americana, totalmente condizente, neste sentido, com a política externa brasileira de integrar o subcontinente.

Isso porque, apesar de Chávez ganhar ascendência na América Latina depois da acomodação de Lula com os EUA e o sistema financeiro internacional, a Venezuela depende do Brasil para por em marcha qualquer projeto de integração que reúna todo o subcontinente (CARMO, 2007). Mesmo com sua retórica por vezes áspera, Chávez faz sempre concessões para que o Brasil esteja junto das negociações relacionadas à integração que a Venezuela faça parte, exceção feita à Alba. Do outro lado, Lula, por sua base social e sua origem, não vai contra as iniciativas chavistas, mas acaba por impor um ritmo mais lento, o discurso não é agressivo, tomando uma postura pragmática, incorrendo assim porque, pelo lado brasileiro, não há relação de atrito ou de ameaça com os EUA.

Amanhã: 3. Alba x Mercosul

Artigo em partes

1.Introdução

2. Breve e sintético histórico da integração latino-americana

2.1 Brasil x Argentina: do conflito à cooperação

2.2 O modelo liberal do Mercosul

2.3 Mercosul volta à cena

2. 3 Mercosul volta à cena

No decorrer da primeira década do novo milênio, governantes de raízes sociais mais populares, com preocupações sociais, ganharam democraticamente as eleições em vários países da América Latina[1], mudando um pouco o cenário da região, que, aos poucos, começou a retomar o crescimento, tendo como suporte um cenário internacional que passou a ser favorável após os primeiros anos de crise intensa. Com isso, a atuação política desses novos governos passou a ser mais crítica do modelo liberal de pouca intervenção estatal, fazendo justamente o contrário, aumentando a participação do Estado na economia e injetando boa parte da arrecadação, vinda principalmente dos abundantes recursos naturais, em projetos sociais de redistribuição de renda e reinserção na sociedade de milhares de pessoas que, com as crises econômicas dos anos 90 e a falibilidade do modelo neoliberal, adentraram na linha da pobreza.

Isso fez com que os processos de integração voltassem à pauta regional, como uma forma de aglutinar esforços para que os países se fortalecessem economicamente, diminuindo sua dependência externa, por meio de um aumento da intensidade comercial entre os vizinhos. É dentro desse contexto de boas intenções entre os governos com maior ênfase no social que o Mercosul retoma sua importância estratégica. Mas isso vai ocorrer principalmente com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições brasileiras de 2003, trazendo definitivamente o Mercosul para o centro do debate, pois a política externa do novo governo elegeu o bloco como uma de suas prioridades, dentro dessa política de promoção do desenvolvimento social, como afirmou o então presidente recém-eleito em discurso em 10 de dezembro de 2002, durante visita à Washington, pouco antes de assumir: “O Mercosul é um projeto nacional e como tal, uma das principais prioridades da política comercial externa brasileira. O meu governo está determinado a preservá-lo e fortalecê-lo” (SILVA, Luiz, 2003, p. 15).

Essa posição fica visível, por exemplo, com a proposta de um acordo de livre comércio com a Comunidade dos Países Andinos (CAN), que reúne Bolívia, Equador, Colômbia e Peru, a inclusão no Mercosul de membros associados com a Bolívia, o Chile, o Peru, a Colômbia e o Equador, além da Venezuela que está em processo de adesão para entrar no bloco, além de iniciativas como a Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA), refundada em 2008 sob a o nome de União das Nações Sul-Americanas (UNASUL). A estratégia brasileira para o Mercosul, bem como o que se almejará com o bloco estão explícitas no discurso de transmissão do cargo de Ministro de Estado das Relações Exteriores, em Brasília, em 1º de janeiro de 2003, do novo embaixador Celso Amorim:

No Governo Lula, a América do Sul será nossa prioridade. O relacionamento com a Argentina é o pilar da construção do MERCOSUL, cuja vitalidade e dinamismo cuidaremos de resgatar. Reforçaremos as dimensões política e social do MERCOSUL, sem perder de vista a necessidade de enfrentar as dificuldades da agenda econômico-comercial, de acordo com um cronograma preciso” (AMORIM, 2003, p. 54-55).

Portanto, quando um ator como o Brasil dá sinais de que o Mercosul e, por conseqüência, a América do Sul estão no centro de sua atuação política internacional, essa visão ajuda a provocar uma transformação no próprio olhar da região, proporcionando um clima mais cooperativo, vital para que a integração regional avance. Interessante notar, porém, o recado do chanceler brasileiro de que a América do Sul é a prioridade, não citando claramente a América Latina dentro desse processo. Em outras passagens de membros do governo Lula a região ampliada até surge, mas de forma pontual, no máximo, como um processo posterior, não estando nas principais frentes da política externa do atual governo. Esse abandono, intencional ou não, aos países para além da Colômbia pode ser visível numa interpretação da ausência dos países da América Central e do Caribe na formação da antiga CASA e na constituição da UNASUL, que reforça uma união sul-americana. Talvez as experiências frustradas de Alalc e Aladi colocaram um temor e um freio em pretensões mais ambiciosas, ou mesmo uma percepção da região ser uma zona de influência estadunidense sem retorno, não sendo prudente uma proposta integracionista.

É dentro desse contexto, de boas intenções no campo político, de cenário internacional positivo, mas de poucos avanços práticos no campo econômico do bloco, que um novo ator, polêmico e até mesmo crítico das bases fundamentais do Mercosul, vai procurar se tornar membro pleno do bloco.


[1] Apesar de chamados pela mídia de “esquerdistas”, nem sempre isso corresponde ao real sentido da palavra, que muito pouco significado prático tem nos dias de hoje. De qualquer forma, é dever perceber nos últimos anos a ascensão de presidentes com base social mais popular, possuindo, conseqüentemente, mais preocupações sociais. São eles: Hugo Chávez (Venezuela, 1999), Luis Inácio Lula da Silva (Brasil, 2003), Tabaré Vázquez (Uruguai, 2005), Evo Morales (Bolívia, 2006), Daniel Ortega (Nicarágua, 2006) Cristina Kirchner (Argentina, 2007), Rafael Correa (Equador, 2007), Fernando Lugo (Paraguai, 2008) e Mauricio Funes (El Salvador, 2009).

Amanhã: 2.4 A Venezuela e o Mercosul

Artigo em partes

1.Introdução

2. Breve e sintético histórico da integração latino-americana

2.1 Brasil x Argentina: do conflito à cooperação

2.2 O modelo liberal do Mercosul

Ps: Desculpem pela falta de post ontem, não cumpri o prometido de inserir a foto da semana. Prometo fazê-lo no próximo fim de semana. Até.

2.2 O modelo liberal do Mercosul

Todos esses esforços pela integração confluíram no Mercosul,  criado por Brasil e Argentina, com a participação de Uruguai e Paraguai, cujo objetivo era o de fortalecer as relações entre esses Estados. A criação deste bloco não representa uma ruptura histórica de algum processo anterior, mas, como vimos acima, trata-se da continuação de um processo que já vem sendo estruturado há anos, desde pelo menos a criação da Alalc e da Aladi, com o esforço dos países em incrementar o comércio de bens entre si, desenvolver suas indústrias e crescer suas economias.

Por conta disto, o foco, ao menos inicial, do bloco não poderia ser outro que o comércio. A idéia era fazer com que os mercados dos quatro países se tornassem competitivos para concorrer no âmbito internacional e aumentar os superávits na balança comercial, incrementando a verba para investimento em melhorias dos setores produtivos, para gerar mais exportações e, nesse ciclo, mais riqueza para ser investida. Para isso, o objetivo primeiro foi a formação de uma zona de livre comércio, em que todas as barreiras tarifárias e não-tarifárias fossem reduzidas progressivamente entre os membros. Na seqüência, a criação de uma união aduaneira, representada pela adoção de uma tarifa externa comum (TEC) para os produtos a serem exportados e importados entre esses países, mas também em relação a terceiros países fora do “bloco”. Apesar do nome Mercado Comum do Sul, o acordo não prevê realmente essa etapa da integração.

Como se vê, o Mercosul foi criado a partir de uma concepção econômica liberal, em que o mundo vive um processo de globalização, tendo o mercado como o motor do crescimento econômico, não dependendo mais apenas da atuação do Estado. “O Mercosul é, na verdade, uma plataforma de inserção competitiva numa economia mundial que simultaneamente se globaliza e se regionaliza em blocos. (…) Busca a liberalização dos entraves aos fatores produtivos para dentro e para fora do espaço econômico comum” (LAFER, 1998, p. 7).

O cenário de pano de fundo para esta concepção é o fim da Guerra Fria e a vitória do capitalismo-liberal dos Estados Unidos sobre o socialismo-comunista da União Soviética. Vitória que, naquele período, fez com que a primeira teoria fosse adotada como verdade absoluta e colocada na prática por quase todos os países do planeta. No caso latino-americano, os Estados que contraíram empréstimos junto ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e que, portanto, deviam a eles, foram convidados a adotar as políticas principais deste modelo criadas após reuniões entre acadêmicos e economistas dos Estados Unidos, funcionários do governo, e dos dois bancos citados, cujo documento final ficou conhecido como Consenso de Washington[1], com o objetivo de homogeneizar as políticas econômicas desses Estados.

Com esse cenário internacional liberalizante, de redemocratização na América Latina e de uma necessária aproximação dos países da região para tentar sobreviver nesse novo contexto de globalização, o bloco começa oficialmente com a assinatura do Tratado de Assunção, em 26 de março de 1991, com a participação de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. No Brasil, o Tratado foi ratificado pelo Congresso através do Decreto Legislativo nº 197, de 25.09.91 e promulgado pelo Decreto nº 350, de 21.11.91. Interessante notar que o Mercosul só foi possível a partir do Acordo de Complementação Econômica 18, feito no âmbito da Aladi, como consta no artigo 10 do Anexo 1 do Tratado, e que fica explícito seu cumprimento no artigo oitavo:

Os Estados Partes se comprometem a preservar os compromissos assumidos até a data de celebração do presente Tratado, inclusive os Acordos firmados no âmbito da Associação Latino-Americana de Integração, e a coordenar suas posições nas negociações comerciais externas que empreendam durante o período de transição” (MERCOSUL, 1991, p. 03).

Entre os princípios que regem o Tratado de Assunção, que orienta a criação do Mercado Comum, que, na verdade, vai se transformar em uma união aduaneira imperfeita, entrando em vigor a partir de 31 de dezembro de 1994, resumimos:

  • Livre circulação de bens, serviços e fatores produtivos entre os países, através da eliminação dos direitos alfandegários e restrições não-tarifárias à circulação de mercadorias;
  • Estabelecimento de uma tarifa externa comum, adoção de uma política comercial comum em relação a terceiros Estados e coordenação de posições em foros econômicos/comerciais regionais e internacionais;
  • Coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais entre os Estados-Partes de comércio exterior, agrícola, industrial, fiscal, monetária, cambial e de capitais, de serviços, alfandegária, de transportes e comunicações, etc., com objetivo de garantir condições adequadas de concorrência entre os países do bloco;
  • E o compromisso dos Estados-Partes de harmonizar suas legislações para fortalecer o processo de integração.

Já os instrumentos do Tratado que constam no artigo quinto previam chegar em 31 de dezembro de 1994 com tarifa zero e sem barreiras não-tarifárias sobre todos os produtos. Para isso, estabeleceu-se um programa de liberação comercial, com reduções tarifárias progressivas, lineares e automáticas, eliminação de restrições não tarifárias; coordenação de políticas macroeconômicas; criação de uma tarifa externa comum; além da adoção de acordos setoriais, para auxiliar na mobilização dos fatores de produção. A proposta era de reduzir 7% a cada seis meses as tarifas que incidiam sobre os produtos comercializados dentro do bloco, iniciando com uma redução de 47%, sem deixar de proteger os mercados mais sensíveis, com a adoção da lista positiva de exceções.

Vale destacar o artigo segundo, que trata da reciprocidade de direitos e obrigações entre todos os Estados-membros. Já o artigo terceiro estabelece os mecanismos que procurariam facilitar a criação do que o Tratado chama de Mercado Comum, até 1994, entre eles: um Regime Geral de Origem, Cláusulas de Salvaguarda e uma proposição ainda incipiente inicial de um Sistema de Solução de Controvérsias e, por meio dos anexos II, IV e III, respectivamente. Convêm também mencionar que o Tratado reconhece tratamento diferencial e especial ao Paraguai e Uruguai no Programa de Liberação Comercial.

A estrutura institucional constante no Tratado de Assunção é bastante simples e pode ser resumida por duas instituições provisórias: o Conselho do Mercado Comum e o Grupo Mercado Comum. O primeiro é o órgão maior do Mercosul, integrado pelos ministros das Relações Exteriores e da Economia de cada país, sendo responsável pela condução política e por tomar decisões para que os objetivos e prazos fossem cumpridos para a organização do Mercado Comum. Já o segundo é o órgão executivo de caráter propositivo e é constituído pelos Ministérios das Relações Exteriores. Além destes há a Comissão Parlamentar Conjunta e o professor Luiz Olavo Baptista explica como se dá a relação entre eles:

São dois órgãos de representação oficial dos órgãos dos Estados partes, cabendo ao superior, o Conselho do Mercado Comum, a tomada de decisões e, ao inferior, o Grupo Mercado Comum, a iniciativa e proposição de medidas concretas. (…) o processo legislativo se encontra definitivamente concentrado no jogo de atribuições entre o Conselho e o Grupo, cabendo à Comissão Parlamentar Conjunta do Mercosul, instituída no art. 24 do Tratado de Assunção, o objetivo de facilitar a implementação do Mercado Comum” (BAPTISTA, 1998, p. 265-266).

Cabe esclarecer que esse papel da Comissão Parlamentar Conjunta evoluiu dentro do bloco, pois foi constituído no dia 6 de dezembro de 2006 o Parlamento do Mercosul, substituindo a antiga comissão, sendo, pois, o órgão que representa os interesses dos cidadãos dos Estados-membros. Do Protocolo Constitutivo do Parlamento, assinado em 9 de dezembro de 2005, é importante sublinhar o trecho que aborda a realização de eleições, em que os parlamentares serão escolhidos por sufrágio universal seguindo a regra de cada país, como esclarece o item 2 do artigo 6º:

O mecanismo de eleição dos Parlamentares e seus suplentes reger-se-á pelo previsto na legislação de cada Estado Parte, e que procurará assegurar uma adequada representação por gênero, etnias e regiões conforme as realidades de cada Estado” (MERCOSUL, 2005, p. 06).

Como se vê, o fundamental do Tratado de Assunção está voltado somente para questões econômicas, mais especificamente às questões de liberalização comercial, já que a “ênfase do processo de integração regional está sobre os assuntos econômicos definitivamente em uma ótica ‘neoliberal’” (OLIVEIRA, 2003, p. 71), o que provocou, analisando sob este ângulo, um importante impacto entre os países do Mercosul. Segundo dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), as exportações do bloco por região cresceram de 8,86% em 1990 para 24,98% em 1998, ano que evidencia o princípio de sua queda.

Esse aumento dos fluxos comerciais, aliado às estratégias internas de cada país e externas em relação ao bloco, propiciaram uma continuação do aprofundamento da integração regional como meta principal da política externa dos países envolvidos no Mercosul: “Isso correu porque os benefícios do processo, num momento inicial, distribuíram-se pelas sociedades dos países-membros, limitando assim as possíveis resistências dos poucos atores econômicos e sociais afetados negativamente” (OLIVEIRA, 2003, p. 73).

Outro item que propiciou a intensificação da integração em seu princípio foram as concessões feitas pelo Brasil para a Argentina nos primeiros anos do bloco. Apesar do incremento no comércio, a Argentina demonstrava insatisfação devido aos déficits comerciais bilaterais com o Brasil. Isso fez com que a Argentina elevasse, ao final de 1992, com o consentimento brasileiro, a taxa de estatística incidente sobre as importações de três para dez por cento. O Brasil passou a importar petróleo e trigo do vizinho, melhorando a balança comercial daquele. Tudo isso evidencia um esforço para que ocorresse um êxito do Mercosul, principalmente nos primeiros anos do bloco[2], época que também houve um conjunto de fatores que favoreceram a integração regional, destacados a seguir, a partir da:

“(…) existência de interesses mútuos que puderam ser compatibilizados para a criação do bloco; o cumprimento da agenda de integração; a intensificação da interdependência entre os Estados membros em razão do aumento dos fluxos comerciais intra-bloco e da importância do aumento desses fluxos na economia dos Estados”. (SILVA, Laura, 2006, p. 77).

A segunda fase é marcada pelo Protocolo de Ouro Preto, de 17 de dezembro de 1994, em que entra em vigor a União Aduaneira, ainda que de forma incompleta. O Protocolo traz muitas definições quanto à institucionalidade do Mercosul, estabelecendo  seus órgãos decisórios, instituindo um órgão de solução de controvérsias e , por fim, o mais importante: somente a partir daqui o Mercosul adquire personalidade jurídica, como indica artigo 34 do capítulo 2 do protocolo, tornando-se um organismo internacional, entendido como outras pessoas jurídicas de direito internacional público, “estipulando, por seu turno, o artigo 35, ‘o Mercosul poderá, no uso de suas atribuições, praticar todos os atos necessários à realização de seus objetivos’ (…), enquanto que o artigo 36 prevê ‘o Mercosul celebrará acordos de sede’” (CASELLA, 1996, p. 269).

Neste protocolo, tanto o Conselho do Mercado Comum quanto ao Grupo Mercado Comum deixam de ser estruturas provisórias, tornando-se permanentes, de caráter intergovernamental (o que desagradou Uruguai e Paraguai, que preferiam uma instituição supranacional para relativizar o poder e o tamanho de Brasil e Argentina), tendo, a partir daquele momento, capacidade decisória, definindo atribuições específicas para ambos, inclusive, no sistema de solução de controvérsias: “Hoje, o CMC é o órgão de direção supremo de uma organização internacional, mantendo, embora, seu caráter e conferência ministerial, como se vê do art. 3 do Protocolo de Ouro Preto” (BATISTAb, 1998, p. 124).

Outras instituições foram inseridas na organização internacional. Iniciada em 1994, a Comissão de Comércio foi incorporada ao Tratado, sendo responsável por gerenciar instrumentos de política comercial comum. Mas única criação para o protocolo foi o Fórum Consultivo Econômico e Social, com o objetivo de trazer setores da sociedade civil para dentro do processo, agregando empresários, trabalhadores e demais setores da sociedade civil no debate relativo ao Mercosul. Por fim, os subgrupos permaneceram como principais órgãos de assessoria técnica do Grupo Mercado Comum.

Importante demonstrar também como passaria a funcionar o sistema de tomada de decisões, conforme o artigo 37 do capítulo 3: “As decisões dos órgãos do Mercosul serão tomadas por consenso e com a presença de todos os Estados Partes” (MERCOSUL, 1994, p. 09). Ou seja, para que alguma medida seja aprovada, todos precisam necessariamente estar presentes à reunião e concordarem com a decisão, pois, caso haja o veto por parte de algum Estado-membro, não há aprovação. Isso desgostou Brasil e Argentina, que desejavam que a tomada de decisões levasse em conta o peso relativo de cada país, obtendo maior autonomia, mas, Paraguai e Uruguai conseguiram manter a decisão por consenso, que garantem seu poder de veto a algo que os desagrade.

Quanto à solução de controvérsias, o que regia o Mercosul era o Protocolo de Brasília, de 17 de dezembro de 1991, que disponibilizou o uso de meios jurídicos para a solução de eventuais conflitos comerciais, prevendo até mesmo o recurso à arbitragem, com o escopo de garantir a estabilidade no comércio regional. E o Protocolo de Ouro Preto manteve o que foi definido pelo documento anterior, incorporando os artigos 19 e 25 do Protocolo de Brasília às diretrizes da Comissão de Comércio do bloco. No entanto, Casella (1996) critica o protocolo que instituiu o órgão por ser, ao mesmo tempo, amador nos seus mecanismos e de difícil operacionalização, sendo quase impossível cumprir o papel que se imagina de um tribunal[3].

Se o Protocolo de Ouro Preto deu ainda mais base jurídica ao Tratado de Assunção principalmente no âmbito de sua institucionalidade, do ponto de vista econômico não aconteceu um aprofundamento da integração, apesar do comércio continuar avançando no período entre 1995 e 1998. Por exemplo, não houve um acordo sobre a remoção de barreiras não-tarifárias, nem sobre a questão macroeconômica e a própria definição da Tarifa Externa Comum foi um árduo trabalho. E isso pode ter ocorrido por uma possibilidade:

Durante este período, a imagem prevalecente era a de que o Mercosul era tão bem-sucedido que poderia progredir impulsionado tão-somente pelos interesses do setor privado, enquanto a agenda política ficava relegada a segundo plano”. (BOUZA apud SILVA, Laura, 2006, p. 80).

A partir dali o Brasil passou não querer ceder às pressões argentinas em prol da continuidade da integração, mesmo ainda tendo o Mercosul como elemento importante na política externa brasileira. Para piorar, já a partir de 1999[4] o fluxo de comércio intra-regional começou a sofrer um revés e tornou-se menos dinâmico, fazendo com que a falta de acordos aumentassem as pendências e, conseqüentemente, as divergências entre Brasil e Argentina se multiplicassem. As crises econômicas[5] também trabalharam contra o bloco, sendo que esse processo se agudizou a partir de 1999, quando o Brasil desvalorizou o Real sem consulta prévia aos parceiros do bloco, proporcionando a desvalorização do câmbio, que influenciou de forma negativa nos preços dos produtos e na balança de pagamentos dos países. A atividade econômica e o comércio intra-bloco apresentaram um acentuado decréscimo a partir de então, provocando medidas protecionistas, principalmente da Argentina, com medo de diminuir suas exportações para o Brasil e, por outro lado, ter seu país inundado de produtos brasileiros – fato agravado a partir dos anos 2000, quando a Argentina entrou em profunda crise econômica. Dados da CEPAL de 2005 comprovam isto: do total de 35,64% das exportações destinadas ao Mercosul pela Argentina em 1998, esse total chegou apenas a 19,59% em 2004. Do lado brasileiro, de 17,37% em 1998, o percentual de exportações para o bloco caiu para 9,24% em 2004.

As disputas comerciais começaram a se intensificar, com cada país tentando assegurar condições mais substanciais para seus grupos econômicos e sociais atravessarem o período de crise, buscando “promover amplas medidas com a finalidade de minorar os custos de produção, que, conjugadas a uma política de incentivo das exportações, visa obter superávits comerciais que, em última instância, aliviem sua situação” (OLIVEIRA, 2003, p. 85).

As discordâncias alcançaram grau intenso a ponto de o Brasil propor um “Relançamento do Mercosul” no início deste século, a partir de uma reunião entre os ministros das relações exteriores, da fazenda e da defesa de Brasil e Argentina, em que se chegaram a uma série de itens a serem adotados conjuntamente: consultas e coordenação de posição em questões de política externa; coordenação de políticas macroeconômicas, podendo estendê-la à Paraguai, Uruguai, Bolívia e Chile; efetivar avanços na integração dos mercados de capital; aprofundar a integração energética; aperfeiçoar o mecanismo de solução de controvérsias. Isto possibilitou a assinatura do Protocolo de Olivos (assinado em 18 de fevereiro de 2002), que indica a criação de um Tribunal Permanente.

O problema é que boa parte dessas intenções ficaram no papel, a exceção do Tribunal Permanente de Revisão, que acabou sendo criado em 2006, denotando a dificuldade de se aprofundar institucionalmente o bloco. Conforme Laura Silva (2006), a razão desta fraqueza institucional está na existência de normas pouco eficazes para evitar o não cumprimento dos acordos (somente metade das decisões criadas no Mercosul foram internalizadas pelos componentes do bloco), ou ainda medidas com pouco efeito prático.

Ou seja, apesar do Mercosul ter incrementado comercialmente seus Estados-membros durante os primeiros anos, aumentando a interdependência entre eles, não foi suficiente para confirmar o comprometimento dos sócios, submetendo os interesses nacionais aos benefícios do bloco. Isso fica evidente em atitudes já mencionadas como a desvalorização da moeda brasileira, além de medidas comerciais unilaterais argentinas no período de crise.


[1] O documento que ficou mundialmente conhecido pelo seu autor, o economista John Williamson, recomendava, entre outras medidas: disciplina fiscal, taxas de juros positivas e determinadas pelo mercado, câmbio competitivo, abertura ao investimento estrangeiro, liberalização do comércio, permitindo mais facilidades à entrada de produtos estrangeiros, privatização de empresas estatais, desregulamentação do sistema financeiro.

[2] A autora chama esta primeira fase do Mercosul de período de transição e vai de 1991 a 1994.

[3] Talvez até em virtude disto, em 18 de fevereiro de 2002 foi assinado o Protocolo de Olivos, que coloca algumas mudanças em relação ao Protocolo de Brasília, possibilitando uma uniformização de interpretação normativa, pela maior estabilidade dos árbitros. Estabelece critérios para a designação dos árbitros e disciplina o cumprimento dos laudos arbitrais e o alcance das medidas compensatórias. Adotou uma instância de revisão no sistema arbitral ad hoc (o TPR), que poderá vir a ser no futuro um sistema permanente de solução de controvérsias (MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA E COMÉRCIO EXTERIOR, 2009). Em 19 de janeiro de 2007 ainda houve novas mudanças, gerando o Protocolo Modificativo de Olivos, que alterou os artigos 20, referente ao “Funcionamento do Tribunal”, 43, referente ao “Grupo de especialistas”, além de outras mudanças.

[4] Quando marca o período de crise do bloco, entre 1999-2004.

[5] Após a crise mexicana em 1994, um efeito cascata de crises econômicas atingiu outros emergentes: Ásia em 1997, Rússia em 1998.

Amanhã: foto da semana, volto na segunda com a seqüência deste artigo, com 2. 3 Mercosul volta à cena

Artigo em partes

1.Introdução

2. Breve e sintético histórico da integração latino-americana

2.1 Brasil x Argentina: do conflito à cooperação

2.1 Brasil x Argentina: do conflito à cooperação

Ao mesmo tempo em que se buscava uma integração entre os países da América Latina via experiências da CEPAL, o Brasil começava a diversificar suas relações internacionais, entrando em choque com os Estados Unidos, seu fiador desde os tempos do alinhamento automático do Barão de Rio Branco. Isso por conta da procura, pelo país, de mercados e petróleo no Hemisfério Sul, fazendo com que passasse a priorizar convergências econômicas e comerciais, deixando de lado possíveis posições políticas e ideológicas contrárias em meio a negociações no chamado Terceiro Mundo. Essa subordinação da lógica estratégica às questões nacionais colocou o país em desacerto em relação à política internacional estadunidense em áreas como a África Negra e o Oriente Médio (MELLO, 1996).

Exemplo disso é a postura do então presidente da Ditadura Militar, Ernesto Geisel, em relação a ser o primeiro governo a reconhecer a independência de Angola e o governo do Movimento Marxista Libertador na Angola (MPLA), opondo-se frontalmente com a política dos EUA. Essa maior atenção do Brasil com os países africanos, tanto no âmbito diplomático quanto no âmbito comercial, possui um dividendo geopolítico bem interessante:

A relevância da África Ocidental para a segurança da costa brasileira e das linhas de comunicação sul-atlânticas, sobejamente enfatizada nos escritos geopolíticos do general Golbery do Couto e Silva, à época ministro-chefe do Gabinete Civil do governo Geisel, não estava em absoluto alheia aos cálculos dos oficiais militares e dos diplomatas do Itamaraty” (MELLO, 1996, p. 200).

A América Latina também passou a receber atenção do Brasil nas relações internacionais, mas ainda com aquela relação de conflito com a Argentina, seu principal parceiro-contendor na região. Ocorre que, devido à hegemonia dos Estados Unidos sobre as Américas, os dois países sul-americanos não possuem condições de se inserirem de forma proeminente na região da Bacia do Prata, o que iria contra os interesses estadunidenses na região. Com isso, no caso brasileiro, o país só pode ser preponderante na região, mas não é hegemônico, porque os EUA exercem o poder superior e hegemônico no continente americano. Trata-se de um conceito de Mello (1996), retirado da obra de Raymond Aron, dos três tipos de força existentes: equilíbrio, hegemonia e preponderância, sendo que esta última ocorre quando dentro de um determinado agrupamento de unidades políticas, a ocorrência de uma ruptura no equilíbrio do poder entre Estados não provoca à unidade vitoriosa uma posição de supremacia inconteste, muito menos diminui os demais a um estado de impotência, fazendo com que essa preponderância dentro de determinado subsistema esteja subordinada à hegemonia de outra unidade, mais poderosa, fazendo com que essa preponderância dentro de determinado subsistema esteja subordinada à hegemonia de outra unidade, mais poderosa, no sistema mais abrangente.

Portanto, a hegemonia se torna impossível, primeiro pelo rompimento da aliança preferencial que o Brasil possuía com os EUA, depois, pela aproximação do país em relação à América Latina, formando, ao contrário, uma relação de cooperação entre os estados latino-americanos e anti-hegemônica no subcontinente. Isso fez com que o medo de uma ameaça subimperialista por parte do Brasil, vinda dos tempos da rivalidade da monarquia portuguesa versus os estados independentes de fala espanhola, fosse derrubado em prol de um clima de cooperação. O primeiro passo para neutralizar esse sentimento antibrasileiro na região foi a criação do Tratado de Cooperação Amazônica, firmado em Brasília em 3 de julho de 1978 pelos oito países que detém parte dessas terras: Venezuela, Colômbia, Brasil, Equador, Guiana e Suriname.

No caso da Argentina, verificou-se rapidamente ser preciso dinamizar as relações, pautando-as por uma orientação de economia política. Sendo assim, o relacionamento Brasil-Argentina avançou de um status de conflito para cooperação em pouco tempo, tendo a distensão marcada pela resolução do conflito Itaipu-Corpus, após Acordo Tripartite, assinado por Brasil, Argentina e Paraguai em 19 de outubro de 1979. Já o Programa de Integração argentino-brasileiro, assinado em 29 de julho de 1986 pelos presidentes Sarney e Alfonsín, com cada um dos países já vivendo a abertura democrática, foi o motor possível do atual Mercosul, por marcar a para o clima de cooperação entre os principais atores do subsistema platino. Vários acordos e protocolos marcaram essa aproximação, tendo como pontapé a Declaração de Iguaçu de 30 de novembro de 1985, que foi emblemático pelo caráter simbólico:

A negociação do acordo representou o abandono de uma postura hegemônica que por 150 anos havia prevalecido em diferentes momentos frente ao país vizinho. É a partir desse quadro que começa a diluir-se o peso determinante da hipótese de conflito com a Argentina, sempre presente na doutrina militar brasileira” (HIRST apud MELLO, 1996, p. 212).

Em processo mais ou menos paralelo a este, aconteceu outro movimento nessa mesma linha que apontava para um futuro integracionista partindo dos dois maiores países da América do Sul. Com o fracasso da Alalc, foi proposta sua reformulação, fato que acabou por forjar, em 12 de agosto de 1980, a Aladi, por meio um novo Tratado de Montevidéu, de conteúdo bem mais genérico e sem tantas obrigações entre os países, tendo como seu principal foco “o de compatibilizar a tendência anterior a acordos bilaterais ou sub-regionais com a sobrevivência do aparelho institucional preexistente” (VERSIANI, 1987, p. 36). Além deste, os acordos sub-regionais e os de complementação também estavam na centralidade do novo Tratado, que previa apenas uma integração econômica “por convergência” num futuro, em que acordos restritos por setores ou regiões seriam vinculados ao longo do processo.

Amanhã: 2.2 O modelo liberal do Mercosul

Artigo em partes

1.Introdução

2. Breve e sintético histórico da integração latino-americana

2. Breve e sintético histórico da integração latino-americana

Juridicamente, só se tornou possível que dois ou mais países se associassem na forma de um bloco regional a partir do artigo XXIV do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT, na sigla em inglês), gestado após o fim da Segunda Guerra Mundial e que estimulou o comércio de mercadorias entre os Estados, papel cumprido desde 1995 pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Esse artigo do GATT[1] possibilitou uma maior abertura do comércio, estabelecendo um maior fluxo de comércio entre os Estados que elaborassem acordos regionais, ocasionando a formação de áreas de livre comércio e uniões aduaneiras. O objetivo era que a integração proporcionasse uma ampliação dos mercados, além das vantagens comparativas[2] acontecerem em nível regional.

Tratava-se de um esforço dos Estados, capitaneado pela recém-criada Organização das Nações Unidas (ONU), em meio a duas guerras mundiais que devastaram a Europa e trouxeram vários problemas econômicos para o resto do planeta. A ONU criou grupos de trabalho espalhados pelo mundo para promover o crescimento econômico e na América Latina não foi diferente, com a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), que se tornou o motor teórico-prático durante os anos 1950 e 1960 para que os países da região buscassem uma alternativa que protegessem suas fracas economias. E uma das formas encontradas foi a de integrá-las, aproximando interesses, culturas, regiões geográficas, em torno de um crescimento sustentado para o subcontinente. Mas desejava ir além: seu objetivo era fazer com que a integração fosse um projeto de desenvolvimento regional e não apenas um incremento nos lucros a partir de um superávit nas balanças comerciais. A Cepal defendia que as economias do então chamado Terceiro Mundo deveriam adotar a política de substituição de importações, em que os investimentos são direcionados para incrementar a indústria produzir os produtos na própria região, diminuindo as importações, tornando essas economias menos dependentes e mais desenvolvidas no longo prazo.

Com todo esse movimento em torno da integração regional, não foi difícil impulsionar o que se desejava. Brasil, Argentina, Chile e Uruguai já possuíam objetivo de assinar um acordo multilateral que apontasse para uma zona de livre comércio, sendo aproveitada a oportunidade para criar um organismo que fosse possível desenvolver aos poucos um mercado comum. Sendo assim, o Tratado de Montevidéu, de fevereiro de 1960, que criou a Alalc foi esse instrumento que uniu todos os desejos, mesmo sendo mais restrito em relação ao que a CEPAL propunha. Além dos quatro países citados, assinaram o Tratado: México, Paraguai e Peru, tendo aderido, posteriormente, Bolívia, Colômbia e Venezuela. Os resultados foram positivos no início, mas acabaram por não se manter ao longo dos anos por uma série de motivos (políticos, econômicos, ideológicos, desarranjos internos como ditaduras e externos), frustrando o desejo cepalino em ver uma América Latina unida e próspera, sendo ela seu próprio indutor de crescimento.


[1] Os princípios do GATT são: Princípio da Não-Discriminação (que inclui a Cláusula da Nação mais Favorecida e o Princípio do Tratamento Nacional); Princípio da Proteção Transparente; Princípio da Base Estável para o Comércio; Princípio da Concorrência Leal e Proibição de Restrições Quantitativas.

[2] Grosso modo, pode-se entender esse conceito da seguinte maneira: ao invés de investir na produção de um produto caro, investe-se em produtos de maior eficiência, mais baratos, importando do parceiro o produto mais caro de um parceiro que produz com maior eficiência e, conseqüentemente, por um preço mais barato.

Amanhã, leia o seguinte trecho do artigo: 2.1 Brasil x Argentina: do conflito à cooperação

Para ver a Introdução deste artigo, clique aqui.

Mercosul: um processo de integração sob impasse – Introdução

Inicio hoje um novo especial. Vou publicar em pílulas um artigo que escrevi no semestre passado para a disciplina Organizações Internacionais de Integração Econômica na América Latina, África e Ásia, do PROLAM/USP. Não vou me estender explicando do que se trata, pois publico o resumo junto com a introdução, que compõem a primeira parte desta publicação.

Mercosul: um processo de integração sob impasse

Resumo

Este artigo pretende compreender as relações do Mercosul com outros Estados e processos de integração neste momento em que outras correntes, algumas até opostas, inclusive na América Latina, se entrecruzam nas relações internacionais. Para isso, faz um histórico que procura perceber as suas bases teóricas fundamentais, gestadas dentro de um contexto liberal, e analisar se ainda esse bloco mostra satisfatório dentro de uma perspectiva de integração sul-americana.

1. Introdução

O objetivo deste artigo é fazer um panorama histórico sobre o Mercosul como um processo de integração importante dentro do contexto sul-americano atual, e que, após 18 anos, segue sua caminhada, repleta de percalços, recuos e avanços. Pretende-se mostrar o contexto em que ele foi gestado, seus mecanismos jurídicos principais e como ele se desenvolveu no que tange ao incremento do fluxo de comércio entre seus membros – sua meta e limite. A idéia também é compreender como se dão as relações entre o Mercosul com outros atores internacionais, como os Estados Unidos – e a querela da Alca – a União Européia, além das negociações na Organização Mundial do Comércio (OMC), bem como com seus vizinhos, caso especial da Venezuela, que está em processo de adesão ao bloco[1] e lidera outro processo de integração que, aparentemente, vai contra os propósitos do Mercosul, que é a Alba. Importante essa discussão acerca do Mercosul por ser a forma adotada pelo Brasil de se inserir internacionalmente e negociar acordos comerciais com os outros países, sendo um instrumento importante a nível regional, até mesmo para evitar inimizades entre seus vizinhos, caso especial da Argentina, histórico rival e que, desde as tratativas para a criação do Mercosul, se fixou definitivamente como um parceiro estratégico importante.

Com esta idéia em mente, o texto parte de um breve histórico sobre os processos de integração que antecederam o Mercosul, dentro de um contexto pós-Segunda Guerra Mundial, que apontava para a divisão mundial em blocos, mas a partir da perspectiva própria latino-americana, advinda da teoria cepalina de integração, que pretendia desenvolver a região, adotando, para isto, a política da substituição de importações. Com isso, trazemos uma rápida passagem sobre a formação da Associação Latino-Americana de Livre Comércio (Alalc) e a Associação Latino-Americana de Integração (Aladi). Dentro desse cenário, o artigo também trata das relações entre os dois principais parceiros do Mercosul, Brasil e Argentina, cuja aproximação foi fundamental para a criação do bloco regional, a partir de uma mudança de postura da política externa brasileira que passou a focar seus objetivos mais em aspectos econômicos e comerciais, deixando de lado divergências políticas e, até mesmo, militares.

Na seqüência, partimos para uma descrição dos principais mecanismos jurídicos que fundamentam o Mercosul no âmbito do direito internacional como uma união aduaneira imperfeita, apesar do nome Mercado Comum do Sul. A partir do Tratado de Assunção, de 1991, marco oficial do bloco, são descritos sua estrutura, os órgãos de tomada de decisões, solução de controvérsias, além dos protocolos que promoveram modificações no Tratado, principalmente o Protocolo de Ouro Preto, de 1994, que concede personalidade jurídica ao Mercosul e define alguns pontos institucionais, fazendo o bloco abandonar a fase provisória para um período permanente, já como uma organização internacional que pode negociar acordos com outros blocos ou países. Nesse mesmo trecho é feita uma passagem histórica do bloco desde seus primórdios, mostrando sua ascensão e queda do ponto de vista comercial, até os anos 2000, quando a chegada de presidentes com maior preocupação social e, principalmente, com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições do Brasil, o Mercosul voltou ao centro da política externa brasileira, que deu o impulso que faltava para os vizinhos retomarem o entusiasmo pelo integração.

Fato que ocasionou o pedido de entrada da Venezuela ao Mercosul em 2006, uma possibilidade de ampliação do mercado do bloco, com um parceiro rico de petróleo e ávido por produtos diversos, mas, por outro lado, com seu presidente Hugo Chávez com uma retórica, aparentemente, divergente dos princípios que fundaram o Mercosul, quais sejam, o liberalismo, o livre comércio e a ênfase em aspectos econômicos e comerciais. Chávez prega um chamado “socialismo bolivariano” em seu governo, e, no plano internacional, uma relação baseada na solidariedade e na cooperação entre os povos, com ênfase em aspectos sociais e políticos. Para materializar esses anseios criou, ao lado de Cuba, a Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), como forma de se opor à Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Portanto, será interessante refletir como o Mercosul e, acima de tudo, o Brasil encara essa dicotomia de um parceiro desejoso por entrar no bloco, principalmente por objetivos econômicos, mas que o critica e propõe um outro processo de integração, que, ao menos em teoria, é a antítese do Mercosul.

Por fim, serão analisadas rapidamente a posição do Mercosul em relação à Alca, que acabou por ser defenestrada do debate por conta da posição contrária do Brasil e parte dos países sul-americanos e as negociações entre o Mercosul e a União Européia, numa tentativa de criar uma zona de livre comércio entre os dois blocos regionais. Cabe ressaltar que ambos foram escolhidos por serem os mais relevantes, já que representam, a tentativa de inserção econômica na América do Sul tanto dos EUA (por meio da Alca) quanto da União Européia. Em seguida, uma breve menção às discussões no âmbito da OMC para finalizar com um reflexão sobre a impossibilidade dos países do Mercosul em assinar acordos fora do bloco e seus rumos.


[1] Bloco regional não é um termo jurídico, porém, neste caso, serve para identificar as organizações internacionais, caso do Mercosul, apenas para não tornar repetitivo o uso de certos termos e nomenclaturas.

Amanhã, a parte 2 deste texto: Breve e sintético histórico da integração latino-americana

Um olá

Estou pensando em retomar este espaço, após o estrago da correria de fim de ano, as férias de começo de ano e as indefinições dos primeiros dias do ano.

A correria foi por conta da conclusão do relatório de qualificação da USP, finalizado realmente em janeiro com os acertos em um artigo que só conssegui deixar pra fazer em janeiro e a revisão final, após aprovação do orientador. E o sentimento ótimo.

As férias foram proveitosas. Passei a virada de ano em Mongaguá com amigos e depois uma partida para uma semana de descanso e lazer em Ubatuba com minha namorada. Foram ótimos momentos que eu fiquei com saudade e tristeza de tê-los deixados para trás.

E a indefinições dos primeiros dias do ano foram após a viagem, o relatório e a conclusão do último trabalho da última disciplina cursada em 2009, um verdadeiro parto escrever um texto sobre o “18 Brumário de Luis Bonaparte”, do bom e velho Marx. Entra fevereiro e o que resta? Nada, apenas indefinições. Aguardo para os detalhes finais da entrega do relatório, para ser examinado em breve. Enquanto isso, leio coisas chatas, desestimulantes.

As contas e seus preços aumentam, enquanto a verba rareia. Os dias passam e nada de uma renda entrar, sem novidades que indiquem tornar possível concluir meus dois objetivos profissionais para este ano. Tá ficando difícil acreditar. Privações e mais privações, é o que vejo no caminho. Não sei como isso é possível. Mas, no fundo, sempre é posssível chegar mais ao fundo…

Bem, após contar as novidades – algumas boas, muitas ruins – aviso que o espaço poderá ser atualizado com freqüência novamente. Vejamos o que conseguimos com isto aqui. Hasta!

A Política como Vocação – Max Weber

É, o ano está terminando e os textos também. Este é o último do curso Modalidades do Pensamento Político Moderno: “A Política como Vocação”, de Max Weber. Lembrem-se: é só uma leitura livre do que apreendi do texto, não é uma resenha técnica, muito menos precisa do conteúdo.

O livro trata de vários aspectos da política, começando pela definição dela mesma, depois partindo para a função do Estado e o surgimento de atores designados para atuarem dentro desse processo, denominados de políticos profissionais, em que Weber mostrará os desafios que a sociedade e esta categoria, em particular, possuem pela frente, sendo estes os pontos principais deste escrito.

Weber lembra existir um amplo sentido para a palavra política, com diversos significados. Mas ressalta que seu foco estará no objetivo de tentar compreender a política a partir da “direção ou influência sobre a direção de uma associação política, ou seja, de um Estado[1]”.

Mas, para seguir adiante na análise, Weber procura definir o que é o Estado, indicando que este só pode ser definido por um específico meio que o é peculiar, em sendo, no caso desta associação política, o uso da força física, isto é, da violência. “Se inexistissem estruturas sociais fundadas na violência, teria sido eliminado o conceito de Estado e emergiria uma situação que mais adequadamente designaríamos como anarquia, no sentido específico da palavra[2]”.

Ele coloca, no entanto, que a força não é o único recurso do Estado, porém trata-se de um elemento específico do próprio Estado, sendo bastante comum em várias épocas da humanidade. Nos dias atuais, Weber define o Estado como uma comunidade humana que vive em um determinado território e que utiliza o monopólio (considerado) legítimo da violência física, tendo o Estado o único a possuir tal direito.

Em sendo o Estado uma relação de homens que dominam seus iguais, o autor considera que para isto se consolidar é preciso que os dominados obedeçam a uma suposta autoridade dos poderes dominantes. Mas ele indaga sobre o porquê dos homens obedecerem desta forma, para responder na existência de três justificativas que fundamentam a legitimação da dominação. A primeira é o que ele chama de tradicional, poder exercido pelo patriarca ou príncipe já estabelecido. Há também a carismática, também chamada dom da graça, tendo como fundamento a devoção e a confiança cega nos atributos pessoais do líder. Por último, a legitimação via legalidade, fundamentada na crença que o estatuto legal é válido e no resultado produzido pelas normas estabelecidas.

Antes de prosseguir, cabe trazer uma rápida passagem de Weber no que tange à política, definida como um conjunto de esforços que visam diversos interesses, tanto na distribuição, manutenção como na transferência do poder. “Os que atuam na política aspiram ao poder ou como meio para atingir outros fins, abstratos ou individuais, ou como poder pelo poder, para desfrutar da sensação de status que ele proporciona[3]”.

Isso para voltarmos aos desdobramentos do Estado, que, em sendo o ator principal das sociedades, onde as discussões políticas e os rumos dos Estados são definidos, requer uma categoria de atuação específica que é a do político profissional, que transforma o fazer político em uma vocação. Weber afirma ser possível viver ou para a política ou da política: “Quem vive para a política a torna o fim de sua existência, ou porque essa atividade permite obter no simples exercício do poder, ou porque mantém seu equilíbrio interior e sua auto-estima fundados na consciência de que sua existência tem sentido à medida que está à serviço de uma causa. Num sentido profundo, todo aquele que vive para uma causa vive dela também. É o aspecto econômico um dos elementos importantes da condição do homem político. O que vê na política uma fonte permanente de rendas, vive da política como vocação; no caso oposto, vive-se para a política[4]”.

É evidenciada a preocupação de Weber é fazer com que o recrutamento de profissionais políticos não seja pautado em aspectos plutocráticos, fazendo com que a organização política garanta recursos regulares aos atores políticos que não são proprietários de bens e, portanto, estão à parte das classes interessadas em manter a ordem econômica como está, ajam de forma independente, em prol da política e não apenas de interesses próprios.

Porque, se quem possui bens pode viver para a política, pois não depende dela pra sobreviver, no entanto, pode utilizar-se da política como forma de manter o status quo, podendo interferir negativamente no andamento da sociedade e do Estado, sendo necessária, portanto, a legitimação da criação de políticos profissionais que possam ter sua renda garantida para que não dependam da política para viver. O problema é que, justamente a criação desta categoria profissional, com o objetivo de evitar uma acomodação de interesses, pode provocar justamente o mal que ela pretende remediar, fazendo com que os políticos profissionais atuem de forma a manterem seus cargos e posições para ampliar suas benesses, prejudicando o bom andamento do Estado.


[1] Weber, Max. A Política como Vocação. Brasília: Universidade de Brasília, 2003. Página 08.

[2] Idem, p. 09.

[3] Idem, p. 10.

[4] Idem, p. 22-23.

Praia

Pôr do sol na praia - Itanhaém - SP - 07.09.09

Pôr do sol no feriado - Itanhaém - SP - 07.09.09

Em tempos de férias, nada como uma praia para divertir, relaxar e recarregar as energias para os desafios do próximo ano. Está chegando o meu tempo de descanso.

Enquanto às férias propriamente ditas não vêm, ficamos com imagens e lembranças.

Boa semana a todos.

Ciclos e passagens

O sumiço destes dias no blog não foi por falta de vontade de postar. Uma verdadeira tragédia aconteceu com o adeus de um parente de uma querida amiga muito próxima a mim. Foram dois dias que ficarão marcados para todo o sempre, de um extremo pesadelo que ainda não acabou e ainda vai levar um tempo para amenizar, quiçá passar para quem vive o tormento. Abaixo reproduzo algo escrito a partir do Twitter, um singelo desabafo e reflexão da nossa insignificância na Terra.

Estou destroçado física e emocionalmente, nem as horas de cochilo mesclado com sonhos e pensamentos ruins mudaram muita coisa. Quando acontecem tais coisas a gente pensa em muitas outras, nos traz à uma realidade duríssima que lutamos em nosso cotidiano para fugir.

Nossa crença na eternidade é tão vã, que quando uma tragédia dessas ocorre, a gente se vê sem chão e percebe o quão tênue é a linha entre a vida e a morte e o quão estamos dependentes de tudo e vulneráveis. Não temos direito a nada aqui.

Não é alarde, nem revolta, mas é uma triste constatação: a de que “viver é uma dádiva fatal no fim das contas ninguém sai vivo daqui”. Tudo fica meio sem sentido, viver, amar, procurar crescer, trabalhar, sair, etc., porque você sabe que tudo acaba mais cedo e surpreendentemente do que imaginamos, mesmo que saibamos que tudo tem um fim. E a cada “surpresa” dessas você também morre um pouco. Com aquele que amamos se vai uma parte de nossa rápida existência. E dói.

Mas, como diz o próprio poeta: “vamos com calma”. O jeito é seguir vivendo, tentando achar um motivo, manter-se firme em homenagem e agradecimento a quem já foi, mas também a quem aqui está. É duro, mas é preciso. Ainda não sabemos porquê, mas é preciso.

Dizem que o homem comeu a maçã da sabedoria e desde então adquiriu conhecimento. Mas faltou o conhecimento da vida e da morte, para que ele pudesse viver mais em paz, despreocupado e menos angustiado com suas perdas.

Mas assim é a vida e seu ciclo: nascemos, vivemos, procriamos, outros assumem nosso postos, antes de morrermos, para que o ciclo prossiga. E assim a vida caminha, entre alegrias e tristezas, lágrimas e sozinhos, dor e paz…

Espero apenas que tenhamos calma e força a cada manhã para seguirmos em frente…

Para concluir esta reflexão em homenagem a quem fez muita gente feliz e também deixou muitas saudades, deixo uma canção que tem a ver com o tema: “For Martha”, da banda The Smashing Pumpkins, pertencente ao álbum Adore de 1998.

For Martha
Para Martha

whenever I run

Sempre que procuro

whenever I run to you, lost one

Sempre que te procuro, desaparecida

it’s never done

Nunca consigo

just hanging on

Apenas aguardo

the past has let me be

O passado fez me ser

returning as if dream

Solícito como se num sonho

shattered as belief

Destroçado como a fé

if you have to go, don’t say goodbye

Se tiveres que ir, não diga adeus

if you have to go, don’t you cry

Se tiveres que ir, não chores

if you have to go, I will get by

Se tiveres que ir, eu aceitarei

someday I’ll follow you and see you on the other side

Um dia te seguirei e te verei no outro lado

but for the grace of love

Mas pela benção do amor

I’d will the meaning of

Eu desejaria o sentido do

heaven from above

Paraíso lá de cima

your picture out of time

Seu velho retrato

left aching in my mind

Doendo em minha memória

shadows kept alive

Sombras mantidas vivas

if you have to go, don’t say goodbye

Se tiveres que ir, não diga adeus

if you have to go, don’t you cry

Se tiveres que ir, não chores

if you have to go, I will get by

Se tiveres que ir, eu aceitarei

someday I’ll follow you and see you on the other side

Um dia te seguirei e te verei no outro lado

but for the grace of love

Mas pela benção do amor

I’d will the meaning of

Eu desejaria o sentido do

heaven from above

Paraíso lá de cima

long horses we are born

Longa-Marchas nós nascemos

creatures more than torn

Criaturas mais que dilaceradas

mourning our way home

lamentando nossa volta ao lar