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Posts Tagged ‘férias’

Uma nova viagem…

Na próxima quinta-feira eu embarco para umas férias de dez dias em Buenos Aires e espero trazer de lá muitas fotos e histórias desta cidade que respira cultura, culinária e lutas sociais. Desejo que seja divertido, prazeroso, mas também, se possível, desafiador. Que eu e minha esposa consigamos fugir daqueles roteiros tradicionais e possamos desfrutar outros aspecto da cidade. E que seja possível conhecer muitas pessoas e histórias distintas para poder contar aqui neste blog e poder celebrar ao longo da vida.

Pretendo trazer um post diário – ou quase isto – para este blog, contando com as minhas experiências e aventuras por esta que é uma das capitais mais interessantes da América do Sul e, porque não, do mundo. Vai ser um desafio grande, porque essas viagens costumam ser tudo, menos relaxantes e tranquilas. Sempre envolvem muitos passeios e cansaço, sem falar as peripécias com uma outra língua.

Mas são exatamente esses perrengues que quero contar, até porque muita gente já foi pra Buenos Aires e há diversos relatos por aí. Vai ser complicado porque pretendemos sair o dia todo e o que der à noite. Mas ou tentar trazer minhas impressões sobre a cidade, as pessoas, sobre a política, além do básico sobre os passeios; que, reconheço que seja comum para muitos, mas também vai existir nos relatos.

Vai ser um reinício, quem sabe, uma retomada de uma escrita mais constante aqui e na minha própria vida. Eu que desde adolescente utilizei a escrita como uma forma de me comunicar com o mundo ou mesmo para desovar pensamentos, sentimentos e ideias, pretendo retomar isso, ainda sem saber o quê vai sair desse desejo.

Então é isso, a partir do dia 13 pretendo trazer alguma coisa das nossas experiências por Buenos Aires. Espero que curtam. Até lá!

Centro Cultural Mário Quintana

Centro Cultural Mário Quintana - 24.07.2009

Acho esta foto muito bacana. Gostei desse lugar. Morada de Mário Quintana, um local onde a cultura aflora por todos os seus espaços, aliás, enormes. Cinema, café, exposições, poesia… Há muito o que ver e sentir ali.

Adorei a visita à Porto Alegre ano passado. Tinha ido duas vezes apenas para reuniões de trabalho e conhecia, portanto, muito pouco. Mas já imaginava que gostaria de lá. E o lugar é fascinante: bonito, bem cuidado nas suas áreas turísticas (que é onde eu posso comentar), aprazível demais, e com um povo cordato. Sem falar no frio de rachar, mesmo sendo inverno, sofri um pouco.

Gostei também do metrô de lá, que, na verdade, é um trem melhorado. Adoro trens, metrôs. Mas isso é papo para outro dia, outro post. Boa semana!

Ubatuba

Ubatuba

A bela Ubatuba - SP - 08.01.2010

Dizer o quê com uma foto dessas? Apenas que eu queria estar lá agora, ainda mais com o calor que tem feito esses dias em São Paulo. Boa semana!

Praia

Pôr do sol na praia - Itanhaém - SP - 07.09.09

Pôr do sol no feriado - Itanhaém - SP - 07.09.09

Em tempos de férias, nada como uma praia para divertir, relaxar e recarregar as energias para os desafios do próximo ano. Está chegando o meu tempo de descanso.

Enquanto às férias propriamente ditas não vêm, ficamos com imagens e lembranças.

Boa semana a todos.

Descendo a Serra

Via Anchieta - Serra do Mar - SP - 02.11.09

Post atrasado, passei o dia indo daqui pra lá e de lá pra cá, com pouco tempo para internet. De qualquer forma, um a foto de uma viagem que gosto e fazer muito: descer a serra e ir para a praia, no litoral paulista. Esse dia foi um tanto maluco, um “bate-volta” no meio da tarde em pleno feriado rumo à Praia Grande.

Pela data, a Imigrantes estava fechada no acesso via SãoBernardo, o que fez seguir pela Anchieta mesmo, um trajeto mais difícil, lento, sinuoso, periogoso, mas lindo, com sua estrada feita contornando a Serra. Vale a pena o passeio, é sempre delicioso viajar, ainda mais por um percurso desse.

As férias estão chegando e eu não vejo a hora de ver cenário semelhante novamente. A excitação da viagem é simplesmente a melhor sensação das férias.

Boa semana!

“O Incidente” – Parte II

Hoje publico a parte II do conto. Só agora que notei que fiz a divisão errada, não cortei no meio, mas sim antes! Mané! Enfim… Bom proveito!

“O Incidente” – Parte II

No dia seguinte, ele se arrumou melhor e foi pro bar por volta das 15h, sob um sol de rachar, que fazia escorrer suor pela sua testa vermelha. Comprou um suco e esperou Jussara. Ela veio, já pelas 18h. Descia a ladeira e, em frente ao boteco, acenou discretamente para Zé Fernando, que, levantou-se e foi em direção a ela, e disse: “Quer tomar um suco comigo?”. A pergunta, surpreendente, assustou a tímida jovem, que se esquivou e recusou o convite: “Tenho que ir para a casa agora, estou cheia de coisas para fazer”, respondeu, apesar de saber que ia passar a noite assistindo novela e ouvindo reclamações de sua mãe. Mesmo assim ela foi, apressando o passo. Zé Fernando se irritou e berrou para o dono do bar: “Troca essa merda de suco vagabundo por uma pinga agora mesmo”, exclamou, abandonando seu corpo à cadeira.

A partir dali, desandou de vez. Ia para o bar logo cedo e não saia dali enquanto não fosse carregado para casa. Sentava-se com a cadeira para o lado oposto da rua onde poderia passar Jussara. Via agora uma rua calma, repleta de caminhos de madeira, com árvores em tamanho médio, de não mais que dez anos de vida. Parecia se fixar num pé de amora. O dono do boteco deixava o pobre infeliz afundar na inércia de suas mágoas até meia-noite, quando não agüentava mais e fechava o bar, empurrando o bêbado para a calçada. “Zé, tá tarde. Preciso sair e já faz uma hora que devia ter fechado isso daqui. Vai pra casa hômi”.

Tropeçando em lamúrias, Zé ia sem falar uma palavra, sem mexer um músculo da face. Seus parentes não entendiam o que acontecia. Francisco só resmungava, praguejando para que o bebum fosse embora. Isabel, preocupada com o irmão, não recebia respostas dele e se desesperava: “mas ele tinha parado de beber pinga. Mal bebia cerveja. Por quê?”, indagava, em vão. Maria morria de medo e se trancava no quarto, indo dormir só quando o tio se estatelava no sofá. Temia que ele quebrasse a casa ou algo do gênero. Já se passavam 13 dias e a situação continuava insustentável: da casa para o boteco, de lá para a casa, com o fedor de pinga e de suor aumentando, já que ele não tomava banho há dias. Zé não percebera, já que sentava de costas para a outra rua, mas Jussara, desde o “incidente”, não passara mais por ali.

No décimo quinto dia Pedro tentou fazer com que Zé desistisse de curtir essa dor e falou: “Rapaz, já faz seis dias que a moça não passa por aqui. Esquece isso, volta pra e toca a tua vida!”, recomendou, de um jeito veloz e difícil de entender, típico dos moradores daquela região. Mas funcionou. Naquele momento acendeu uma luz sobre a cabeça do pobre homem que se maltratava por causa daquela mulher. Levantou-se, jogou a pinga longe e foi pagar Pedro, que se assustou com o movimento brusco e inesperado de Zé, mas ficou aliviado por se livrar de um homem “que vai se matar se continuar assim e ainda acabariam me culpando”, pensou. Ele comemorou em um grito: “Isso mesmo Zé, toma rumo na vida”, disse. Zé pagou a conta e cumprimentou o dono da espelunca com um aceno de cabeça. Quando virou-se para descer os degraus e pegar o caminho da calçada ficou branco de susto. Jussara passara naquele instante pela rua, mas, ao contrário de antes, olhando para Zé com rosto piedoso. “Mas o velho Pedro garantiu que ela não tinha passado mais aqui”, pensou Zé, espantado com o que via, enquanto Jussara atravessava a rua e ia até ele.

“Zé, eu queria te dizer uma coisa”, iniciou o diálogo a moça, com a voz agitada. “Eu fiquei sabendo o que você fez depois daquele dia que conversamos. Se tu num sabe, sua irmã é amiga da minha tia”, continuou. “Quero que você pare de encher a cara, senão eu acabo me sentindo culpada”, disse. “Mas a culpa é sua mesmo”, retrucou Zé, amargurado. “Eu só te chamei para um suco e você me destratou daquela forma”. “Zé, e lá isso é desculpa pra encher a cara e viver caindo pela calçada?”, indagou Jussara, implacavelmente. “É sim”, devolveu Zé. “É porque eu gosto d’ocê, Jussara”, completou. A moça permaneceu imóvel diante dele por alguns segundos, num silêncio devastador, quebrado apenas pelo farfalhar de algumas folhas de árvores e pelo canto distante de um passarinho. “Mas hômi de Deus, a gente nunca conversou direito. Tu me viu uma ou outra vez. Como pode?”, perguntava Jussara, perplexa. “Não sei, só sei que foi assim. E se você veio aqui só pra passar sermão é bom tomar seu rumo, porque isso não ta ajudando em nada”, respondeu Zé, que complementou: “E fique a senhora sossegada que eu vou embora amanhã mesmo, assim deixo esse fim de mundo de uma vez”. Nesse momento, Jussara fez uma expressão que se assemelhava com algo muito triste que tivesse ouvido naquele segundo. “Eu preciso voltar mesmo ao batente na capital e aqui não consegui descansar nem um pouco”. E assim, Zé partiu para a casa de seus parentes, sem se despedir da amada que o rejeitou. Jussara, enquanto isso, permanecia em pé na frente do bar, sentindo uma leve ponta de arrependimento brotar-lhe no peito.

Zé chegou na casa da irmã, tomou banho, jantou com todos, sem pronunciar uma palavra, até arrumar as malas, quando declarou: “Amanhã à noite eu pego o ônibus das nove da noite, vou voltar porque ta na hora de trabalhar”. A fala miúda de Zé assustou os presentes, ainda mais que o banho tomado e o jantar com eles. “Vai mesmo, Zé? Melhor pra ti guri”, falou Francisco. “Que bom”, exclamou Maria. “Resolveu seu problema, Zé?”, questionou Isabel. “Sim mana, apesar de não ter descansado o que devia, to pronto pra tocar minha vida novamente”, respondeu.

No dia seguinte, Zé acordou bem cedo e com toda a disposição. Cumprimentou a todos da casa , tomou café e foi pra banca pegar um jornal. Voltou pra casa, leu e passou o resto do dia assistindo televisão, passando pela primeira vez o tempo todo em casa. Só lá pelas seis tarde saiu da casa, quando era possível notar o cair da tarde da cidade interiorana, onde ainda é possível ver o céu com clareza, suas estrelas surgindo em meio às violáceas e rosáceas que pintam um quadro belo no céu. Passou no bar do Pedro para comprar um Plaza e se despedir do dono. Na saída, foi surpreendido pela aparição de Jussara. “Oi Zé, precisamos conversar”,iniciou o diálogo. “Não tenho nada para conversar, daqui três horas meu ônibus parte”, retraiu. “Eu sei. Por isso mesmo”, retrucou Jussara. “Então diz logo, diacho”, zangou-se Zé.

Jussara, então, respirou fundo e começou: “Eu gostei de você desde o primeiro dia que te vi”, disparou, fazendo Zé dar um passo para trás, assustado. “Eu passava de cabeça baixa, com medo que me apaixonasse por você. Mas não agüentei e, pelo menos, acenava para ti, até que você resolveu falar comigo”, disse, prosseguindo. “Eu queria muito tomar aquele suco com você, mas eu já sou comprometida, você se esqueceu de saber disso. Meu namorado mora longe e ta viajando. Mas logo ele volta para a gente casar”. Continuava Jussara, dilacerando, em palavras, o coração puído de José. “”Eu gosto muito dele, que foi sempre muito bom comigo. Mas e você? Vem aqui, com data marcada pra voltar, vida resolvida muito longe daqui, com amigos, família, trabalho. E eu também tenho tudo isso aqui, mas com uma realidade muito diferentes da sua. Que história isso ia dar?”, perguntou Jussara. Mas Zé não conseguia balbuciar uma sílaba sequer, ficando paralisado em frente à amada. “Então eu parei de passar aqui, mas senti remorso quando soube de sua bebedeira. Sinto que parta agora, mas talvez seja melhor, antes que essa história acabe mal”, prosseguiu, enquanto uma lágrima despencava da bochecha esquerda de Zé. “Eu só queria esclarecer tudo e falar pra você que adorei saber que se interessou por mim, mas não posso abandonar tudo que tenho aqui por você, pois sei que você acabaria pedindo isso, todos que vêm da cidade grande pedem isso”, finalizou Jussara, dando um beijo no rosto de Zé, antes de ir pra sua casa.

O pedreiro em férias, recuperado de alguns minutos de torpor, se recompôs e foi pegar suas malas, sem dizer mais nada até chegar à rodoviária, levado pelos parentes. Zé agradeceu a estadia, pediu desculpas pelos incômodos e se despediu deles. Ao sentar no banco sentiu um aperto no coração, enquanto algo parecia ser empurrado de baixo para a cima até à garganta. Francisco e Isabel acenavam  do lado de fora, respondidos por Zé, durante aqueles angustiantes segundos de espera até o ônibus partir. Quando os pneus do veículo começaram a rodar rumo à estrada, a vizinha de banco de José se estranhou ao perceber algumas lágrimas do rapaz. Zé, por seu turno, sentia que aquela pressão na garganta desaguava pelos seus olhos, enquanto uma dor indescritível machucava-lhe a alma. Sua visão, embaçada pelo choro, via a escuridão da mata refletida no céu, entrecortada por algumas estrelas e por reflexos negros das nuvens e da mata rasa. A certeza de que nunca mais veria Jussara doía-lhe fundo. E essa imagem bucólica da noite daquela cidadezinha do interior trazia ainda mais tristeza, pelas lembranças e pela saudade que a viagem cravaria em seu coração pelo resto de seus dias. Após esses instantes de desalento, José tampou a janela com as cortinas e pôs-se a dormir, como se isso fosse fazê-lo esquecer de tudo, enquanto que uma cantiga de amor pulsava em seu velho radinho.

“O Incidente” – Parte I

Olá.

Hoje o dia foi bastante complicado (quem me acompanha pelo twitter sabe bem disso), então fica difícil ter tempo para pesquissar alguma coisa interessante para publicar aqui.

Mas, cavucando nas minas dos meus alfarrábios, eis que acho um conto que acreditava já estar publicado aqui. Trata-se de “O Incidente”, escrito lá pelos idos de 2007 e tem muita relação com A Partida, já publicado no blog (clique no nome do conto para lê-lo).

Ambos recebem influência muito forte de uma viagem a passeio que fiz no fim de 2006 e início de 2007 pelo Paraná, passando alguns dias em Umuarama (noroeste do Estado) e a capital Curitiba. Os cenários, as pessoas, os ritmos, enfim, a vida desses dois lugares interessantes, cada um a seu modo, me inspiraram a escrever esses dois contos, que tratam de amor, amizade, dor, desilusão, e, de certa forma, falam de esperança.

No caso de “O Incidente”, recordo-me que não havia colocado no site por ser extenso e um tanto cansativo. Daí que agora ocorreu-me esta idéia de dividi-lo (de forma aleatória, pela metade nas páginas do Word) para facilitar a leitura. Vamos ao conto! Amanhã tem a segunda parte. Espero que seja do agrado de quem frequenta este espaço. Até mais!

“O Incidente” – Parte I

José Fernando estava na cidade havia cinco dias. Foi visitar alguns parentes que não via há anos. Depois de muito tempo brigado com Francisco e Isabel (tio e irmã, de José, respectivamente) por um motivo que ele nem lembrava mais, as mágoas passaram e eles o convidaram a passar alguns dias na pequena cidade interiorana, há léguas de distância da capital. José Fernando achou de bom grado, pois havia anos que não tirava férias da construção civil desde que pegou aquele hospital público que nunca terminava. Mas, enfim, acabou e ele pôde descansar alguns dias, antes que a próxima obra começasse.

Rumou para lá com uma mochila, uma muda de roupa enfiada de qualquer jeito, três maços de cigarro Plaza e uma garrafa de pinga que era retirada a todo instante para o deleite de seu dono. Isso sem falar no seu inseparável radinho de pilha, permanentemente grudado ao ouvido. Assim, ele pegou o ônibus no maior terminal da cidade e desembestou pela estrada adentro. “Lugar que não chega nunca, diacho”, reclamava José, após 5 horas de viagem, entre um gole e outro de sua aguardente. “Boa para danar”, costumava elogiar seu líquido, vindo de uma cidadezinha distante em outro Estado.

No entanto, o trajeto para o interior era muito longo mesmo: cortava três Estados e passava por mais de 20 cidades. Ia demorar umas 20 horas. “Raio de estrada que num muda. Só vejo mato e boi em tudo que é lado”, resmungava a cada meia hora para a pessoa do banco ao lado, que mal agüentava seu bafo de cana. Nas seis paradas da viagem, ele só descia para urinar, fumar seu cigarro e esticar seu joelho esquerdo que costumava atormentá-lo quando passava muito tempo em pé ou sentado.

Francisco, Isabel e Maria, filha de Isabel, o esperavam na minúscula rodoviária da cidade, que mais parecia uma praça, situada num círculo, com comércio, invariavelmente botecos, no centro e vários espaços para os ônibus estacionarem, mesmo que parasse apenas um ônibus por dia dali. O resto servia mais para estacionamento de carros e parada de intermunicipais. Finalmente, o ônibus de José Fernando chegou: “Êta, pessoar!. Ceis não mudaram nada hein”, disse, em tom brincalhão, típico do interior, para provocar seu tio, enquanto tropeçava em seus próprios pés, quase caindo pela bebedeira do percurso. Francisco pegou a mochila e deu um suspiro de arrependimento. Isabel ajudou a erguê-lo e Maria não entendia, nada, já que era muito nova quando viu o tio pela primeira vez. “Já chega bêbado Zé? Assim fica difícil”, exclamou Francisco.

Chegando em casa, depois daquela conturbada recepção, Zé foi para o banheiro meio a contragosto. Refeito, Francisco, Isabel e Zé conversaram para acertar os ponteiros definitivamente, deixando, contudo, a situação na mesma: Francisco não gostava muito de Zé e Isabel só o admitia em sua casa porque era irmão. E Zé sabia de tudo isso. Mesmo assim, resolveu ficar, pelo menos uns dias para esfriar a cabeça do ano duro que tivera. Já estava com 35 anos, trabalhara muito e não tinha tempo de sair, muito menos se divertir. Sozinho há dois anos, não conseguia se sentir atraído por nenhuma moça do bairro onde morava. Meio que inconscientemente, decidira ficar só por um tempo, depois de sua relação frustrada com Dorinha, a faxineira que foi sua vizinha por quatro anos.

Zé estava há cinco dias e não entendia o porquê. Achava que três dias eram o bastante. Não tinha nada para fazer ali. Acordava às 10, tomava café preto e comia pão com manteiga. Botava sua roupa e saia a perambular pelas ruas tranqüilas da cidadezinha. Tranqüilas porque não tinha uma viva alma nas calçadas, nem carros pelas vias. “Fim de ano é sempre assim. Todo mundo que pode foge daqui”, contava Maria para o tio. Depois de caminhar, ler jornal, bater papo com algum senhor de idade prostrado na pracinha, Zé retornava à casa para almoçar e tirar uma soneca de umas duas horas na rede que fica nos fundos. Só lá pelas quatro horas, sol ainda forte, ele ia para um boteco próximo tomar cerveja (tinha parado com a pinga, mas “descontava” tudo na cerveja) e fumar seu Plaza.

Passava pelo menos umas quatro horas por ali, olhando absorto para o nada, sem ninguém para conversar, apenas seu radinho de pilha, que lhe evitava a solidão. Pensava na vida enquanto ouvia as modas de viola e as canções “dor de corno” da rádio local. Nada o fazia mover dali. E cerveja atrás de cerveja passava pela mesa dele. No fundo, ele sabia a causa, tanto de sua permanência estendida na cidade quanto de suas bebedeiras, que acabavam lá pelas oito da noite, céu quase todo revestido de negro, quando ele resolvia ir embora, jantar, tomar banho e dormir, sem quase falar com seus parentes.

O motivo para aquilo tudo era Jussara, moça de idade semelhante a de Zé. Jeito simples, pouca instrução, mas de beleza rara. Tez branca, olhos e cabelos negros bem escuros. Tinha estatura mediana e cintura fina. Bem diferente de Zé: alto, cabelo castanho, magricela de dar dó, mas com uma barriga saliente e um pouco mais de estudo. Ela passava por aquela rua todos os dias, voltando de seu trabalho como costureira numa fábrica perto de sua casa. Descia a rua vazia com aquele ar tristonho da solidão, mas bela. Mas como ela não o conhecia, nem o cumprimentava. Seguia de cabeça baixa para casa, sempre com pressa, com um certo ar amedrontado. Apenas após o quarto dia, de rito semelhante, e, percebendo a simpatia do rapaz que bebia no bar e sempre a olhava com um sorriso no rosto e levantava o chapéu, ela reparou e resolveu dizer um “olá, boa tarde” ao desconhecido. Já tinham se passado oito dias pensando o porquê de estar ali remoendo sentimentos, enquanto a moça o cumprimentava educadamente, Zé resolveu agir.

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