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Eleições: uma análise

E Dilma Rousseff ganhou a eleição mais apertada da história da política brasileira desde a redemocratização. Em uma campanha eleitoral marcada por insultos de ambos os lados, troca de acusações e radicalizações dos discursos de parte a parte, viu-se uma eleição que fugiu aos moldes centristas dos dois partidos. O PT (como quase sempre) lembrou-se de onde veio, convocou os movimentos sociais (e foi atendido), fincou trincheiras contra a Veja após a criminosa capa da Editora Abril e defendeu com unhas e dentes o legado social e trabalhista produzido pelo seu governo nos últimos 12 anos.

Do outro lado, Aécio Neves subverteu Geraldo Alckmin e José Serra e tomou coragem para defender o legado de Fernando Henrique Cardoso – embora tenha perdido a mão ao nomear Armínio Fraga para Ministro da Fazenda, abrindo flanco para ataques do PT. Ao contrário de seus eleitores mais raivosos, disse que iria ampliar o Bolsa-Família e manter a proteção social gerada nos dois mandatos do governo Lula. Ao mesmo tempo que buscava os votos do povo com esses sinais, se colocava ao lado de apoios extremistas e reacionários, relacionados à bancada da bala e evangélica, de perfil ultraconservador até para os primórdios tucanos. Mas o PSDB abraçou de vez nesta campanha o discurso à direita e se consolida, de fato, como a força conservadora do Brasil. Os comentários xenófobos contra o Nordeste nas redes sociais só confirmam esse posicionamento.

O problema é que, desde 2003, o governo petista (e acho esse um dos erros que faz o partido e o governo se contradizer no discurso e prática) se consolidou como uma força moderada e conciliadora de classes. Alguém poderá argumentar que, se não fosse assim, o partido não conseguiria ter alcançado o Planalto, nem se mantido por tanto tempo. Isso é um fato. Mas, ao escolher participar do jogo capitalista, aceitando em geri-lo, sem levar em conta uma perspectiva de transformação, criou para si um monte de amarras que se aprofundam e ficam evidentes a cada nova eleição. Permite um arco de alianças que engloba figuras históricas do conservadorismo brasileiro, como Fernando Collor de Mello, Renan Calheiros e José Sarney, se prende a partidos sem história, focados apenas no fisiologismo do “toma lá dá cá”, ficando sempre vulnerável à corrupção e a manter-se no poder apenas pelo poder e não por um projeto político popular.

Outra coisa que o governo não fez (e aí a crítica vai mais à presidência do que só ao PT) foi fortalecer os movimentos sociais, lutar na fundamentação de uma base social ainda maior (aqui vai uma crítica ao modelo partidário atual, incapaz de trazer as pessoas aos partidos em um mundo que se preocupa cada vez mais com o próprio umbigo), que abarque estratos da classe média brasileira não apenas nos votos, mas na atuação política, que crie lideranças populares para que o projeto se fortaleça, seja aplicado e possa ser defendido durante o processo eleitoral. Ao mesmo tempo, faltou habilidade à esquerda moderada brasileira de criar condições para que novos atores da comunicação forjassem veículos que pudessem se contrapor à meia dúzia de famílias que controlam os meios de informação e, tradicionalmente, se colocam contra o modelo petista de governar, aproveitando das fragilidades das alianças de ocasião do governo para atacar as irregularidade e, por vezes, fazer o tal denuncismo, sem provas. Em outras, as provas saltam aos olhos, há de convir.

Por que tudo isso? Ora, porque não adianta depois reclamar da capa da Veja, do Merval que fala em impedimento a cada segundo, de Reinaldos Azevedos e Constantinos da vida, enfim, de campanha difamatória da imprensa tradicional burguesa se, em 12 anos de governo, não se criou uma mídia alternativa de fato, que vá além de meia dúzia de blogueiros, alguns paranóicos. Não adianta radicalizar o discurso durante as eleições de “nós contra eles”, se durante o resto do mandato os movimentos sociais são escanteados, se a militância é desmobilizada e, para se adequar aos desígnios dessa democracia de eleições, se aliar com o que há de mais conservador e se amarrar tanto que não consegue implementar avanços mais consistentes e duradouros em outras áreas. O emprego é garantido, o estudo é ampliado, o subsídio é dado, mas até um marinheiro de primeira viagem sabe que o modelo econômico voltado para o consumo está esgotado, e há quatro anos. Se não criar outra forma de crescimento e partilha dos lucros (alô, taxação de grandes fortunas!), corre-se o risco até das duras conquistas obtidas nesse período sofrerem golpes.

O processo eleitoral, como vimos, foi bastante radicalizado no discurso, sempre em busca de votos de lá e de cá. Mas é só acabar a eleição que tudo muda. Aécio foi ponderado e isso ajuda a equilibrar após uma margem tão pequena em favor de sua adversária. Só que hoje a Bolsa já caiu vertiginosamente, a imprensa tradicional está aí para fazer seu trabalho sujo, os deputados e senadores vão fazer sua oposição pautada mais em interesses do que em fazer o país andar, o governo paulista vai seguir sua cartilha anti-governo federal, dizendo-se auto-suficiente (a Sabesp tá aí para desmentir para sempre).

Do outro lado, Dilma pregou união e diálogo em seu primeiro discurso. E assim aceita o jogo político que define que tudo volta ao normal assim que as urnas decidem o futuro dos próximos quatro anos. Mas depois não vai reclamar que o MST, MTST e demais movimentos batem no governo, que a mídia traz denúncias sem fundamento ou acoberta a oposição para focar no governo. Se o seu governo não se posiciona de fato em favor de um projeto popular, se não luta por isso, se não radicaliza, vai continuar apanhando dos movimentos, diminuindo seu apoio, e apanhando da direita, a mesma que o governo aceitou dialogar. O PT precisa decidir para quem quer governar de fato nos próximos quatro anos, para que o projeto político popular perdure de fato.

Possíveis raízes do problema

Eu ia acabar acima, mas tem tanto assunto represado… Vou retomar algo que escrevi no Twitter esses dias e que, para quem me conhece há mais tempo, já deve ter ouvido falar. Ocorre que essa opção do PT pelo jogo político estabelecido dentro dos marcos do capitalismo ocorreu não com a Carta Aberta ao Povo Brasileiro, de Lula, em 2002 – isso só foi tornado público e agudizado após a vitória lulista. De fato, não houve uma guinada à direita após sua escolha para presidente. Lembrando a contribuição de Eder Sader, o PT foi forjado por três tipos de vertentes (igreja, operariado e movimentos sociais), mas escolheu o caminho do jogo de cartas marcadas já desde seu início e só ficou mais claro para si próprio após a derrota de 1989, quando movimentos trotskistas e outros defendiam a radicalização do partido, enquanto que Lula e cia., que comandavam o partido, expulsaram a ala que depois se transformou no PSTU, e ali jogou no lixo qualquer opção socialista, a bem da verdade, em um momento que o chamado socialismo real estava condenado pela história. (vale ressaltar também que isso é uma breve generalização, falei melhor disso no meu TCC, embora ainda de forma juvenil, em 2004).

Por que eu lembrei desse fato? Porque o PT carrega seu histórico de esquerda, mas é importante saber que bandeiras históricas desse campo ideológico (e que pertenceram ao petismo também) foram deixadas de lado. Então, a meta é administrar o capitalismo da melhor forma possível. E aí tem que fazer concessão para as elites. Não é a toa que o slogan do governo Lula era “Brasil, um país de todos”. A ideia era ampliar para classes menos favorecidas, mas sem descartar os que já ganham. Em campanha pró-Dilma, Lula disse há pouco que nunca o agronegócio tinha ganho tanto no governo petista.

O PT vive uma dicotomia eterna e irremediável, enquanto não se definir: em momentos de eleição, recorre a sua militância para defender aspectos populares de suas propostas, além de conservar as conquistas passadas. Mas é só vencer que desmobiliza seu “lado esquerdista” e aceita jogar o jogo das elites e a tomar porrada dessa mesma elite que depois vai ser xingada na eleição seguinte. Por mais que haja essa luta PT x PSDB, o fato de aceitar governar com o que há de pior na elite brasileira minimiza essa disputa e aproxima os dois lados. Por mais que haja propostas populares, a governança não é e isso foi enfatizado no governo Dilma, uma técnica menos afeita à política e ao diálogo com os movimentos sociais.

Se mantiver esse pêndulo pós-eleição, vai voltar a ter dificuldades para governar. Com uma Câmara ultraconservadora, as mudanças necessárias não serão feitas e será um mandato jogado no lixo, um governo travado. Mas se apostar em sustentar o discurso do processo eleitoral, arregimentar as forças de esquerda, mobilizar a população e os movimentos sociais, aliado a uma agenda econômica e social forte – como escreveu Breno Altman semana passada -, há chances de fazer frente aos tucanos e àqueles que impedem as transformações populares nesse país. Não é garantia que será fácil, pelo contrário. Mas, ao menos, é uma chance de evitar a paralisia e governar, de fato, para quem mais precisa.

Eleitos têm maior número de votos em bairros da zona sul

Publico hoje a última matéria não tão factual publicada no Agora. Assim como a do post anterior, esta entrou  no dia 21.10.12: Eleitos têm maior número de votos em bairros da zona sul. Abaixo seguem os textos completos e não editados, já que o material precisou ser reduzido para caber na página. Encerro momentaneamente estas publicações, esperando voltar em breve com novos trabalhos ou novos posts com boas notícias e algo relevante aos inúmeros e respeitosos leitores deste espaço. Até breve.

Eleitos têm maior número de votos em bairros da zona sul

A zona sul superou a zona leste e vai contar, a partir do ano que vem, com maior representatividade (do ponto de vista do número de votos) de vereadores na Câmara de São Paulo.

É o que mostra o levantamento do Agora sobre candidatos eleitos em 2008 e em 2012. O levantamento detectou em quais zonas eleitorais cada um dos 55 vereadores teve maior número de votos.

Em 2008 a zona leste liderava o ranking, com 19 vereadores eleitos mais votados na região, seguida pela zona sul, com 17. As zonas norte (10), oeste (8) e centro (1) completavam o número.

Em 2012, a zona sul deu mais votos a 21 vereadores eleitos, tomando o posto da leste, que ficou com 18, seguida das zonas norte (9), oeste (6) e centro (1).

Uma das razões verificadas para essa mudança no quadro está na percepção de que a zona leste votou de forma mais pulverizada do que na eleição anterior, enquanto a zona sul votou mais unida nos seus candidatos.

Os eleitos em redutos eleitorais na zona sul também podem ter feito um trabalho mais direcionado antes e durante a campanha na busca de votos. “Se o vereador tem mais tradição em um bairro, conta com uma rede de apoiadores e faz algum trabalho efetivo na região, às vezes tem até algum controle mais forte na região e o resultado tende a aparecer na votação. E se ele tem uma estrutura nesse local, ele vai investir mais e obter um retorno maior ali”, afirma o cientista político Claudio Couto, professor da FGV-SP (Faculdade Getúlio Vargas).

Vitórias
É o caso dos vereadores Arselino Tatto (PT) e Milton Leite (DEM), que têm redutos eleitorais na zona sul. Tatto obteve 29.151 dos 32.135 votos em Parelheiros, Grajaú e Capela do Socorro. Dos 101.664 votos de Leite, 70.426 foram registrados nos três bairros, além de Piraporinha e Capão Redondo.

Para Gilberto de Paula, membro da Rede Nossa São Paulo e diretor do Instituto Ágora em Defesa do Eleitor e da Democracia, o extremo da zona sul tem essa característica de reunir um grupo de vereadores que dividem forças e concentram a maioria dos votos. “A zona sul tem esse padrão de comportamento, são as chamadas áreas de influência com esse perfil definido”, diz. (Rodrigo Herrero)

Brasilândia se vincula a mais eleitos

A Brasilândia (zona norte) é o bairro da capital onde a população conseguiu atrelar mais vereadores a ela. A reportagem também fez um levantamento da votação para detectar as três zonas eleitorais onde cada um dos 55 vereadores recebeu maior votação, e a Brasilândia aparece na lista nove vezes.

Ou seja, nove vereadores eleitos para 2013 verão a Brasilândia como um dos bairros que mais lhe renderam votos. Indianópolis (zon a sul) figura em segundo na lista, dando votos a sete dos futuros parlamentares mais votados.  Atrás vêm  Perdizes, Jardim Paulista, Campo Limpo, Itaim Paulista, Grajaú e Piraporinha, cada um com seis vereadores mais votados.

Em relação ao crescimento da representatividade, a Brasilândia também aparece na frente, pois subiu de seis vereadores eleitos bem votados no bairro em 2008 para nove em 2012. Indianópolis manteve os sete em relação a 2008. Nos dois bairros, todos os 55 vereadores eleitos tiveram votos.

Brasilândia aparece entre os vereadores dedicados à zona norte, mas também entre os vereadores que foram bem votados também na zona sul. Em menor grau, o mesmo ocorre com Indianópolis.

É o caso do Pastor Edemilson Chaves (PP), que recebeu mais votos em Piraporinha, mas o segundo bairro no qual ele teve boa votação foi a Brasilândia. Quando o voto é desmembrado em duas regiões, é possível que o vereador, mesmo não sendo de alguma região, atue nela.

“Pode ser que o vereador tenha feito algum trabalho em cada um desses lugares, como a atuação junto a alguma associação de bairro. Mesmo que ele seja de outra região, ele vai amealhar votos ali”, explica o cientista político Claudio Couto, professor da FGV-SP (Fundação Getúlio Vargas). (RH)

Quatro bairros de SP ficam fora da lista

Quatro bairros não tiveram nenhum dos vereadores eleitos entre os mais votados em suas zonas eleitorais nestas eleições. São eles: Vila Maria, José Bonifácio, Jardim São Luís e Cidade Ademar.

José Bonifácio, inclusive, já havia ficado sem nenhum vereador entre os mais votados nas eleições de 2008.

A principal novidade é a Vila Maria, que tradicionalmente ajuda a impulsionar a eleição de Wadih Mutran (PP). No entanto, neste ano, apesar de ter sido novamente o mais votado no distrito, com 13.742 votos, o vereador, que há 29 anos está na Câmara, não foi reeleito (ficou em 56º).

Já Cidade Ademar e Jardim São Luís, que tinham, respectivamente, dois e um vereador entre os mais votados em 2008, ficaram sem nenhum representante direto em 2012.(RH)

PT vai ter que negociar com o “centrão” para aprovar projetos na Câmara

No último dia de cobertura das eleições no Agora São Paulo, uma das matérias que foi publicada foi essa daqui abaixo. Não tem link no site porque não foi a matéria principal da página, embora tenha recebido um espaço significativo. A seguir eu coloco no blog a versão inteira, até com um parágrafo sobre oposição, que não entrou no jornal por falta de espaço.

PT vai ter que negociar com o “centrão” para aprovar projetos na Câmara

O prefeito eleito Fernando Haddad (PT) não deverá ter problemas para governar a cidade de São Paulo nos próximos quatro anos. Mas vai ter que negociar com o chamado “centrão” para formar a maioria na Câmara Municipal e ter uma vida mais fácil na aprovação de projetos para a cidade.

Os partidos que formam o arco de alianças eleitoral (PT-PP-PSB-PC do B) somam 16 vereadores. Caso essa aliança se confirme em apoio em 2013, Haddad precisará de pelo menos mais 12 vereadores para configurar maioria absoluta na Câmara. Para isso, deverá consolidar no plano municipal a aliança federal com o PMDB e negociar o apoio de partidos menores, como o PR, PV e PRB, que poderão ser o fiel da balança nestas eleições.

“O centrão é um grupo que se reelegeu de maneira expressiva, com alguns entre os mais votados. É um grupo que está fortemente representado e tem fortes características governistas. Mas vai ser preciso demonstrar habilidade para lidar com esses vereadores”, avalia o cientista político Humberto Dantas, professor do Insper.

A dúvida fica por parte do PSD, partido do atual prefeito Gilberto Kassab, contará a partir de 2013 com uma bancada de sete vereadores e pretende reunir os partidos menores em torno de si para poder fortalecer o “centrão”. O partido, que apoiou o candidato derrotado José Serra (PSDB), deverá ser cobiçado para fazer parte da administração municipal.

“O PSD é uma incógnita. Embora o PSD seja aliado de Geraldo Alckmin [PSDB] no Estado de São Paulo, no plano federal eles são mais fieis à presidente Dilma Rousseff”, diz o professor do departamento de política da PUC-SP, Pedro Fassoni Arruda.

Dantas crê que Kassab deverá manter o perfil governista do partido. “O PSD tem grandes possibilidades de fechar com o Haddad. O Kassab está flertando com o PT não é de hoje, só não fechou com o Haddad porque Serra foi candidato”, diz.

Já a oposição terá vida difícil. Com nove vereadores, o PSDB deverá sofrer para compor uma bancada oposicionista forte, que ajude a brecar o ímpeto do Executivo dentro do Legislativo.

“O PSDB e o PPS foram aliados nesta eleição, o que não significa que permanecerão coesos. Além disso, dentro do PSDB tem alguns vereadores identificados ao Serra e outros ao Alckmin, o PSDB está bastante dividido. Se continuar essa cooptação do PSD é provável que ocorra troca de partido durante a legislatura”, afirma Arruda. (Rodrigo Herrero)

Ps: Nos próximos dias eu vou desovar os demais textos publicados no jornal nesse período eleitoral, em especial as matérias especiais. Porque tem uns que tiveram o prazo de validade vencido e nem faz mais nexo colocar aqui. No jornalismo é assim, o que saiu num dia já mudou para o dia seguinte.

PT e a Social-Democracia – Parte IX – Final

E para encerrar a publicação do livro-ensaio “O PT e a Social-Democracia: de um programa de ruptura à administração do capitalismo”, escrito por mim em 2004 como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo – saiba mais sobre esse projeto clicando aqui –, publico dois anexos que acho interessantes, pois são relatos de um encontro do PT em Mogi das Cruzes que teve a presença de José Genoino, que mandava muito a época, em uma reunião que declarava interferência do diretório nacional do PT sobre a escolha do candidato do partido na cidade. Mostra bem como o PT atua de forma ditatorial dentro de suas entranhas para impor os interesses do grupo majoritário.

O outro texto é um relato sobre os meus dias em Brasília, quando tive a oportunidade de entrevistar algumas pessoas, conhecer outras e tomar vários “nãos”  É bacana para conhecer um pouco dos bastidores da produção jornalística e me lembra com satisfação e nostalgia daqueles três dias assustadores na capital federal. Boa leitura e fim de papo sobre o PT. Foi um prazer trazer esse assunto à tona e espero que ajude as pessoas a entender melhor o contexto que envolve o partido e a ter discernimento na hora de votar ou mesmo de cobrar os seus eleitos. E que a gente possa fazer algo para realmente mudar esse estado de coisas, que melhorou um pouco, mas, como o livro mostrou, preferiu-se administrar o capitalismo e ceder às suas ordens do que buscar uma nova alternativa e lutar por ela. Até a próxima!

Anexo 04: Mogi das Cruzes[1]

 

Para entender a questão das alianças dentro do PT, como em um partido qualquer, mostraremos um caso a seguir ocorrido no PT de Mogi das Cruzes, região metropolitana de São Paulo, que pretendia lançar candidatura própria na cidade, mas foi impedida pelo Diretório Nacional do partido, na pessoa do Presidente Nacional do PT, José Genoino Neto, para dar lugar a uma aliança PT-PL, solicitada por este segundo partido, que é aliado nacional do PT e tem no presidente da legenda, Waldemar da Costa Neto, um morador de Mogi das Cruzes, com interesse na eleição de um representante do PL.

Ele alegou à época que cedeu três capitais (Porto Alegre, São Paulo e Recife) para o PT e desejava uma compensação com o apoio do PT ao PL em Mogi. “Abri mão de muita coisa em respeito á aliança nacional que temos com o PT. Em Porto Alegre, por exemplo, o Diretório Municipal queria ir com o PDT, mas eu interferi para que fechássemos com o PT, desconsiderando, inclusive um apelo pessoal de Leonel Brizola”, disse Costa Neto para o Diário de Mogi.

No dia 22 de junho, o jornal Diário de Mogi publicou uma reportagem de nome “PT nacional insiste em aliança”, que dá conta sobre uma resolução do PT nacional recomendando que o Diretório Municipal do PT de Mogi das Cruzes fizesse a aliança com o PL, retirando a candidatura própria do sindicalista Iduigues Ferreira Martins, que havia sido confirmada na convenção municipal do domingo anterior (20). Pedia também que o PT local conversasse com seus aliados PV, PC do B e PSB para unir forças junto ao PL. No dia 19 Genoino já tinha ido até Mogi para fazer um apelo aos petistas da região que desistissem da candidatura própria, movendo forças para eleger o deputado estadual Luís Carlos Gondim, do PL, para prefeito.

A resolução citada foi lançada após a reunião ocorrida na segunda (21) na sede da Executiva nacional, na Sé, região central de São Paulo, em que estipulou-se que uma comissão especial seria criada para acompanhar a aliança com o PL em Mogi, formada por: Genoino, pelo líder do PT na Câmara Federal, Arlindo Chinaglia, pelo secretário nacional de Formação Política, Joaquim Soriano e pelo secretário nacional de Mobilização, Francisco Campos.

Leia abaixo a “Resolução da Comissão Executiva Nacional” na íntegra, publicada no Diário de Mogi em 22/06/2004.

“A Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) decide:

1 – O Diretório Municipal do PT de Mogi das Cruzes deve fazer aliança com o Partido Liberal (PL), retirando a candidatura própria e abrir entendimentos com o PV, PC do B e PSB para compor a coligação com o PL.

2 – Propor a realização de uma plenária municipal do PT para encaminhar a posição da Executiva nacional.

3 – A Executiva Nacional através de uma comissão instituída no dia de hoje acompanhará a implementação desta resolução.

4 – A tática eleitoral em Mogi das Cruzes está sob responsabilidade da Executiva Nacional para todos os encaminhamentos.

São Paulo, 21 de junho de 2004.

Comissão Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores”

Em entrevista publicada no Diário de Mogi em 23 de junho de 2004, Genoino diz que a resolução “é uma decisão política para o fortalecimento do Partido dos Trabalhadores”. Ele leva em consideração o apoio do PL em cidade “muito importantes” como as colocadas acima e outras como Guarulhos e Araraquara e por isso, recomenda que o PT se alie ao PL. “Precisamos reconhecer o apoio que recebemos do Valdemar (Costa Neto) em outras cidades. O deputado fez um grande esforço para convencer seus correligionários a abrir mão de suas pretensões pessoais para compor e ajudar o Partido dos Trabalhadores. Agora é a nossa vez de retribuir. A política é assim.”, afirmou.

Genoino chega a colocar na entrevista que essa aliança não enfraquece o Tt, pois pode fazer uma “ampla chapa de esquerda”, para derrotar o PSDB que hoje governa a cidade”. “Precisamos superar certas divergências em nome da tática nacional adotada pelo Partido dos Trabalhadores, que governa o Brasil”, reforçou. O repórter perguntou se havia alguma possibilidade de intervenção no PT de Mogi, caso o diretório municipal não acate as recomendações do Diretório Nacional, eis que Genoino respondeu: “Nada é impossível, embora a questão não esteja posta na agenda. Vou lutar até o último minuto para viabilizar a aliança com o PL. Iremos esgotar as vias amigáveis e, antes que elas cheguem ao fim, aposto no bom senso do PT de Mogi das Cruzes e no apoio do Diretório Municipal à nossa tática nacional”, concluiu.

Já Iduigues Ferreira Martins, candidato pelo PT em Mogi das Cruzes, considerou não abrir mão de sua candidatura para favorecer o PL, alegando que o pleito foi conquistado de “forma democrática, como manda o Estatuto do partido”. Iduigues afirma que Mogi também é importante e questiona a relevância do PL para a vitória nas eleições. Iduigues não acreditava numa possível intervenção, principalmente após as reuniões com a Comissão Executiva Nacional e a posição reforçada dos correligionários de Mogi contra a aliança.

“Não há como decretar intervenção sem desrespeitar o Estatuto do Partido. Essa possibilidade só pode acontecer caso não se cumpram as regras internas e nós a cumprimos rigorosamente,”  falou,a creditando na sua força de segurar o diretório local nessa oposição á direção nacional: “Claro que tenho força. Já defendi minha posição na frente do próprio presidente do partido, no sábado passado, e vencemos por unanimidade”, encerrou.

No dia seguinte (24/06) a matéria “PT quer convencer filiados” aparece o deputado federal Ivan Valente a criticar uma possível intervenção no PT de Mogi das Cruzes. “Caso ocorra uma intervenção, o Genoino estará estuprando o Estatuto do Partido dos Trabalhadores. Será uma violação á soberania da cidade”, disse. Valente concordou com a posição do diretório municipal em resistir a pressão: “A relação que eles querem impor em Mogi é puramente fisiológica. O ‘seu’ Valdemar Costa Neto é malufista e não merece crédito”, afirmou. A presidente municipal do partido, Ana Maria de Paula, disse à época que resistiria ao assédio, creditando a culpa a Costa Neto e não a Genoino: “Esse negócio de querer impor sua vontade goela abaixo dos outros é um jeito ultrapassado de fazer política. Vamos lutar até onde tivermos forças”, bradou.

Na matéria “Novo não. E Genoino deve intervir” publicada em 27 de junho (domingo) abordava a plenária ocorrida no dia anterior em Mogi para decidir a questão. Os 150 filiados ratificaram a decisão do diretório municipal, mesmo com Genoino presente tentando convencê-los do contrário, alegando que a questão das alianças é resolvida pelo PT de forma nacional: “É preciso compreender que o PL está nos apoiando em 22 capitais de Estado onde somos cabeça de chapa. Portanto, é legítimo que eles queiram algo em troca. Peço esse sacrifício para vocês, olhando olho no olho”, discursou.

O jornalista que vos escreve esteve presente a plenária e viu um Genoino muito vaiado em diversas passagens, com a platéia indignada e criticando a aliança com o Costa Neto, “cuja família domina esta cidade há mais de quatro décadas”, como disse a presidente municipal Ana Maria de Paula. O debate esquentou com as críticas de Ivan Valente e os argumentos políticos de Genoino sobre a discussão ser em torno apenas de projetos, idéias e objetivos. Iduigues criticou a decisão do PT nacional a respeito, dizendo: “Genoino, respeito muito a sua biografia. Admiro a sua luta no combate à ditadura e suas prisões em nome da democracia. Lembre-se entretanto, que as suas digitais ficarão impressas nesse golpe que o partido vai sofrer caso haja intervenção”, lamentou.

Não deu outra. Na matéria publicada em 29 de junho (terça-feira)o Diário de Mogi fala da intervenção executada pelo PT nacional em Mogi das Cruzes. A Executiva Nacional se reuniu no dia anterior e decidiu, por 10 votos a 2, que o PT local desista da candidatura própria e se alie ao PL. Genoino declara à reportagem do jornal que a decisão faz parte de um acordo entre os partidos: “Apesar de uma divergência com o Diretório Municipal em Mogi, nós fizemos reuniões para que os companheiros fizessem o acordo com o PL. Como isso não foi possível, a Executiva tomou essa decisão e vai tomar todas as medidas estatutárias para apoiar o PL”.

A resolução apresentada pela Executiva apela para o artigo 147 do Estatuto do PT, que garante às instâncias superiores anular os resultados e atos deliberados nas convenções. Isso porque, a decisão do referendo de Mogi à candidatura de Iduigues foi feito no dia 20. No dia 1º de julho saiu uma nota no Diário de Mogi que traz o advogado do Diretório Estadual do PT em São Paulo, reafirmando essa postura, já que Iduigues havia dito no dia anterior que sua candidatura estava mantida. O advogado Hélio Silveira enviou uma retificação de ata à Justiça eleitoral para retirar a candidatura de Iduigues e colocar no lugar a aliança com o PL: “Já está tudo acertado e não há mais o que falar. O PT de Mogi vai se coligar com o PL porque assim decidiu a direção nacional do partido”, justificou. Quanto as punições aos membros do diretório mogiano por tentarem manter suas posições, Silveira explicou: A senhora Ana Paula e o senhor Iduigues irão arcar com as conseqüências desse ato. Quais conseqüências? Serão desautorizados”, encerrou.

Anexo 05: Relatos de Brasília[2]

A viagem só foi confirmada na sexta-feira dia 10, com alterações nos horários das entrevistas: dia 14 às 11h00, com o deputado Babá e no dia 15 às 12h00, com a deputada Luciana Genro. Eram essas únicas confirmações, além das promessas de assessores para falar com a senadora Heloísa Helena e com o senador Eduardo Suplicy. Dia 13 é a data da viagem. Depois de trabalhar o dia todo com a cabeça longe, preocupado em o que perguntar aos entrevistados, bate 16h00 no relógio. É hora de partir para a rodoviária.

Minha mãe aguarda na rodoviária do Tietê para entregar as malas e me acompanhar até o ponto de partida. A expectativa toma conta e às 17h30 o ônibus parte. Uma alegria imensa toma conta de mim em meio ao trânsito da Marginal Tietê. Durante a viagem, leituras para me interar do assunto, além de aprontar a pauta da primeira entrevista numa folha de caderno, entre os solavancos das estradas brasileiras. Por sorte a poltrona vizinha estava solitária e tive um pouco mais de “folga”.

Um cheiro terrível vinha do banheiro do ônibus e impedia a concentração e o sono, mas tudo bem, o céu está repleto de estrelas… Após 14 horas de viagem e três paradas em Pirassununga (SP), Uberaba (MG) e Catalão (GO) chegamos em Brasília (DF) com uma ansiedade enorme saída pela minha boca. Por sorte uma amiga mineira que mora na cidade me buscou na “Rodoferroviária” (o local possui este nome pois abriga também uma ferroviária, esta, abandonada) e me levou a pensão de Dona Ira, uma senhora muito simpática, que me acolheu por três dias em sua casa. Após banho, café da manhã e troca de roupa eu estava transformado: Do jeans, da blusa de moletom e do tênis ficaram a  calça e camisa sociais, blazer e gravata, todos pretos.

Eram 10h00 quando resolvi me encaminhar até a Esplanada dos Ministérios. Sem problemas para achar o ônibus, a dificuldade foi encontrar o Anexo III, onde está localizado o gabinete do deputado Babá, o primeiro da lista. São vários prédios e anexos, o que dificulta localizá-lo. Cheguei no gabinete cedo e me pediram para aguardar um instante. “Pode entrar”, disse Flaviana, uma das secretarias. Encontro Silvia, a assessora mais próxima do deputado e o próprio, de camisa azul clara e indefectível bigode. Silvia nos deixa a sós e assim, fico frente a frente com o homem.

Um início tímido: algumas palavras e olhar sério dele e começamos, enfim. A conversa fluiu em mais de uma hora, com Babá muito solícito e falante, respondendo a todos os questionamentos, abordando a história do partido, foi um daqueles bate-papos longos e gostosos, com o interlocutor falando e o receptor apreciando as informações ouvidas. Após esse tempo todo a assessora Silvia aparece e pede para encerrarmos, peço mais 15 minutos. Ela faz cara feia, eu peço 10 e ela autoriza. Voltamos a entrevista, faço mais umas três perguntas e dou a conversa por encerrada. “Tem mais pergunta aí?”, diz Babá, olhando para o meu caderno de anotações. “Até tem algumas aqui”, respondo timidamente. “Pois então faça rapaz”, ordena Babá. Com isso, ficamos mais uns 10 minutos além do tempo permitido e mais umas 5 perguntas foram realizadas e a entrevista termina num clima amistoso. Saí de lá com a sensação de dever cumprido. Mas a batalha apenas começava.

Babá informou de uma reunião de setores de esquerda da CUT e outros movimentos sindicais, para debater as reformas sindicais e universitárias. Eu estava morrendo de fome, sem lugar para comer na Esplanada (só fui descobrir uma lanchonete no Senado Federal no 2º dia) e rumei para o auditório. Liguei para Antônio Jacinto, um dos assessores da senadora Heloísa que me confirmou que ela estaria lá. Antes, falei com Rosa, assessora do senador Suplicy, para ver a possibilidade de uma entrevista: “Vem aqui lá pelas 14h30 que ele deve passar por aqui nesse horário”, afirmou. Cheguei ao auditório e vi Babá, Genro, José Maria e Ivan Valente (“minha chance”, pensei), mas nada de Heloísa. Confundi-a com uma mulher, mas deu tempo de evitar a gafe de chamá-la.

Assisti o debate por uma hora, até me cansar e ver valente sair. Dirigi-me até ele que me atendeu, dizendo, porém, ser impossível falar naquele momento, pedindo para conversar com a assessoria que talvez arrumassem um horário à noite. Já estava perdido mesmo resolvi conversar com o Zé Maria, que estava sentado numa ponta do salão, prestando atenção no discurso dos sindicalistas. Ele aceitou conceder uma entrevista e assim, trocamos telefones e marcamos a conversa posterior para São Paulo. Ufa! Algo positivo, enfim.

Heloísa não apareceu na reunião e resolvi ir atrás do Suplicy. Depois de esperar uma hora o senador apareceu: sujeito alto e sério avistando no corredor. O interceptei antes que entrasse, pois tinha reunião com uns senhores que entraram logo antes dele. Expliquei o que desejava e ele nem sabia que eu existia, pois a assessora dele, Rosa Wasem, não teve tempo de falar sobre meu trabalho: “Não consigo falar com ele desde hoje cedo”, desculpou-se. Ele aceitou conversar, mas não naquele momento, pois ele tinha compromisso no Congresso e no dia seguinte viajaria à Barcelona, podendo dar certeza de conversa no dia 27, após sua volta de viagem (fiz contato por telefone duas vezes, sem retorno de contato): “Mesmo assim, passe aqui amanhã à tarde que a gente tenta ver um horário”, disse o senador.

Feito isso resolvi passar no gabinete da senadora Heloísa para deixar algum recado para seu assessor. Passei também na liderança do Governo no Senado que era ao lado para tentar falar com o senador Mercadante. Recebi um atencioso “te ligo amanhã” de um de seus assessores, o Fábio Gramer, e me retirei daquele lugar repleto de jornalistas sentados no chão em meio a câmeras e luzes, aguardando alguma “bomba” vinda do governo naquele período morno de esforço concentrado no Congresso Nacional em que nada acontecia, nenhum projeto polêmico era votado (era época da votação da Lei de Biossegurança que tratava dos transgênicos e foi adiada na época por falta de quórum).

Na volta dei de cara com a senadora Heloísa: “Será que é ela mesmo?”, desacreditei. Com uma blusa branca e curta, calça jeans e tênis e rabo de cavalo no cabelo… só podia ser ela! Heloísa estava ao celular e conversava, eu dei um “olá” para ela e resolvi acompanhá-la na caminhada. Quando ela desligou eu me apresentei e pedi uma conversa, prontamente respondido por ela: “Me liga neste celular aqui que eu retorno para você a ligação. Mas deixa recado que aí eu retorno”, falou. Saí feliz de lá, apesar da fome, eram 16h00. Passei na Casa Civil para tentar conversar com o assessor Ralph Lima que negou uma entrevista com o ministro José Dirceu, mas fui impedido de entrar no local. “Ele está numa reunião e como você não tem horário marcado ele não vai falar com você”, respondeu um dos cinco brutamontes que fica na porta, após entrar em contato com a sala do assessor.

Resolvi sentar num banco atrás da Esplanada e aguardar o horário de tentar uma entrevista com o deputado Valente, como seu assessor Marcos havia me dito por telefone. O Sol batia forte àquela hora e eu me sentia morto de cansaço, faminto, mas feliz. Fui até o gabinete de Valente, mas nada obtive de positivo: “Passa amanhã que talvez consigamos um espaço na agenda, mas ele viaja amanhã a tarde, vai ser difícil”, reconheceu o assessor. Fim do dia, hora de voltar para a pensão.

Segundo Dia. Resolvi ler o jornal Correio Braziliense do dia e fiquei aprontando a pauta de entrevista com Luciana Genro, pois o dia já me parecia folgado. Acabei chegando atrasado na entrevista com a deputada. A entrevista transcorreu tranqüilamente, com toda a normalidade desejável. Mesmo assim, talvez por eu não ter acordado bem, não estava num bom dia, só sei que não me sentia à vontade como no dia anterior. Mesmo assim, a deputada propiciou falas importantes ao meu trabalho.

Saí de lá sem chance de falar com Valente e Suplicy, pois ambos estariam para viajar e não teriam tempo para uma entrevista. Resolvi ligar para as assessorias de Heloísa e Mercadante, mas, na primeira o assessor José Antônio alegou problemas pessoais da senadora e o segundo assessor alegou “agenda lotada” de Mercadante, passando o contato de São Paulo para tentar um possível contato com sua assessoria paulistana (fiz também dois contatos, sem sucesso no retorno). No meio disso tudo passava pelas plenária da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, onde percebemos quem governa para quem.

Já sem muito espaço e entusiasmo o dia acabou só restava esperar a quinta-feira à noite para pegar o ônibus rumo de volta à São Paulo. Já sem esperança alguma na quinta, recebi novos “não” das assessorias, resolvi conhecer o shopping e a catedral locais e juntar material par ao livro, já que estava sem dinheiro até para almoçar. Era o fim da jornada à Brasília, repleta de alegrias, frustrações e resignações, como é a profissão de jornalista, satisfatória, no final das contas.


[1] Este relato sobre o processo de intervenção da Executiva Nacional do PT sobre o diretório municipal do PT de Mogi das Cruzes serve como compreensão da tática eleitoral do PT nacional e suas atitudes em prol de seu projeto político.

[2] Este relato é um lazer no meio de um livro teórico e serve como Diário de Bordo de Brasília, bem como perceber a tentativa de contato com parlamentares no Congresso Nacional. O texto faz parte, também, da compreensão de como é o jornalismo, razão deste trabalho.

PT e a Social-Democracia – Parte VIII

Hoje publico a conclusão do livro-ensaio “O PT e a Social-Democracia: de um programa de ruptura à administração do capitalismo”, escrito por mim em 2004 como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo – saiba mais sobre esse projeto clicando aqui. Aqui, as últimas reflexões a respeito da pesquisa e deste trabalho de fôlego realizado durante a graduação de Jornalismo. Publico também a bibliografia como referência. Amanhã continuo a publicação deste trabalho com os anexos, que são importantes para compreender o todo do processo. Vamos às reflexões finais.

 

Considerações Finais

 

Após toda essa viagem pela social-democracia no mundo e pelo Partido dos Trabalhadores no Brasil, perscrutando desde seus programas e documentos até ex-membros do quadro petista, expulsos ao longo da trajetória do partido por manter a defesa das idéias e ideais de suas correntes políticas dá para ter uma medida interessante dos acontecimentos que levaram o PT a abandonar seu programa de ruptura com o capitalismo, para um programa que administre as crises deste sistema.

Só para servir como base de análise, o PT nasceu, como vimos, numa eclosão de movimentos populares no Brasil no final da década de 70, especificamente na região metropolitana de São Paulo, em que a população lutava por melhorias em suas vidas, já cansadas de anos de repressão da ditadura militar que vigorava naqueles tempos. O PT teve o mérito de aglutinar essas forças dispersas e diversas na construção de um partido inicialmente classista, composto por matizes diferentes, baseadas em setores progressistas da Igreja Católica, operários sindicalizados, expressões do “novo sindicalismo” mencionado no capítulo terceiro deste compêndio, e setores da esquerda revolucionária da década de 60 e 70 que foram derrotados em sua perspectiva de luta armada pelo regime militar.

Essa composição de forças políticas dentro do PT davam ares de diversidade e democracia, pois era permitido a entrada de elementos diferentes do pensamento da oposição de esquerda brasileira. Ocorre que, ao mesmo tempo que isso existia, o grupo dirigente sempre esteve em  torno de Lula e seus próximos, que depois iria criar a tendência Articulação para deixar muito claro o posicionamento político desses membros perante o rumo do PT. Isso dá a mostra exata que, numa análise mais qualificada da história do partido, este não mudou em nada suas intenções. O que havia dentro do partido eram diversas tendências à esquerda que seguravam o ímpeto da Articulação em colocar seu conservadorismo à prática cotidiana. “Não que Lula tivesse uma idéia diferente da que ele tem hoje, ele sempre teve essas idéias atrasadas”, coloca José Maria. Para Arcary, eles conseguiram aproveitar o bom momento da concentração das lutas para formar o partido:” Eles se aproveitaram, mas aí, aproveitar-se no melhor sentido da palavra, deram um passo em frente, assumiram uma responsabilidade e foram beneficiados por isso”, declara.

Ao passo que os anos foram passando, o setor dirigente passou a minar a democracia interna, justamente para tirar o pouco poder de voz que a base tinha para discutir os rumos do partido e tirar a mobilidade da esquerda dentro do PT de questionar os posicionamentos políticos da ala conservadora e dirigente do partido. Isso começou a afastar as bases do partido, pois elas passaram a não ter mais como se posicionar dentro do partido, a não ser a favor dos grupos dirigentes.

Já no princípio havia o que Keck (1991)[1] chama de dubiedade na postura do PT, ao querer ganhar as eleições de 1982 e, ao mesmo tempo, dizer que as eleições eram momento de mostrar ao público suas idéias e o que a burguesia fazia com o país. Esses “dois lados” sinalizam, na verdade, a ausência de um encaminhamento de compromisso voltado a propagar as idéias do socialismo[2] para um imperativo que era ganhar as eleições. A partir do momento que isso se intensificou, principalmente após as eleições presidenciais de 1989 – que ainda tinha um programa totalmente a esquerda –, quando o PT sentiu que poderia ganhar essa eleição no país, foi abandonado o debate teórico e a mobilização cotidiana em torno da luta por um governo socialista que rompesse com o capitalismo e trouxesse participação popular nesse meio. É aí que precisa ficar clara a questão central de todas as mudanças ocorridas: quando o PT deixou o debate de lado e concentrou seus esforços em torno de um projeto político de vencer as eleições presidenciais, estava selada a opção do partido em gerir as crises do sistema e não modificá-lo. Essa mudança apresentada é uma alteração do objetivo do Partido dos Trabalhadores enquanto partido de massas, voltado para os trabalhadores, para um partido da ordem burguesa, que respeita e defende ativamente esse sistema[3].

Esse fato central faz todos os outros acontecimentos virem na carreira deste. Por exemplo, se a meta do partido é ganhar as eleições, logicamente é necessário que se amplie o arco de alianças para setores da burguesia, no caso o PT fez isso com setores ditos “progressistas” do PMDB, com o PDT e PSB, partidos chamados de centro-esquerda. Isso nas eleições de 1994 e 1998. Hoje em dia o PT abriu de vez o caminhão das alianças e está coligado com o PL, em que um empresário é vice-presidente da nação, sem falar nas conversas com Antônio Carlos Magalhães, homem dos tempos da ditadura e influente político da oligarquia da Bahia, do Nordeste e do Congresso Nacional, certamente.

Outro exemplo é o partido precisar mudar seu programa para atender a seus anseios de vencer as eleições. Claro que um programa que diz que os grandes latifúndios serão derrubados para dar terra para a população, que diz que o pagamento da dívida com o FMI será suspenso e que continha um pensamento, mesmo que vazio de sentido, de implantar o socialismo no país – como constava no programa de governo de 1989 – não poderia fazer aliança com ACM, Sarney e “aliados”. Para ter o apoio de velhas oligarquias da burguesia e vencer as eleições e governar com tranqüilidade no Congresso era necessário suprimir essas “maluquices” do programa, em prol de um governo “para todos”, como o programa de governo de 2002 prega.

Ou seja, para conseguir atingir este objetivo desejado pelo grupo dirigente do partido, tais concessões eram vitais. Mas fica uma pergunta no ar: como que eles conseguiram fazer tudo isso, afinal, o partido tinha uma base social apoiada na classe trabalhadora, nos movimentos sociais, que lutaram tanto tempo contra essa burguesia que está aliada ao PT hoje? Bem, para conseguir isso a ala conservadora precisou “aplastrar” a esquerda dentro do PT e afastar as bases, convocando-as somente nos períodos de eleição para legitimar o projeto político que eles tinham escolhido.

E como foi feito isso? Primeiro com a eliminação da democracia interna, já mencionada. Outro fato foi eliminar os dissidentes que faziam críticas a essa ´mudança no projeto político. E assim foi feito, como vimos, quando da expulsão da Convergência Socialista e da Causa Operária em 1992, após divergências intermináveis entre os membros dessas tendências (entre eles três entrevistados, Babá, Arcary e José Maria, os dois últimos saíram junto com a tendência). Sem contar na expulsão dos deputados Babá, Luciana Genro e da senadora Heloísa Helena, por votar contra o governo numa questão que incidia na taxação dos inativos e na oposição sistemática que os três faziam à mudança de postura do partido.

Ocorreu também um esvaziamento do debate interno sobre o partido, a ponto dos encontros serem realizados apenas entre os delegados, em que as pessoas iam apenas para votar na chapa de sua preferência e o debate praticamente inexistia, como citado por Babá e Genro no capítulo anterior. Isso mina toda e qualquer forma da base pressionar sua direção. Se não há debate ou espaço para falar, não há como modificar o projeto. Sem falar no também mencionado problema de pessoas filiadas pelos programas sociais que iam no dia da votação para votar no candidato que as filiou e deu algum benefício, como um cargo na burocracia burguesa, como relatado pelo Babá na entrevista.

Isso reflete a outro ponto de “degeneração do partido”, como colocou Babá, que a institucionalização do PT e a sua conseqüente burocratização, tanto partidária quanto governamental. Expliquemos melhor: Com a mudança do projeto político para a vitória nas eleições e todos os intentos destinados a isso, o PT passou a ganhar prefeituras (exemplo clássico e a vitória na cidade de São Paulo de Luiza Erundina, hoje no PSB) em diversos municípios e, também, obter cadeiras em Assembléias Legislativas e no Congresso Nacional, o que fez com que o partido contasse com mais pessoas na máquina estatal. Ou seja, muitos elementos que faziam parte dos quadros do partido ascenderam a essa burocracia, através de assessoria de parlamentares, vagas em comissões, conselhos, como já citados exaustivamente no capítulo anterior. E isso levou a uma institucionalização do PT à ordem burguesa, que pressionava o partido a se adequar as suas normas para permanecer nesses postos, ou, como Valeiro Arcary afirmou, “Enquanto se privatizava a economia, o Estado brasileiro estatizou o PT”.

Isso leva a uma outra situação que reflete nessa mudança ocorrida no Partido dos Trabalhadores: a base social. A base social do PT nasceu dos operários, dos movimentos sociais, bem como de ex-guerrilheiros, membros da esquerda revolucionária brasileira de décadas anteriores e tudo isso refletia na postura do partido e em seu programa nos primeiros anos, afinal, a base e a militância ativa ainda tinham espaço para se manifestarem. Com o maior controle exercido pelo grupo dirigente e a institucionalização do PT, os setores que aceitaram o projeto político de governar o capitalismo – os que não aceitaram foram expulsos, como escrevemos há pouco – imposto pelos eixos mais conservadores e permaneceram nos quadros do partido acabaram se diluindo dentro da burocracia petista dos governos, ascendendo a esses cargos da máquina burguesa, fato que mudou parte da base social, ou, pelo menos seu caráter, no sentido de profissão, já que ela não vinha mais da classe trabalhadora e sim da burocracia sindical ou do funcionalismo público.

Outro ponto que indica a alteração dessa base é o afastamento das bases provocado pelo próprio grupo dirigente, que gerou um distanciamento dos movimentos populares, descontentes com a atuação do partido, principalmente agora, em que o governo faz enfrentamento constante com esses movimentos que sempre tiveram o PT como aliado. Hoje a base que sustenta o PT não vem dos setores mais organizados e conscientes da sociedade e sim das partes mais exploradas e abandonadas e de setores da classe média, como acredita Babá.

Por tudo exposto acima a hipótese de nosso trabalho foi respondido a contento de que o partido mudou seu objetivo, colocando a tática eleitoral como estratégia principal de seu projeto político e, para por isto em prática ampliou as alianças com a burguesia e mudou ao menos boa parte de sua base social para uma base que apóia os rumos tomados pela direção do partido, que, ao nosso ver, conseguiu sobrepor as demais tendências e impôs seu plano político de conquistar o governo pelas eleições.

Por final, essa mudança do objetivo do partido mostra sua ligação intrínseca com os partidos social-democratas europeus que também nasceram da classe operária, tinham propostas de modificação do sistema e, com o passar dos anos e suas vitórias e derrotas nas eleições burguesas de seus países acabaram se aliando com outros setores da sociedade para conseguir vencer o pleito e colocar seu programa para funcionar. Esse debate não termina por aqui, obviamente, mas é uma tentativa de resposta que pretende dar um rumo na compreensão do fenômeno da social democracia no mundo, e em particular, no Partido dos Trabalhadores.

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[1] KECK, Margaret. PT A Lógica da Diferença. São Paulo: Ática, 1991.

[2] Para Arcary o PT nunca teve uma estratégia socialista e por isso, seus dirigentes discutiam pouco o tema, deixando para a esquerda essa tarefa: “Havia uma duplicidade entre o PT oficial, entre o PT real e o PT dos documentos. A duplicidade é um comportamento de simulação em que você tem pra dentro um discurso e pra fora outro. Então havia um discurso para dentro que era um discurso socialista, anti-capitalista, com variações evidentemente, e pra fora um discurso democrático radical, com umas tinturas igualitaristas”, afirma.

[3] Além das derrotas da classe trabalhadora, já citada por Arcary neste livro, outro ponto que pode explicar esse fenômeno é uma adequação da direita às políticas de esquerda, ou seja, uma maior aceitação da esquerda na burguesia. “Uma razão é que a política do imperialismo mudou. A política depois de Carter, a estratégia de Washington depois de Carter é uma estratégia de integração da esquerda dentro dos regimes democráticos. Dentro dos regimes democráticos significa aceitando os limites da sociedade como ela funciona, aceitando que essa sociedade funciona assim. Que o papel da esquerda não é o de mudar a sociedade, mas administrá-la melhor possível. Administrá-la com menos corrupção, ou com uma taxa de corrupção mais baixa, com mais eficiência”, diz.

PT e a Social-Democracia – Parte VII

Nesta quarta-feira publico a segunda parte do quarto capítulo do livro-ensaio “O PT e a Social-Democracia: de um programa de ruptura à administração do capitalismo”, escrito por mim em 2004 como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo – saiba mais sobre esse projeto clicando aqui.

Esse trecho aprofunda as questões internas do PT, as tendências partidárias internas que se puseram a disputar espaço e a perderem ou vencerem no contexto político do partido, a participação cada vez menor da base, alijada das decisões do partido, o que fez a base social perder ligação com o partido, se afastar e até ser modificada, entrando em seu lugar grupos menos entusiastas e mais mecânicos, com perfis mais de acordo ao grupo majoritário que foi, aos poucos, dominando o partido e o faz até hoje.

O que nos fez perguntar do possível surgimento de uma nova classe social, aproveitando conceitos de estudiosos como Francisco de Oliveira, quando os petistas alcançaram o governo. E o maior questionamento, na verdade, uma constatação, é quanto a tornar a tática eleitoral para se alcançar o poder em uma estratégia única, abandonando todo o objetivo esquerdista e socialista incutido na história inicial do partido. Acredito que a leitura deste debate é muito interessante. Portanto, vamos a ela.

Quarto Capítulo: Debate de Idéias entre ex-membros do partido e teóricos contemporâneos a respeito do fenômeno do Partido dos Trabalhadores (segunda parte) 

Tendências Partidárias

 

As tendências sempre tiveram papel importante nas discussões do partido, opondo pensamentos políticos diversos entre si. Ao mesmo tempo, a medida que a esquerda buscava maior espaço, o setor conservador liderado principalmente pela Articulação buscava formas de cercear a atividade dessas correntes. “A Articulação, para ter governabilidade, para ter conforto dentro do PT para não ser questionado queria que as tendências se dissolvessem. Pensando na estratégia do giro político à direita você precisa eliminar a oposição interna que questionava esse giro, as vozes críticas tiveram que ser sacrificadas ”, explica Arcary.

De acordo com ele, havia uma divisão da esquerda quanto ao pensamento do PT como uma possibilidade real de transformação socialista e de aceitar essa imposição da direção majoritária. “Havia algumas correntes que já caracterizavam o PT como um partido adaptado há ordem. Não viam, portanto, a possibilidade de poder transformar num instrumento pra luta revolucionária da classe trabalhadora brasileira. Portanto, trabalhavam dentro do partido com a perspectiva de conseguirmos uma outra organização, uma outra direção”, aponta.

Na outra ponta disso existiam pessoas que acreditavam na possibilidade do PT ser esse instrumento, através de uma pressão da base, na luta pela direção do partido. Segundo José Maria, isso dividia a esquerda dentro do partido. “Quando nós decidimos endurecer o jogo dentro do PT, forçar nossa expulsão na década de 90, a Convergência Socialista, quase todas as correntes da esquerda se aliaram com o PT contra nós e nos criticaram duramente dizendo que nós estávamos dividindo o partido, que isso era errado, que a construção de uma alternativa passava necessariamente por dentro dele”, conta.

Para Arcary, esse debate gerou dois tipos de situações, os que concordaram com as condições colocadas pela maioria conservadora e os que recusaram. “A maioria aceitou. Duas não aceitaram: a Convergência Socialista e a Causa Operária, e foram expulsas. A Convergência foi um corte mais duro, pois representava 10% das forças organizadas dentro do PT”, recorda.

Segundo Babá, essas expulsões, acompanhadas do cerceamento da base nas “instâncias deliberativas do partido”, fizeram parte da estratégia desses setores conservadores em combater a esquerda dentro do PT. “Eles se preocuparam porque em determinado momento setores da esquerda tiveram um peso importante do PT. Por isso mesmo eles começaram a atacar a democracia interna do PT para impedir a participação da base”, diz.

Para Babá, parte daqueles que ficaram da esquerda foram cooptados pela direção majoritária, por conta da cessão de cargos na estrutura governamental, principalmente após a vitória de Lula em 2002. Genro concorda, ao lembrar que o Ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, é da Democracia Socialista, uma corrente de esquerda dentro do PT, além da Secretaria Especial de Aqüicultura e da Pesca, cedida a José Fritsch. “Eles deram umas migalhas e a partir dessas migalhas eles cooptaram e fazem com que essas correntes se sintam parte do governo e achem ou finjam achar que estão disputando os rumos do governo e do partido”, diz.

No entanto, José Maria faz um diagnóstico interessante para compreender o porquê as correntes de esquerda do partido não tomaram posição a favor da Convergência Socialista, quando de sua expulsão em 1992, acreditando ainda que seria possível mudar os rumos do PT e agora criticam da mesma forma os que ficaram no partido, após nova expulsão, em 2003. “Passados doze anos desse processo o balanço é dramático, mas categórico. Ou seja, um conjunto dessas correntes que permaneceram no PT, ou se romperam e se perderam, desagregaram politicamente, ou tiveram que romper agora, sendo expulsos no ano passado de uma forma lamentável. São grupos pequenos com representações parlamentares, grupos organizados com uma força muito diminuta no país, setores que poderiam ter fortalecido desde lá de trás a construção de uma alternativa revolucionária”, critica.

 

Base versus Direção

 

O afastamento das bases foi uma conseqüência de todo esse cerceamento de participação democrática dos militantes dentro do partido. Com a ampliação do lastro eleitoral do PT, seus esforços foram sempre para ampliar sua institucionalidade, conquistar cargos dentro da burocracia estatal. “Eles deixaram de ter como eixo fundamental de construção do PT os movimentos sociais e passaram a usar os movimentos para ganhar eleições. Essa base social também do povo organizado, da classe trabalhadora combativa, lutadora, acabou sendo deixada de lado”, aponta Genro. José Maria concorda: “O PT sempre teve  uma participação muito grande de dirigentes sindicais, um apoio muito grande das estruturas sindicais, que também foram se burocratizando, e se afastando dos anseios que eram das suas categorias e dos seus representados”, diz.

José Maria explica que, a partir dos anos 90 as condições favoráveis para a classe trabalhadora viveram um refluxo, por conta da crise que o Brasil vivia nesse período. E isso causou uma diminuição da “mobilização da classe trabalhadora” em fazer pressão dentro do partido, o que fez vingar as “pressões negativas”. “Tudo isso favorece o setor mais à direita, mais moderado, de ir tomando conta da estrutura do partido. Foi um processo inexorável nesse sentido. Então, houve resistência durante um período e chegou um ponto queria não havia mais como mudar a situação. Foi quando resolvemos sair do PT”, relata.

Arcary denomina esse fenômeno como um “refluxo da luta de classes”. Para ele, os trabalhadores perderam a confiança de que podiam modificar algo através de suas mãos, fato que levou ao enfraquecimento da classe. “A classe trabalhadora só é forte porque ela é maioria, mas ela só é forte quando ela se une. Se não se une sindical e politicamente, o fato de ser maioria em vez de fortalecer a classe trabalhadora, enfraquece, porque são muitos, mas não há emprego pra todos, são muitos, mas não há bons salários para todos”, fala.

Além disso, José Maria crê que ao PT assumir cada vez mais responsabilidades na administração do Estado burguês, capacitando o partido de arrecadar verba para crescer, além de possuir maior poder político dentro da esfera pública, a base já não fazia tanta diferença. “Não era mais  necessário o apoio da militância, nem pra arrecadar finanças para campanha eleitoral, muito menos pra incidir na realidade política do país. Então esse processo de burocratização fortaleceu a direção contra a base do partido e retirou, destruiu dentro do PT os mecanismos por onde a base pressionava”, constata.

Para o deputado Babá, a base petista continuava lutando a favor do partido, mesmo sem ter uma direção que organizasse aquilo, fato que fortaleceu o PT ao longo desses anos. “Mas a campanha presidencial de 1994 já mudou de tom, o slogan era o ‘feliz 94’. Nisso, passaram a privilegiar cada vez mais o embate parlamentar e, ao mesmo tempo, o PT teve um crescimento de parlamentares no Congresso Nacional o que significa o crescimento de uma burocracia em volta, tanto de assessores parlamentares, de assessores sindicais, dirigentes sindicais, de burocratas do aparato que estão nas prefeituras do PT”, fala.

Isso custou caro as bases do PT que se viram cada vez mais desamparadas, sem apoio da direção, também porque, nas prefeituras que o partido administrava, o enfrentamento com os trabalhadores era feroz, como atesta Babá: “O governo da Erundina (1989-1992) teve enfrentamento com os rodoviários, com servidores públicos, chegou a haver demissão de dirigentes sindicais na época”. Já Arcary vai mais longe: “A gestão Erundina não foi nenhuma ameaça aos negócios na cidade, o capital não perdeu o sono uma noite. Com a Erundina dormiram tranqüilos, não sentiram-se seriamente ameaçados”, afirma.

Um episódio exemplar do enfrentamento da direção do PT contra os objetivos dos trabalhadores foi a greve dos petroleiros, quando o modelo neoliberal estava sendo implantado no Brasil pelo governo Fernando Henrique Cardoso. Babá afirma que tanto o presidente da CUT na época, o atual deputado federal Vicente Paulo da Silva, conhecido como Vicentinho, quanto Lula foram determinantes para aplastrar a greve dos petroleiros. “O governo Fernando Henrique colocou inclusive exército na rua, mesmo assim a greve se arrastou e chegou num momento que Lula e Vicentinho passaram a intervir mais para acabar com a greve”, revela. Para ele, essa derrota promoveu um “recuo” dessa categoria e, conseqüentemente, de toda a classe trabalhadora, por conta da importância estratégica dos petroleiros. “Isso facilitou a vida do Fernando Henrique para os próximos embates. Não só contra os servidores públicos, mas também nos processos das privatizações, nos planos de demissão voluntária”, crê.

Essa situação provoca um distanciamento das bases e uma redução natural de membros de esquerda no interior do partido, fazendo com que o mesmo pague pessoas para trabalhar na campanha eleitoral de algum candidato, é o que afirmam Babá e Genro. “Vejo por Porto Alegre, que é um dos lugares onde o PT era mais de esquerda, não tem mais militância, é tudo militância paga, não tem mais gente que acredita e que vai para a rua, porque os que iam para a rua porque acreditavam ou não acreditam mais e, portanto, não vão mais para a rua, ou conseguiram um empreguinho lá na prefeitura e vão para a rua porque tão pagos para isso”, acusa Genro.

Babá acredita que isso já vinha ocorrendo, principalmente onde o PT governava e, portanto, possuía “estrutura” para isso, mas reconhece que hoje o fenômeno se acentuou: “A militância do PT sumiu. É um fenômeno nacional nas campanhas do PT. Nessa eleição é latente isso, tu vê em São Paulo, no Rio de Janeiro, aquele pessoal balançando bandeira, é tudo pago.Tenho andado por aí a fora não tem militância mais. Na campanha do Lula tinha muita militância, mas que era para o Lula. Hoje o que existem são os comícios, os ‘showmícios’, que viraram ponto de atração”, relata.

 

Nova Base, Nova Classe?

 

Ao passo que parte da base “foi para casa cuidar da vida”, como declara Babá, a outra parte foi parar onde? “Na verdade a base que dá sustentação a esses dirigentes é uma base de esquerda, ainda. Hoje, cada vez menos, mas no início desse processo era uma base de esquerda, eram trabalhadores legítimos e não todos burocratas porque o espaço para a burocracia é só para alguns”, declara Genro.

Essa constatação da deputada nos faz pensar se a base social do partido não mudou, ou, pelo menos, tenha mudado seu caráter, isto é, parte dos operários terem ascendido a cargos governamentais, seja em Brasília, seja em prefeituras de cidades pequenas, e isso, tenha feito com que não tenha ocorrido mais pressões à direção para a retomada de um projeto político pela ruptura do capitalismo, a favor de um governo que transformasse a sociedade a favor dessa classe. Ou seja, a mudança da base social teria sido um fator que contribuiu a essa transformação do programa petista efetuada pela direção, mas, recebendo a anuência, ou o silêncio de sua militância e de sua base de sustentação eleitoral[1].

O sociólogo Francisco de Oliveira escreveu um texto chamado “Ornitorrinco” no relançamento de seu livro Crítica à Razão Dualista[2], que trata sobre Partido dos Trabalhadores que ascendeu de sua condição inicial de partido sindical a um partido dirigente, comandando a maior nação da América Latina, com características que pouco lembram alguma ligação com a classe operária em seus primórdios, aproximando-se muito mais hoje de uma manifestação burocrática de administração da máquina estatal e adequação de seus quadros a essa condição.

Segundo Oliveira, “a organização dos trabalhadores poderia operar a transformação da estrutura desigualitária da distribuição de renda” (Idem, p. 145). Algo que prenunciou isto foi o surgimento dos movimentos sindicais na década de 70, que culminou na formação do PT. Ocorreu uma divisão melhor da renda entre os trabalhadores e “parecia ter tudo para expandir a relação salarial e seus correlatos, na Seguridade Social e nas formas de salário indireto”. Só que as empresas estatais apareceram nesse contexto e criaram os fundos de pensão.

A partir de 80, o movimento entrou em “franca regressão”, já sem as forças de trabalho com poder para transformação, fazendo com que representação de classe perdesse sua base. Para Oliveira a estrutura de classe foi alterada, com o alto proletariado erguendo à condição de administradores dos fundos de previdência complementar. Essas instituições foram criadas para suprir a convalescença do INSS, oriundas das empresas estatais de outrora, além dos conselheiros de administração, como no BNDES e Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que representam a classe trabalhadora. Os sindicatos do setor privado também organizam fundos de previdência complementar.

Eles são considerados os “sujeitos simbólicos”, que Robert Reich aborda em O Trabalho das Nações[3]. Esses sujeitos nada mais são que pessoas especializadas na função de manipulação de símbolos, ou seja, dados, palavras, representações orais e visuais. Muitos podem ser financeiros e tributaristas, engenheiros diversos (civil, de software, de projetos), entre outros. Para Robert Reich, “algumas dessas manipulações revelam como desenvolver recursos e transferir patrimônios financeiros de forma mais eficiente”. Pois, para ele, a capacidade que o analista simbólico tem de utilizar o conhecimento de “forma efetiva e criativa” é enorme.

Ocorre que esse tipo de trabalho que pode “gerar um valor substancial para o consumidor individual”, mas “não melhora, necessariamente a sociedade”. É o caso específico dos administradores de fundo de pensão que podem, pela manipulação do dinheiro para ser investido na Bolsa de Valores sem que seus beneficiários saiba, obter lucros em cima daqueles valores e não beneficiar outras pessoas se não a eles próprios. Outra constatação – que conclui a anterior – é que, em alguns dos casos, “os analistas simbólicos simplesmente aumentam a riqueza de algumas pessoas enquanto diminuem a de outras na mesma proporção” (Idem, p. 167).

Ou seja, o benefício aplicado a um pequeno grupo/empresa, pode prejudicar todo o resto da comunidade, inserida ou não este mesmo grupo. Para Francisco de Oliveira estes sujeitos são “trabalhadores preocupados com a rentabilidade de tais fundos, que ao mesmo tempo financiam a reestrutura produtiva que produz o desemprego” (Oliveira, 2003, p. 146).

Para Oliveira, a ascensão de dirigentes sindicais ao aparelhamento do Estado explica as convergências entre PT e PSDB: “Não se trata de equívoco, nem de tomada de empréstimo de programa, mas de uma verdadeira nova classe social, que se estrutura sobre, de um lado, técnicos e economistas doublés de banqueiros, núcleo duro do PSDB, e trabalhadores transformados em operadores de fundo de previdência, núcleo duro do PT. A identidade dos dois casos reside no controle do acesso aos fundos públicos. O conjunto de dois lados simétricos é a nova classe” (Oliveira, 2003, p.147-148). Para ele “a nova classe tem unidade de objetivos, formou-se no consenso ideológico sobre a nova função do Estado, trabalha no interior dos controles de fundos estatais e semiestatais e está no lugar que faz a ponte com o sistema financeiro” (Oliveira, 2003, p. 148).

Não acreditamos que essa ascendência de dirigentes sindicais na máquina estatal tenha causado a formação de uma nova classe, simplesmente porque a formação de uma nova classe para dar esse aval não parece existir, até mesmo porque os membros do PT e do PSDB não convergem da forma que Oliveira aponta. Na nossa visão, o que ocorreu no PT foi a estrategização de uma tática eleitoral, ou seja, de ter abandonado o programa e o caráter do partido de lutar por uma transformação da sociedade, priorizando a vitória nas eleições e, para isso, modificando o programa, ampliando o arco de alianças, derrubando a democracia interna e afastando as organizações e bases mais à esquerda, cooptando-as se preciso. Nesse caso, a base tem papel de ascender a uma nova condição, diminuindo a base operária e aumentando a base atrelada à maquina do Estado[4]. Mesmo assim, esse acontecimento levantado por Oliveira é explicativo – e serviu de início para compreensão do fenômeno – para a transformação do PT de um partido voltado à classe trabalhadora para um partido hoje direcionado para as classes médias, com um programa de gestão das crises do capitalismo.

 

Voltando ao debate da base…

 

José Maria discorda que tenha havido uma mudança efetiva da base social, pois a mesma não possuía uma consciência sobre as tarefas do partido, bem como sua estratégia. No entanto, ele aponta uma concordância no aspecto da burocratização dos quadros do PT, ou a ascensão dessa base a cargos do funcionalismo público. “Uma parcela importante dessa militância foi ganha politicamente por essa estratégia social-democrata no primeiro momento da direção do partido. Nesse aspecto houve uma mudança na parte da esquerda socialista que foi ganha nessa proposta. Uma organização importante da esquerda do PT (referindo-se a tendência Democracia Socialista) está hoje nesse governo. Essa é a expressão de um processo de degeneração de uma parcela da própria militância do  PT”, analisa.

Para José Maria, a base social do partido não abandonou o mesmo, até por conta dessa falta de clareza da classe trabalhadora, mas sim ela “foi convencida de que a saída deveria ser uma saída eleitoral. Nesse sentido houve uma mudança, tanto que o PT teve tanto voto esse tempo todo. Arcary segue nessa mesma direção: “Há uma mudança hoje eleitoral, o PT se transforma hoje num partido do voto de classe média e do voto dos setores mais explorados e desorganizados da classe trabalhadora. Já nos setores organizados, como bancários, metalúrgicos, professores, o PT perde voto. Agora na composição social interna do PT não acho que tem grandes mudanças. Não é isso que explica”, justifica.

Já Babá acredita que ocorreu essa mudança e ela intensificará agora, pois haverá uma procura do PT por um novo eleitorado, atrelado principalmente pelo “assistencialismo” prestado nas pequenas e médias cidades brasileiras. “Nos chamados rincões funciona muito pela política assistencialista: é o bolsa família, é uma assistência do Sistema Único de Saúde (SUS) que dá uma receita médica, um remédio. Ou seja é a política assistencialista que não é uma política militante, ideológica, vai pelo peso da estrutura. A militância ideológica que se comprometia com todo o processo essa cada vez mais é rara”, aponta.

Babá diz que a própria esquerda que ainda resiste no PT tem enfrentado problema nas campanhas eleitorais, por conta da falta de base e na ausência de militantes. O deputado lembra a campanha de filiação do PT realizada pela internet para mostrar essa busca de uma nova base para sua “estruturação” e cita o exemplo do que Tony Blair fez ao abrir para a sociedade o Partido Trabalhista Inglês. Segundo Babá, o partido inglês possui semelhanças com o PT no fato de em ambos, os partidos e os sindicatos estarem muito próximos. “Você abrir a filiação desbragadamente termina com os limites ou barreiras para as pessoas que queiram se filiar. E aí veio a mega soma de oportunistas que querem ser candidatos a vereadores, deputados, burgueses, aqueles empresários, o médio e até o grande empresário começam a se filiar ao PT”, critica. Babá afirma que essa mudança no PT é algo “sem retorno”, e faz com que os burocratas assumam cada vez mais o controle do partido, por conta do mesmo estar no poder todos vão querer “estar junto”.

 

PT Hoje

 

José Maria vê hoje o Partido dos Trabalhadores como um partido da ordem burguesa ao fazer a opção de constituir alianças com parte do empresariado, aplicar o programa do FMI e enfrentar os trabalhadores, como conseqüência de que “não há como governar para os dois lados da sociedade”. “O PT não só é adaptado a defesa da ordem, as políticas estabelecidas no status quo, mas um partido adaptado a defesa ativa da ordem. O PT mandou cortar o ponto dos bancários e mandou os bancos sociais procurar o TST para declarar abusividade da greve (referindo-se a recente greve dos bancários). Até contra os bancários que lutam contra um setor dos empresários que ganharam mais dinheiro nesse país, que são os banqueiros. Até para defender esse setor o governo manda reprimir os trabalhadores”, lamenta[5].

Por tudo isso José Maria acredita que o PT “acabou”, que não há outra saída para o partido no sentido de uma volta às origens. “Não é que ele teria alguma perspectiva de realizar a transformação e ele está com dificuldade. Ele abandonou essa perspectiva. E seus dirigentes estão convencidos que o que tem que ser feito é isso, aqueles que não compreendem isso são ‘malucos’ tem que ser combatidos como tão sendo combatidos os bancários, essa é a lógica de qualquer partido da burguesia”, argumenta.

Genro também acredita que o PT tenha se transformado num partido tradicional, a se diferenciar a penas por defender mais políticas sociais que os outros, sendo que na prática isso não acontece, porque, segundo ela, “num tem espaço para política social dentro desse modelo econômico”. “Eu acho que a tendência deles é ser mais um partido da ordem e o governo Lula ser o fiel aplicador do modelo neoliberal. Eles podem conseguir algum crescimento econômico, mas isso não muda a realidade. O FHC também teve crescimento econômico quase todos os anos do governo dele, um crescimento baixo que não se reflete em distribuição de renda, que não se reflete em maior intervenção do Estado para recuperação dos serviços públicos do país, porque o Estado está completamente sugado pelo pagamento de juros da dívida. Então, eles vão nesse caminho aí, da mesmice”, aponta.

Babá acredita “não haver retorno” no governo ou mesmo no partido e a tendência é cada vez mais a direção defrontar-se com a classe trabalhadora e acentuar a “rota à direita do PT”. “Para manter as políticas de alianças, para manter a lógica de todo o programa econômico que eles tão implementando só pode acontecer com enfrentamento. Se no momento num está se dando um enfrentamento mais global que se deu na Reforma da Previdência é porque ainda tem uma barreira de contenção forte que é a CUT. Inclusive há um debate agora com relação a CUT, pois muitos setores estão abandonado a CUT por ela ser transformada numa correia de transmissão do governo e uma barreira de contenção das lutas”, acredita.

Arcary, como membro do PSTU, afirma que seu partido hoje vê o PT apenas como um governo com “a responsabilidade pela administração dos negócios do capitalismo brasileiro. Transformaram o PT num partido  de reformas, de políticas sociais compensatórias. Do renda mínima, do bolsa escola”, atesta. Para ele, o fato de Lula possuir prestígio e confiança da maioria dos trabalhadores permite que os negócios do capitalismo brasileiro prossigam da melhor maneira possível. “A burguesia da avenida Paulista está muito tranqüila e satisfeita com o PT. Já em Buenos Aires, na Bolívia, na Venezuela, estão um pouco mais intranqüilos. Pois nesses lugares não tem um Lula com o mesmo prestígio para fazer o papel de tranqüilizador das massas populares. A essência do discurso do Lula hoje é ‘tenha paciência’” analisa.

Babá também defende a tese em que o PT apenas objetiva administrar o capital ao falar das alianças com Henrique Meirelles – classificando este como “o homem do capital” –, citando que seu cargo na presidência do Banco Central havia sido acertado muito antes das eleições de 2002, na época que Meirelles foi candidato a deputado. Ele lembrou também do Ministério da Agricultura estar nas mãos de Roberto Rodrigues, segundo Babá “o maior homem do agrobusiness”, um dos mercados produtores que mais exportam no Brasil, assim como o caso do presidente da Eletrobrás e da Eletronorte estarem nas mãos de homens como o senador pelo Amapá José Sarney e o presidente do PDT, Roberto Jefferson, respectivamente. “Eles tão co-governando com a burguesia, inclusive na próxima mudança de ministros vai ter mais uma retirada de petistas desses ministérios para poder atender a sede da sua base de sustentação que são esses corruptos todos, essa oligarquia”, critica.

Para Babá, um exemplo bastante claro disso é a sua expulsão, junto com a da deputada Genro e da senadora alagoana Heloísa Helena, encarada como um marco desse processo mais radical à direita que o PT tem tomado nos dias de hoje, simbolizando o abandono definitivo das bandeiras históricas do partido, e, conseqüentemente, do resquício de programa popular que ainda restava. “Nossa expulsão é uma expressão simbólica de que dentro desse PT não cabe pessoas que defendam as bandeiras históricas que a classe trabalhadora sempre defendeu. Só não expulsaram outros parlamentares, alguns que votaram no salário mínimo e tudo o mais porque eles são pragmáticos e não querem perder a maioria parlamentar aqui na Câmara. Mas a perseguição é nacional”, acusa, ao mencionar o caso da vereadora de São Carlos Julieta Lui, expulsa pouco tempo antes deles por conta de fazer oposição ao prefeito local e ao governo Lula.

“Tem um candidato a vereador que me ligou de Macapá e disse que gravou um programa contra a Reforma Universitária e foi vetado o programa. Ele entrou na Justiça para mostrar o programa e agora está sendo ameaçado de expulsão. Ou seja, a nossa expulsão é apenas um símbolo de um PT que não existe mais”, afirma Babá. Genro vai nessa mesma linha de pensamento: “Eu acho que foi um sinal muito claro de que esse curso que eles escolheram era irreversível e quem não se adaptasse a esse curso seria ou expulso ou isolado. Nossa expulsão foi essa sinalização política,  não tem mais espaço político para a esquerda dentro do PT e os que quiserem ficar vão ter que ficar calados e os que ficaram realmente estão mais ou menos calados, de vez enquando eles dão uns gritinhos, mas logo se recolhem”, constata.

Nota-se que a única coisa que restou do PT das tradições populares é exatamente sua história, suas origens e o imaginário que isso causa nas pessoas nos dias de hoje, ao ponto da deputada Genro admitir certa dificuldade em colocar na “mesma sacola” dos outros partidos o PT. “Te confesso que eu ainda tenho muita dificuldade em dizer assim que o PT é igual ao PFL, é igual ao PSDB, porque tem uma origem diferente, tem uma base social diferente, ainda tem muita gente boa dentro do PT. Então eu acho que ele ainda é diferente, ainda tem alguns pontos diferentes, mas a tendência é ficar cada vez igual”, crê.

Para ela essa situação é semelhante com o ocorrido nos partidos social-democratas da Europa que também nasceram da classe operária, assim como o PT. “Eles também tinham propostas de esquerda, mas a medida que foram chegando aos governos foram se ‘endireitando’, cada vez menos respondendo aos interesses da classe e hoje são iguais. Hoje o partido social democrata alemão, o trabalhista inglês, são iguais aos outros. Eu acho que é um processo que está em andamento no PT, que ainda não se concluiu”, diz.

É perceptível o processo de mudança do partido que o projeto político do PT se propôs a passar, para alcançar o governo do país nas palavras ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu: “Eu sempre disse que o PT é mais que um partido político, o “petismo” é um conjunto de valores, não é apenas um programa de governo, porque o programa de governo vai se desenvolvendo, até porque nós fomos incorporando novos problemas, novas classes sociais no processo político petista e fomos incorporando a dimensão nacional e a dimensão do Estado, por isso mesmo que nós conseguimos governar um país, e incorporamos, também, a dimensão da sociedade, o que nos levou à política de alianças, que nos levou a um programa que não fosse só um programa popular, que fosse também um programa democrático, um programa nacional[6]”.

Os personagens do Partido dos Trabalhadores foram procurados pela reportagem para dar declarações a respeito do tema proposto neste livro, porém, não quiseram atender alegando estarem ocupados com a campanha eleitoral. Foram procurados, pela ordem: José Genoino Neto, José Dirceu, Paulo Frateschi, Aloizio Mercadante, Eduardo Suplicy, e Ivan Valente. Tentamos ouvir também intelectuais para compreender este fenômeno, mas, também, não obtivemos retorno nos contatos dos sociólogos: Francisco de Oliveira, José Luís Fiori, Emir Sader[7].

[1] Sobre a questão do poder da base frente às representações políticas Arcary trabalha em cima da votação dos créditos de guerra feito pela social-democracia alemã a favor da 1º Guerra, votando contra o que havia sido decidido no Congresso da Basiléia, dois anos antes, em 1912. Ficou caracterizado à época como uma traição dos partidários, mas isso é questionado no texto ao colocar que a base deu apoio substancial a essa sinalização positiva dos socialistas à guerra da burguesia liberal da época (Arcary, In obra, p. 26)

[2] OLIVEIRA, Francisco. Crítica à Razão Dualista. Rio de Janeiro: Boitempo, 2003.

[3] REICH, Robert. O Trabalho das Nações. São Paulo: Educator, 1994, p. 166.

[4] Para concordar com esta hipótese o sítio da Fundação Perseu Abramo (http://www.fpa.org.br/nop/delegacao_petista/condicao_economica.htm) possui gráficos com os perfis dos delegados que participaram do 11º Encontro Nacional de 1997 e do 2º Congresso Nacional do PT de 1999. Lá possui o item Condição Econômica que indica a área de atuação de cada delegado. Veja: A porcentagem de membros do funcionalismo público no encontro de 97 era de 33%, aumentando para 49% apenas dois anos depois. O segundo colocado aparece de longe os assalariados com carteira, que em 97 alcançaram 20% e em 199 caíram para 16%.  Autônomos e trabalhadores rurais representavam em 99 apenas 2%, enquanto que profissionais liberais alcançavam 6% e empregado de micro empresa chegavam a 4%. As informações sobre o 12º Encontro Nacional de 2001 não estão disponibilizadas no sítio, mas existem na Fundação Perseu Abramo. Porém, não foi possível ter acesso a esses documentos, pois, de acordo com Vilma Bokany do Núcleo de Opinião Pública da Fundação, os dados não poderiam sair de dentro do local. Ver mais dados a respeito na sessão Perfil Delegados Nacionais, em anexo 02.

[5] A respeito dessa defesa, só que pelo SPD alemão, Arcary comenta em sua obra em andamento: O SPD permaneceria como um partido de oposição. Mas oposição ao governo, não ao regime, portanto, as mobilizações e ações diretas no terreno da luta de classes, impulsionadas sobre controle, para não desbordarem, deveriam se subordinar, a qualquer custo, à lógica de quem não pretende uma revolução, mas a conquista de mais reformas, nos marcos do regime político” (Arcary, in obra, p. 03) ARCARY, Valério. Há cem anos, Bernstein abre o debate sobre época: a estrategização da tática e a teoria dos campos progressivos. In obra

[6] Pronunciamento proferido em 29/09/2003 durante inauguração do escritório do Diretório Nacional do PT, em Brasília (DF) e publicado no sítio da Presidência (https://www.presidencia.gov.br/casacivil/site/exec/arquivos.cfm?cod=43&tip=pro).

[7] Para conferir o contato com essas pessoas ver anexo 03 e anexo 05. O filósofo Paulo Arantes retornou contato com a reportagem, informando que faria uma viagem e voltaria somente na segunda quinzena de novembro.

PT e a Social-Democracia – Parte VI

Hoje o blog publica o quarto capítulo do livro-ensaio “O PT e a Social-Democracia: de um programa de ruptura à administração do capitalismo”, escrito por mim em 2004 como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo – saiba mais sobre esse projeto clicando aqui.

Mas esse capítulo será dividido em duas partes, devido à sua extensão. Uma mera divisão matemática de páginas, porque o certo seria publicá-lo todo, já que o capítulo compõe outro momento importantíssimo do livro, quando ele se centra em debater o PT sob os olhos de antigos dirigentes que acabaram saindo do partido, e com uma visão propositalmente à esquerda, tais como o presidente nacional do PSTU, José Maria, outro dirigente deste partido, o professor Valério Arcary, ambos co-fundadores do PT, além de Luciana Genro e João Batista Oliveira de Araújo, o Babá, ambos deputados pelo PSOL à época das entrevistas e recém-expulsos do PT, corroborado com textos e obras de pensadores que tratam sobre a social-democracia e movimentos operários. O capítulo é uma ampla reportagem que coloca os entrevistados e autores para conversarem entre si.

Na época, tentaram-se entrevistas com os chefes dirigentes do PT, como José Dirceu e José Genoino, mas, como os e-mails podem comprovar nos anexos desta pesquisa, nenhum dos principais dirigentes do partido quis dar sua versão dos fatos. Por isso, optou-se por focar naqueles que se propuseram a falar, mesmo que tivessem uma maior crítica, por razões óbvias, ao partido. É uma leitura-análise à esquerda e não centrista ou moderada a respeito das transformações do PT: se trata de uma ótica socialista, observando e criticando um partido que nasceu também com essa proposta e foi afastando-a ao longo dos anos e, por conseguinte, aqueles que defendiam tais ideias mais “radicais”. Enfim, vamos à primeira parte da leitura.

Quarto Capítulo: Debate de Idéias entre ex-membros do partido e teóricos contemporâneos a respeito do fenômeno do Partido dos Trabalhadores

A Social Democracia cumpre um papel decisivo na história mundial aos desviar o propósito socialista iniciado por Marx em meados do século XIX para uma concepção reformista, abandonando a necessidade de uma transformação radical da sociedade ao considerar a possibilidade de trabalhar dentro dos marcos do capitalismo para administra-lo e às suas crises.  E o Partido dos Trabalhadores segue o mesmo caminho no Brasil desses partidos social democratas do início do século passado.

Tendo suas bases fundamentadas junto a classe trabalhadora no início da década de 80, na região do grande ABC paulista, o PT aglutinou o maior número de pessoas possível, tornando-se um partido de massas tal e qual estava especificado nos documentos de fundação. O programa do partido também apresentava uma concepção anticapitalista, com aspectos interessantes de não pagamento da dívida externa, expropriação de latifúndios para a reforma agrária, podem ser os mais fortes a destacar. Ao longo do tempo o partido foi se reestruturando e modificando sua forma de agir, a partir do grupo dirigente que denominou-se posteriormente de Articulação, que passou a minar as formas de oposição à esquerda dentro do partido, para poder implantar seu projeto político de conquista da cadeira presidencial acima de qualquer embate ou debate e assim, foi-se distanciando da luta na rua, focando os trabalhos numa disputa eleitoral que o PT acabou mostrando que faria qualquer coisa para alcançar a presidência.

A Evolução da Social-Democracia para a Compreensão do PT

Para ilustrar um pouco esse fenômeno da social democracia na Europa e compreender como isso se dá no PT, trazemos alguns artigos[1] do sociólogo Fiori que colocam em ponto de discussão a busca dos socialistas por uma forma de governo que possa administrar da melhor forma o capitalismo. Ele analisa a evolução histórica européia, as situações na América Latina e, em particular, o Brasil, apontando para a perplexidade da política econômica adotada pelo Partido dos Trabalhadores, sempre caracterizado a tradições populares, de luta operária em favor dos desfavorecidos, com um programa austero de ajuste fiscal e superávit primário, mais rígido e fiel ao programa neoliberal que o próprio governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso.

Fiori aponta para ao que ele chama de “evolução dos programas de governo” dos partidos socialistas, afirmando que eles podem ser analisados a partir de dois pontos de referência. O primeiro atrelado as concepções teóricas de Karl Marx a respeito do capitalismo como “um sistema de expansão contínua, na direção do progresso tecnológico e da globalização, mas também, da desigualdade e das crises periódicas, cada vez mais profundas” (Fiori, 2004).

O segundo refere-se as revisões dos partidos socialistas europeus às teses marxistas.  Como já mostrado até aqui, ele coloca que a mais famosa de todas está nas idéias de ajuste do pensamento de Marx a nova roupagem vestida pelo capitalismo no final do século XIX, teorizado, como já vimos, por Bernstein. De acordo com Fiori essa tese foi aplastrada pela chamada “segundo rodada revisionista” na década de 50 e 60, em que “são abandonadas definitivamente, as idéias de revolução, de eliminação da propriedade privada e de destruição do estado” (Fiori, 2004).

A elas deram lugar “dois projetos ou programas mais conhecidos de ‘gestão igualitária do capitalismo’”: o primeiro é o chamado estado de bem estar social, mencionado com certa profundidade no capítulo inicial, adotado por todos os governos social-democratas e trabalhistas da Europa entre 1946 e 1980, segundo Fiori, e que consistia suas bandeiras no crescimento econômico, pleno-emprego e a elaboração de redes estatais de proteção social aos cidadãos.

O segundo era menos conhecido e tratava de um “capitalismo organizado”, formulado a partir dos anos 20. Nele acreditava-se que o capitalismo pudesse ser “mais igualitário, desde que fosse regulado e planejado a partir de um ‘núcleo econômico estratégico’ de propriedade estatal” (Fiori, 2004). Para ele, este último obteve maior sucesso em vários países conservadores pós-Segunda Guerra Mundial, como França e Japão, apesar de não ter sido vitorioso no governo de Salvador Allende[2] no Chile, na década de 70, nem no governo francês dos anos 80, de François Mitterand[3].

Fiori crê que ocorreu o que ele chama de “giro radical de 180 graus” do pensamento socialista destes partidos, por conta do abandono das teses revolucionárias e o encaminhamento cada vez mais claro para uma adequação dos partidos socialistas no governo ao capitalismo e a uma forma menos desigual de governar esse sistema. “Foi a hora em que os social-democratas deixaram de esperar a ‘crise final’ e passaram a apostar e lutar pela sucessão do capitalismo, como estratégia para criar empregos e financiar suas políticas distributivistas” (Fiori, 2004).

Fiori (2004) coloca que, a partir dos anos 80, um novo problema se colocou para os socialistas, já que o keynesianismo dos 30 anos pós-guerra haviam se esgotado como sistema e o capitalismo prosseguia como afirmava Marx anteriormente, com suas crises e desigualdades a crescer. Dentro de um quadro de crise do socialismo, agravada pela queda do muro de Berlim e do fim do regime “comunista” na ex-União Soviética, começa a ser forjada uma “terceira rodada revisionista”. “O programa de governo da ‘terceira via[4]’ propõe desmontar o ‘estado de bem estar social’, utilizando políticas econômicas do tipo ‘pró-capital’ que diferente do pós 2º Guerra Mundial, são radicalmente contrárias aos interesses dos trabalhadores e assalariados em geral”, escreve no primeiro artigo.

Isso se coloca de forma fundamental no caminho de todos os partidos social-democratas que “perderam seu rumo”, segundo Fiori (2004), pois passaram a administrar o capitalismo. Só que agora, sem buscar alternativas que tentem “humanizar” o capitalismo e sim adotaram medidas que perpetuassem o capitalismo – em sua face neoliberal, a expressão radicalizada e imperialista do sistema capitalista – o que coloca esses partidos numa encruzilhada teórico-política e, ao nosso ver, ocorre também com o Partido dos Trabalhadores hoje e suas medidas radicalizadas de ajuste econômico predatório para a população.

As Quatro Etapas do Reformismo do Movimento Operário, de Valério Arcary

Há também outra forma de avaliar esse processo de mudança reformista nos partidos social-democratas. Em entrevista concedida ao filósofo e historiador Felipe Demier para a elaboração de um livro-entrevista[5], o também historiador Valério Arcary discorre que o movimento operário viveu quatro etapas de uma proposta reformista. O primeiro era o considerado “reformismo clássico”, que acreditava numa via eleitoral para o alcance do socialismo. “Ele defende o programa socialista, mas abandona o método revolucionário”. O programa defendido pelo SPD alemão acreditava ser possível implantar o programa socialista após conquistar a maioria do parlamento alemão. Naquele período os estados haviam cedido terreno à classe trabalhadora nas mais diversas áreas, possibilitando tais pensamentos de mudança via parlamento. “A corrente socialista era uma corrente de milhões e milhões de pessoas e a maioria dos seus líderes procurava a reforma do sistema, procurava que o Estado tivesse um papel regulador para garantir um projeto negociado de distribuição de renda. Bernstein deu consistência teórica ao que era já de fato a escolha política da direção da maioria dos partidos europeus da II Internacional”, esclarece[6].

O segundo reformismo ocorre após 1945, aderido, segundo Arcary, tanto pelos social-democratas quanto pelo stalinismo. “Ele mantém o abandono do método revolucionário para chegar ao poder, mas o seu programa já não é mais socialista, é um programa de desenvolvimento capitalista. Eles aderem a uma concepção keynesiana de Estado regulador do mercado” (Demier, 2003, p. 107).

Dentro dessa perspectiva há uma terceira fase do reformismo, ocorrida a partir da década de 80, que trata-se de um reformismo sem reformas. “É o reformismo que abandonou o programa keynesiano e aderiu ao programa da ‘escola da regulação’, que é a escola das políticas sociais compensatórias” (Ibidem). Para Arcary, este reformismo não pretende fazer transição alguma do capitalismo para outra forma de sociedade menos desigual e sim promover políticas de assistencialismo aos excluídos que estão na cada mais marginalizada da sociedade capitalista.

Por último, temos o reformismo reacionário. “Já não é o reformismo sem reformas, é um reformismo com reformas, com contra-reformas reacionárias, é uma etapa nova” (Ibidem). Segundo Arcary, este é um capítulo que está sendo inaugurado pelo próprio PT. Ele afirma que para explicar o reformismo que se faz necessário entender a evolução do capitalismo. “O capitalismo também mudou nesse período e os reformismos foram (e são) a forma como as organizações moderadas do movimento operário sucumbiram (sucumbem) à pressão da ordem capitalista. Os reformistas contemporâneos preferiam ser reformistas capazes de fazer reformas, eles não o são porque não é possível ao regime do capital fazê-lo” (Ibidem).

Um Debate à Esquerda sobre o Partido dos Trabalhadores

 

Para compreender um pouco como se dá esse processo de transformação do objetivo final do Partido dos Trabalhadores – pois a mudança programática e todo o resto que veio no esteio da renovação do partido pode ser encarada como alteração de seu objetivo – nada melhor que ouvir ex-membros do partido que sentiram na carne esse processo.

O ex-membro da Direção Nacional do Partido dos Trabalhadores, expulso junto com a Convergência Socialista em 1992[7], e atual membro da Direção Nacional do PSTU, o professor e historiador Valério Arcary, crê nessa evolução petista semelhante aos partidos social-democratas europeus. “O PT foi desde o início reformista, revisionista e oportunista”, acredita. Mas, aponta que dentro do PT já existiam correntes divergentes quanto ao caminho a ser seguido pelo partido.

“Acho que desde o início da fundação do PT, existia dentro do partido correntes que tinham um programa reformista e correntes que tinham um programa revolucionário, isso decorre do fato de que a representação política do mundo do trabalho é heterogênea. Neste mundo existem desigualdades internas. A classe trabalhadora mesmo sendo uma classe mais homogênea do que as classes médias ela é tem grandes desigualdades”, afirma Arcary, um dos fundadores do partido.

Para o também ex-membro da Convergência Socialista, expulso do PT, e atual Presidente Nacional do PSTU, José Maria de Almeida[8], 46, o PT nunca teve em sua perspectiva promover a revolução, tanto que nunca se definiu como um “partido socialista revolucionário”. No entanto, o PT, para ele, cumpriu um papel “progressivo” em seu começo por estimular e fortalecer a consciência de classe dos trabalhadores contra a “exploração capitalista” da época, sendo uma alternativa em relação aos partidos burgueses que existiam na fase final da ditadura no Brasil. “O PT significava uma voz política muito importante, era a possibilidade da classe trabalhadora se libertar da manipulação, dos partidos da burguesia que se utilizavam a cada eleição dos votos dos trabalhadores para perpetuar um regime de dominação que assegura a continuidade da exploração da classe trabalhadora pelos empresários”, diz José Maria, também um dos fundadores do PT e, também, do PSTU.

Já Arcary crê nisso como algo “relativamente progressivo” para os trabalhadores, mesmo tendo um avanço na condição de sua organização como classe. “Entre a desorganização e a existência de um partido independente, ainda que fosse com uma estratégia reformista, era um passo a frente. Como sempre progressivo, numa análise marxista, é um termo relativo: é progressivo em relação ao quê, é regressivo em relação ao quê. Nada é absoluto, tudo é relativo. Então, o PT  foi progressivo em relação a situação da classe trabalhadora ao final dos anos 70  que era não ter nenhuma representação política, quem queria votar contra o governo tinha que votar no MDB, ou boicotar as eleições”, afirma.

O  deputado federal pelo Pará, expulso do PT em 2003[9] e atual dirigente do Partido Socialismo e Liberdade (P-Sol), João Batista Oliveira de Araújo[10], 51, conhecido nacionalmente como Babá, explica que o PT surgiu das lutas da classe operária que reivindicava melhorias das condições de trabalho. Contudo, além da discussão sobre a construção de um partido que se estabelecesse como alternativa para a classe trabalhadora, os congressos metalúrgicos desse período (final da década de 70)[11] causaram, segundo ele, a retomada do movimento sindical, “uma vez que historicamente o país nunca teve centrais sindicais fortes e com o governo de Getúlio Vargas[12] houve um atrelamento dos sindicatos ao Estado. Já na ditadura, os poucos sindicatos combativos que tinham foram atacados, ficando uma estrutura muito burocrática do movimento sindical”, atesta Babá, que filiou-se ao PT em 1981.

Naquele período ocorreu uma confluência no aparecimento de grupos de movimentos sociais e sindicais, como o Movimento dos Sem-Terra (MST) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), esta última mais próxima do PT, pois muito de seus membros compunham os quadros do partido. Tudo isso acontecia em volta do PT, segundo Babá, que possuía o “combustível” a alimentar esses movimentos que também fortaleciam o partido em seu caráter de massas, ampliando o seu nascedouro classista, que vinha do surgimento ocorrido no seio da metalurgia de São Bernardo do Campo.

O Quê Mudou?

Arcary indica que o PT, já em seu início era composto por uma burocracia sindical que “faria qualquer discurso, dependendo das circunstâncias”. Isso porque, para ele, o que mudou no partido ao longo dos anos foi o discurso e não a estratégia. “O discurso do PT na sua fundação é muito esquerdista, toda a situação brasileira estava muito à esquerda. Os discursos mudam”, coloca.

De acordo com Arcary, a questão fundamental do partido era a sua estratégia, que sempre foi, na visão dele, a de “construir um  partido legal, em oposição ao que era o MDB, prevendo que havia um espaço à esquerda do MDB que iria transbordar com uma estratégia eleitoral”. Para ele, essa estratégia sempre esteve definida no PT e na época estava à esquerda por desejar “um peso maior do Estado na regulação da economia”, sendo uma “esquerda melhorada, levemente igualitarista”, já que a necessidade daquele momento exigia essa posição.

José Maria crê que a mudança ocorrida no PT se deu por meio de três aspectos distintos: a mudança do programa, da postura ideológica como um partido nascido com ideais de transformação da sociedade, e por final, do aparecimento de uma burocratização ao conquistar cargos no Executivo e no Legislativo das cidades brasileiras. A questão ideológica é vista por ele como o principal elemento causador de todo os outros “problemas políticos”.

“Na direção do PT e na militância do partido, ainda que de maneira difusa, havia um sentimento muito forte pela transformação da sociedade brasileira, no sentido da busca pelo socialismo, que não era um socialismo que se conceituasse, que se definisse com clareza, mas era a busca da transformação da sociedade porque o capitalismo não permitiria e não permite o fim da exploração sobre a classe trabalhadora, da opressão, da discriminação”, acredita. Para ele esse pensamento foi abandonado já a partir da década de 80, ao PT assumir prefeituras, como no caso de São Paulo em 1988, com a Luiza Erundina. “Isso gerou uma pressão sobre a direção do PT pra que ela fosse adaptando seus horizontes das políticas as regras do status quo”, diz[13].

Outro aspecto que contribui nesse sentido foi a queda do Muro de Berlim e o fim do regime socialista soviético, que trouxe a tona o discurso único em torno do neoliberalismo como única alternativa econômica para o mundo. “Isso levou a um aprofundamento da crise ideológica que atingiu a esquerda socialista no mundo todo”, considera.

José Maria, contudo, revela outro componente importante para entendermos essa transformação do Partido dos Trabalhadores. “Muitos desses dirigentes, quadros de militantes do PT, sonhavam transformar isso aqui numa Alemanha Oriental, numa Rússia ou coisa parecida, que eram seguidores das organizações stalinistas que governavam aqueles países, e ao aquilo desmoronar, se constituiu um vazio ideológico que levou esses dirigentes a abandonar qualquer perspectiva de transformação social no país e assimilar que a única forma de organização da sociedade é a chamada economia globalizada do modelo neoliberal” conta.

Arcary diz que houve um arrefecimento das lutas da classe trabalhadora no Brasil e na América Latina nesse período, representada pelo que ele chama de “a grande derrotado campo da revolução”, ou seja, a restauração capitalista na União Soviética. “A classe trabalhadora veio perdendo, veio recuando nos anos 90. O desemprego se instalou, o salário médio caiu, o funcionalismo foi desmoralizado. A vitória de Collor primeiro, depois a posse de Itamar nas condições da saída de Collor, a eleição de Fernando Henrique, a derrota da greve dos petroleiros. E o PT não foi uma trincheira, não foi um instrumento de defesa”, explica.

Para José Maria, essa situação faz levar o PT “a um salto na sua direitização”, deixando de ser um partido que se “caracterizaria como social democrata naquele momento”. Arcary concorda: “A consciência deu um pulo pra trás. E o PT girou à direita para oferecer confiança à classe dominante brasileira de que a sua eleição não mudaria as regras da vida social, não iria haver um terremoto, não teria uma ruptura de contrato”, afirma.

Ou seja, o PT não seria mais uma ameaça ao capitalismo, a partir do momento em que o próprio partido abandonou seu programa de ruptura com esse sistema e também a mobilização junto aos movimentos sociais e a classe trabalhadora foi deixada de lado, concentrando todo o projeto político nas eleições e não mais numa mudança de sistema. Genro coloca que os movimentos e sindicatos são utilizados pelo governo para dar respaldo as suas ações. “Agora, por exemplo, eles tão disputando dentro da CUT, mas qual é a disputa que eles fazem, para que a CUT respalde o governo. Eles tão disputando os sindicatos dos docentes das universidades para que eles respaldem a reforma universitária”, acusa.

Isso mostra que o período crucial na mudança do partido se deu na virada para a década de 90, com as transformações no mundo, o avanço do neoliberalismo, a conquista de cargos na máquina estatal pelo PT e um ingrediente interessante: quando os dirigentes viram que era possível chegar ao governo pelas eleições, até o programa de governo de 1989 que era quase radical e defendia quase todos os pontos dos documentos da fundação foi modificado com essa perspectiva de ascensão ao Planalto, sentida por todos nas eleições presidenciais de 1989.

Isso fez o Partido dos Trabalhadores direcionar todos os seus esforços para a conquista do governo. De acordo com Arcary, o PT possui somente uma tática, a “tática eleitoral” que consiste em ganhar o maior número de votos possíveis. “Nas eleições presidenciais de 1994 não houve nenhum pudor em receber dinheiro do Bradesco, da Odebretch, da Andrade Gutierrez, do Itaú. Para ter votos o PT não teve nenhum pudor em usar táticas publicitárias mais infames de manipulação de massas”, acusa. Para ele as eleições servem para divulgar o programa socialista, entendendo que esse período eleitoral é um “momento de educação, momento de dizer a verdade” àquela parcela da população desinformada e que não possui participação política. “Se a campanha eleitoral não serve para dizer a verdade, não serve pra nada. Vai deseducar ainda mais a massa do povo. O partido que cumpre esse papel é um partido a mais entre os partidos do regime”, sentencia.

Como nos mostra o capítulo anterior, reforçado pelo que disse José Maria, o programa do Partido dos Trabalhadores mudou radicalmente, chegando aos entrevistados afirmarem ser um programa aplicador das políticas neoliberais no Brasil, fato não negado nem pelos líderes do governo. O programa dos primórdios do PT apresentava características totalmente contraditórias com o programa atual, como vimos. Para Babá essa “mudança programática” está ligada a esse processo histórico. Isto é, as vitórias e derrotas na eleições surtiram efeito no programa petista. Babá acredita numa ligação dos acontecimentos dentro do Partido dos Trabalhadores que também sofreu, na visão dele, uma institucionalização, além da burocratização dos dirigentes sindicais, ligados ao partido.

Para alcançar seu objetivo, o PT tinha de ampliar o arco de alianças para alcançar a burguesia, que “não faz nenhuma aliança com o trabalhador se ela não tiver pontos do seu programa contemplado”, coloca Babá. Segundo este, no primeiro turno das eleições presidenciais de 89 existia somente a aliança com o PC do B (Partido Comunista do Brasil). “Para o Lula ampliar o arco de aliança ele tinha obviamente que mudar sua cara, amenizar o discurso e ao mesmo tempo mudar o programa e para isso tinha que ter o controle do partido”, crê.

Ainda sobre a questão das alianças, tema crucial para compreender a mudança no programa do PT, José Maria crê ser natural a postura política do PT em ampliar o arco de aliança, sendo inclusive conseqüências das “opções ideológicas, programáticas e estratégicas que o PT fez ao longo da década de 80 e principalmente na de 90. Se a estratégia é ganhar as eleições e governar nos marcos do capitalismo o caminho é esse mesmo”, aponta.

Para ele o arco de alianças tende a se ampliar, gerando mais “subserviências às grandes empresas”. Ocorre que, na visão de José Maria, as pessoas tem o costume de ver esse processo como algo positivo para o partido. “Elas não tem consciência de classe, não tem consciência de que o interesse é contraditório completamente com o seu, portanto não tem como fazer aliança. Eles vêem como o fortalecimento da proposta de sua direção. Agora vão ficar mais desconfiados – referindo-se as alianças com setores dissidentes do PFL –, mas apoiaram até agora”

Valério Arcary explica que o PT surgiu negando o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e a luta armada, mas depois acabou desenvolvendo “até as últimas conseqüências” a estratégia reformista principal do PCB. “A aliança com o PL faz a aliança de Prestes[14] com João Goulart[15] parecer piquenique de domingo. Em matéria de aliança de classes é brincadeira”, critica. Segundo ele, existe no PT o oportunismo político de “atacar a qualquer preço” que foi se caracterizando ao longo do tempo e da participação dos quadros petistas na máquina do Estado.

A deputada federal pelo Rio Grande do Sul expulsa do PT em 2003 e atual dirigente do P-Sol, Luciana Krebs Genro[16], 33, acredita que as alianças cumprem “um papel nefasto” em dois aspectos: “No momento que o PT bota o Partido Progressista (PP) do Paulo Maluf para dentro do governo ele está dizendo que o PP do Maluf é bom, serve. No momento que Lula chamou o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL) para o governo, ele está dizendo que ele presta, então isso fortalece a direita”, critica Genro que se filiou ao PT em 1985, aos 14 anos de idade.

No entanto, no outro ponto dito por Genro, ela discorda do Babá ao afirmar que as alianças servem como “justificativa” para as alterações no programa: “Eles não mudam o programa por causa dos aliados, eles mudam  programa por querer mudar o próprio caráter do partido e dos governos que fazem, e essa mudança é que torna viável aos aliados se aproximarem. Então, eu não diria que são os aliados que forçam a mudança mas a mudança serve para que os aliados possam se aproximar e possam fazer esses governo de coalizão com a burguesia que é a estratégia política deles”, fala.

José Maria acrescenta que essas alianças estabelecidas para mudar o programa sempre tiveram como objetivo central as eleições. “O Lula desde o ponto de vista da estratégia petista que foi de ganhar as eleições do país a qualquer custo, o que levou a ele abandonar o programa, fazer as alianças com o setor do empresariado. Porque sem isso não tem como ganhar as eleições. As eleições são uma instituição da democracia burguesa, que como todas as outras não tem como objetivo criar as condições para transformar a realidade. Ela tem como objetivo perpetuar a dominação do capitalismo, da burguesia”, afirma.

Para ver a complexidade do problema, o PT e PSDB discutiram e concretizaram a possibilidade de alianças na disputa eleitoral para algumas prefeituras neste ano. “Tem muitas cidades que o próprio PSDB vai querer o apoio do PT. E nós também”, disse o presidente nacional do PT, José Genoino, em entrevista concedida à Rádio Nacional do Rio de Janeiro. “Da nossa parte, aonde for possível composições locais, acertadas em turno de programas para as cidades, nós vamos juntos nesse segundo turno”, confirmou o presidente municipal do PSB e deputado estadual Edson Aparecido[17].

Reflexo disso foi a liberação feita pela Executiva Nacional do PT para os prefeitos em competição no segundo turno façam alianças com PSDB e PFL, segundo matéria da Folha de S. Paulo[18]. O evento ocorreu com 14 dos 24 prefeitos que ainda disputam o pleito e Genoino disse que “apoio não se recusa” ao pedir flexibilidade dos prefeitos. Ainda segundo a reportagem, o presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, teria pedido ao governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), para apoiar a reeleição de Pedro Wilson (PT) em Goiânia. Além dessa aliança, o PT apoiaria o candidato tucano em Teresina no segundo turno. O candidato do PT em Cuiabá, Alexandre César, tem autorização do partido para negociar com o PFL em Mato Grosso.  Em Florianópolis o PT apoiaria a candidatura de Ângela Amim (PP) para obter apoio em São Paulo deste partido para a reeleição de Marta Suplicy na capital paulista[19].

Babá coloca essa postura como um “pragmatismo eleitoral para ganhar a qualquer preço”. Ele cita as alianças do deputado federal e candidato a prefeito de Nova Iguaçu, Lindbergh Farias (PT-RJ) com o Partido da Frente Liberal (PFL) e com o PSDB, afirmando inclusive que César Maia (prefeito reeleito da capital carioca) e seu filho, o deputado federal Rodrigo Maia estariam lá “como cabos eleitorais”, tanto de Farias quanto do candidato à reeleição à prefeitura de Niterói, Godofredo Pinto. “Vim do Mato Grosso esses dias e vi umas 30 prefeituras do PT aliada com o PFL”, acrescenta.

Babá diz que mesmo o programa de governo de 2002, aprovado no 11º Encontro do partido e divulgado aos quatro cantos do Brasil não está sendo aplicado. “Nem aquele programa eles respeitaram, porque naquele programa lá tava definido que o governo Lula seria democrático e popular, de enfrentamento com a política neoliberal de altos juros e iria enfrentar essa política e propor uma renegociação da dívida com auditoria. O programa que está sendo implementado hoje é burguês”, critica.

Segundo o deputado, o encontro aprovou este programa, mas, após o ocorrido no meio da disputa eleitoral o então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso convocou os quatro candidatos à Presidência mais bem colocados nas pesquisa (o PSTU e o Partido da Causa Operária – PCO – ficaram de fora) para propor um acordo que esses candidatos respeitassem os acordos firmados pela gestão da época.

“No caso do PT saiu o que seria Carta ao Povo Brasileiro e na verdade é ‘Carta de acalma banqueiro’, esse deveria ser o nome correto dessa carta. Porquê? Primeiro que não foi uma carta debatida com nem uma instância partidária, foi a cúpula de campanha que definiu aquela carta e na carta sinalizava o cumprimento de todos os acordos com o FMI que foram firmados com FHC, que o governo Lula seria um governo confiável, que eles poderiam acreditar, ou seja, sinalizando tudo o que estão fazendo hoje. Nesse ponto eles cumpriram o compromisso, com os banqueiros, já com os trabalhadores foi o contrário”, dispara.

Sinônimo desse caminho mais próximo da burguesia está nas alianças com o presidente do Banco Central, Henrique Meireles, ex-presidente do Banco de Boston, além do episódio com  o Presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Social (BNDES), Carlos Lessa, citado por Arcary como “presumidamente a ala esquerda do governo”. “Vi hoje nos jornais que o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN), Eduardo Gouvêa Vieira declarou que Carlos Lessa é o homem certo na hora certa, pois tem a proposta de instalar duas siderurgias no Rio de Janeiro no próximo período. Trata-se de um elogio que tem todo um significado sobre o que é o governo Lula”,  coloca.

Os Bastidores do PT

 

As relações entre a base do partido e seus dirigentes sempre foi muito peculiar no PT. O partido sempre pregou possuir uma democracia interna pujante, em que as diversas tendências podiam indicar representantes, dar suas opiniões e principalmente interferir no rumo da organização, as coisas não aprecem ter sido desta maneira. Na verdade o que se vê é um grupo conservador tentando (e conseguindo) ficar no poder para impor seu projeto político e, para isso, esvaziar as muitas, porém com menor número de pessoas, tendências à esquerda do partido. Sim, o PT também possuía setores conservadores e à direita, que na verdade são os mesmos afloraram como tal agora, no governo, mas tinham esse caráter também em seus primórdios. Para isso, cerceavam os mecanismos democráticos do partido para ter maior controle das ações e diminuir o lastro da esquerda dentro do PT.

Para se ter uma idéia disso, Babá diz que o primeiro “ataque importante” realizado dentro do  PT foi justamente a tão defendida democracia interna. Isso porque, como ele conta, o partido era formados por diversos núcleos que também tinham voz nas decisões do partido, ao menos na formulação de encontros e debates, servindo também para pressionar a direção do partido. “E o primeiro ataque foi tirar o poder deliberativo dos núcleos e passaram a ter essa estrutura de encontros municipais. Mas ainda eram encontros municipais, estaduais e federais massivos”, lembra Babá.

Posteriormente, esse quadro foi seno alterado, impondo mais dificuldades aqueles que desejavam participar das instâncias superiores dos encontros do PT: “Eles passaram a montar um filtro da escolha dos delegados, a partir de encontros municipais, estadual e nacional. Você tinha que passar por esse crivo para chegar no nacional. Então ser delegado do encontro nacional do PT é mais difícil do que você passar em vestibular de medicina da USP”, ironiza Babá.

A situação se agravou com o passar dos anos, que ficou clara a postura da cúpula dirigente do partido em privilegiar a disputa eleitoral e minar os debates internos sobre  que quer que fosse, principalmente o socialismo. Os encontros passaram a ser cada vez mais controlados, em que só votava quem tivesse em dia com o pagamento do partido. Babá crê ser correta atrelar o poder de voto a quem contribui ao partido. Ocorre que, segundo ele, isso se alastrou às prefeituras, parlamentares e todo o aparelho burocrático do estado onde o PT tinha acesso. “Todos esses obrigatoriamente ou eram filiados do PT ou passaram a ser filiados e já tinham desconto em folha, ou seja, eram delegados assegurados nos encontros”, revela.

Babá aponta que somente os setores mais organizados do partido tinham condições de manter suas contribuições em dia, causando um número maior de “delegados burocratas do Estado” nos encontros. “Por exemplo, no Rio de Janeiro a Bené[20] quando vice-governadora ela era responsável pelo bolsa-família. Aí o que fazia, a família que se cadastrava no programa para receber 100 reais, se não me engano, naqueles cheques, era filiada ao PT. Então, quando tinham os encontros, obviamente chegavam aquelas kombis e kombis para votar na chapa da dona Bené, pessoas que não sabia nem por onde passava a sede do PT no Rio”, conta.

Babá acrescenta que esses programas sociais que empregam muitas pessoas como o saúde da família, citado por ele, são indicados por vereadores, fazendo cm que esse funcionário faça “bancada para ele” nos encontros do partido. Ou seja, é o ápice da burocratização partidária que ultrapassou a divisa entre governo e partido, transformando numa coisa única, misturada, sem saber quem é militante mesmo e quem é apenas funcionário público, ou ambos.

Conseqüência disso é que a militância ativa do partido se afasta das decisões e do cotidiano, sendo ligeiramente substituída por uma base social nova, atrelada à máquina do governo. “Isso fez com que quem tivesse poder de decisão no partido não fosse mais aquela militância ativa mas fosse qualquer filiado. O cara que é deputado tem condições materiais e políticas de filiar um monte de gente para respaldar a política dele. O prefeito mais ainda.”, aponta Genro.

A coisa piorou quando foi estabelecido que o sistema de eleições seria modificado, implantando do Programa de Eleição Direta (PED), que para Babá somente aparenta ser democrático: “Na verdade é totalmente anti-democrático”, diz. Antes do PED, os encontros eram realizados em dois dias, e a participação no debate era obrigatória, pois somente no fim da tarde do segundo dia é que as urnas abriam para a votação das resoluções a escolha da chapa.

Os encontros foram reduzidos para um dia, em que havia um “simulacro de debate com a vanguarda” e a urna permanecia aberta o dia todo. “Mas era na parte da tarde começava a chegar os delegados para votar, como no caso da Bené”, fala Babá. “Com a eleição direta as pessoas não precisavam mais participar do encontro, bastava depositar uma cédula para votar na direção do partido”, acrescenta Genro.


[1] A série é composta por três artigos. Fiori, José Luís. O Quebra Cabeça da Esquerda. Rio de Janeiro: 2004.

[2] O médico chileno Savador Allende (1908-1973), um dos fundadores do Partido Socialista Chileno em 1933 ganhou as eleições de 1970, após ter perdido três outras. Ele propôs um governo baseado no socialismo democrático, governando para as bases, com total controle do Estado sobre o rumo do dinheiro do país. Ocorre que a burguesia – apoiada pelos Estados Unidos – sempre se mostrou contra, fazendo boicotes sistemáticos ao governo até deflagrar o golpe de Estado de 1973 em que Allende foi morto dentro do palácio presidencial.

[3] O considerado socialista François Miterrand elegeu-se presidente da França em 1981.

[4] A terceira via corresponde a essa “terceira rodada revisionista” dita por Fiori para mostrar a evolução na esquerda mundial nas propostas para gerir o capitalismo. Pode-se dizer que a terceira via procura dar ao projeto neoliberal um aspecto menos desigual, com medidas sociais que procurem “compensar” os duros ajustes fiscais do modelo econômico neoliberal.

[5] DEMIER, Felipe (org.) As Transformações do PT e as Perspectivas da Esquerda Brasileira.Rio de Janeiro: Bom Texto, 2003, p. 107.

[6] Trecho retirado de entrevista concedida por Valério Arcary ao autor em 09/09/2004, no Centro Federal de Educação Tecnológica de São Paulo (CEFET/SP).

[7] A Convergência Socialista (CS) foi expulsa em abril de 1992 após não enquadrar-se como tendência interna do PT, de acordo com as resoluções do 1º Congresso do partido de 1991. Haviam divergências antagônicas entre a Convergência e a Articulação, corrente majoritária no PT, que via a CS como uma entidade estranha ao partido, e utilizar o PT para benefício de suas idéias e objetivos. A CS criticava as posições da Articulação de privar as tendências de exercerem seu espaço como correntes distintas dentro do partido, reivindicando o direito de ter imprensa própria e contato com organismos internacionais, proibido pela resolução do partido. A expulsão da CS confluiu para a formação do PSTU, um  ano depois.

[8] José Maria de Almeida concedeu entrevista ao autor na sede nacional do PSTU, em São Paulo, no dia 30/09/2004.

[9] Em dezembro de 2003 os deputados federais Babá, Luciana Genro, João Fontes e a senadora Heloísa Helena foram expulsos do PT por votarem contra a proposta do governo na Reforma Previdenciária que obrigava a taxação dos inativos a contribuir mensalmente ao Instituto nacional de Seguridade Social (INSS). Os expulsos alegaram que votar a favor da reforma era uma traição às bandeiras históricas do partido que sempre primou pela população. Segundo a Comissão de Ética do PT, os parlamentares “infringiram regras estatutárias” e por isso foram solicitados que fossem expulsos, fato que acabou concretizado após a votação de 55 a favor e 27 contra a expulsão dos quatro parlamentares. Esta informação foi extraída da notícia “PT decide por expulsão de quatro parlamentares”, publicada em 13/12/2003, no sítio do partido: http://www.pt.org.br/site/secretarias_def/secretarias_int_box.asp?cod=220&cat=43&cod_sis=21

[10] O deputado federal João Batista Oliveira de Araújo concedeu entrevista ao autor em seu gabinete, em Brasília, em 14/09/2004.

[11] “Primeiro houve o Encontro dos Trabalhadores das Oposições Sindicais (ENTOES), depois teve o Congresso da Classe Trabalhadora (Conclat) que a surgiu à idéia de construir uma nova central. Quando surgiu a CUT, em 1983, ela também apareceu com poucos sindicatos e muitas oposições, então era um movimento vinha também o operariado jovem do Brasil a partir das industrias automobilísticas naquela região do ABC, e que a partir dali deslanchou a nível nacional um movimento que culminou a fundação da CUT. Ao mesmo tempo, no campo começavam a haver conflitos que acabaram germinando a fundação do MST em 1984, a partir do Sul do país.

[12] Getúlio Vargas foi presidente do Brasil entre 1930-37 e depois implantou uma ditadura denominada Estado Novo para se perpetuar no poder, ficando até 1945, quando sofreu um contra-golpe que foi retirado do poder, voltando à presidência pelo voto popular em 1951, tenso se suicidado em 1954, por sofrer pressões para renunciar ao cargo.

[13] Para compreender um pouco isto cabe uma citação de Valério Arcary sobre o oportunismo, já debatido na entrevista, mas aqui cabe um trecho de sua obra que fala a respeito: “O oportunismo político deriva de idéias mais simples e responde, sobretudo, às pressões mais imediatas. Consiste no aproveitamento de oportunidades e se manifestou, praticamente, em qualquer corrente política que tenha conquistado influência de massas, como processo de adaptação às pressões das circunstâncias e dos momentos, nos mais distintos graus”. (ARCARY, Valério. Há cem anos, Bernstein abre o debate sobre época: a estrategização da tática e a teoria dos campos progressivos. In obra, p. 02)

[14] Luiz Carlos Prestes (1898-1990) foi um revolucionário que dirigiu o Partido Comunista Brasileiro e se lançou na luta pelo comunismo contra o poder burguês no Brasil. Foi aliado do governo Getúlio Vargas, opondo-se depois a este, foi aliado de João Goulart e, com o golpe militar acabou se exilando fora do país.

[15] Foi presidente do Brasil entre 1961 e 1964, ocupando o cargo após a renúncia de Jânio Quadros, sendo deposto do cargo em 1964, com a realização do o golpe militar realizado naquele ano

[16] A deputada federal Luciana Krebs Genro concedeu entrevista ao autor em seu gabinete, em Brasília, em 15/09/2004.

[17] Notícia publicada na sessão especial Eleições, no sítio da Agência Estado no dia 06/10/2004, com o nome PT e PSDB: a unidade possível no 2º turno (http://www.estadao.com.br/eleicoes2004/noticias/2004/out/06/32.htm).

[18] Matéria publicada no sítio da Folha SP em 08/10/2004, com o nome PT libera acertos com PSDB e PFL. (http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u64819.shtml).

[19] Para ver mais o anexo 04 dispõe de um relato sobre a aliança eleitoral de Mogi das Cruzes ente PT e PL, indesejada pelos partidários locais e imposta pela Executiva Nacional do Partido.

[20] Benedita da Silva, vice-governadora do Rio de Janeiro na gestão Anthony Garotinho-1999-2002.

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