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Archive for setembro \13\UTC 2010

Desabafo

Hoje acordei frustrado. Tem sido uma sensação bastante comum, principalmente às segundas-feiras, ou quando não cumpro o que proponho. Não sei se me amarrei demais em 2010 (quem visita percebe que o blog anda empoeirado, um sintoma evidente de que atividades outras tomam o meu tempo), pois não consigo fazer muita coisa. Só sei que o que faço não me é suficiente.  Parece que o que tenho feito é pouco, que antigamente eu fazia mais.

Sinto também que eu tenho desperdiçado o meu tempo em alguns momentos do dia. O advento do Twitter e de outras ferramentas da internet podem ser poderosas positivamente, mas também muito ruins. Às vezes acho que passo muito tempo lendo coisas (comuns) dos outros, quando poderia estar me aprofundando nas minhas coisas, mais úteis, além de escrever mais. Mas o trabalho tem tomado muito tempo, e o que me resta eu não consigo focar, até pelo cansaço. Mas isso vai acabar em breve, daí os focos serão redirecionados.

Mas eu lembro que, no começo do ano, me perdia na internet por horas e não conseguia tocar as coisas. Só depois de me cobrar e me disciplinar horrores, até me sentir mal, retomava tudo. Ou quando o deadline estava próximo, ou quando alguma atividade me empolgava, aí conseguia me concentrar plenamente. Espero poder reverter isso em breve. Foda você fechar um cronograma de atividades, já apertado, e não conseguir cumpri-los.

Pior ainda é aguardar outras pessoas para definir as suas coisas. O tempo está se esgotando e só espero que essa indefinição não atrapalhe o meu caminho. Eu gostaria de poder colocar tudo às claras o que estou sentindo e o que me aporrinha, mas não posso, porque posso ser afetado. E odeio isso. Quando se era mais jovem podia botar a boca no mundo que ninguém ligava. Guardar as coisas e tentar resolvê-las é mais doloroso, porém, um caminho melhor.

Enfim, queria desabafar de algum jeito, para tentar reordenar os pensamentos e rever algumas prioridades daqui para a frente.

Até uma próxima. Se algum pensamento novo surgir, acrescento aqui.

Abraços.

Categorias:Notícias

Bolívia em debate

Crescimento econômico e integração transformam meio ambiente em novo problema para a Bolívia

Opera Mundi

Junte o forte crescimento da economia boliviana sob o governo Evo Morales com a integração continental rumo ao Pacífico. Acrescente a necessidade brasileira por mais energia, também por conta do crescimento econômico. São boas notícias que trazem um novo problema: conciliar a necessidade da realização de obras de infraestrutura na Amazônia boliviana com a preservação ambiental e um maior equilíbrio social.

A expansão territória da atividade econômica da Bolívia foi debatida no seminário “Ordenamento Territorial Boliviano: questões agrárias, econômicas e sociais”, organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da USP (Universidade de São Paulo). Os debatedores comentaram como essa conjuntura continental, que inclui também a pressão por novas terras para a criação de gado pelo agronegócio, afeta a Bolívia.

A gestão dos recursos naturais e o conflito com a autonomia conquistada pelos povos indígenas é outra marca da questão fundiária boliviana. Essa disputa é reflexo do aumento do número de obras de infraestrutura no país. Na província de Santa Cruz, há pressão para acelerar a exploração de gás natural. Na chamada Amazônia boliviana, acontecem as obras do complexo de hidrelétricas do Rio Madeira, em conjunto om o Brasil.

De acordo com Suzana Lourenço, engenheira florestal e mestranda do Programa de Integração da América Latina da USP (Prolam), “grande parte das obras realizadas na região estão localizadas sobre reservas de recursos naturais”. Segundo ela, a estrutura governamental boliviana enfraquece o poder do Ministério do Meio Ambiente local, que tem dificuldades para frear obras que podem gerar graves danos ambientais.

A legislação boliviana, explica Lourenoço, permite que outros seis ministérios autorizem a realização de obras, e o MMA do país muitas vezes acaba apenas homologando as obras. A pressão pela exploração dos recursos naturais é especialmente forte no país, que é economicamente dependente dessas exportações.

Segundo Juliana Dal Piva, jornalista e autora do livro Em Luta pela Terra sem Mal, que aborda a escravidão dos índios guaranis na região do Chaco boliviano, a ascensão de Evo Morales ao poder (Evo assumiu a presidência em janeiro de 2006) deu respaldo institucional a um processo de maior conscientização das populações indígenas.

Exploração – Em 2009, a jornalista catarinense esteve na região do Chaco boliviano para reportar as condições de trabalho dos guaranis naquela região. Muitos desses trabalhadores viviam em condições semelhantes à escravidão, explorados pelos produtores agropecuários locais. “Em muitas fazendas, não há documentos comprovando os pagamentos aos trabalhadores ou mesmo o registro trabalhista dessas pessoas”, diz Dal Piva.

A partir de 2008, o governo começou a regularizar os registros das fazendas e, nesse processo, encontrou indícios da exploração, conta Dal Piva. “Junto com a parca documentação existente, os fiscais encontravam cadernetas com as dívidas dos trabalhadores com os fazendeiros. Muitos proprietários, para fugir das denúncias de trabalho escravo, faziam contribuições previdenciárias e de seguro-saúde para os trabalhadores.” Esses gastos, contudo, eram transformados em dívida dos trabalhadores para com os patrões, e anotados nas “cadernetas” que os amarram às propriedades.

Heloisa Gimenez, pesquisadora na área de Relações Internacionais e também mestranda do Prolam, relaciona a exploração dos recursos bolivianos e a questão de terras a um processo geopolítico maior. Para Heloisa, “há influência do Brasil no agronegócio do país vizinho, e as obras de infra-estrutura devem ser pensadas no contexto da integração continental e da ascensão da União das Nações Sulamericanas (Unasul)”.

Divisão nacional – De acordo ela, “para entender a questão fundiária boliviana precisamos analisar como a economia boliviana se desenvolveu nos últimos 50 anos”. Oitenta porcento dos recursos obtidos pela Bolívia com exportações vinham do estanho. “Em 1952, acontece a Revolução Nacional e, no ano seguinte, começa uma reforma agrária. A Bolívia é o único país sul-americano a redistribuir suas terras”, diz Gimenez.

Esse processo “dividiu” a Bolívia, explica: “As terras do oeste do país e do altiplano ficaram com pequenos produtores e com a agricultura de subsistência. Já as terras do leste do país – principalmente na província de Santa Cruz – foram destinadas ao agronegócio. Por causa dessa escolha, as obras de infraestrutura foram feitas nessa região, para facilitar a exportação para o Brasil e a Argentina.”

No entanto, somente nos anos 1980, o agronegócio boliviano ganhou impulso, com a chegada de brasileiros, japoneses e imigrantes do Leste Europeu. A fragilidade da economia boliviana, a pouca disponibilidade de terras agriculturáveis e a necessidade de capital eram as dificuldades encontradas. De acordo com Gimenez, “a chegada dos estrangeiros foi crucial para acelerar o desenvolvimento do agronegócio na Bolívia”.

Gimenez aponta um dilema a ser resolvido na questão fundiária boliviana: em 2006, o presidente Evo Morales assinou um decreto para reversão da posse da terra em casos de escravidão e não cumprimento do seu uso econômico-social (terra improdutiva). “No entanto, a Bolívia faz uma opção pelo desenvolvimento baseado na exploração de recursos naturais e exportação de produtos agrícolas. Isso só faz aumentar a concentração de terras”, diz.

A lei agrária boliviana limita a propriedade da terra a 5 mil hectares. Mas o decreto não é retroativo, diz Gimenez. Isso dificulta o combate à concentração de terras, pois os latifundiários usam “laranjas” para comprar terrenos vizinhos sem caracterizar latifúndio, explica. “Será difícil para o governo central achar uma solução adequada para essa questão”, concluiu ela.

*Matéria originalmente publicada no Opera Mundi

Retirado do site da Carta Capital

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