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Texto em partes

Como no último artigo, insiro aqui um post com todos os links do texto “Caminhos alternativos para uma estrada sem fim”, trabalho final de fechamento do curso “Signo da Relação”, da professora Cremilda Medina. E assim como da outra vez, quem quiser debater esse e outros assuntos, meu e-mail é: rodrigo.herrero@gmail.com.

Texto em partes

1. Introdução

2. Paradigmas em crise

3. Cultura dentro de um projeto

4. Caminhos e descaminhos no projeto de pesquisa

5. A política de Innerarity

6. Por uma estrada aberta

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6. Por uma estrada aberta

6. Por uma estrada aberta

Como não poderia deixar de ser, aboli o item conclusão deste trabalho, afinal de contas, este é apenas um trabalho final da disciplina, que cumpre com as regras do curso de avaliações, notas, etc., não tem, portanto, a pretensão de concluir coisa alguma. E, mais que isto, se estamos numa concepção em que a certeza é uma coisa incerta e as respostas não são nada mais que artigos de um luxo vazio, temos que nos apegar no fato de que nada é definitivo, conclusivo, nada é mais líquido e certo.

A partir de agora temos que encarar qualquer trabalho acadêmico, qualquer reportagem, como um caminho que se inicia numa estrada aberta a mil possibilidades, mudanças, reavaliações, mudanças de rota, de pensamento. As conclusões serão, daqui pra frente, apenas questionamentos para pesquisadores futuros partirem de novos pontos, ajudando, mais que querendo resolver sozinho, a evolução do conhecimento, por mais que seja repleta de idas e vindas, avanços e revezes.

Enfim, o que pude perceber neste primeiro semestre durante a disciplina “Signo da Relação” com a professora Cremilda é que tudo está apenas começando e não tem nada melhor do que o frescor da novidade o tempo todo, mais do que a dura e fria certeza que nos mantém inertes, sem nada produzir, já que tudo está pronto em alguma fôrma e é só copiar – verdadeiro “carma” deste novo século. Temos, no fim das contas, uma estrada sem fim pela frente. Agora não mais de apenas uma reta só, mas sim de vários caminhos alternativos que podem nos levar a diversas formas de conhecimento.

7. Bibliografia

BARROS, Ana Taís Martins Portanova. O jornalismo afetivo: por uma superação da dicotomia entre real e imaginário. São Paulo, 2000. Trabalho final da disciplina “Fundamentos metodológicos do conhecimento científico” – Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo.

INNERARITY, Daniel. A transformação da política. Lisboa: Teorema, 2002.

MEDINA, Cremilda. A arte de tecer o presente, narrativa e cotidiano. São Paulo: Summus Editorial, 2003.

MEDINA, Cremilda. Aventuras e desventuras do paradigma em crise. São Paulo, s/d.

MEDINA, Cremilda. Ciência e Jornalismo, da herança positivista ao diálogo dos afetos. São Paulo: Summus Editorial, 2008.

MEDINA, Sinval. Riquezas e injustiças do Brasil. In: NOVO PACTO DA CIÊNCIA. Planeta Inquieto – direito ao século XXI, São Paulo: ECA/USP, 1998.

OSPINA, William. La decadencia de los dragones. Bogotá: Alfaguara, 2006.

PRIGOGINE, Ilya. O fim das certezas. São Paulo: Editora Unesp, 1996.

RESTREPO, Luis Carlos. O direito à ternura. Petrópolis: Vozes, 2001.

Texto em partes

1. Introdução

2. Paradigmas em crise

3. Cultura dentro de um projeto

4. Caminhos e descaminhos no projeto de pesquisa

5. A política de Innerarity

5. A política de Innerarity

5. A política de Innerarity

Uma das últimas discussões nos encontros da disciplina “Signo da Relação” girou em torno da obra A Transformação da Política, de Daniel Innerarity, que debate diversos pontos de vista da política, mostrando-a de uma forma totalmente diferente do que estamos acostumados a ver, retirando o véu para diversas concepções ideológicas, teóricas, que temos costume por guardar no desenvolvimento de nossa intelectualidade ou mesmo em uma conversa de bar a respeito de corrupção ou das eleições.

Tomei contato com a obra de forma mais efetiva somente ao cabo do curso, em que pude me deter com mais profundidade aos escritos do autor, que pode ser um elemento colaborativo no processo de construção da minha pesquisa, já que tem em seu cerne a política e a forma como ela é praticada, auxiliando na compreensão de como atuam politicamente os governos Hugo Chávez e Luiz Inácio Lula da Silva, tanto em seus respectivos países, Venezuela e Brasil, quanto na relação com seus pares internacionais, sejam vizinhos continentais, parceiros comerciais ou inimigos potenciais. Detive-me particularmente à primeira parte do texto, por considerar a discussão mais interessante para minha pesquisa, apesar de considerar a segunda parte um elemento que mereça a minha atenção em breve.

E a primeira anotação feita que cabe nesta reflexão é justamente quanto à crítica ao discurso ainda usual de esquerda e direita que políticos e governantes em geral utilizam para querer se diferenciar no meio da multidão de profissionais da política que nada se diferenciam, isso sendo feito, pois os perfis programáticos dos partidos são cada vez menos diferentes (INNERARITY, 2002). Mesmo assim, eles acabam sendo vistos pela opinião pública como vermes corruptíveis que sugam os impostos do contribuinte. Escreve Inneratity:

“A distinção política fundamental já não é estabelecida pela oposição esquerda e direita, mas pela de posições que reconhecem ou procuram suprimir a contingência, pela dos que têm na política uma visão acabada aos interessados na realidade e aos exploradores do possível” (INNERARITY, 2002, p. 25).

A contingência, portanto, ganha centralidade nos escritos do autor, indicando que reconhecê-la não se trata de reverenciar o necessário, mas aceitar uma forma de viver que valoriza a imprevisibilidade, a incerteza, a fragilidade ou a oportunidade. Mas o que é contingência para o autor? “Contingência significa possibilidade de que as coisas sejam de outra maneira e convida a procurar alternativas” (INNERARITY, idem, p. 27).

Max Weber foi um dos que melhor e primeiro utilizou este sentido para determinar o que é “político”. Ele coloca a ação política dentro do contexto de aspirar o poder, um termo amplamente utilizado em Realpolitik, mas que pode significar outra coisa bem diferente. “Aspirar a uma coisa significa orientar-se para a modificação do existente. A mudança adquire uma posição central na política, ao passo que a estabilidade acaba por ser uma reação” (INNERARITY, idem, p. 26).

Por isso que, muitas vezes, políticos e marqueteiros de plantão usam e abusam de palavras-chaves como mudança, renovação, reforma, porque se busca o tempo todo transformar algo.  E o que acaba por eleger alguém é o grau de comprometimento que este se dispõe a ter com um cenário diferente do atual, já que o ser humano é eternamente insatisfeito e sempre quererá mais e mais mudanças, crendo, que uma nova proposta, um programa diferente, ou mesmo um partido renovado, podem proporcionar esse El Dorado político.

Por esse motivo a eleição é vista como

“uma interrupção da inércia, uma instituição de ruptura da continuidade. Nesse momento se torna visível de maneira evidente que a política nos introduz num mundo no qual é preciso responder e prestar contas, que o poder não é absoluto no qual é preciso responder e prestar contas, que o poder não é absoluto porque está obrigado a revalidar-se, que a política só dá oportunidades a prazo” (INNERARITY, idem, p. 30).

Dentro desse contexto, a reeleição não pode ser vista como algo benéfico para o desenvolvimento da democracia, bem como da política, já que a acomodação acontece nos Três Poderes e na própria população que se acostuma em ver determinado mandatário a frente do país e chega a crer que muito melhor que está não pode ficar. Não é a toa os cerca de 80% de aprovação do presidente Lula e muitos depoimentos nas ruas de pessoas que votariam nele, caso o mesmo concorresse a um terceiro mandato. A reeleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1998, com o país passando por apuros econômicos, é outro exemplo. Or outro lado, o que dizer da reeleição limitada na Venezuela e das tentativas de outros países de rever a Constituição para aumentar mandatos ou possibilitar reeleições? No entanto, o que atenua é a realização de consultas populares, plebiscitos, que servem para a população participar e decidir se este é ou não o melhor caminho, aproximando assim do que seria uma democracia direta, ou “participativa”, no caso chavista.

Contudo, Innerarity ressalva que se a democracia fosse direta, com as pessoas participando ativamente, as conexões da sociedade se mostram hoje tão complexas que elas não conseguiriam segurar tal demanda e delegariam a outras a tomada de decisões, mais ou menos como ocorre atualmente. Por isso, ele faz uma defesa das instituições criadas para dar conta desse processo, que é a chamada “democracia representativa”: “As instituições são como que o equivalente político da boa educação; são normas que de vez enquando é preciso rever, mas que, entretanto, impedem que a espontaneidade seja dominada pelos instintos mais rudimentares” (INNERARITY, idem, p. 65).

É preciso que a política seja afastada do doutrinarismo que impõe esquemas rígidos dentro de um mundo complexo: “A política não começa com um plano exato, um contrato social originário ou uma plataforma de consenso” (INNERARITY, idem, p. 34). Ou seja, é preciso considerar a política dentro da prática e da experiência cotidiana e não como um modelo teórico ou científico pronto.

E para finalizar este trecho, fico com uma definição de política num sentido mais amplo, feita pelo autor, que sintetiza de forma coerente com seus pensamentos e se aproxima do que a democracia que afirma-se por aí querer:

“A política é a resistência – sempre malograda ou parcialmente realizada – à imposição, à confrontação e à exclusão, é o empenho em resolver os problemas sociais em termos de integração, é um combate contra a incompatibilidade. As suas tarefas fundamentais são a mediação, a convergência, a cooperação e o acordo. Uma boa política não exige que se dê satisfação aos interesses de todos (o que, mais ou menos sempre, se revela impossível), mas não se pode deixar de tê-lo tentado” (INNERARITY, idem, p. 55).

Amanhã: 6. Por uma estrada aberta

Texto em partes

1. Introdução

2. Paradigmas em crise

3. Cultura dentro de um projeto

4. Caminhos e descaminhos no projeto de pesquisa

4. Caminhos e descaminhos no projeto de pesquisa

4. Caminhos e descaminhos no projeto de pesquisa

Outro ponto que considero nevrálgico é quanto à metodologia, tão diversa a cada passo dado, tão indefinida a cada questionamento mais profundo. A dificuldade em conjugar as variadas disciplinas dentro do PROLAM, aproveitando e absorvendo-as para dentro da pesquisa, reflete, principalmente, no tocante à metodologia, ainda mais no desenvolvimento da minha pesquisa, focada numa espécie de comparativo entre os posicionamentos políticos de Hugo Chávez e Lula quanto à integração latino-americana.

Após tentativas de analisar os documentos e discursos, instrumentos de críticas da própria professora Cremilda, como também de meu orientador, o professor Renato Seixas, por permanecer somente nas vozes oficiais de Brasil e Venezuela, ou seja, em discursos prontos apenas lidos pelos presidentes de cada país, elaborados, na verdade, pelas chancelarias de cada Estado, não poderiam se aproximar de uma realidade conectada com o cotidiano e com o que eles realmente desejam fazer.

Com as seguidas investidas argumentativas do meu orientador, alertando justamente para a precariedade de meus objetos de estudos, enxerguei minha grande dificuldade em reavaliar meu projeto, devido à verve mais teórica que prática que possuo, voltada mais às Ciências Políticas que ao Jornalismo, mas também a uma certa irredutibilidade em rever conceitos, premissas e métodos pré-formatados antes de entrar no programa. Mas foi preciso encarar os fatos e a impossibilidade de lidar com as ferramentas de pesquisa escolhidas no projeto original que possibilitou uma guinada ao menos na metodologia da pesquisa, que influirá, certamente, em boa parte da dissertação futura.

Uma forma de trazer à pesquisa ao menos uma reflexão mais social, cultural e, principalmente, sob o ponto de vista da comunicação, e, no fundo, de viabilizá-la, foi a sugestão do orientador para me focar nas declarações dos dois presidentes nos jornais de maior circulação tanto no Brasil (Folha de S. Paulo) quanto na Venezuela (Últimas Noticias) sendo este o critério de escolha e, para focar ainda mais, somente o que sai na primeira página de cada um dos periódicos, no sentido de que a população não costuma comprar jornais, mas se alimenta deles nas tradicionais bancas de jornais espalhadas pelo Brasil afora, ao menos no exemplo brasileiro.

A metodologia está em fase de testes, como uma exploração em uma mina, ou seja, mapeando terreno escuro, desconhecido: estou separando o que saiu no período entre 2007 e 2008 sobre Brasil, Venezuela e América Latina na capa dos dois jornais, para depois selecionar um ou dois temas mais recorrentes e focar o estudo neles, comparando também o que sai na capa destes com o que sai na parte interna, nem sempre lido e nem sempre igual ao que foi destacado na primeira página.

Acredito, com isso, que será possível ter uma maior proximidade, em primeiro lugar, com o que está sendo dito na realidade pelos presidentes, depois, com o processo de mediação simbólica feito pelo jornal e, por fim, em relação à informação que chega ao público. Diante disto, uma nova veia salta neste estudo: a dos estudos dos processos de comunicação, não somente do ponto de vista do emissor, do receptor, do meio, mas principalmente desse processo de mediação, entre o que foi dito pelos governantes, o que foi transmitido e o que foi repercutido depois, que gerou nova declaração dos governantes, por exemplo. Os testes prosseguem e seu sucesso vai depender do andamento e dos aprendizados que serão incorporados ao longo da pesquisa.

Mas agora vamos a um debate sobre política, importante tanto dentro do contexto da disciplina, quanto (e principalmente) na pesquisa em desenvolvimento.

Amanhã: 5. A política de Innerarity

Texto em partes

1. Introdução

2. Paradigmas em crise

3. Cultura dentro de um projeto

3. Cultura dentro de um projeto

3. Cultura dentro de um projeto

A cultura não pode ser somente uma mera palavra importante, mas sem compreendida, muito menos uma simples editoria de jornal. É preciso mais, tanto nos periódicos, quanto na pesquisa acadêmica. Por isso, no texto “Relação entre cultura e projeto de pesquisa” entregue durante o curso, exponho como a questão da cultura foi e ainda é meu calcanhar de Aquiles no projeto. Saliento as dificuldades em relacionar esta dentro de um projeto de política, voltado à análise das relações internacionais.

O mais engraçado é que, naquele texto mesmo eu comecei a enxergar que era possível começar a enxergar aspectos culturais dentro da minha pesquisa, senão em seu cerne, com certeza no seu entorno. Como eu cito naquele texto: Elementos da política interna; composição social da sociedade; questões históricas, econômicas, e, claro, culturais; Tudo isso as relações de um país com os outros.

Assim, eu percebi ser uma questão cultural a forte tradição democrática na sociedade venezuelana, desde os tempos do Pacto de Punto Fijo em 1958, em que a Venezuela foi, por anos, o único país democrático da América Latina. E, na atual governança, essa questão pode ser exemplificada no debate entre democracia representativa x democracia participativa que a Venezuelana chavista travou com os Estados Unidos no início da década na Organização dos Estados Americanos (OEA). Sem falar nos diversos plebiscitos e referendos que pedem a participação popular para confirmar ou negar as ações do governo venezuelano.

No caso brasileiro, a permanência por décadas de Celso Amorim, atual Ministro das Relações Exteriores, no Itamaraty, reforça a cultura de continuidade e fidelidade de um projeto brasileiro no âmbito da política externa, simbolizado numa certa liderança na América Latina e um protagonismo no âmbito mundial. Além da palavra-chave “diálogo”, característica latente desta chancelaria, tratando com governos das mais variadas estirpes ideológicas, tendo clara ligação com o presidente Lula, que tem essa característica em seu gene desde seus tempos de sindicalista, mais evidenciado, porém, agora como mandatário máximo do país.

Ou seja, os exemplos citados aqui podem ser considerados de forma abrangente de que há elementos históricos, sociais, e, porque não culturais, que compõem uma pesquisa focalizada numa análise da política internacional de dois países numa região continental específica. A base social que elegeu cada governo, o impacto interno de cada medida no âmbito externo também pode ser avaliada e inserida no caldo do projeto como um elemento a mais de análise e compreensão dos (des)caminhos de cada projeto político. Ainda mais com a mudança de metodologia proposta pelo orientador e que trato no item a seguir, tais variáveis poderão fazer parte ainda maior desta pesquisa.

Diante disso, portanto, a cultura se coloca de várias formas numa produção acadêmica, no jornalismo, na comunicação em geral. Mas, para isto, é necessário que se abra a mente para essas perspectivas que diferem do que é exposto por aí. Por exemplo, no já citado texto “Riquezas e injustiças do Brasil”, de Sinval Medina, ao cunhar termos como Holambra, Brasiguai (que se tornou real com os ciudadanos brasiguaios que pularam a fronteira rumo ao vizinho) e Periferistão, ele desafia nossas mentes a serem mais que manuais científicos, jornalísticos, acadêmicos. Como escrevi numa reflexão sobre este texto, o autor incita-nos a colocar uma pitada do tempero brasileiro nos nossos textos, pesquisas, reportagens, dissertações, teses, dando uma cara, uma identidade, nossa cultura, enfim, em relação ao que observamos e vivemos. Pois, como ele mesmo diz:

“(…) no mundo unificado ou globalizado economicamente, a nação subsistirá como cultura, as identidades nacionais serão marcadas mais pela produção simbólica do que pela produção material. A riqueza cultural, aliás, é o grande patrimônio brasileiro para enfrentar os desafios do próximo milênio” (MEDINA, S., 1998, p. 219).

Para isso, é preciso sonhar, transcender, acreditar ser possível: é preciso imaginação, fantasia William Ospina em La decadencia de los dragones:

“Creo que la imaginación humana no ha perdido su vigor, pero sí ha cambiado sus temas y sus símbolos. Ese siglo tremendo que acada de irse abundó en obras fantásticas y en creadores asombrosos, y pretender agotada nuestra imaginación sólo evidenciaría que carecemos de ella; pero, al menos en las artes y en las creencias populares, mucho se ha modificado en los últimos tiempos” (OSPINA, 2006, P. 201).

E caminha nessa possibilidade: “Tal vez ése sea el sentido profundo de nuestra literatura fantástica: ser el refugio de la imaginación de escepticismo, pero también la región donde se gesta la salud emocional del futuro” (OSPINA, 2006, P. 213).

Mas agora tratemos das idas e vindas do projeto propriamente dito, importantes por compreender as nuances que foram sendo transformadas ao longo da pesquisa, com alguma influência das disciplinas cursadas, especialmente a referida neste trabalho final.

Amanhã: 4. Caminhos e descaminhos no projeto de pesquisa

Texto em partes

1. Introdução

2. Paradigmas em crise

2. Paradigmas em crise

2. Paradigmas em crise

Meu projeto busca comparar as assimetrias e divergências entre a política externa para a América Latina dos governos de Hugo Chávez, presidente da Venezuela desde 1999, e Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil desde 2003, com enfoque especial em dois processos de integração em curso no subcontinente, a saber: Mercosul, liderado por Brasil e Argentina e retomado pelo governo Lula como um dos pontos principais de sua política externa e a Alba, criado pela Venezuela, em parceria com Cuba, num dos pontos centrais da legitimação externa e interna de Chávez e sua atuação baseada em investimentos retirado dos lucros do petróleo venezuelano. A idéia inicial era buscar nas falas presidenciais, e, até mesmo, das chancelarias dos dois países, o que cada um pensa a respeito da América Latina, qual sua atuação na região e o que se busca realmente: uma integração regional ou a consolidação de uma liderança no subcontinente via projeto vitorioso?

Vários problemas foram colocados pela professora Cremilda Medina em decorrência da apresentação do projeto aprovado no PROLAM: desde cuidados com o título do projeto, dicas sobre interpretação de textos, mas principalmente, tomar cuidado com as dicotomias na hora de fazer comparações; trabalhar sempre no campo das dúvidas e não das certezas, como colocava de forma imperativa o trabalho; agregar à razão decifradora a sensibilidade intuitiva para que busque uma melhor compreensão da complexidade dos fenômenos a serem estudados; dentro disso, ainda, aliar à objetividade elementos subjetivos, diminuindo a distância entre esses dois mundos.

Confesso que tudo isso produziu um enorme ponto de interrogação, simbolizado no texto “Inquietações + incertezas + dúvidas = ?”, entregue em sala de aula, em que levanto várias dúvidas sobre como prosseguir diante de tal conjuntura, um tanto desanimado, mas principalmente assustado, perdido, no emaranhado labiríntico das novas, até então pra mim, teorias que brecavam a imposição positivista e da razão sobre todas as coisas.

Mas aos poucos, ao ir tomando contato com esses outros paradigmas, através de leituras, comecei a me familiarizar e tentar compreendê-los. Exemplo do texto “Aventuras e desventuras do paradigma em crise”, em que Cremilda propõe uma trajetória esclarecedora quanto ao desenvolvimento de sua pesquisa nessa área, especificamente quanto à Comunicação Social e, em particular, ao Jornalismo. Ela traz no texto o que Kuhn considera quanto aos paradigmas, ou seja, “realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” (KUHN apud MEDINA, C., s/d, p. 01). Repare na expressão “durante algum tempo”. Ou seja, não se trata de algo que resolva para sempre os problemas da humanidade, pois não há essa ferramenta.

E é exatamente este o ponto trazido pelo texto, que os paradigmas que fizeram sucesso a partir do século XIX, após as obras de Augusto Comte e René Descartes, estão em declínio e precisam ser suportados por outros preceitos que ajudem a dar conta e a responder as necessidades humanas atuais. “O embrião de novos paradigmas surge no processo da ciência estabelecida e o significado da crise se concentra numa necessária renovação que vai além do universo fechado das leis, modelos e metodologias operacionais” (MEDINA, C., s/d, p. 01).

Segundo Medina (2008), Comte, através, principalmente, de seu “Discurso sobre o espírito positivo”, previa no estado positivo da ciência “a consequência necessária das relações regulares, descobertas entre os fenômenos, e rejeita a vã erudição que acumula fatos sem aspirar a deduzi-los uns dos outros” (MEDINA, C., 2008, p. 19). Outro elemento que mostra bem o estado positivo é o do privilégio da razão, colocando a observação como única premissa basilar possível para se alcançar a verdade, relacionados estritamente às necessidades reais.

Isso faz com que na academia nos valhamos das “certezas ideológicas, da verdade absoluta, da determinação única dos acontecimentos e da relação fiel e objetiva com eles quando se produz um relato” (MEDINA, C., 2008, p. 31), apontando para René Descartes, que, entre outras coisas, dividiu o corpo da mente, proporcionando, portanto, “a separação das operações mais refinadas da mente, para um lado, e da estrutura e funcionamento do organismo biológico, para o outro” (DAMÁSIO apud MEDINA, C., 2008, P. 34).

Isso porque, segundo a professora, em Discurso do Método, obra de Descartes que fecha a questão da razão na obra do autor, a mente deve estar conformada perante quatro regras: verdade comprovada via razão; divisão em muitas partes de tudo que se mostra complexo; simplificar cada parte para ordenamento futuro; revisões ou verificações das verdades científicas. E a crítica da professora Cremilda vai justamente neste caminho, que é a primazia da razão, da certeza, da partição de algo abrangente, tornando algo tão específico que se perde o contato com o todo, das fórmulas prontas para responder a tudo, em contraposição à intuição criadora que permite olhar, sentir e, enfim, viver, outras possibilidades, trazendo o saber local, a cultura e as pessoas para o centro da pesquisa e não analisá-las distanciadamente.

Sua crítica nos faz retornar ao texto sobre os paradigmas em crise:

“A fragmentação vem de uma prática racionalista empobrecida pela atrofia da intuição criativa. O raciocínio mecanicista que divide em partes o fenômeno ignora a dinâmica do processo, se reflete em relatos que mais parecem um rol de aspectos sem nenhuma conexão” (MEDINA, C., s/d, p. 13)..

Ou, como Restrepo coloca em seu “Direito à Ternura”, vale a pena desconfiar da opinião comum e reconhecida de que a abertura ao afetivo e sensorial serve para artistas e poetas, mas não serve para a ciência:

“Esta percepção, baseada na arbitrária distinção entre o afetivo e o cognitivo, recebeu sua sanção definitiva nas obras do chanceler Francis Bacon, pioneiro da racionalidade instrumental, para quem o exercício científico exigia declarar guerra aos fantasmas da imaginação, a fim de obter uma objetividade a toda prova” (RESTREPO, 2001, p. 38).

Esse tipo de reflexão, portanto, provoca a dificuldade de transcender quando um problema surge de uma forma completamente diversa. Por exemplo, no texto “Riquezas e injustiças do Brasil”, de Sinval Medina, em que ele começa a refletir se o Brasil na época do presidente Fernando Henrique Cardoso ia ou não pra frente, se avançava ou regredia, levando em conta as duas possibilidades, estava sendo colocado exatamente esta dificuldade de perceber coisas distintas e, mais que tudo, opostas, convivendo harmoniosamente no caos de nossa sociedade: “Afinal, pelos padrões lineares, não complexos, baseados em sim ou não, certo ou errado e assim por diante, é impossível incorporar contrários e trafegar num oceano de incertezas sem perder o norte” (MEDINA, S., 1998, p. 214).

A alternativa passa pelo trabalho realizado em 1990, com o “1º Seminário Transdisciplinar sobe a Crise de Paradigmas”, culminando no ano seguinte num documento que tem seus pontos centrais resumidos pela própria Cremilda Medina e colocados a seguir, como objetivos de romper com o paradigma fragmentalista-racionalista vigente, mas em queda livre nos dias atuais:

– Necessidade de desconstruir a fragmentação e construir visões abrangentes do mundo (no jornalismo, na medicina, no direito, na geografia ou na genética);

– A emergência de redescobrir a mobilidade interior ou a intuição criativa;

– A superação da dicotomia sujeito-objeto para desenvolver a dialogia sujeito-sujeito;

– Às lógicas clássicas somar a não-lógica das contradições;

– Da visão estreita dos problemas transitar para a cosmovisão societária;

– O reconhecimento de que a especificidade humana não cabe em modelos que de regem pela fixidez dos manuais;

Portanto, o desenvolver do projeto de pesquisa de acordo com uma proposta mais atual sob o ponto de vista acadêmico passa por uma revisão epistemológica dos próprios paradigmas teóricos que vêm caindo gradativamente nas várias disciplinas enrijecidas pela hierarquia positivista. Isso faz com que seja aberto espaço para outras propostas, que enxergam na poesia, na literatura, na aproximação da cultura a todos os momentos, enfim, para exemplificar, na relação Eu-Tu e não Eu-Isto, em que o pesquisador se aproxima do pesquisado e não o observa placidamente à distância. Um debate interessante e, confesso, desesperador para um estudante, que se vê as voltas mais de descaminhos que caminhos. Mas essa é a primeira nuance dos “novos” paradigmas: abandonar as certezas e fortalecer-se na busca por compreender nas dúvidas que instamos o tempo todo, uma base firme, sustentável, para consolidar uma pesquisa madura e conectada com a realidade humana atual. Não é a toa que a cultura ganha um pedaço especial neste texto, que é mais uma reflexão em cima de todo o curso.

Amanhã: 3. Cultura dentro de um projeto

Texto em partes

1. Introdução

Caminhos alternativos para uma estrada sem fim

Olá.

Começo hoje um novo especial. Vou publicar em pílulas um texto que escrevi como conclusão da disciplina “Signo da Relação”, da professora Cremilda Medina. Traço um roteiro de todo o curso e a influência deste com meu projeto de pesquisa.

A primeira que posto é a introdução. Amanhã publico o item 2. Paradigmas em crise.

  1. Introdução

A dificuldade em produzir este relatório final da disciplina reflete a complexidade em andar cada passo, devagarinho, pela estrada aberta pela professora Cremilda Medina aos seus alunos neste primeiro semestre de 2009.

Em princípio, desceu uma verdadeira avalanche de teorias virgens para nosso conhecimento sobre a grossa parede de conceito armado por anos de ensinamentos voltados apenas ao positivismo e à razão de Déscartes, deixando este espectro de jornalista tonto nas aulas iniciais, sem conseguir conectar uma idéia à outra. E é essa a primeira lição da Cremilda: não descartar, sem trocadilhos, as contribuições lógicas e racionais, mas aliá-la com as teorias que dão conta de que é possível inserir a sensibilidade e a emoção humanas tanto na construção jornalística, quanto na academia, colocando pitadas de poesia, literatura, numa busca para enxergar a cultura por trás de cada poro noticioso/pesquisável.

Após o susto, começamos a engatinhar nos conceitos, debatê-los e a tentar colocá-los em prática, no dia a dia, no trabalho, na academia, na vida, enfim. E é um caminho sem fim, sem certezas, sem respostas certas, ou erradas, apenas direções distintas, diversas, caminhos que tentam compreender o que estamos vivendo, sem a pretensão de responder tudo, de definir coisas, matematizar sentimentos. Ao cabo deste curso, a sensação que fica é que temos muito trabalho pela frente, que desconstruir séculos de um concreto apodrecido por dentro pelo tempo, mas firme nas aparências, não é apenas uma tarefa de um curso, de uma pesquisa, mas sim o trabalho de toda uma vida, como exemplifica a professora Cremilda com sua trajetória.

E a proposta deste trabalho final é justamente a de relatar a primeira parte da viagem que realizamos por uma estrada iluminada por diversas cores e não monocromática, como éramos acostumados. O objetivo neste trabalho, portanto é traçar uma rota que tem a primeira estação as primeiras aulas e a tomada de conhecimento dos paradigmas em crise e as outras possibilidades, desconhecidas de muitos de nós até então. Depois de alguns passos, enveredar pela importância da cultura dentro do processo da construção do conhecimento: mais do que uma simples vertente do jornalismo ou de linha de pesquisa, um elemento central em todos os aspectos.

Na sequência, uma reflexão sobre o andamento da pesquisa em cima do que foi absorvido e questionado durante o curso. Por fim, uma tentativa de aproveitar as contribuições de Innerarity a respeito da política para nossa produção acadêmica, numa conseqüente busca de dar alguma direção para a pesquisa, coerente com tudo o que foi vivido neste produtivo período, salientando que esta viagem não acaba com o fim do curso, ela apenas começa.

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