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Incentivo à leitura

Olá pessoal. Indico mais uma reportagem da série que produzi para o Blog Educação www.blogeducacao.org.br, desta vez sobre ações que incentivem a leitura em uma cidade do Espírito Santo. Bem legais as iniciativas. Confiram!

Conceição da Barra (ES) mobiliza a comunidade para a 

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importância da leitura

Incentivar a leitura e ampliar os horizontes do conhecimento para além da sala de aula e para todas as idades. É com esse objetivo que a cidade de Conceição da Barra, integrante do Parceria Votorantim pela Educação – PVE do litoral norte do Espírito Santo, está se mobilizando. A ideia é desenvolver projetos que despertem crianças, jovens e adultos para a riqueza contida nos livros, hoje um tanto quanto esquecida por conta de um mundo cada vez mais tecnológico, repleto de informações rápidas e pouco reflexivo.

Essa demanda pela leitura surgiu durante as reuniões do PVE em vários níveis. Os diretores de escola externaram a sua preocupação quanto ao desejo de incrementar a leitura, fato corroborado tanto pelos técnicos da Secretaria Municipal de Educação – SME da cidade quanto pelo grupo de mobilização externa. “Nossa cidade tem uma biblioteca municipal que tem ‘ficado de enfeite’. Diretores e secretaria comentaram,  e o público externo concordou, que as pessoas só querem saber de internet, computador e  games; não têm mais o prazer de ler um livro, da contação de histórias e não há interesse pela história da cidade. Vimos a necessidade de resgatar tudo isso”, afirma a mobilizadora Ane Teixeira Barbosa, da Fibria de Conceição da Barra.

Tal desejo veio ao encontro dos anseios do grupo de escoteiros da cidade, que, inclusive, já tinha uma ideia para tentar mudar esse quadro. “Sou um leitor inveterado e comecei a perceber as dificuldades com relação à leitura no município. As bibliotecas, por exemplo, são insuficientes, pois não atendem as necessidades e possuem horários limitados. Tivemos a ideia de criar uma feira do livro, mas achamos que não dava para começar já com uma feira. Então, pensamos em montar uma banca para a troca de livros usados”, conta Dalmar Alcoforado Lacerda, chefe do Grupo Escoteiro Foz do Cricaré.

A comunidade abraçou o projeto formulado pelos escoteiros, que agora estão buscando recursos para a concretização. Ao mesmo tempo, foi organizada pelo grupo de mobilização do PVE uma campanha de doação de livros para abastecer a futura banca. “Todo mundo que participa do grupo de mobilização externa está arrecadando livros. Aqui na empresa, os funcionários estão trazendo vários exemplares. No dia 15 de agosto, vamos fazer uma reunião na praça principal da cidade para levar os livros arrecadados e fazer uma seleção”, diz a mobilizadora Ane.

A expectativa é inaugurar a banca de livros no feriado nacional de sete de setembro, quando se comemora a Independência do Brasil, e depois circular  pela cidade, por praças, escolas e festas. “A ideia é você levar um livro seu e escolher outro por um valor simbólico de R$ 3 para renovar a leitura e a biblioteca da sua casa. Com o dinheiro arrecadado, queremos criar um fundo para comprar os uniformes de crianças carentes. Jovens escoteiros, entre 15 e 18 anos, serão os responsáveis pela banca, o que também é um ganho, porque eles vão ter que ler para orientar as pessoas, passando a enxergar o livro de uma forma diferente”, acredita Dalmar.

Ações em massa em prol da leitura

Em ação complementar, está sendo desenvolvida pelo poeta Salomão da Silva Pinto, mais conhecido como Sossó, uma oficina de dramaturgia com os jovens da Associação Esportiva Palmeirinhas, uma das entidades participantes do PVE. A partir desse trabalho será ensaiada uma peça para ser exibida no dia do lançamento da banca, como uma forma de atrair as pessoas ao evento. Segundo Sossó, o objetivo é levar essa e outras oficinas – dança de roda, poesia e leitura – para as escolas de Conceição da Barra, formando grupos interessados em participar do projeto.

Para isso se tornar possível, foi criado um questionário, aplicado aos alunos da escola, que está em fase de análise. “Nós queremos saber a opinião do aluno sobre a importância da leitura; se ele lê apenas por obrigação ou para adquirir conhecimento; que tipo de literatura gera interessa; se ele conhece a história da cidade e seus autores. Por fim, perguntamos a eles se há interesse em participar. A partir das respostas, vamos iniciar as oficinas, convidar pessoas mais antigas da cidade para falar, incentivar a história oral e os demais temas do projeto”, explica Sossó, que também é coordenador do Programa de Promoção de Leitura Plantando Leitores, da SME de Conceição da Barra. “Esse trabalho será muito importante para motivar os alunos a descobrirem o sabor da leitura”, completa.

Para aprimorar o trabalho, o grupo de mobilização visitou dois projetos apoiados pelo Instituto Votorantim, em regiões próximas à Conceição da Barra, que desenvolvem atividades culturais voltadas a crianças e jovens: o Araçá, em Pedro Canário, e o Centro Comunitário Franco Rossetti, em São Mateus. Um dos objetivos é travar, futuramente, um intercâmbio entre as oficinas de teatro e de literatura para a troca de experiências.

Outra ação que visa ampliar o interesse pela leitura, especialmente das crianças, é a criação de uma biblioteca itinerante que visitará as escolas que tiverem salas de leitura. Para abastecer a biblioteca, a prefeitura adquiriu recentemente um grande acervo de livros.A SME de Conceição da Barra também nutre a expectativa de realizar eventos nas escolas nos finais de semana, envolvendo as famílias e toda a comunidade do município.  “Temos tentado lançar um olhar mais amplo sobre esse despertar para a literatura dentro do nosso município. Sabemos que é por meio dessa dinâmica de motivar a criança a ler na idade certa, que vamos transpor várias questões, como a reprovação e o analfabetismo”, defende Sandra Ângela Rocha, gerente pedagógica da SME.

Colaborou Rodrigo Herrero / Blog Educação

Curiosidades sobre o livro – Parte II

Segue mais um texto da série que estou produzindo sobre o projeto do livro Face Leste: revisitando a cidade, que escrevi para o pessoal da Bonita produções e que está em fase de finalização.

Post publicado originalmente em: http://bonitaproducoes.wordpress.com/2011/12/06/curiosidades-sobre-o-livro-parte-ii/.

Como prometido, estamos de volta com a segunda parte das curiosidades sobre os bairros que fazem parte do livro Face Leste: revisitando a cidade, que a Bonita Produções está fazendo em parceria com a Associação Cultural Beato José de Anchieta e a Prefeitura de São Paulo. Também faz parte do projeto um documentário audiovisual, que estaremos abordando aqui neste espaço em breve.

Se na semana passada o texto tratou de alguns dos bairros mais antigos da Zona Leste, hoje trazemos informações de alguns bairros mais recentes, mas que tiveram importância. São os casos de Itaquera e Guaianases, que tem uma presença maior de povoamento no fim do século XIX, e foram importantes para o contexto de crescimento de São Paulo por fornecerem matéria-prima para a construção civil por meio de suas pedreiras e suas olarias. Outro fator que possibilitou o desenvolvimento desses bairros até então longínquos foi a extensão da linha do trem que se dirigiu rumo ao Rio de Janeiro, cortando toda a Zona Leste.

Mas esses bairros – assim como Ermelino Matarazzo, São Miguel Paulista, Itaim Paulista, São Mateus, Aricanduva e toda a face leste da cidade – acabaram por ter um aumento da população a partir da segunda onda de urbanização e industrialização vivida por São Paulo, a partir dos anos 40 (mas que se intensificou nos anos 50 e 60 e se consolidou a partir dos 70), que impulsionou São Paulo em direção a uma grande metrópole e trouxe diversos de migrantes de várias regiões brasileiras para a capital paulista.

São Miguel Paulista e seus vizinhos viveram isso de forma mais presente com o complexo industrial da Nitro Química, que empregou milhares de funcionários e motivou vários mineiros, paranaenses, baianos, pernambucanos, e muitos outros, a rumarem ao desconhecido. Ermelino Matarazzo surgiu no entorno de uma fábrica de celofane do Conde Francisco Matarazzo. São Mateus surgiu a partir de um sonho de um italiano de criar uma região de nobre na Zona Leste, mas cresceu em torno do desenvolvimento da indústria automobilística do ABC e do pólo petroquímico de Mauá.

E com tanta gente migrando para essas áreas, faltou moradia para tanta gente, não é a toa que os movimentos populares de grande relevância na época se destinavam à luta por moradia, em um contexto de luta pela redemocratização do país, entre o fim dos anos 70 e boa parte dos 80, ainda sob a ditadura militar.

Nesse período foram criados os conjuntos habitacionais que foram insuficientes para adequar a gritante demanda por casas. Itaquera e Guaianases foram os locais que mais receberam casas e apartamentos da COHAB – parte de Guaianases que recebeu as construções foi transformada em Cidade Tiradentes posteriormente. Já o CDHU implantou imóveis no Itaim Paulista, principalmente, além de São Miguel e outras localidades.

Como foi possível perceber, a história da Zona Leste está ligada à história da migração dos brasileiros rumo às capitais e à luta por moradia. Mas é muito mais que isso, como o livro propôs pretende revelar. Há muitas histórias para contar, aqui é apenas um aperitivo do que queremos mostrar com o livro, na expectativa de que todos possam saborear as histórias, curiosidades e “causos” da face leste da cidade que a fazem ser esse verdadeiro – e rico – caldeirão de diversidade.

Curiosidades sobre o livro – Parte I

Segue mais um texto da série que estou produzindo sobre o projeto do livro Face Leste: revisitando a cidade, que escrevi para o pessoal da Bonita produções e que está em fase de finalização. Em breve, quando eu tiver informações sobre o lançamento, divulgo aqui. Por enquanto, conheça um pouquinho mais sobre a história do livro!

Post publicado originalmente em: http://bonitaproducoes.wordpress.com/2011/12/02/curiosidades-sobre-o-livro-parte-i/.

Hoje a gente traz no Blog da Bonita a primeira parte de um texto com algumas curiosidades sobre os bairros selecionados para o livro Face Leste: revisitando a cidade. A cada pesquisa iniciada, a cada leitura concluída, as informações iam brotando aos borbotões, e sendo agregadas ao material anterior, indicando um mundo gigantesco de histórias e possibildiades de abordagem para cada capítulo-bairro. E cada bairro, claro, com sua peculiaridade, revelando que a Zona Leste possui um mosaico complexo e heterogêneo, modificando um pouco o cenário cinza e único de pobreza e abandono, comum quando se faz comentários sobre a região. Mas, além de produzir uma diversidade social e cultural ricas, a Zona Leste também tem muita história.

A mais antiga delas remete aos primórdios da colonização brasileira e da fundação de São Paulo, ainda Vila de Piratininga. São Miguel Paulista foi um dos primeiros aldeamentos da cidade, e teve no seu fundador o valioso personagem religioso, o Beato José de Anchieta, partícipe da fundação de São Paulo. O aldeamento de São Miguel de Ururaí era estratégico no século XVI, principalmente por proteger a Vila de Piratininga dos ataques dos franceses, auxiliados pelos índios Tamoios, que vinham do Litoral Norte e ameaçavam atacar via Mogi das Cruzes.

Outra região antiga da Zona Leste é a da Penha, que surgiu a partir do fervor religioso em torno de Nossa Senhora da Penha, que foi a origem e o motor do bairro. As extensas procissões de fiéis até a região para venerar a santa proporcionou a formação do bairro que hoje é bastante tradicional na Zona Leste e até já foi sede do governo da antiga província de São Paulo, durante a revolução de 1924, quando o então governador Carlos de Campos se refugiou no bairro ante os ataques dos tenentes revoltosos. E até uma visita do então imperador Dom Pedro II no final do século XIX é fato de orgulho para seus moradores.

Esse período também foi marcante por conta da crescente imigração estrangeira, que trouxe italianos, portugueses, espanhois, japoneses e toda a sorte de imigrantes que vinham com o sonho de prosperar na farta terra brasileira. Muitos foram trabalhar na lavoura de café no interior paulista, em regiões como Jundiaí, e eram levados até lá de trem a partir do desembarque no Porto de Santos. E um dos pontos de recrutamento de imigrantes era na Hospedaria dos Imigrantes do Brás, que motivou o crescimento deste bairro, da Mooca, Vila Prudente e Pari na Zona Leste, além do Ipiranga, Lapa, Barra Funda, Bom Retiro, as regiões em torno da linha férrea, que receberam várias indústrias, em que muitos imigrantes que não se acostumavam com a lavoura acabavam por trabalhar.

Por agregar tantos operários, esses bairros também foram fontes de reivindicação por melhorias nas condições de trabalho e salário, sendo símbolo a Greve de 1917, que teve início na Mooca e produziu diversos progressos nas leis que foram formuladas nos anos seguintes, principalmente no governo Getúlio Vargas.

Uma peculiaridade interessante está na Vila Prudente ter sido fundada por uma família de italianos, que desejavam instalar uma grande fábrica de chocolate e confeitos e forjaram um bairro para fazer seu negócio dar certo.

Apesar da história do Tatuapé remontar ao século XVII, o bairro também abrigou indústrias, embora em um período posterior, o que propiciou um melhor desenvolvimento tecnológico, empresas mais avançadas e maiores. Isso vai proporcionar, anos mais tarde, uma condição especial na construção de empreendimentos imobiliários para muitas das famílias ricas e tradicionais do bairro, aproveitando os imensos galpões vazios das antigas fábricas, o que vai dar elevar o padrão de moradia e de moradores no Tatuapé em anos mais recentes.

Na semana que vem, a segunda parte desse texto repleto de curiosidades sobre os bairros da Zona Leste paulistana. Até lá.

Face Leste: o processo de criação do livro

Olá!

Estou aqui mais uma vez para divulgar o meu trabalho no projeto Face Leste: revisitando a cidade. O post de hoje detalha o processo de produção do livro. Está bem bacana, garanto! Aproveite a leitura!

Post publicado originalmente em: http://bonitaproducoes.wordpress.com/2011/11/30/face-leste-o-processo-de-criacao-do-livro/.

Vamos continuar a falar aqui no Blog da Bonita sobre o projeto Face Leste: revisitando a cidade. Hoje vamos abordar um pouquinho como se deu a produção do livro. Em conversa com a Associação Cultural Beato José de Anchieta, surgiu um pedido para que o livro contemplasse o maior número de obras e informações que servissem de base para estudantes, pesquisadores e quem mais almejasse conhecer sobre a região, servindo como uma compilação de histórias, livros e personagens da Zona Leste.

Ou seja, mais que um desejo, encaramos como uma necessidade quando se fala sobre a Zona Leste, tão pouco conhecida, refletida e com sua história contada em fragmentos, que agora estão reunidos em um resumo de alguns de seus principais bairros e com referências bibliográficas de vários trabalhos de pesquisa, livros, dissertações de mestrado e teses de doutorado.

Com esta missão na cabeça, começamos as pesquisas. A internet é uma ótima ferramenta para iniciar qualquer busca. Ela indica os caminhos, aponta os autores, as pessoas, as entidades, enfim, quem possa ajudar a responder nossos questionamentos e angústias quanto a qualquer tema. Mas é preciso ir além. De posse de muitos nomes de acadêmicos e estudiosos em geral, a meta seguinte é ir atrás dos livros, das dissertações e teses armazenadas nas universidades. E aqui vai um elogio à USP e à PUC-SP que detém um arsenal gigantesco e rico de obras. A leitura desse material proporcionou a composição de um mosaico rico de informações e abriu muitas possibilidades de abordagem em cada um dos 13 capítulos, que corresponde aos 13 bairros contemplados no livro.

Essa pesquisa inicial – mistura de internet com leituras das fontes diretas – que levou cerca de um mês indicou, consequentemente, as fontes que seriam entrevistadas para compor o debate dentro do livro. Pois como nossa meta era abordar o texto sob o estilo de uma revista, mais solto, sem as amarras da teorização acadêmica, privilegiaria, além dos livros e pesquisas, entrevistas com os autores desses trabalhos, para ir além da obra acadêmica e tentar entender particularidades a respeito de cada bairro.

A internet nos auxiliou também na busca por protagonistas ou moradores simples desses bairros, para trazer um aspecto mais íntimo, mais pessoal sobre essas regiões, procurando aproximar a história do bairro com o cotidiano e a história de vida das pessoas que vivem na região. Em contato com entidades locais encontramos líderes comunitários, membros de movimentos sociais, donas de casa, aposentados, enfim, pessoas envolvidas com a comunidade e também pessoas simples, todas com uma visão bastante peculiar sobre o lugar onde vivem. Talvez uma coisa que pode-se dizer que é semelhante na boa parte dos bairros é a história de imigração, que é o cerne da história da Zona Leste. Tanto imigrantes estrangeiros quanto os migrantes nordestinos, mineiros, paranaenses, do interior paulista, etc. É o que simboliza uma terra que foi sendo ocupada com o decorrer do século XX e com o desenvolvimento e crescimento da urbanização na cidade de São Paulo e pelas capitais de todo o Brasil.

A fase seguinte foi a da realização das entrevistas com os pesquisadores e com os moradores dos bairros, um processo que durou cerca de dois meses e foi o período mais prazeroso do projeto: conhecer pessoas, suas histórias, visitar os bairros e vivenciar a experiência de perto, estando próximo, além de debater teorias, compreender o fenômeno que transformou a Zona Leste no gigante que ela é hoje. As entrevistas ajudaram a compreender também a Zona Leste do ponto de vista teórico, acadêmico, por meio de um ponto de vista compartilhado por vários pesquisadores nos seus trabalhos e nas entrevistas colhidas, o que possibilitou uma ampla Introdução focando nas raízes, causas e conseqüências do porque que a Zona Leste se desenvolveu para a forma como conhecemos hoje.

Com tudo isso em mãos, mais um período de quase dois meses para reunir todo o material colhido desde a pesquisa, refletir bastante e começar a dar forma ao livro, escrevendo, escrevendo e escrevendo, na tentativa de passar ao máximo o sentimento que representa cada um dos bairros citados no livro, sem deixar de colocá-los no contexto da Zona Leste, em que cada região teve uma importância ímpar para o crescimento da Face Leste da cidade. O resultado está na gráfica e em breve será compartilhado com todos e esperamos que todos gostem, pois foi um trabalho árduo mas satisfatório, que ensinou muito a todos os envolvidos e será uma etapa de nossas vidas inesquecível.

Volte aqui mais vezes, pois em breve traremos mais informações sobre o livro e mais curiosidades sobre os bairros presentes no livro. Até a próxima!

Prazer, meu nome é Face Leste

Olá pessoal.

Gostaria de divulgar o meu trabalho mais recente, que me consome este semestre, que foi a produção do livro Face Leste: revisitando a cidade. Nele eu fui responsável pela pesquisa, entrevistas e pelo texto. Um projeto muito legal e que em breve será lançado. Eu fiz um post no blog da Bonita Produções, que é a empresa responsável pelo projeto (e que me contratou para o projeto) e parceria com a Associação Cultural Beato José de Anchieta e a Prefeitura de São Paulo. E nele eu explico o trabalho, destrincho um pouco sobre o livro e o documentário que também faz parte do pacote, como uma prévia dos próximos posts que serão publicados lá no blog. E sempre que eu publicar algo lá, eu também postarei aqui. Em breve, mais novidades!

Post publicado originalmente em: http://bonitaproducoes.wordpress.com/.

Bonita Produções, em parceria com a Associação Cultural Beato José de Anchieta e a Prefeitura do Município de São Paulo, executa o projeto Face Leste: revisitando a cidade, que desembocará em um livro e em um documentário audiovisual. Enquanto o livro tem como objetivo contar a história oficial da Zona Leste por meio de alguns bairros, mesclada com depoimentos de seus moradores que ajudaram a construir essa história, o documentário pretende contar as emoções, sensações, vivências e percepções exclusivamente dos moradores que demonstram toda a sua particularidade, demonstrando porque a Zona Leste é uma região tão especial e peculiar dentro de São Paulo.

Esse projeto dá prosseguimento ao Guia Cultural e Turístico da Zona Leste de São Paulo, produzido pela Associação em 2010 e que procurou destacar as principais atividades culturais e de lazer, além dos equipamentos públicos da região, mostrando às pessoas o que a Zona Leste tem a oferecer.

Em decorrência disto, o projeto do livro Face Leste: revisitando a cidade procurou seguir com os mesmos distritos escolhidos no Guia. Sendo assim, temos entre os locais abordados no livro: Aricanduva, Brás, Cidade Tiradentes, Ermelino Matarazzo, Guaianases, Itaim Paulista, Itaquera, Mooca, Penha, São Mateus, São Miguel Paulista, Tatuapé e Vila Prudente. Enquanto isso, o documentário preocupou-se em focar menos na quantidade dos bairros e mais na exploração de pessoas que pudessem demonstrar toda a sua identificação e enraizamento com a Zona Leste, em qualquer região que seja.

Ambos os frutos do projeto estão em fase de finalização: enquanto o livro está sendo impresso na gráfica, o vídeo está em edição final e recebe os últimos retoques para estar pronto para a exibição em um evento de lançamento que ainda terá a sua data confirmada. Tão logo o dia esteja tudo certo, a gente publica aqui no Blog da Bonita e divulga em nossas redes sociais. Em breve, mais novidades aqui no Blog sobre este projeto, com curiosidades sobre as histórias e a pesquisa de campo, observações sobre o processo de criação e desenvolvimento, tanto do livro quanto do vídeo! Muita coisa boa vem por aí!

Feira do livro da USP na internet

Aqui vai uma dica para os estudantes e amantes dos livros, principalmente os de reflexão política.

A tradicional Feira do Livro da USP, com obras literárias com grande desconto, que costuma acontecer em novembro foi adiada para os dias 14, 15 e 16 de dezembro e, este ano, acontecerá na Poli, e não na FFLCH.

Devido a esse adiamento, duas editoras resolveram adiantar a feira uspiana nos seus próprios sites. A Boitempo e a Alameda Editorial estão vendendo livros com 50% de desconto.

Para mais informações, é só acessar os sites da Boitempo e da Alameda.

Cartas

Aqui vai um conto meia boca escrito, acho, que em 2006. Não revisei,  nem o li por completo, vai como foi concebido à época, um período distante…

Cartas

Quando o medo aprisiona a mente de um louco…

Esta era a décima carta que Maurício das Flores escrevia para algum amigo distante com quem havia perdido o contato. Mais folhas eram escritas a esmo, já que ele não tinha a menor pretensão de enviá-las. Tinha medo. Engraçado, pois o medo da solidão o fazia passar horas na internet enviando emails, conversando com pessoas desconhecidas nos bate-papos da vida, sem falar nas já citadas cartas. Tudo feito para espantar a frígida escuridão que, à noite, enegrecia a janela de sua casa.

E era esse mesmo medo, agora apontado para outro lado, que o fazia não enviar as cartas a seus amigos mais íntimos, com quem desenrolou anos de amizade e cumplicidade. Esse outro lado era a simples vergonha de se expor e alguém rir de algum pensamento ou palavra má colocada, das lágrimas borradas nas letras azul-bic. Anos e anos de vivência e agora isto, o medo. Simples, único, presente, forte, machucando cada centímetro do coração e da mente do escritor de cartas, como um vento cortante que fere o fraco sistema imunológico de alguém gripado.

Seu pequeno quarto é o ambiente em que permanece quase a totalidade do tempo. Uma cama de solteiro no canto esquerdo, a escrivaninha no lado oposto, defronte da janela, para poder observar as árvores, pássaros, pessoas, carros, passando pela rua onde mora. No sentido da porta, uma televisão 14 polegadas velha e um cômodo de quatro gavetas para guardar suas roupas surradas pelo tempo e não substituídas pela falta de dinheiro. Acima do cômodo um som com tocador de CD, já um tanto fora de moda perante a atual tecnologia de mp3 e ipod.

Mas é na escrivaninha de madeira que escrevia suas cartas para afastar o tédio dos dias longos e o medo das noites intermináveis. Madeira maciça, velha, caindo aos pedaços e, mesmo assim, recebia o peso do microcomputador. Este era de bom porte, claro, afinal, é sua principal ferramenta de trabalho, além de sua mente para pensar e mãos para digitar no teclado as idéias. E o micro precisa de uma capacidade adequada para agüentar as quase 168 horas semanais ligado ininterruptamente. Sim, pois das 24 horas de cada dia, Maurício fica acordado pelo menos 18 horas. Vai dormir apenas às 6 da manhã, para acordar lá pelas 11, meio-dia no máximo.

Ah, esqueci de contar: ele é escritor, aposentado forçosamente devido à sua pouca adequação ao mercado. Na verdade, ele nunca teve nada publicado, que lhe frustra até os dias de hoje. Deu aulas durante alguns anos, até ser aposentado por invalidez, aos 30, quando sofreu uma série de crises nervosas que quase o mataram. Hoje, aos 35 anos, vive do resto do INSS e de alguns bicos de tradutor e revisor que costuma fazer em casa. Sua saúde está em farrapos, debilitada por problemas respiratórios que degeneram seu organismo.

Apesar de tudo isso, “seu Flores”, como o jornaleiro costuma chamá-lo, gosta de acompanhar o noticiário pelo rádio e televisão, apesar de não ler jornais, “para não perder a paciência com as mentiras que eles publicam”, resmunga sempre, com razão. Livros, ele tem poucos, até pela pouca verba, mas já leu bem mais que hoje, quando tinha vontade e vigor físico de sair de casa em direção à biblioteca situada na região central da cidade.

Mas seu convívio mesmo é com os escritos políticos, poéticos, sobre o cotidiano, além das cartas… Ah, essas cartas já tomam um espaço significativo no seu quarto: desde quando se aposentou juntou duas caixas de sapato com folhas escritas para os poucos parentes distantes que possui, amigos, ex-namoradas, colegas da internet, pessoas por quem se apaixonava, mas nunca tinha coragem de dizer. Enfim, as cartas tomavam um longo tempo de sua parca vida.

E ele tinha medo. Medo de alguém ler aqueles textos pessoais demais para serem enviados a alguém. Ali, toda a sua decepção em relação ao mundo, a dor de viver em solidão por tanto tempo, o reclame das visitas cada vez mais exíguas de seus amigos, o amor que deixou de sentir há muito e ainda o preocupa, etc. Tudo que envolvia seus sentimentos era tema das cartas.

Mas ele tinha medo. O medo nada mais era do que confirmar a frustração de sua vida não ter um sentido (que tão poucos buscam para si, pois preferem saborear a monotonia do dia-a-dia), não ter valido a pena, não ter feito tudo o que desejava fazer, transformar o que desejava, amar e ser amado como ele sempre viu nos cinemas. Comédias românticas que só servem para iludir a cabeça dos jovens a acreditar que no fim das contas a mocinha da história vai aceitá-los e ambos viverão juntos e felizes para sempre.

Esse tipo de ficção devia ser banido da humanidade, ponderava ele, apesar de que, em cada ato vivido nas telonas, em cada personagem com problemas de relacionamento e, por conseqüência, solitário no seu caminho, Maurício sempre viu um pouco de si. Talvez por isso, ele dizia aquele tipo de coisa, pois, apesar de tudo, gostava de ver que, ao menos no filme, o rapaz que tinha um pouco de seu temperamento alcançava o objetivo e ficava com a garota.

Medo. Sempre presente, desde a infância, quando evitou a todo custo andar de skate em pé, já que sua mãe dizia ser “perigoso demais”. Medo na adolescência, de chamar as meninas para sair, de ser motivo de chacota dos colegas de sala, de sair para beber e fazer alguma bobagem, afinal, não tinha muito controle (e nem queria ter) frente à bebida. Medo no primeiro emprego, de conversar com os outros, de errar em alguma atividade. Até medo de morrer ele já tivera.

Mas agora, frente a seu estado de saúde definhando, nem ligava mais para isso. Nem mais medo de perder seu amor, quando foi abandonado e sentiu o gosto amargo de ter sido preterido, nojo que nunca deixou sua boca, seu corpo, sua alma. E nesse momento, do que poderia ter medo? Não era mais criança para ser ameaçado pelas barras da saia da mãe, não era mais jovem para ser motivo de chacota da sala nem de sair com as meninas ou beber, já que este último nem podia mais. Não trabalhava e só esperava o tempo que os problemas respiratórios agravassem. Então, o que temer?

“Tudo”, pensava Maurício. De ser motivo de chacota dos vizinhos do prédio, dos conhecidos e amigos da internet, de alguém desprovido de bom senso que fosse até a casa dele e visse seu estado deplorável. Das cartas. Sim, ele tinha medo das cartas. Na verdade a culpa não era delas, mas sim do que ele expôs ali. Sua vida estava escrita naquelas páginas – algumas até amareladas pelo tempo – como se fossem uma autobiografia. Nem a escuridão o atormentava mais. Apenas a solidão o afetava mais que o medo de suas cartas.

Talvez por isso que, um dia, Maurício resolveu enfrentar o problema e foi até a caixa de sapatos. Estava disposto a pegar carta por carta, folha por folha, e lê-las todas, com o objetivo de enviar aos seus devidos destinatários. A idéia fixa já estava na mente dele e nada poderia demovê-lo: ia mandar a todos para que seu ego de escritor fosse finalmente realizado. Ele pretendia se matar após a limpeza das caixas, sem antes avisar a todos com uma carta de despedida trágica e lamuriosa sobre suas intenções, para que os amigos, parentes e outros, realizassem, após a sua morte, sua vontade de publicar o conteúdo das correspondências.

E começou. Primeiro foram as cartas endereçadas ao amigo Rafael, que sumira há uns dois anos. Casou, arrumou emprego em outra cidade e esqueceu todo mundo. Olhou aquelas confissões e achou tão fora de propósito que desejou rasgá-las todas, mas sentiu que o motivo histórico do período em que o texto foi escrito o obrigava a mantê-las vivas. Separou todas as cartas do amigo sumido e fez um texto novo, explicando o que se tratava e o motivo daquelas mensagens tão antigas estarem sendo enviadas com tanto atraso.

A próxima da lista foi Marisa, uma ex-namorada com quem só conversava esparsamente pela internet, mas sem assuntos muito profundos. Cartas a ela havia umas doze, todas enraivecidas, logo após o período da separação, quando a moça decidiu seguir seu caminho sozinha. Hoje está casada e nem se importa, como antes, com as opiniões de Maurício. Nosso escritor leu um a um os textos e fez o mesmo procedimento: escreveu uma correspondência nova, contando que havia escrito tudo aquilo em outros tempos, mas que agora não sentia nenhum ódio e que desejava a ela toda a felicidade do mundo, avisando apenas que queria que Marisa guardasse aquele material como parte da lembrança da união dos dois, omitindo, claro, seu objetivo final.

Teve também Adriana, uma velha amiga, daquelas que a pessoa tem mais como irmã do que como amiga. Residente de outro estado, essa foi praticamente a única que Maurício manteve contato, seja por carta ou email, durante todos os últimos e longos 5 anos. O relacionamento de amizade entre ambos nunca foi abalado, mesmo pelo tempo e distância. A falta de comunicação por alguns meses logo era retomada por um dos lados. Mesmo assim, Maurício deixou de enviar vários escritos, no eterno medo de se expor demais, o que no caso era um tanto exagerado. Ambos tinham um amor incondicional pelo outro, que transpassava qualquer barreira egoísta. O respeito e a amizade sempre estiveram acima de tudo entre eles.

E, com explicações e textos antigos, dezenas de colegas, amigos, conhecidos eram presenteados. Mensagens de incentivo, de felicitação por aniversários e outras datas comemorativas, desabafos, confissões, xingamentos, notícias, tudo estava naquelas caixas de sapatos guardados há anos e só agora vinham à tona, já um tanto sem porquê. Até que chegaram as cartas de Alissa. O grande amor da vida de Maurício que nunca foi correspondido. Na verdade, ela nunca soube realmente se ele gostava ou não dela. Eles até tiveram algum contato mais próximo durante a faculdade, mas os caminhos foram rumados a portos diferentes.

Maurício nunca escondeu a frustração de ter perdido algo que nunca teve. Sua falta de ação perante a garota, a timidez, o medo de tomar um “não”, tudo confluiu para o fracasso que ele sempre tentou apagar de sua mente. Porém, naquele segundo, a caixa de sapato mostrava o passado de forma inexorável na sua frente, apontando uma interrogação para o futuro. O medo de enviar e mesmo ler aquelas cartas vinha com maior vigor. Maurício jogou as folhas no chão e foi para a cozinha. Abriu a geladeira e tomou uma garrafa de água gelada quase num gole só. Ao pôr a garrafa em cima da pia sentiu o exagero e tossiu tanto que caiu no chão e quase desmaiou.

Depois de passar algumas horas no sofá da sala, assistindo televisão e evitando o encontro crucial para se libertar de toda aquela dor, Maurício tomou coragem e voltou para o quarto. Já eram onze e meia da noite. E Maurício leu as correspondências de Alissa repletas de borrões, lamentos e paixão. Sim, pois, apesar de todo o recato desse sentimento, o amor que Maurício nutria pela garota era intenso e profundo.

Interessante que, com o passar das páginas, ele começou a ver que tudo aquilo não passava de bobagem e aqueles sentimentos não iriam fazer sentido para Alissa, como já não faziam para ele. Talvez esse conformismo oportunista de jogar para o outro a responsabilidade da ação – ou da falta dela – tenha salvado a vida de Maurício, que resolveu enviar todo o conteúdo para seu amor platônico, mas sem temer a reação dela. Seu medo, por fim, terminara. E, portanto, a razão para o suicídio também. E graças a um ato que aliou a coragem do envio das cartas com uma razão bastante covarde: a de achar tudo aquilo perda de tempo, só para sufocar uma paixão reprimida. Mas enfim, daqui por diante, Maurício pode viver seus últimos dias de vida em paz. Nossa existência é muito irônica mesmo.

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