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Archive for maio \22\UTC 2011

Minha vida é andar por este país…

Em algum lugar do interior da Paraíba... abril de 2011

Nas minhas andanças pelo Brasil no projeto Rotary Brasil 2011, exibido na Rede Vida todos os sábados, às 21h30, até o dia 18 de junho, visitei dez Estados, mais de 40 cidades (sem contar aquelas que cruzamos pelo caminho) e conhecemos mais de 50 projetos, em uma maratona maluca de dois meses praticamente sem folga. Foi, pelo segundo ano, uma experiência bastante rica, tanto do ponto de vista profissional, quanto pessoal. Conheci realidades distintas, ações sociais bacanas, outras capengas, outras necessitando de mais ajuda.

Mas o mais legal mesmo é conhecer as pessoas, estar em lugares em que você sente realmente que o Brasil está mudando para melhor, mas que, por outro lado, falta muita coisa (mas muita mesmo) para que a o slogan do último governo seja a representação fiel da realidade. O Brasil ainda não é um país de todos, embora tenha hoje mais condições de lutar por um lugar ao sol.

A rotina desses dois meses é massacrante: acorda cedo, grava um projeto, termina, almoça, corre pra outra cidade enquanto escreve o texto da primeira, chega na segunda cidade, grava, pega estrada, escreve a outra matéria, chega no hotel, termina de escrever tudo, come e dorme, tarde. Os fins de semana são de pouco descanso e arrumação de mala para mais estrada, carro, avião, confusão, encheção, estresse. Mas vale a pena. E é intenso desse jeito, mas dura pouco. Então, quando acaba, você sente a falta da adrenalina energizante e leva uns dias até se recuperar e acalmar o espírito para buscar uma nova rotina, já que se trata de um free-lancer.

Ao invés de retratar meu trabalho, busco com essas fotos mostrar coisas diferentes dessas viagens a lugares que, para os homens de cidade grande como eu – encerrados em seu habitat de concreto – são pitorescos, e que revelam cenários de um cotidiano mais simples e diverso do que estou acostumado. E é por isso que eu acho essas viagens divertidas, apesar dos contratempos e do pouco tempo para senti-las a fundo. Mas o pouco que tomo contato já vale e muito, agrega bem mais coisas positivas do que ficar trancado em casa tuitando sobre bobagens de algum site.

Quem quiser saber mais e ver fotos dos projetos sociais e das experiências nas cidades, basta acessar o flickr: flickr.com/photos/rotarybrasil. Tem também o twitter @programarotary. Bom domingo a todos.

No interior Pernambucano, uma churrascaria de Deus... abril de 2011

Música letárgica

Começo este texto com um dilema. Ao mesmo tempo em que pretendo começar a destilar uma série infindável de críticas à “Melhor Banda dos últimos Tempos da Última Semana”, me sinto compelido a rever meus próprios pré-conceitos. Vamos à primeira parte.

Em meio às correrias com um problema de saúde na família, tenho acessado o computador só de vez enquando e desde ontem vejo citações a uma tal de “Banda Mais Bonita da Cidade”, tanto no Facebook, quanto no Twitter. Pensava: “que porra é essa?”, enquanto a curiosidade aguçava, mesmo que repulsiva. Mas os meus melindres sempre me impedem de acessar certas porcarias de imediato.

Mas hoje não teve jeito: gente xingando muito no Twitter, gente elogiando, resolvi assistir ao clipe de “Oração”. Vamos às amenidades. A música é bonita, a frase única da canção é bacaninha, tem uma boa sacada, o clipe é bem inventivo, afinal de contas, articular o rumo da música com o rumo do clipe, seus instrumentos, indo de cômodo em cômodo da casa, é surpreendentemente bem feito, com pitadinhas de inspiração cinematográfica, tudo num suposto plano sequência – não me estenderei aqui, pois não é da minha área. Com um adendo atualizado: a ideia do clipe é copiada da banda Beirut, como a própria banda sinaliza no vídeo do You Tube.

Quem gostou da banda, é melhor parar de ler aqui. Porque o rock and roll vai começar.

Desculpem-me, mas que porra é esse nome “A Banda Mais Bonita da Cidade”? Vivemos em uma sociedade muito babaca ultimamente, não? Tudo colorido, tudo bonito, tudo legal, as pessoas são fantásticas, o Brasil é o país do presente, sem pobreza, somos fodas. Ah, tá. Como o @Alerocha falou, o Brasil é a vanguarda do atraso, com 40 anos de atraso o movimento hippie chega à música brasileira. Acrescento que isso é fruto de cantores sem culhão, de bandinhas emo que cobram pra fã entrar no camarim, de cabelinhos lambidos chorarem dor de amor de 15 anos e tocarem o foda-se para o resto. E de uma MPB desconectada da realidade, apolítica, desmobilizada e mediana qualitativamente. De tudo isso surge uma banda gigante, cantando uma frase por seis intermináveis minutos, com um ar meio oba-oba, rimando penteadeira e despensa com amor e coração, em uma clara contribuição losermaniana, utilizando dos piores momentos de Camelo e companhia. Muitos elogiaram a letra. Que letra?  Uma frase repetida ad nauseam

Todo esse movimento que vejo na música há uns 15 anos me faz ter saudade dos tempos em que o artista, se não era engajado, ao menos se posicionava perante a sociedade, não se sujeitava a certas coisas, batalhava por um espaço dignamente e criticava quando algo o incomodava. Hoje todos são tão apáticos, tão… alegres.

A alegria meio forçada no clipe “Oração” forjada da necessidade em aparecer algo suave, cool, positivo, me enraivece de tal forma que estou aqui ouvindo Rage Against the Machine, com saudade de bandas como Clash e Legião Urbana (especialmente nos primeiros anos e em alguns momentos inspirados dos últimos), que tinham algo a dizer e sentiam, se insatisfaziam, com os rumos do mundo. Parece que vivemos hoje em um lugar em que quase ninguém tem algo a dizer. A não ser coisas floridas, amenas, supostamente alegres. E quando alguém se posiciona, é taxado de preconceituoso, exagerado, ideológico, ultrapassado. Azar. Prefiro seguir com meus ideais a subvertê-los e um nome de um mundo e sociedade “felizes”.

Um contraponto

Por outro lado, o texto datado de hoje no blog Febre Alta me fez pensar quanto aos meu próprios preceitos e, posso dizer, que encaixo em boa parte dele. Como exemplo: “E ouvir essa musiquinha me mostrou o que eu não queria ver: eu não sei mais ouvir música. Eu não consigo mais. Tá lá o clipe, tudo o que eu preciso é ouvir e me deixar levar, mas não. Fico tentando encontrar a picaretagem, quem trabalha em alguma agência de publicidade, quem tem pai cineasta ou dono de banco, quem é da turma do Marcelo Camelo, fico tentando entender qual é “a jogada”. Tá, e se não tiver jogada nenhuma?”.

Eu acho que me sinto assim às vezes. Toda vez que vou ouvir algo novo começo a comparar, fazer relações com o passado, pensar se não é alguma jogada de marketing, etc. Não consigo mais gostar de música, é um verdadeiro parto para eu gostar de algo, tanto que após mais de ano ouvindo Them Crooked Vultures fui gostar, e nem é uma banda com frescor jovem, já que é feito por velhacos do rock. Arctic Monkeys, Kaiser Chiefs e Strokes eu gosto de um disco cada e nada mais.

Mas tem muito a ver com isto daqui: “A Banda Mais Bonita da Cidade me mostrou o que eu não queria ver, que eu me tornei tão escravo dos meus preconceitos, a ponto de simplesmente não conseguir mais me entregar a algo tão singelo quanto ouvir uma musiquinha inocente sem pensar em outras coisas que absolutamente não interessam. É uma vontade de ter a minha inocência de volta, misturado com a preguiça de ter que encontrar mais lugar no IPod pra mais gente entrar na casa do Dylan, Chico, Bowie, Clapton, Lennon, McCartney, George, Springsteen, Ben, Melodia, Novos Baianos, Luís Gonzaga, Chet e Ella e Cole e Thelonious e… simplesmente não cabe. Estou cheio”.

E, tal e qual o autor do texto do blog Febre Alta, ouvir essa tal banda bonita (desculpa, mas puta nome idiota…) me fez ter uma “necessidade quase física de ouvir The Clash e pensar noutro tipo de juventude, uma outra postura, um outro contexto”. E estou eu aqui ouvindo Rage Against the Machine, achando que isso sim tem muito mais a ver com o tipo de sociedade que eu quero estar inserido e viver do que uma bobalhagem feita por estudantes de Ciências Sociais da PUC que moram em Perdizes e estiveram no churrasco da gente diferenciada – eu sei que exagerei.

Ok, apesar do mea-culpa feito acima, continuo com o pensamento de que esse tipo de música e atitude não faz parte do meu universo. Por isso, eu poderia ignorar, etc., mas não dá, porque parece que é só essas baboseiras que as pessoas buscam hoje em dia. Cada vez mais me sinto desconexo do mundo atual. Mas eu não prefiro ser essa metamorfose ambulante não, prefiro ter convicção pelos meus ideais e prosseguir lutando por eles, adaptando-os, mas nunca deturpando-os em nome de preceitos e da cultura oba-oba que para mim são furados.

Estação Angélica: exageros, preconceitos e superficialidades

A polêmica em torno da construção da estação de metrô Angélica da Linha 6 – Laranja na esquina da avenida Angélica com a rua Sergipe transcendeu a discussão sobre a necessidade da ampliação do transporte público de massa na cidade de São Paulo e partiu para uma aparente discussão entre classes sociais, mesmo que não haja mobilização de fato da classe mais interessada: os trabalhadores que poderão utilizar do benefício de haver uma estação de metrô no bairro de Higienópolis, região central da capital paulista.

De início, o projeto apontava a construção tanto da estação Angélica e, também, da estação Pacaembu, situada na praça Charles Miller. Esta última sumiu das projeções seguintes. Coincidência ou não, após a Associação Defenda Higienópolis iniciar protestos contra uma estação na avenida Angélica, o metrô acabou retirando a estação do desenho original, devolvendo a estação Pacaembu ao trajeto da linha.

Em nota em seu site, o metrô defende que está reavaliando a posição da estação Angélica devido a esta estar próxima somente a 600 metros da futura estação Higienópolis-Mackenzie, da linha 4, prevista para 2014, e que irá integrar a linha 6 ao sistema metropolitano. Enquanto isso, a estação seguinte à Angélica – PUC-Cardoso de Almeida – ficaria desta a 1.500 metros de distância. De fato, há um desequilíbrio e o argumento do metrô é válido. Tanto que a mesma nota – além de declarações do próprio presidente da companhia, Sérgio Avelleda, em diversos veículos – indica que a “área técnica do Metrô estuda a melhor localização de uma nova estação que atenda à FAAP, Av. Angélica, Praça Vilaboim e Estádio do Pacaembu”.

Acredita-se hoje que a melhor solução seja mesmo uma estação na região da Praça Vilaboim, com saída para a porta da Faap, atendendo tanto o público da universidade, os visitantes do Museu do Futebol e torcedores em dias de jogos, como aqueles que seriam atendidos diretamente com a estação Angélica. Do ponto de vista racional, essa parece ser a melhor solução, diante dos impasses provocados de lado a lado.

O problema de foi a condução desse processo, que revela que não é apenas uma questão técnica que está em jogo. Todos os veículos de comunicação usaram e abusaram do palavreado enojado de alguns moradores de Higienópolis que temem ver suas calçadas parisienses contaminadas de pobres, mendigos, ladrões e toda a sorte de desprivilegiados. Atônito com a repercussão, restou ao metrô dizer que o possível cancelamento da estação Angélica foi uma decisão de caráter “exclusivamente técnico”, o que, sendo ou não, não “cola” mais. Vai ficar marcado na História que a estação deixou de ser construída – caso seja mesmo retirada do local inicial – devido à forte pressão de alguns moradores do bairro, que preferem não ter metrô, e, como argumento, utilizaram de arquétipos preconceituosos para tratar do tema.

Personagens nada diferenciados

Do outro lado, surgiu uma manifestação brincalhona, irreverente, mas esquisita. De um encontro organizado de brincadeira no Facebook, milhares de pessoas foram no último sábado ao bairro de Higienópolis fazer churrasco e posar para fotos, demonstrando toda a sua “indignação” com as “elites” de Higienópolis que não querem a estação para os trabalhadores que vão até o bairro. Suponho que poucos dos manifestantes tomam metrô além do circuito Vila Mariana-Trianon-Masp aos fins de semana, alguns estudam nas faculdades da região e chegaram até o local estacionando seus carros nas quadras adjacentes à manifestação. Pelo que eu li no Twitter, no Facebook e nos sites noticiosos no dia da manifestação, boa parte daquele público advém de uma classe média que acha que uma rede social será capaz de revolucionar nossa sociedade – maldito exemplo subvertido do Egito.

Apesar da motivação ser válida e importante, o movimento de sábado aparentou ser nada mais nada menos que uma reunião de gente que queria aparecer, fazer farra, beber, fazer piada, ver e ser vista, para contar todas as aventuras do “protesto” aos amigos. Não teve uma vocação ideológica, reflexiva, profunda. Foi apenas um movimento que, de ajuda, serviu para manter o tema em pauta. Mas não procurou, com ele, pensar na viabilidade desta linha que, se vai atender ao desassistido público da zona noroeste da cidade, também vai passar por áreas cuja presença do metrô é amplamente questionável, em comparação com outras de maior prioridade e urgência.

O que quero dizer aqui é que nem a associação supostamente pró-Higienópolis, tampouco os manifestantes de classe média que fazem protestos nas suas folgas e depois debatem as “aventuras” na balada ou na escola nos dias seguintes, são representativos das parcelas menos favorecidas da sociedade. Não dá pra dizer que 3.500 assinaturas de um abaixo-assinado representam a totalidade de um bairro com 55 mil moradores, menos ainda achar que mil pessoas que acham que churrascão marcado por uma rede social representam a vontade da sociedade.

Isto é, a suposta discussão entre classes nada mais é que um ranço entre grupos mais bem favorecidos. Enquanto um quer evitar ser “contaminado” pelos efeitos colaterais do progresso (enquanto se diverte em viagens de metrô pelos EUA e Europa), o outro grupo posa de pseudoidealista e pseudoengajado, tentando mostrar estar antenado com os mais pobres, ajudando o “coitadinho” que não pode ficar sem metrô para trabalhar, mas não está aqui para protestar. Ou seja, a aparente divisão de classes nessa disputa a respeito do metrô nada mais é do que uma briguinha de poucas parcelas não-representativas da sociedade, uma querendo evitar aparecer, a outra, procurando holofotes. O povo mesmo, o real interessado, mais uma vez, foi pouco e mal ouvido.

Bairro “higienizado”?

Para terminar, uma percepção prática a respeito do comentário de uma das moradoras do bairro que gerou tanta indignação de tanta gente. A tal expressão #gentediferenciada, que virou, como se vê, até hashtag de Twitter, bradando contra a chegada do metrô, que levaria também pessoas de má estirpe. Como se não houvesse mendigos, ladrões e outras coisas no bairro atual – estou supondo que a tal mulher não foi tão preconceituosa a ponto de referir-se também aos trabalhadores que vão até a região, o que de fato, já acontece, ela querendo ou não, já que existem ônibus, metrôs ao redor, enfim, Higienópolis não é uma ilha. Saí hoje para caminhar a esmo e acabei indo parar em Higienópolis, o que me levou a seguir até o Pacaembu, e pude constatar como a tal senhora não anda pelo bairro que tanto venera – e se esse é o único argumento da Associação Defenda Higienópolis, idem.

A poucos passos do cruzamento entre as avenidas Higienópolis e Angélica, há uma quadra da improvável estação de metrô, uma mulher sentada com uma criança implorava por uma esmola, sob um frio de 14 graus.  Do outro lado, já na avenida Angélica, outra senhora jazia na rua fria. Após cruzar a mesma avenida, mais alguns metros depois e outra mulher, com um bebê ao colo e uma pré-adolescente ao seu lado, a pouquíssimos metrôs do Shopping Pátio Higienópolis, onde o protesto “diferenciado” começou.

Segui caminhando pelas ruas do bairro e saí numa ruela que desembocava na FAAP, para a minha surpresa. Desci até o estádio do Pacaembu, dei a volta pela faculdade e voltei a subir rumo a minha casa, sem antes deixar de ver uns oito homens fumando maconha na parte debaixo da praça Esther Mesquita, ali no bairro europeu de Higienópolis, tão bem protegido por seguranças na própria praça ou, mais à frente, no Colégio Sion. Ou seja, o mundo perfeito daquele bairro existe mesmo na cabeça de algumas poucas aberrações que lá residem.

Voltando…

Êta “outra hora eu volto” demorada, né? Demorou exatos três meses e 13 dias para eu colocar um post novo neste blog. A falha é grave, mas é explicável de forma muito simples: passei o mês inteiro de fevereiro escrevendo a dissertação, março revisando-a e abril acertando os últimos detalhes. Sem falar em outras obrigações profissionais nesse meio tempo que me deixaram bem longe de casa, num dejavú do que foi vivido em 2010.

O fato é que eu fiquei longe de alguma calmaria para poder atualizar este espaço tantos foram os afazeres após meu retorno da Venezuela, que parece longínquo, levando-se em conta a quantidade de tarefas que me consumiram nesse intervalo até aqui.

Mas é isso. Agora estou de volta, sem mestrado (falta só agendar o dia da banca de defesa), sem emprego, sem perspectiva, com muito tempo para pensar o que fazer e, por isso, o blog voltará, mesmo que aos poucos. Preciso testar formatos para o blog, além de me testar, propondo certas coisas que somente aqui no blog eu teria como fazer, para saber para onde trilhar os próximos passos.

Por isso, antes de definir formatos, atualizações, formas e conteúdos, apareço para um “olá” e um “até daqui a pouco”, me comprometendo a atualizar mais este espaço. É isso. Até já. Mas já mesmo.

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