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Archive for outubro \27\UTC 2014

Eleições: uma análise

E Dilma Rousseff ganhou a eleição mais apertada da história da política brasileira desde a redemocratização. Em uma campanha eleitoral marcada por insultos de ambos os lados, troca de acusações e radicalizações dos discursos de parte a parte, viu-se uma eleição que fugiu aos moldes centristas dos dois partidos. O PT (como quase sempre) lembrou-se de onde veio, convocou os movimentos sociais (e foi atendido), fincou trincheiras contra a Veja após a criminosa capa da Editora Abril e defendeu com unhas e dentes o legado social e trabalhista produzido pelo seu governo nos últimos 12 anos.

Do outro lado, Aécio Neves subverteu Geraldo Alckmin e José Serra e tomou coragem para defender o legado de Fernando Henrique Cardoso – embora tenha perdido a mão ao nomear Armínio Fraga para Ministro da Fazenda, abrindo flanco para ataques do PT. Ao contrário de seus eleitores mais raivosos, disse que iria ampliar o Bolsa-Família e manter a proteção social gerada nos dois mandatos do governo Lula. Ao mesmo tempo que buscava os votos do povo com esses sinais, se colocava ao lado de apoios extremistas e reacionários, relacionados à bancada da bala e evangélica, de perfil ultraconservador até para os primórdios tucanos. Mas o PSDB abraçou de vez nesta campanha o discurso à direita e se consolida, de fato, como a força conservadora do Brasil. Os comentários xenófobos contra o Nordeste nas redes sociais só confirmam esse posicionamento.

O problema é que, desde 2003, o governo petista (e acho esse um dos erros que faz o partido e o governo se contradizer no discurso e prática) se consolidou como uma força moderada e conciliadora de classes. Alguém poderá argumentar que, se não fosse assim, o partido não conseguiria ter alcançado o Planalto, nem se mantido por tanto tempo. Isso é um fato. Mas, ao escolher participar do jogo capitalista, aceitando em geri-lo, sem levar em conta uma perspectiva de transformação, criou para si um monte de amarras que se aprofundam e ficam evidentes a cada nova eleição. Permite um arco de alianças que engloba figuras históricas do conservadorismo brasileiro, como Fernando Collor de Mello, Renan Calheiros e José Sarney, se prende a partidos sem história, focados apenas no fisiologismo do “toma lá dá cá”, ficando sempre vulnerável à corrupção e a manter-se no poder apenas pelo poder e não por um projeto político popular.

Outra coisa que o governo não fez (e aí a crítica vai mais à presidência do que só ao PT) foi fortalecer os movimentos sociais, lutar na fundamentação de uma base social ainda maior (aqui vai uma crítica ao modelo partidário atual, incapaz de trazer as pessoas aos partidos em um mundo que se preocupa cada vez mais com o próprio umbigo), que abarque estratos da classe média brasileira não apenas nos votos, mas na atuação política, que crie lideranças populares para que o projeto se fortaleça, seja aplicado e possa ser defendido durante o processo eleitoral. Ao mesmo tempo, faltou habilidade à esquerda moderada brasileira de criar condições para que novos atores da comunicação forjassem veículos que pudessem se contrapor à meia dúzia de famílias que controlam os meios de informação e, tradicionalmente, se colocam contra o modelo petista de governar, aproveitando das fragilidades das alianças de ocasião do governo para atacar as irregularidade e, por vezes, fazer o tal denuncismo, sem provas. Em outras, as provas saltam aos olhos, há de convir.

Por que tudo isso? Ora, porque não adianta depois reclamar da capa da Veja, do Merval que fala em impedimento a cada segundo, de Reinaldos Azevedos e Constantinos da vida, enfim, de campanha difamatória da imprensa tradicional burguesa se, em 12 anos de governo, não se criou uma mídia alternativa de fato, que vá além de meia dúzia de blogueiros, alguns paranóicos. Não adianta radicalizar o discurso durante as eleições de “nós contra eles”, se durante o resto do mandato os movimentos sociais são escanteados, se a militância é desmobilizada e, para se adequar aos desígnios dessa democracia de eleições, se aliar com o que há de mais conservador e se amarrar tanto que não consegue implementar avanços mais consistentes e duradouros em outras áreas. O emprego é garantido, o estudo é ampliado, o subsídio é dado, mas até um marinheiro de primeira viagem sabe que o modelo econômico voltado para o consumo está esgotado, e há quatro anos. Se não criar outra forma de crescimento e partilha dos lucros (alô, taxação de grandes fortunas!), corre-se o risco até das duras conquistas obtidas nesse período sofrerem golpes.

O processo eleitoral, como vimos, foi bastante radicalizado no discurso, sempre em busca de votos de lá e de cá. Mas é só acabar a eleição que tudo muda. Aécio foi ponderado e isso ajuda a equilibrar após uma margem tão pequena em favor de sua adversária. Só que hoje a Bolsa já caiu vertiginosamente, a imprensa tradicional está aí para fazer seu trabalho sujo, os deputados e senadores vão fazer sua oposição pautada mais em interesses do que em fazer o país andar, o governo paulista vai seguir sua cartilha anti-governo federal, dizendo-se auto-suficiente (a Sabesp tá aí para desmentir para sempre).

Do outro lado, Dilma pregou união e diálogo em seu primeiro discurso. E assim aceita o jogo político que define que tudo volta ao normal assim que as urnas decidem o futuro dos próximos quatro anos. Mas depois não vai reclamar que o MST, MTST e demais movimentos batem no governo, que a mídia traz denúncias sem fundamento ou acoberta a oposição para focar no governo. Se o seu governo não se posiciona de fato em favor de um projeto popular, se não luta por isso, se não radicaliza, vai continuar apanhando dos movimentos, diminuindo seu apoio, e apanhando da direita, a mesma que o governo aceitou dialogar. O PT precisa decidir para quem quer governar de fato nos próximos quatro anos, para que o projeto político popular perdure de fato.

Possíveis raízes do problema

Eu ia acabar acima, mas tem tanto assunto represado… Vou retomar algo que escrevi no Twitter esses dias e que, para quem me conhece há mais tempo, já deve ter ouvido falar. Ocorre que essa opção do PT pelo jogo político estabelecido dentro dos marcos do capitalismo ocorreu não com a Carta Aberta ao Povo Brasileiro, de Lula, em 2002 – isso só foi tornado público e agudizado após a vitória lulista. De fato, não houve uma guinada à direita após sua escolha para presidente. Lembrando a contribuição de Eder Sader, o PT foi forjado por três tipos de vertentes (igreja, operariado e movimentos sociais), mas escolheu o caminho do jogo de cartas marcadas já desde seu início e só ficou mais claro para si próprio após a derrota de 1989, quando movimentos trotskistas e outros defendiam a radicalização do partido, enquanto que Lula e cia., que comandavam o partido, expulsaram a ala que depois se transformou no PSTU, e ali jogou no lixo qualquer opção socialista, a bem da verdade, em um momento que o chamado socialismo real estava condenado pela história. (vale ressaltar também que isso é uma breve generalização, falei melhor disso no meu TCC, embora ainda de forma juvenil, em 2004).

Por que eu lembrei desse fato? Porque o PT carrega seu histórico de esquerda, mas é importante saber que bandeiras históricas desse campo ideológico (e que pertenceram ao petismo também) foram deixadas de lado. Então, a meta é administrar o capitalismo da melhor forma possível. E aí tem que fazer concessão para as elites. Não é a toa que o slogan do governo Lula era “Brasil, um país de todos”. A ideia era ampliar para classes menos favorecidas, mas sem descartar os que já ganham. Em campanha pró-Dilma, Lula disse há pouco que nunca o agronegócio tinha ganho tanto no governo petista.

O PT vive uma dicotomia eterna e irremediável, enquanto não se definir: em momentos de eleição, recorre a sua militância para defender aspectos populares de suas propostas, além de conservar as conquistas passadas. Mas é só vencer que desmobiliza seu “lado esquerdista” e aceita jogar o jogo das elites e a tomar porrada dessa mesma elite que depois vai ser xingada na eleição seguinte. Por mais que haja essa luta PT x PSDB, o fato de aceitar governar com o que há de pior na elite brasileira minimiza essa disputa e aproxima os dois lados. Por mais que haja propostas populares, a governança não é e isso foi enfatizado no governo Dilma, uma técnica menos afeita à política e ao diálogo com os movimentos sociais.

Se mantiver esse pêndulo pós-eleição, vai voltar a ter dificuldades para governar. Com uma Câmara ultraconservadora, as mudanças necessárias não serão feitas e será um mandato jogado no lixo, um governo travado. Mas se apostar em sustentar o discurso do processo eleitoral, arregimentar as forças de esquerda, mobilizar a população e os movimentos sociais, aliado a uma agenda econômica e social forte – como escreveu Breno Altman semana passada -, há chances de fazer frente aos tucanos e àqueles que impedem as transformações populares nesse país. Não é garantia que será fácil, pelo contrário. Mas, ao menos, é uma chance de evitar a paralisia e governar, de fato, para quem mais precisa.

Série B na reta final

Hoje fiz uma análise do que os times catarinenses (Avaí e Joinville) precisam fazer para garantir o acesso à Série A de 2015 do Campeonato Brasileiro. Com a vitória de ontem do JEC, a equipe se aproximou fortemente da vaga na elite, faltando, pela matemática, três vitórias. Já o time azurra perdeu de novo e começa a se complicar.

Clique aqui e leia a matéria, tá bem bacana, dados, numeralha, informações, tabelas, links.

Crítica a Nheengatu, dos Titãs

Olá. Hoje publico um texto que escrevi há alguns meses para o Diário Catarinense, mas que acabou não sendo aproveitado. Uma crítica ao álbum Nheengatu, lançado este ano pelos Titãs. Aliás, um baita trabalho. Abaixo está o texto. Aproveito e indico o link do canal da banda para ouvir todas as músicas. Vale a pena.

Nheengatu

O rock brasileiro dos anos 80 continua vivo nos corações e mentes de velhos e jovens que buscam em melodias e letras a resposta para suas frustrações e a animação para suas festas. Acontece que as bandas vivem de seus sucessos antigos e poucas parecem ter o que dizer atualmente. Bem, era assim até o Titãs resolver lançar o Nheengatu (Som Livre, preço médio R$ 24,90). O primeiro álbum desde o fraco Sacos Plásticos (2009) traz de volta a vitalidade do rock do conjunto titânico, com letras com uma visão crítica e bem atual da nossa sociedade, relembrando os melhores momentos da carreira da banda.

Tudo isso sem soar um cover de si mesmo. As referências ao clássico Cabeça Dinossauro, de 1986, existem, assim como ao pesadíssimo Titanomaquia, de 1994, mas apenas compõem o mosaico diversificado e roqueiro de Nheengatu. O quarteto que restou (Paulo Miklos, Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Belotto, completados pelo baterista Mario Fabre, como convidado) do que um dia foi uma mega banda com nove membros vai além do passado e traz um conjunto de canções pesadas, mas com ritmos e referências à música brasileira, ao mesmo tempo em que apresenta um retrato dos dias atuais.

Esse diagnóstico começa já no encarte do álbum e no nome dele. Nheengatu é uma língua derivada do tupi-guarani, criada pelos jesuítas no século XVII para unir as tribos nativas do Brasil e os portugueses recém-chegados. Por outro lado, a capa traz a imagem da Torre de Babel, mito bíblico sobre a falta de comunicação entre os homens.

O álbum começa com “Fardado”, composta em meio às manifestações de junho de 2013 e vai fundo na crítica quanto ao papel da polícia na relação com a sociedade. “Mensageiro da Desgraça” é um hino da São Paulo urbana e visceral na visão de um mendigo, que retrata os males que a selva de pedra causa a quem não conseguiu vencer na vida.

“Fala, Renata” é um bate-estaca característico dos Titãs, com uma guitarra intermitente e o vocal raivoso de Britto que critica os verborrágicos que poderia muito bem ser transportada às redes sociais. Parceria entre Miklos e o eterno titã Arnaldo Antunes, “Cadáver sobre Cadáver” é o ponto alto do disco, com sua letra ácida e sombria. Vale uma menção à épica “Canalha”, cover de Walter Franco, que cresce até irromper no nome da faixa em um grito marcante de Mello. “Pedofilia” é a mais polêmica do CD, pois toca num tema delicado, na visão da vítima e do agressor.

“Flores pra Ela” tem mudanças de tempo e de ritmo. Em alguns momentos, algo bem dançante e brasileiro, em outros, veloz e agressivo. E a letra acerta o estômago ao falar da violência doméstica. “Senhor” traz uma visão da banda em relação ao papel da religião no Brasil hoje em dia, com tentáculos cada vez mais influentes na política.

O disco termina com “Quem são os animais?”, uma música baseada numa guitarra hardcore e com uma letra que vai direto no preconceito: “Te chamam de viado e vivem no passado/Te chamam de macaco e inventam o teu pecado”.

Nheengatu pode ser considerado o melhor disco dos Titãs nos últimos 18 anos. Não é difícil, levando em consideração que nesse período foram lançadas mais obras ao vivo, disco de covers e o estrondoso sucesso do Acústico MTV no final dos anos 90, que levou a banda a trilhar o caminho pop por quase uma década. Independentemente disto, o disco recoloca a banda no patamar dos grandes, mas com uma vantagem: continua atual, sem ser panfletário e sem precisar recorrer apenas a seus sucessos.

O conjunto mostra que ainda tem o que dizer e se fazer ser ouvido em meio ao deserto que o rock brasileiro vive, voltado ao passado e à falta de reflexão social, deixando de ser a referência que foi nos anos 80 e parte dos 90 justamente por sua conexão com a sociedade. Coisa que o Titãs resgata, para o bem do BRock.

De volta

Olá. Retomo este espaço após mais de um ano. Nesse intervalo saí da Folha de S. Paulo e de São Paulo. Vim morar em Florianópolis, onde trabalho no Diário Catarinense como um dos editores de Esportes, com forte atuação no digital e algumas contribuições bacanas nesse período, graças à parceria de alguns colegas, gente dedicada em realizar algo bacana, não importam as condições.

Como sou editor, minha produção autoral propriamente dita é um tanto quanto escassa, mas, aos poucos, consigo produzir alguma coisa. Neste fim de semana mesmo em que as eleições preponderavam, sugeri e executei uma página de jornal voltada à F-1 e as brigas das Mercedes lembrarem as de Senna e Prost entre 80 e 90.

A matéria online, maior e com alguns detalhes infográficos pode ser lida a seguir. Foi uma pesquisa legal e uma produção gostosa de fazer. Gosto de F-1 e é sempre bom escrever algo que lembre períodos áureos, sem deixar de destacar quão boa continua a categoria atualmente – melhorou muito e tem muitos campeões e ótimos pilotos. Fique com o texto. Em breve trarei mais coisas, inclusives especiais mais elaborados.

GP de Suzuka recebe Hamilton e Rosberg brigando pela liderança da F1 ponto a ponto, lembrando embates de Senna e Prost

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