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Alguns rabiscos sobre a ácida comédia Special Correspondents

Acabei de ver Special Correspondents (Netflix, 2016) e achei que valia rabiscar (que Deus o tenha, Rabisco!) algumas linhas. Escrito e dirigido por Rick Gervais (The Office, O Primeiro Mentiroso, Uma Noite no Museu), a história se passa em Nova Iorque, em que um jornalista e um engenheiro de som são enviados para o Equador para cobrir uma suposta guerra civil no Equador. Só que Finch (Gervais), o técnico, está chateado pela sua recente separação e, sem perceber, acaba jogando fora as passagens, passaportes e dinheiro que estavam num envelope. Com isso, ele e Frank (Eric Bana) resolvem forjar a cobertura do conflito em estúdio improvisado em um apartamento em cima de um restaurante em frente à rádio na qual trabalham.

O cômico da história é que todos acreditam nos relatos e, a cada entrava ao vivo que passa, Frank inventa novos fatos para atender a seu chefe sedento por novidades. Assim, uma história totalmente falsa vai sendo costurada – o fato do Equador ter sido o país escolhido parece mais um item nesse castelo de cartas marcadas montado por Gervais, pois lá não há guerra, muito menos civil. E todos acreditam. Até repórteres que estão em Quito compram a história, não há checagem e, pela sede de audiência e por vaidade, passam para a frente. É uma crítica escancarada ao jornalismo feito nos Estados Unidos e que pode valer para qualquer parte do mundo. Inclusive se encaixando perfeitamente como uma luva no Brasil.

Uma passagem é peculiar: uma apresentadora pergunta ao enviado especial de uma televisão o porquê ele ninguém sabia antes que o suposto líder do suposto grupo guerrilheiro equatoriano seria Emilio Santiago (não é o cantor, já falecido), Alvarez, nome criado por Finch e Bana. O repórter respondeu que já sabia de rumores dele, mas não tinha noticiado confirmação das ações dele na guerrilha. Enquanto isso, Finch e Frank assistem e caem na gargalhada.

Além da incompetência jornalística e da espetacularização (e manipulação) da notícia, outra veia abertamente atacada por Gervais é a glamourização do acontecimento, das tragédias, enfim, de qualquer coisa, tudo para gerar audiência e fazer as pessoas consumirem – o conceito de “disfunção narcotizante” dos funcionalistas que analisam a comunicação não analisaria melhor isso.

Ao saber que o marido (Finch) havia sido sequestrado, a esposa Eleanor (Vera Farmiga) se aproveita da situação para se lançar como cantora e fazer uma campanha de arrecadação para o pagamento do resgate aos supostos sequestradores – e ficar com a grana, claro. Com isso ela emociona o país e passa a frequentar todos os talk shows e programas de auditório dos Estados Unidos, vira capa de várias revistas e jornais e se torna popular em todo o país. Uma crítica hilária a essa necessidade que a sociedade e a própria comunidade tem de criar ídolos e pessoas a quem consumir, admirar e mesmo em quem projetar uma outra vida, que às vezes acreditam ser melhor.

Enfim, como não poderia deixar de ser, uma comédia feita por um inglês não ficaria nas piadas rasas e simples, de duração instantânea. Há toda uma teia reflexiva em torno de como nossa sociedade está projetada nos dias de hoje, em que nada se verifica, tudo é vazio, frágil e fútil e ao mesmo tempo espetacular e glamouroso, pronto para ser consumido e esquecido no próximo tuíte, post ou link.

Ps: post escrito ao som de King Crimson. Conhecendo ainda a sonoridade citada pelo Renato Russo como influência na elaboração do álbum V, da Legião Urbana, lançado em 1991 e com uma baita pegada progressiva.

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Em uma sala de aula…

Li no perfil de uma amiga no Facebook, que é professora no Rio de Janeiro, a seguinte mensagem. Pasmem, é real:

“E ontem, antes da prova, a turma me pediu licença, se levantou e orou, com as mãos no coração, pedindo que Deus ajudasse na prova. Deixei, enfim. Afinal, fé é fé, não é? Logo depois, a turma inteira quis colar. Acho que a “fé” não valeu”.

A molecada precisa de umas aulas de ética, coerência… Não dá pra para aliar duas coisas dessa forma, pedir ajuda divina e colar na prova. Cada vez menos as pessoas recebem educação em casa, as referências se limitam à escola, que não dá conta de tantos “filhos”. Aí, ao invés de aprenderem com os pais e terem o complemento com os professores, são educados pela rua, que não diferencia certo e errado… dá nisso e em coisas bem piores.

E enquanto nos indignamos com Cachoeiras da vida, jogamos no bicho – e os jornais, hipócritas, publicam e dizem que é uma forma de vigilância, quando se beneficiam da publicação de algo contra a lei. Enquanto xingamos o prefeito ou vereador de nossa cidade pelo não cumprimento da promessa de corredores de ônibus (paulistanos sabem do que falo), não cumprimos a promessa de levar nosso filho a um passeio, ou de amar e estar realmente junto da pessoa amada quando ela precisa, de realmente procurar ser melhor a cada dia e não apenas no primeiro dia do ano, quando prometemos mundos e fundos, meio inebriados pelo álcool ou pelos fogos de artifício da “festa da virada”. De que adianta reclamar dos corruptos de Brasília, se vira e mexe tiramos vantagens dos outros no dia-a-dia, se sacaneamos os velhos, as crianças, se viramos as costas a quem pede uma ajuda na rua. Que merda de sociedade e mundo estamos criando? Cada vez menos acredito naquele papo cristão de que o ser humano é bondoso e que sua humanidade pende para a preocupação e amor com o próximo. Cada vez mais vejo que o ser humano age de acordo com os seus interesses, independentemente do que isso vai causar ao próximo.

Voltando ao cerne do post. Enquanto as pessoas treparem sem pensar nas consequências de ter um filho e enquanto não cuidarem da educação deles, jogando o papel prum professor que é surrado, humilhado, mal pago e sugado pelo Estado e não tem condições de educar tanta gente ao mesmo tempo, o cenário só tende a piorar…

Olha, não tive uma infância gloriosa, fantástica, com todos os meus desejos atendidos. Mas uma coisa, primordial, eu tive e vou levar para todo o sempre graças a meus pais: educação, saber distinguir o que é certo e o que não é, saber observar as pessoas e saber quem está comigo mesmo e quem quer me prejudicar, e a buscar sempre o melhor, sem fazer coisas erradas – e para os religiosos, não fui educado em igreja nenhuma, apesar de ter tido embasamento católico em boa parte da vida, mas nada assíduo. Esse tipo de educação de valores, de ética, não se oferece numa sala de aula, muito menos não se vende em uma loja de departamentos ou de internet.

Música letárgica

Começo este texto com um dilema. Ao mesmo tempo em que pretendo começar a destilar uma série infindável de críticas à “Melhor Banda dos últimos Tempos da Última Semana”, me sinto compelido a rever meus próprios pré-conceitos. Vamos à primeira parte.

Em meio às correrias com um problema de saúde na família, tenho acessado o computador só de vez enquando e desde ontem vejo citações a uma tal de “Banda Mais Bonita da Cidade”, tanto no Facebook, quanto no Twitter. Pensava: “que porra é essa?”, enquanto a curiosidade aguçava, mesmo que repulsiva. Mas os meus melindres sempre me impedem de acessar certas porcarias de imediato.

Mas hoje não teve jeito: gente xingando muito no Twitter, gente elogiando, resolvi assistir ao clipe de “Oração”. Vamos às amenidades. A música é bonita, a frase única da canção é bacaninha, tem uma boa sacada, o clipe é bem inventivo, afinal de contas, articular o rumo da música com o rumo do clipe, seus instrumentos, indo de cômodo em cômodo da casa, é surpreendentemente bem feito, com pitadinhas de inspiração cinematográfica, tudo num suposto plano sequência – não me estenderei aqui, pois não é da minha área. Com um adendo atualizado: a ideia do clipe é copiada da banda Beirut, como a própria banda sinaliza no vídeo do You Tube.

Quem gostou da banda, é melhor parar de ler aqui. Porque o rock and roll vai começar.

Desculpem-me, mas que porra é esse nome “A Banda Mais Bonita da Cidade”? Vivemos em uma sociedade muito babaca ultimamente, não? Tudo colorido, tudo bonito, tudo legal, as pessoas são fantásticas, o Brasil é o país do presente, sem pobreza, somos fodas. Ah, tá. Como o @Alerocha falou, o Brasil é a vanguarda do atraso, com 40 anos de atraso o movimento hippie chega à música brasileira. Acrescento que isso é fruto de cantores sem culhão, de bandinhas emo que cobram pra fã entrar no camarim, de cabelinhos lambidos chorarem dor de amor de 15 anos e tocarem o foda-se para o resto. E de uma MPB desconectada da realidade, apolítica, desmobilizada e mediana qualitativamente. De tudo isso surge uma banda gigante, cantando uma frase por seis intermináveis minutos, com um ar meio oba-oba, rimando penteadeira e despensa com amor e coração, em uma clara contribuição losermaniana, utilizando dos piores momentos de Camelo e companhia. Muitos elogiaram a letra. Que letra?  Uma frase repetida ad nauseam

Todo esse movimento que vejo na música há uns 15 anos me faz ter saudade dos tempos em que o artista, se não era engajado, ao menos se posicionava perante a sociedade, não se sujeitava a certas coisas, batalhava por um espaço dignamente e criticava quando algo o incomodava. Hoje todos são tão apáticos, tão… alegres.

A alegria meio forçada no clipe “Oração” forjada da necessidade em aparecer algo suave, cool, positivo, me enraivece de tal forma que estou aqui ouvindo Rage Against the Machine, com saudade de bandas como Clash e Legião Urbana (especialmente nos primeiros anos e em alguns momentos inspirados dos últimos), que tinham algo a dizer e sentiam, se insatisfaziam, com os rumos do mundo. Parece que vivemos hoje em um lugar em que quase ninguém tem algo a dizer. A não ser coisas floridas, amenas, supostamente alegres. E quando alguém se posiciona, é taxado de preconceituoso, exagerado, ideológico, ultrapassado. Azar. Prefiro seguir com meus ideais a subvertê-los e um nome de um mundo e sociedade “felizes”.

Um contraponto

Por outro lado, o texto datado de hoje no blog Febre Alta me fez pensar quanto aos meu próprios preceitos e, posso dizer, que encaixo em boa parte dele. Como exemplo: “E ouvir essa musiquinha me mostrou o que eu não queria ver: eu não sei mais ouvir música. Eu não consigo mais. Tá lá o clipe, tudo o que eu preciso é ouvir e me deixar levar, mas não. Fico tentando encontrar a picaretagem, quem trabalha em alguma agência de publicidade, quem tem pai cineasta ou dono de banco, quem é da turma do Marcelo Camelo, fico tentando entender qual é “a jogada”. Tá, e se não tiver jogada nenhuma?”.

Eu acho que me sinto assim às vezes. Toda vez que vou ouvir algo novo começo a comparar, fazer relações com o passado, pensar se não é alguma jogada de marketing, etc. Não consigo mais gostar de música, é um verdadeiro parto para eu gostar de algo, tanto que após mais de ano ouvindo Them Crooked Vultures fui gostar, e nem é uma banda com frescor jovem, já que é feito por velhacos do rock. Arctic Monkeys, Kaiser Chiefs e Strokes eu gosto de um disco cada e nada mais.

Mas tem muito a ver com isto daqui: “A Banda Mais Bonita da Cidade me mostrou o que eu não queria ver, que eu me tornei tão escravo dos meus preconceitos, a ponto de simplesmente não conseguir mais me entregar a algo tão singelo quanto ouvir uma musiquinha inocente sem pensar em outras coisas que absolutamente não interessam. É uma vontade de ter a minha inocência de volta, misturado com a preguiça de ter que encontrar mais lugar no IPod pra mais gente entrar na casa do Dylan, Chico, Bowie, Clapton, Lennon, McCartney, George, Springsteen, Ben, Melodia, Novos Baianos, Luís Gonzaga, Chet e Ella e Cole e Thelonious e… simplesmente não cabe. Estou cheio”.

E, tal e qual o autor do texto do blog Febre Alta, ouvir essa tal banda bonita (desculpa, mas puta nome idiota…) me fez ter uma “necessidade quase física de ouvir The Clash e pensar noutro tipo de juventude, uma outra postura, um outro contexto”. E estou eu aqui ouvindo Rage Against the Machine, achando que isso sim tem muito mais a ver com o tipo de sociedade que eu quero estar inserido e viver do que uma bobalhagem feita por estudantes de Ciências Sociais da PUC que moram em Perdizes e estiveram no churrasco da gente diferenciada – eu sei que exagerei.

Ok, apesar do mea-culpa feito acima, continuo com o pensamento de que esse tipo de música e atitude não faz parte do meu universo. Por isso, eu poderia ignorar, etc., mas não dá, porque parece que é só essas baboseiras que as pessoas buscam hoje em dia. Cada vez mais me sinto desconexo do mundo atual. Mas eu não prefiro ser essa metamorfose ambulante não, prefiro ter convicção pelos meus ideais e prosseguir lutando por eles, adaptando-os, mas nunca deturpando-os em nome de preceitos e da cultura oba-oba que para mim são furados.

Enquete

Nova pergunta na enquete. Futebol em pauta:

A luta não mais continua, companheiros

Aqui vai um conto escrito em 2003, na redação do curso de jornalismo da Unicsul, escrito à toque de caixa, pois foi solicitado para ser entregue na mesma aula. Ou seja, 50 minutos para escrever um conto relacionando com algum autor ou obra favoritos. Já na época eu não lia quase nada e só me veio à cabeça Karl Marx e seu “Manifesto Comunista”, feito em parceria com Friedrich Engels. Portanto, peço a gentileza que relevem prováveis erros infantis. Mas vale pelo fervor juvenil, inexistente nos dias de hoje, talvez por causa ddessa desesperança de que trata o próprio conto, escrito já há sete anos. Boa leitura e até a próxima.

Ele caminha desolado por entre as ruas. Parece não acreditar em tudo que seus saltados olhos vêem. Os pingos batem em seu casaco preto e surrado, fazendo pesar a roupa permeável. De repente um susto. Algo passa apressado, quase a derrubá-lo. Era um garoto entregador de frangos que estava atrasado em sua missão. O bom velhinho não entendia o porquê de tanta pressa. Mesmo que temesse que um dia isso viria a acontecer, não imaginava que seria tão devastador.

Após duas horas caminhando comigo pela cidade, vagando totalmente sem destino pelos becos, favelas, bolsas de valores, centros empresariais, e tudo o mais que significava a vitória–derrota acachapante do capitalismo canibalesco, ele parou. Avistou um grupo de meninos nus, saindo de um barraco feito de madeira velha e podre. Olhou em volta e avistou putas, padres, bêbados, comerciantes e táxis. Inclinou sua cabeça para o chão e fez sinal de negativo com a mesma. De repente disse: “porque aceitei este convite?”. Nosso autor se referia a minha solicitação para trazê-lo de seu profundo, clássico e tranqüilo descanso para conferir o que acontecia depois de quase duzentos anos de luta por uma vida mais justa e igualitária. “É o fim”, dizia ele. “E eu que pensei que o capitalismo teria fim um dia, derrotado pelo socialismo, que faria a transição para um sistema único e para todos, estou vendo exatamente o contrário: o triunfo do capital sobre as pessoas”.

Finalmente Karl Marx sentia, depois de mais de um século, o fracasso. Nada do que escrevera antes, nem o “Manifesto Comunista”, com seu amigo Engels, nem com a Gazeta Renana, jornal onde relatou suas opiniões e posições durante anos. Muito menos sua principal obra, “O Capital”, em que a crítica, embasada em argumentos claros e transparentes deixava urgente a necessidade de uma atitude que alterasse o quadro tenebroso que ele vivia na época e que, na entrada do novo milênio ele não imaginava encontrar. Nem a Revolução Russa com Lênin, nem Cuba com Che Guevara, nem nada que se tentou após a vida de Marx resultou em pleno êxito. Agora tudo se baseia no neoliberalismo, na abertura de das economias, no lucro levado as últimas conseqüências, na mais-valia, detectada por nosso pensador, como a fonte para a desigualdade de renda e exploração de mão de obra. Os meios de produção totalmente nas mãos de quem ele sempre combateu, com teses que servem de base até hoje na História da Humanidade.

Apesar de muitos chamarem-no de ultrapassado, velho e arcaico, suas idéias ainda fervilham nos pensamentos de muitos admiradores de seus escritos. O problema é, como mostrou-se ao autor, que seus “seguidores” se perderam em seus textos e esqueceram de agir, se perdendo em palavras e situações inúteis, destruindo toda a possibilidade de um caminho melhor, contra aquilo que se criou com Hayek e seu livro, “O Caminho da Servidão”. O definitivo socialismo científico criado por Marx não mais satisfaz os hipócritas social-democratas que não desejam perder de vista seu capital. Os atuais esquerdistas se perdem na corrupção conservadora da direita, e calam-se ou enturmam-se com as conspirações vindas da burguesia. Quem pretende mudar comove-se com tudo que vê, mas nada faz para alterar esse modus vivendi.

Para Marx restaram as lágrimas e o pessimismo, a constatação da deturpação de tudo que ele criara e direcionara no passado. Foi a verificação de um fim para aquilo que convencionou chamar de marxismo. O começo do fim está nas mãos do capitalismo neo liberal-canibal, que está fazendo bem o trabalho, quebrando todas as correntes de resistência. Muito diferente do que Marx idealizou na “ditadura do proletariado”, onde o povo tomaria o poder e mandaria nas ações e rumos do governo. Sem políticos escabrosos, nem empresários oportunistas, apenas o povo e sua comuna, como em um mês de 1848 em Paris. Mas isso tudo era longínquo e efêmero em demasia, como sua estada, que chegara ao fim. A contemplação do fracasso da humanidade que amargara Marx profundamente neste dia, encerrava-se. Chegara a hora de partir de volta para casa. O momento era de despedida e desprendimento, mas com uma ponta de esperança. Talvez, um dia, isso chegue a tal ponto destrutivo, que as pessoas poderiam pensar em viver para si no todo e não somente para si e seu lucro.

O que é o Iluminismo? – Immanuel Kant

Mais um texto do curso Modalidades do Pensamento Político Moderno, discutido recentemente. O texto desta semana é “O que é o Iluminismo”, de Immanuel Kant. Lembrem-se: é só uma leitura livre do que apreendi do texto, não é uma resenha técnica, muito menos precisa do conteúdo.

No texto que procura responder a esta pergunta, Kant traz à baila a idéia do período Iluminista, do conhecimento, do livre pensar e criar, ou seja, o fim da chamada “era das trevas” para a vivência da “era das luzes” tanto na vida acadêmica, artística, bem como da sociedade, liberta do jugo dos padres e dos reis. Ele coloca que o Iluminismo é o caminho para o homem sair do que ele chama de “menoridade”, que ele especifica como sendo a “incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem[1]”. Ou seja, se esta é a menoridade, o Iluminismo é a capacidade do homem pensar e agir por si mesmo, de forma livre, sem os indicações ou imposições de uma outra pessoa ou instituição.

E como se está vivendo em uma época em que a liberdade de pensamento e ação estão em voga, Kant critica e ironiza o ainda servilismo com que boa parte dos homens permanecem nas suas relações, delegando a outros o que devem pensar, dizer, discutir, fazer, enfim. “É tão cômodo ser menor. Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um diretor espiritual que tem em minha vez consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar[2]”. Ele complementa, indicando ser realmente difícil passar de menoridade para a maioridade, daí o medo e a apatia para dar esse passo à frente.

Toda essa reflexão é importante, dentro do contexto da formação dos Estados, do pacto social para a criação de uma sociedade regida por leis, pois, se todos não estão mais sob os desejos e desvios de um rei, seguindo, agora, um corpo de leis e representantes que atuam para o bem da sociedade, não há mais nada para o homem comum fazer, a não ser cuidar da sua própria vida, já que há alguém para cuidar de sua segurança, criando leis que impeçam que hajam excessos na sociedade. Dentro da perspectiva de Kant, no entanto, isso acaba sendo nocivo, pois a participação dos homens nos debates e no pensamento é minada pelo comodismo de uma vida em que suas atitudes, no plano da razão, estão na mão de outro.

Voltando à análise do texto, Kant afirma que a liberdade é fazer o uso público da sua razão, mas que esta é ameaçada pelo momento contrário que desmotiva que isso ocorra. Mas, o que seria uso público da razão? Ele explica: “Por uso público da razão entendo aquele que qualquer um, enquanto erudito, dela faz perante o grande público do mundo letrado[3]”. Existe também o uso privado da razão, que Kant coloca como o uso da razão em um cargo público ou em alguma função específica.

Ocorre que, em muitos casos, os assuntos de interesses de todos acabam sendo resolvidos de forma passiva, sob a forma de uma “unanimidade artificial”, tendo a orientação do governo, causando o impedimento de raciocinar e, mais, apenas e tão somente obedecer ao que foi definido. Ele ressalta que não é possível a insubordinação ou não-cumprimento das normas ou leis estabelecidas, mas que faz sentido que se as questione, de forma erudita, por meio de escritos, dirigindo-se a um “público genuíno”, declarando sua insatisfação sobre determinado tema. Como esclarecimento, este seria um uso público da razão, enquanto que, uma palavra de um professor sobre qualquer tema seria um uso privado, por se tratar de um público restrito e direcionado.

O papel de um governante seria o de tornar o povo livre para pensar e escolher seus próprios caminhos, no que diz respeito à consciência, principalmente quando o tema é religião, já que, como diz Kant, nas ciências e nas artes, os governantes não desejam exercer tutelas sobre seus governados, sendo a tutela religiosa mais prejudicial e até desonrosa. Sendo assim, “um príncipe que não acha indigno de si dizer que tem por dever nada prescrever aos homens em matéria de religião, mas deixar-lhes aí a plena liberdade, que, por conseguinte, recusa o arrogante nome de tolerância, é efetivamente esclarecido e merece ser encomiado pelo mundo grato e pela posteridade como aquele que, pela primeira vez, libertou o gênero humano da menoridade, pelo menos por parte do governo, e deu a cada qual a liberdade de se servir da própria razão em tudo o que é assunto de consciência[4]”.

O autor afirma, ao dizer que sua época ainda não era uma “época esclarecida”, apesar de já se viver num período do Iluminismo: “Falta ainda muito para que os homens tomados no conjunto, da maneira como as coisas agora estão, se encontrem já numa situação ou nela se possam apenas vir a por de, em matéria de religião, se servirem bem e com segurança do seu próprio entendimento, sem a orientação de outrem[5]”. Isto é, o caminho para se desvincular do outro, principalmente dos clérigos, símbolos da supremacia eclesiástica na “era das trevas” ainda parecia árduo.


[1] Kant, Immanuel: A Paz Perpétua e Outros Opúsculos. Lisboa: Edições 70, 2004. Página 11.

[2] Idem, p. 11-12.

[3] Idem, p. 13.

[4] Idem, p. 17.

[5] Idem, p. 17.

O que é o Terceiro Estado?

O texto “O que é o Terceiro Estado?” procura responder a esta pergunta, o que este Terceiro Estado representa na ordem política do período e qual é seu objetivo. Neste panfleto,  Sieyès parte de uma definição inicial no título do primeiro capítulo: “El Tercer Estado es una Nación Completa”. Mas o que seria uma nação para Sieyès? Ele mesmo responde: “Un cuerpo de asociados que viven bajo uma ley común y están representados por la misma legislatura[1]”. Que significa dizer que se trata de uma vontade de um grupo de pessoas em se reunir em uma nação, regida por leis comuns a todos, ou seja, a Constituição, que representa uma única legislatura.

O autor responde também o que é necessário para que uma nação exista e prospere: trabalhos particulares e funções públicas. Ou seja, aqui ele separa o trabalho privado do público, sendo o primeiro é voltado à agricultura e a todo o caminho do comércio, desde a produção dos bens, circulação e venda dos mesmos; já no segundo estão as instituições, qual sejam: o exército, a justiça, a Igreja e a administração. Fica claro no autor a valorização do trabalho para que uma nação seja considerada como tal. E aqui está a crítica às classes privilegiadas, especialmente os nobres, considerados párias da nação. “Si se le despojase de la clase privilegiada, la nación no vendría a menos, sino que iría a más. (…) Qué sería el Tercer Estado sin la clase privilegiada? Todo, pero un todo libre y floreciente. Nada puede marchar sin el primero; todo iria infinitamente mejor sin la segunda[2]”.

Pois que, se a nação é um corpo de associados que vive sob leis comuns a todos e a classe nobre está à parte desta ordem e destas leis, então elas acabam por ser “un cuerpo aparte de la gran nación”, arrematando a crítica de Sieyès, que a repete no capítulo 2, quando escreve: “Es preciso entender por Tercer Estado el conjunto de cuidadanos que pertenecen a la clase común. Todo lo que es privilegiado por la ley, de cualquier manera que sea, sale de la clase común, hace excepción a la ley común y, por consecuencia, no pertenece al Tercer Estado[3]”.

Diante desse descolamento do que seria uma nação, como fica a representação nos Estados Gerais na época? O quadro é complicado, já que os nobres estão à frente desse processo, fazendo com que representem apenas seus interesses degradados, em detrimento do povo, abandonado à própria circunstância. O que faz Sieyès resumir que até aquele presente momento o Terceiro Estado não foi representado nos Estados Gerais, sendo seus direitos políticos nulos.

O terceiro capítulo tratado do que aspira do Terceiro Estado, que é ser real. O problema prossegue quanto à representação e à consequente divisão de poderes que a nação enseja, já que está prevê a participação de todos e a sujeição de todos às mesmas leis, isto é, à Constituição.  Por isso mesmo, o que move o povo no Terceiro Estado é poder influenciar na balança de poder em relação aos nobres, por meio da representação: “Quiere tener verdaderos representantes en los Estados Generales, es decir, diputados sacados de su clase, que sean aptos para ser los intérpretes de sus deseos y los defensores de sus intereses[4]”. O que faz pedir que no Terceiro Estado os votos sejam por cabeça, não por classe.

Para tentar conter as críticas ao que almeja o Terceiro Estado, Sieyès enumera os três pontos centrais do mesmo, a saber: que os representantes do Terceiro Estado não sejam eleitos mais que entre os cidadãos que pertençam verdadeiramente a ele; que seus deputados sejam iguais em número aos das classes privilegiadas; que os Estados Gerais votem por cabeças e não por classes.

O capítulo quarto trata do que o governo tentou e do que os privilegiados propuseram em favor do Terceiro Estado. A primeira sugestão é das assembléias provinciais, que teria em conta nada mais que as propriedades de cada um e sua classe real, não a classe que Sieyès denomina de pessoal, não tendo, assim, a distinção entre clero, nobreza e plebeus. Outra proposição a destacar seria a do comprometimento dos nobres em pagar os impostos, tal e qual o povo, mas não por que os privilegiados aceitaram esta condição, mas porque devem fazê-lo, por estarem atrelados a uma lei comum, a Constituição, e fazerem parte da mesma nação.

Devido ao tamanho limite da resenha e com o objetivo de ir até o ponto mais central do trabalho, passemos ao capítulo 5, a respeito do que deveria ter sido feito em respeito ao Terceiro Estado. Aqui está a questão fundamental no que se refere à Constituição, o montante de leis comuns que devem por em ordem a nação: toda nação deve ser livre e deve criar a sua Constituição. Mas o que seria a Constituição para Sieyès? “Es imposible crear un cuerpo para un fin sin darle una organización, formas y leyes apropriadas para llenar aquellas funciones a las cuales se le há querido destinar[5]”, responde o autor. Há a necessidade também de que esse corpo político seja organizado para que o interesse que tem a nação no poder delegado não seja nocivo.

Mas a Constituição é o tema importante aqui: “Ella existe ante todo y es el origen de todo. Su voluntad es siempre legal; es la ley misma. Antes de ella, por encima de ella, no hay más que el derecho natural[6]”. A Constituição é dividida em duas partes: as primeiras são relativas à regular a organização do corpo legislativo; as segundas determinam a organização e as funções dos diferentes corpos ativos. São estas as leis fundamentais, no sentido de que são leis basilares daquela nação e que, portanto, não podem ser violadas.

E como a Constituição parte do Poder Constituinte e não do Poder Constituído, este último (que tem nos homens escolhidos o nome expresso pelo autor de “representante ordinário”), quando da sua atividade, não pode alterar as leis, somente com o pedido da nação de uma nova Assembléia Constituinte, para que “representantes extraordinários”, escolhidos temporariamente, possam assumir tal fardo. “Un cuerpo de representantes extraordinarios suple a la asamblea de toda la nación. No hay necesidad, sin duda, de que éstos hayan sido encargados de la plenitud de la voluntad nacional; basta con un poder especial cuando se trate de casos no frecuentes[7]”.

Já as leis propriamente ditas, relativas à proteção dos cidadãos e que decidem questões do interesse comum da nação, são obra do corpo legislativo formado (isto é, o Poder Constituído, escolhido por sufrágio) e podem ser modificadas após discussão entre e organização entre os representantes ordinários. Esses “están encargados de ejercer, dentro de las formas constitucionales, toda aquella parte de la voluntad común de las formas constitucionales, toda aquella parte de la voluntad común que es necesaria para el mantenimiento de una buena administración. Su poder se limita a las cuestiones de gobierno[8]”.


[1] Sieyès, Emmanuel-Joseh. Escritos Políticos de Sieyès. México D. F.: Fondo de Cultura Económica, 1993. Página 132.

[2] Idem, p. 131.

[3] Idem, p. 133.

[4] Idem, p. 135-136.

[5] Idem, p. 157.

[6] Idem, p. 157.

[7] Idem, p. 160.

[8] Idem, p. 160.

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