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Archive for agosto \31\UTC 2009

Maquiavel e o embate entre plebeus e nobres em Roma

Olá. Após dias dispersos volto por aqui para publicar mais uma análise dos Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, como base da aula de hoje da disciplina Modalidades do Pensamento Político Moderno. O debate foi sobre o capítulo 37, no oqual específico abaixo. Hoje a professora Eunice Ostrensky nos trouxe a percepção do que representa o referido capítulo, bem diferente do exercício ao qual fui proposto a realizá-lo. Mas vale a leitura, trago outras abordagens, que, creio, valem ao menos a análise.

Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio – Capítulo 37

O capítulo 37 do livro tem como título: “Dos tumultos gerados em Roma pela lei agrária; e como são grandes, numa república, os tumultos causados por uma lei voltada demais para o passado e que contrarie algum antigo costume da cidade”. Maquiavel trata neste capítulo da questão da lei agrária e seus desdobramentos em Roma, sendo motivo de discórdia entre plebeus e nobres, o que acabou levando à servidão romana, segundo consta no capítulo. Mas, mais que isso, Maquiavel faz uma leitura a respeito da busca dos plebeus por mais riquezas, buscando suplantar ou conter o avanço dos nobres, impedindo que estes tivessem muitas terras (primeiro artigo “principal” da lei citado pelo autor) e, também, obter o reparte das terras conquistadas no exterior (outro artigo importante da lei).

Digo isso porque Maquiavel faz uma análise até mesmo filosófica a respeito do homem e sua constante insatisfação por não conseguir obter tudo o que se quer, já que a vontade de obter as coisas é sempre maior que a capacidade de lográ-las. Essa condição inerente na natureza do homem criou, segundo o texto do livro, uma maior ambição da plebe em conseguir mais vitórias para também se proteger dos nobres, que, em contrapartida, desejavam manter o que já possuíam. Não bastava mais a criação dos tribunos para o quinhão político dos plebeus nas discussões e decisões do estado romano. A luta agora era pela divisão de cargos e patrimônio, como coisa mais importante agora em comparação às honrarias de antes. “Daí surgiu a doença que gerou o conflito da lei agrária, que acabou por ser a causa da destruição da república[1]”.

E essa “doença” é retratada nas discussões e tumultos provocados após a instauração desta lei, fazendo com que os nobres se sublevassem contra os plebeus, mas, inicialmente, de uma forma indireta, sem um confronto aberto. Eles preferiram temporizar, criaram mecanismos para fazer com que a plebe desintegrasse sua união ou diminuísse seu desejo por terras. No primeiro caso colocando um tribuno contra o outro e, no segundo, enviando colônias para a área conquistada, muito longínqua, por vezes infértil, despreparada para receber um povo. Isso acabou por adormecer a lei, mas somente até os Gracos, que fez reacender a divergência, provocando um conflito armado entre nobres e plebeus, saindo os primeiros como os vencedores, após muito derramamento de sangue. Maquiavel atribui a este infortúnio a perda de liberdade de Roma, exemplificada na vitória de César sobre Pompeu, opositores nesta matéria, sendo alçado à governança o primeiro tirano de Roma.

Apesar deste desfecho, Maquiavel mantém sua posição pró-discussões entre nobres e plebeus, considerando que, não fosse a atuação destes últimos, mesmo nesta questão da lei agrária, refreando a ambição dos nobres por meio de sua própria, Roma teria caído em ruínas muito antes dos 300 anos em que esta querela começou até o início do período de servidão romana. Ou seja: “em se temporizando, ou o mal demora mais a chegar, ou por si mesmo se extingue com o tempo antes de atingir sua meta[2]”.

Por fim, Maquiavel alerta para a disputa de posses, patrimônios, em relação às honrarias. Se nestas últimas, concedidas freqüentemente pelos nobres aos plebeus, nunca houvera grave abalo, quando o embate rumou para a distribuição do patrimônio, a disputa foi encarniçada, com os nobres tentando, a todo o custo, evitar a repartição com os plebeus, que precisaram recorrer a meios extraordinários para tal êxito.


[1] Maquiavel, Nicolau. Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. São Paulo: Martins Fontes, 2007. Página 113.

[2] Idem, página 116.

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Edição 96 da Rabisco no ar!

Desculpe o sumiço, mas esta semana foi uma verdadeira odisséia, fazendo várias coisas, mirando para diversos horizontes. Mas “foi” nada, ainda está sendo, que ainda tenho um relatório de uma pesquisa do mestrado pra escrever, sistematizarei os dados que coletei.

E, também, por uma questão muito nobre. ARabisco está, definitivamente e irremediavelmente, de volta.

www.rabisco.com.br

Após 2 anos, a Rabisco – Revista Eletrônica de Cultura está de volta, com novo layout, com seção de comentários e muitas matérias, tratando de diversificados temas, sempre com a qualidade e zelo característicos de nossos colaboradores.

Nesta edição eu fui, além de repórter e colunista, um pouco revisor, editor e até publicador de conteúdo: boa parte dos textos foi inserida por mim. Como a ferramenta é WordPress, tal qual este blog,  facilita o trabalho de analfo-webjornalistas como este escriba.

Foi uma delícia acompanhar todo o processo (ontem eu fui pra cama alá pela 1h da manhã, sem contar a semana toda de discussões e revisões) e acordar hoje, às 7h da manhã, e abrir meu e-mail com a editora-master Ana Lira informando que publicara toda a edição 96 e que a mesma está no ar. É muito gratificante, dada toda a luta mencionada em outro post neste blog.

Entretanto, como aqui é meu blog, eu preciso vender meu peixe. Portanto, publico os links do que produzi para esta edição:

Coluna Caderno Zero trata sobre a a febre do Twitter no Brasil

Matéria noticia exposição em SP sobre a luta pela anistia

Mas eu sugeriria que você acessasse também as outras matérias, tem muitas outras coisas interessantes, curiosas até, eu diria. Apresentamos uma cantora polonesa que toca bossa-nova, tem entrevista com um coletivo de comunicação e arte do Recife, matéria sobre literatura, quadrinhos, cinema, música e o grande dstaque: matéria especial do fotógrafo João Roberto Ripper e sua primeira exposição individual em São Paulo.

Vale a pena visitar: www.rabisco.com.br.

Maquiavel: liberdade dentro da república

Publico hoje um texto escrito pra aula de ontem na FFLCH/USP: Modalidades do Pensamento Político Moderno. Muito interessante o curso. O tema das duas primeiras aulas é “República e liberdade” e o autor central (já que a idéia do curso é estudar os autores modernos) é Maquiavel, especificamente o livro Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio.

E como primeira atividade, a professora Eunice Ostrensky solicitou uma análisse do capítulo 16, relativo à liberdade (dentro da égide republicana) e formas de governo. E toda a semana vai ser assim, um texto relacionado ao que está sendo estudado. Portanto, sempre um “textículo” por semana dentro desta disciplinaestará aqui. Fiz meio corrido, mas dá pra passar a idéia do texto. Então, bom proveito!

Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio – Capítulo 16

O capítulo 16 do livro tem como pontapé a frase “O povo acostumado a viver sob a autoridade de um príncipe, se por algum acontecimento se torna livre, dificilmente mantém a liberdade”, retirada dos discursos de Tito Lívio, qual seja, objeto da obra de Maquiavel. E trata justamente da impossibilidade do povo em viver em liberdade, tendo que haver ou um rei ou governante para dar as diretrizes necessárias e liderar e/ou dominar e/ou subjugar a população, sendo esta a tese central do capítulo.

Para exemplificar isto, ele utiliza compara o povo a “um animal bruto que, embora de natureza feroz e silvestre, tenha sido criado no cativeiro e na servidão, e que depois, ao ser solto em campo aberto, por não estar acostumado a alimentar-se e por não conhecer os lugares onde possa refugiar-se, torna-se presa do primeiro que queira aprisioná-lo de novo[1]”. Detalhe importante: esta explanação está embasada numa realidade em que a população e o estado não estejam corrompidos, porque, caso seja este o caso, Maquiavel afirma que este povo “não pode, nem por breve tempo, viver livre[2]”.

Entre os argumentos utilizados para a tese central está o de que, como o exemplo acima levantou, o povo não consegue viver livre, por não ter a capacidade de organização diária da vida pública, sem poder se defender ou atacar nas chamadas “lides públicas”. Outro argumento é de que um estado livre nutre somente inimigos, principalmente aqueles que foram afastados do comando deste estado ou das benesses recebidas quando havia tirania. Isso faz com que este estado seja mais vulnerável que outros, já que a sua liberdade não aumenta o número de amigos deste, mas sim de adversários.

Maquiavel coloca que a saída é dizimar aqueles que conspiram contra o príncipe, se colocando ao lado do povo, que é muito, e não ao lado de poucos no poder, o que faria ter de provocar um governo muito cruel e, consequentemente, vulnerável. E para conquistar a amizade do povo, é preciso saber quais são suas necessidades, o que o autor aponta: vingar-se do tirano anterior e a outra é devolver a liberdade. A primeira é considerada mais fácil, já que basta acabar com os opositores do povo, que este se coloca a seu favor. Agora, quanto a dar-lhes liberdade, isso se torna mais complicado, sendo preciso verificar mais a fundo a necessidade da maioria do povo em ser livre: viverem com segurança. Para isso, é preciso criar leis e ordenações que atinjam “tanto o poder do príncipe quanto a segurança de todos. E, sempre que assim se fizer, se o povo vir que, por nenhum acontecimento, tais leis serão violadas, o príncipe em breve começará a viver seguro e contente[3]”.

O problema, no entanto, está quando a sociedade está corrompida. Neste caso, não há leis que regulem a vida das pessoas, sendo necessário o emprego de maior força, que “com poder absoluto e excessivo, ponha cobro à excessiva ambição e corrupção dos poderosos[4]”, citando a região de Toscana para exemplificar tal argumento. Ele conclui o raciocínio afirmando ser importante, par a criação de uma república onde existam muitos gentis-homens, a eliminação de todos. E quando quiser criar um reino ou principado onde predomine a igualdade só poderá concretizá-lo extraindo homens que tenham “ânimo ambicioso e inquieto, tornando-os gentis-homens de fato”, dando-lhes várias benesses e posses dos que comandam o poder, para que “postos no meio desses homens, por meio deles mantenham seu poder, e tais homens, por meio dele, mantenham sua ambição[5]”.


[1] Maquiavel, Nicolau. Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. São Paulo: Martins Fontes, 2007. Página 64.

[2] Idem, página 65.

[3] Idem, página 68.

[4] Idem, página 161.

[5] Idem, página 162.

Parque do Ibirapuera

Domingo de sol no Parque do Ibirapuera - São Paulo - SP - 16.08.09

Domingo de sol no Parque do Ibirapuera - São Paulo - SP - 16.08.09

Peço desculpas pelo abandono da seção Fotografia. Tem me faltado tempo para escolher boas fotos e escrever bons textos. Mas volto em grande estilo, pelo menos na paisagem da foto.

Selecionei a que achei mais representativia do Parque do Ibirapuera, que pude visitar domingo passado, aproveitando um raro domingo de sol em pleno inverno – só perceber como o tempo está nesta semana em comparação à outra.

O parque vive lotado em dias de sol, tornando-se uma verdadeira praia pra quem não pode sair de São Paulo, ou simplesmente deseja curtir um “Domingo no Parque”. E o lago é o que mais chama atenção, com várias pessoas ao redor dele, saboreando a paisagem, alimentando os animais, namorando…

Chega de papo e curtamos a foto e lembramo-nos dos bons momentos que já tivemos no Ibirapuera. Ou, quem é de outra cidade, aproveite e rememore dias gostosos de lazer em algum outro parque. Hoje é domingo, dia de celebrar a vida.

4. Considerações finais

4. Considerações finais

Enquanto no discurso o smart power é a menina dos olhos da política externa do governo Barack Obama, sua prática fica restrita a seus objetivos mais prementes, o que Simon (2009) chama de “grande Oriente Médio”, que se estende do extremo oeste asiático à Índia. “É nessa região que se encontram os dois desafios dos EUA, o Irã – qualificado de ‘a maior ameaça’ por Obama, durante a campanha – e a fronteira entre Afeganistão e Paquistão, apelidada de ‘estação central do terror internacional’” (SIMON, 2009, p. 01), além de dar mais voz à Europa e abrir espaço par aa redução das armas nucleares em todo o mundo.  Voltando, o objetivo no grande Oriente Médio é compor arranjos regionais, fazendo com que todos os países ao redor atuem entre si por melhorias que inibam o desenvolvimento desses países como ameaças globais futuras.

Diante disso, qual o papel da América Latina na administração Obama? Como vemos diante do próprio episódio estudado neste trabalho final, os Estados Unidos têm se mostrado preocupado em repor sua base militar perdida no Equador, por meio de seu melhor parceiro atualmente na região, a Colômbia, numa época em que os países sul-americanos estão, em sua maioria, repleto de governos anti-EUA ou de, no mínimo ampliação de um tratamento horizontal, não tendo os “ianques” a prioridade nas relações com o subcontinente. No entanto, sua ansiedade é somente estratégica, não se tem proposto diálogo na região para resolver a questão das bases, nem quanto a um desenvolvimento sul-americano com esforço do gigante do Norte, apesar de Obama dizer que Lula “é o cara”, criticar declarações de Chávez ou iniciar conversações para o início da distensão do embargo a Cuba. Ou seja, o smart power não está sendo implantado na região, simplesmente porque a América do Sul é desimportante no momento, em comparação a outras prioridades mais evidentes para a política externa norte-americana. O que não quer dizer, entretanto, que a região esteja abandonada, como demonstra a instalação de bases na Colômbia.

Diante disto, a proposta de Lula de trazer Obama para a reunião da Unasul, do ponto de vista sul-americano é fabulosa para as pretensões desses países, uma verdadeira vitória fazer um presidente dos EUA discutir em pé de igualdade com seus vizinhos do Sul uma ação no plano externo. Agora, ao mesmo tempo, parece um tanto absurdo ou até surreal o presidente da maior potência do mundo vir ao subcontinente dar satisfação da instalação de bases militares. Mas, se a estratégia o smart power estiver realmente no centro da política externa de Obama, este é um bom teste para sabermos. Ou, então, a ausência de diálogo reforça que o foco não está na região do Atlântico Sul, pelo menos por agora.

5. Bibliografia

BAINES, Christian. Lula pede a Uribe que acordo militar com EUA fique restrito à Colômbia. Folha On Line. São Paulo, p. 01, 06 ago. 2006. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u606115.shtml>. Acesso em: 14 agosto 2009.

CHÁVEZ SUSPENDE convênio de fornecimento de combustível para a Colômbia. Folha On Line. São Paulo, p. 01, 09 ago. 2009. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u607300.shtml>. Acesso em 14 agosto.

COLÔMBIA VAI ceder 7 bases aos EUA. O Estado de S. Paulo. São Paulo, p. 01, 05 ago. 2009. Disponível em: < http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,colombia-vai-ceder-7-bases-aos-eua,413863,0.htm>. Acesso em 14 agosto 2009.

LA GORCE, Paul-Marie de. A nova doutrina militar americana. In: Le Monde Diplomatique, no 26, São Paulo: Le Monde Diplomatique, 2002.

MARREIRO, Flávia. Bases dos EUA na Colômbia incitam dúvidas legítimas, diz analista. Folha On Line. São Paulo, p. 01, 10 ago. 2006. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u607405.shtml>. Acesso em: 14 agosto 2009.

NÃO TEREMOS base na Colômbia, diz Obama em defesa de polêmico acordo. Folha On Line. São Paulo, p. 01, 07 ago. 2009. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u606617.shtml>. Acesso em 14 agosto.

NYE JR., Joseph S.. A arte de usar o ‘poder inteligente’. O Estado de S. Paulo, p. 01, 18 jan. 2009. Disponível em: < http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090118/not_imp308967,0.php>. Acesso em: 11 agosto 2009.

ROMPENDO COM a doutrina Bush. O Estado de S. Paulo. São Paulo, p. A3, 15 jan. 2009.

SANGER, David E.. Estratégia do presidente começa a se delinear. O Estado de S. Paulo, p. 01, 08 abril. 2009. Disponível em: < http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090408/not_imp351660,0.php>. Acesso em: 11 agosto 2009.

SIMON, Roberto. Obama impõe novo estilo de diplomacia. O Estado de S. Paulo, p. 01, 26 abril. 2009. Disponível em: < http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090426/not_imp360587,0.php>. Acesso em: 17 agosto 2009.

“VENTOS DE GUERRA começam a soprar”, diz Chávez sobre bases. Folha On Line. São Paulo, p. 01, 10 ago. 2009. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u607625.shtml>. Acesso em 14 agosto.

Texto em partes

1. Introdução

2. Smart power de Obama

3. Dilema das bases

3. Dilema das bases

3. Dilema das bases

Se a política externa do governo Obama está embasada num multilateralismo, trazendo a diplomacia como maior protagonista, suplantando um pouco as ações militares que eram o principal mote da administração Bush, como deve ser encarada a discussão atual sobre a implantação de bases norte-americanas na Colômbia? Essa é a pergunta que pretende-se responder aqui.

A implantação de três novas bases no país-sul-americano (mais precisamente em Palanquero, Malambo e Apiay) faz parte do Plano Colômbia de combate às drogas, que os Estados Unidos investe pesadamente, com dinheiro, arma e militares, para combater os narcotraficantes da região e guerrilhas como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Para se ter uma idéia, desde 1999 foram repassados US$ 5,5 bilhões para a Colômbia e com as novas bases estão previstos investimentos de até US$ 5 bilhões pelo novo pacto. Tais bases permitirão que, nos próximos dez anos, Washington mantenha 1.400 pessoas, entre militares e civis, compensando o fechamento da base de Manta, no Equador, já que o atual presidente deste país, Rafael Correa, não renovou o acordo.

Acontece que este pacto militar é visto com desconfiança e críticas pelos vizinhos sul-americanos, que temem uma ingerência dos EUA no subcontinente. Se antes a região se via como a única no planeta sem bases militares norte-americanas, agora terão ao menos três, quando, o comandante das Forças Armadas colombianas e ministro interino da Defesa, general Freddy Padilla, fala de sete bases, sendo três aéreas, duas do Exército e duas bases navais (COLÔMBIA VAI…, 2009, p. 01).

A alegação, no entanto, é que as bases serão controladas pelos militares colombianos, tendo apenas uma cooperação técnica dos Estados Unidos, conforme Padilla declarou. O próprio presidente dos EUA, Barack Obama, disse recentemente em entrevistas que não se tratam de bases norte-americanas.

“Temos um acordo de segurança com a Colômbia há muitos anos e o atualizamos. […] Não temos nenhuma intenção de estabelecer uma base militar americana na Colômbia. […] Não autorizei uma base militar americana na Colômbia, não me pediram. […] Esta é uma continuação da assistência que provemos [ao país]. Não temos intenção de enviar um grande número de tropas adicionais à Colômbia” (NÃO TEREMOS…, 2009, p. 01).

Mas esse discurso não convence os vizinhos mais próximos da Colômbia, como Equador (que tem relações diplomáticas rompidas com o país desde o ano passado, após o Exército colombiano invadir território equatoriano para destruir acampamento das Farc) e Venezuela, que terá duas bases apontadas para si. Até mesmo o Brasil vê o acordo de esguelha, já que haverá uma base a 400 quilômetros de sua fronteira, na região da Amazônia.

No dia 10 de agosto aconteceu em Quito a reunião da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), quando Rafael Correa tomou posse de seu segundo mandato no país e, também, assumiu presidência do concerto regional. Dos participantes, somente o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, não compareceu, preferindo enviar um representante, apesar das provocações do presidente venezuelano Hugo Chávez. Álvaro Uribe preferiu fazer uma espécie de via crucis pela América do Sul – exceção feita à Venezuela e Equador, os mais críticos do acordo –, para defender as bases e dizer que elas não afetariam a soberania de seu país, nem os acordos internacionais.

No encontro tentou-se firmar um documento único criticando a atitude da Colômbia, mas havia divergências entre os próprios países, sendo Peru e Paraguai, por exemplo, favoráveis ao acordo colombiano com os EUA, enquanto Venezuela, Equador, Argentina e Bolívia se mostraram mais fortemente contra, tendo o Brasil uma postura de desconfiança, mas sem alarde, preferindo o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, ir embora antes do fim do encontro para evitar qualquer declaração ou texto polêmico, como rege a (acima de tudo) prudente diplomacia do Itamaraty, como será tratado mais abaixo.

Já Hugo Chávez não deixou de fazer suas declarações e afirmar a possibilidade de uma guerra na América do Sul, devido a presença de bases militares norte-americanas: “Cumpro com minha obrigação moral de alertar: ventos de guerra começam a soprar” (“VENTOS DE GUERRA…, 2009, p. 01). Ele ainda acusou a Colômbia de “seguir o argumento do ataque preventivo” e lembrou do já citado bombardeio em território equatoriano: “Eu não vou permitir que façam com a Venezuela o que fizeram no Equador. Haverá uma resposta militar e contundente” (Idem). Além da retórica, desde julho a Venezuela congelou todas as relações, diplomáticas e comerciais, com a Colômbia, por conta da querela das bases. O que representa algo importante, já que a Venezuela é responsável pela compra de 15% das exportações colombianas (CHÁVEZ SUSPENDE…, 2009, p. 01).

Com posições favoráveis contidas e desfavoráveis acintosas, algo prático ficou por ser feito. A saída foi agendar um novo encontro até o fim do mês para discutir o assunto. Uma sugestão feita por Lula, e aceita por todos, foi a de fazer uma reunião emergencial da Unasul com a participação do governo dos Estados Unidos para tratar do assunto.

Falando no Brasil, a posição do país no episódio tem se mostrado bastante cautelosa e apaziguadora, defendendo o diálogo para resolver a questão. E é curioso, pois, ao mesmo tempo, o assunto gerou muita desconfiança por aqui, pois os aviões que irão operar na base de Palanquero, na região central da Colômbia, possuem um raio de ação bem superior ao necessário para o combate ao narcotráfico. Além disso, há a preocupação com a reativação no ano passado da Quarta Frota Naval dos EUA, que tem por objetivo de atuar na América do Sul, Central e Caribe. De acordo com Lula, a área de atuação desta frota chega até o pré-sal brasileiro, que são os campos de petróleo situados a quase 7 mil metros de profundidade, nos mares entre o Espírito Santo e Santa Catarina.

Se no âmbito da Unasul a posição é de “vamos conversar”, quando da visita de Uribe ao Brasil em 06 de agosto, Lula pediu ao presidente colombiano que o acordo ficasse restrito à Colômbia. O Brasil se mostrou preocupado com esse tema, pedindo transparência quanto a profundidade deste acordo, apesar de concordar com a soberania da Colômbia em resolver seus assunto.

“Nós voltamos a reiterar que o acordo com os Estados Unidos […] seja especifico e delimitado ao território colombiano. [Essa] é uma matéria naturalmente da soberania colombiana, sempre quando os dados gerais de que se dispõem sejam compatíveis com essa delimitação das ações ao território colombiano. […] A questão de garantias foi mencionada. Eu creio que isso será objeto de reflexão. Há uma sugestão de uma transparência maior. Nós temos que ver exatamente se essa transparência satisfaz as nossas duvidas ou não” (BAINES, 2009, p. 01).

No entanto, é evidente que a postura brasileira está com o foco na discussão do tema e não em esbravejar ameaças, num claro temor de que as atitudes agressivas dos presidentes, caso claro de Chávez, desestabilizem as relações no subcontinente.

No caso dos Estados Unidos, apesar do discurso de negação, Obama não desmente o fato de prosseguir provendo dinheiro, armamento, tecnologia, cooperação à Colômbia e acaba por devolver críticas aos governos sul-americanos que se mostram contra o acordo. A relação está no campo diplomático, ou seja, usa-se o poder brando da dissuasão e da persuasão para convencer o outro, por meio de visitas de militares ao Brasil, por exemplo, caso do General Jim Jones que veio ao país no início deste mês de agosto para abordar o assunto, na espera que o mesmo seja resolvido na clareza que tal ação não visa prejudicar os interesses dos demais países sul-americanos.

Mas cabe trazer a reflexão de Makus Schultze-Kraft, diretor para a América Latina do “think thank” International Crisis Group (ICG), que possui diversos estudos sobre o conflito colombiano e narcotráfico na região: se os números da Organização das Nações Unidas de 2008 mostram que a Colômbia tem progredido na luta antidrogas e as Farc estão cada vez mais fracas, qual a razão de maior presença militar norte-americana no país? (MARREIRO, 2009, p. 01). Enfim, será preciso mais que palavras para convencer os sul-americanos que as bases militares na Colômbia, com controle ou não norte-americano, não são uma ameaça para as suas soberanias.

Amanhã: 4. Considerações finais

Texto em partes

1. Introdução

2. Smart power de Obama

2. Smart power de Obama

2. Smart power de Obama

A política externa do governo republicano de George W. Bush (2001-2009) teve um obrigatório redirecionamento de metas por conta dos atentados ocorridos no fatídico dia 11 de setembro de 2001, quando aviões foram jogados contra o World Trade Center e o Pentágono. Trata-se de uma variação muito profunda em relação ao passado dos Estados Unidos. Isso porque, antes dos anos 70, a doutrina militar norte-americana era motivada pela Guerra Fria, centrada no conceito de “duas guerras e meia”, sendo uma possível com a União Soviética, outra com a China e, ao mesmo tempo, outra em escala regional, como nos explica La Gorce (2002). Já com a dissidência chinesa em relação ao comunismo soviético, seguindo o seu caminho próprio rumo ao socialismo, o então presidente Richard Nixon adotou o conceito de “uma guerra e meia”, prevendo um grande conflito com a União Soviética ou China e um conflito menor, restrito.

Ao cabo da Guerra Fria, o então presidente George Bush publicou, em 1991, o documento Base Force Review, prevendo “dois conflitos regionais” importantes. Tais orientações foram confirmadas em 1993 e 1997 pelo governo de Bill Cllinton, que rebatizou os conflitos em “guerras principais do cenário”. Já no discurso do secretário norte-americano de Defesa, Donald Rumsfeld, realizado em 31 de janeiro de 2002, já sob os efeitos trágicos dos atentados terroristas em território próprio, ampliou as possibilidades de conflito para quatro “cenários principais”.

“Colocou no mesmo campo inimigo as organizações terroristas com ‘ambições mundiais’ e os países que as apóiam, principalmente os que poderiam ajudá-las comas armas de destruição maciça (nucleares, biológicas e químicas) com as quais estariam se equipando. A ameaça já não se define somente por sua origem, mas também por sua natureza” (LA GORCE, 2002, p. 2).

Ou seja, a partir deste ponto, as ações foram direcionadas contra os terroristas e os países que os acobertassem. Diante disto, Afeganistão, Iraque, Coréia do Norte, Sudão e Cuba, em primeiro plano, e China, em segundo lugar, são vistos como inimigos em potencial (o famoso “Eixo do Mal”) ou, no caso chinês, um parceiro competidor. Não se trata mais apenas de uma guerra entre países, localizada em determinado território. A escalada da violência contra o terrorismo pode ocorrer em vários lugares ao mesmo tempo, contra diferentes inimigos. Isso fica claro nos seis objetivos da política de defesa apresentada por Rumsfeld: proteção do território nacional e das bases norte-americanas no exterior: projeção de forças para os palcos de operação distantes; destruição dos santuários do inimigo; segurança dos sistemas de informação e comunicação; desenvolvimento do uso de técnicas necessárias às operações conjuntas em terra; e proteção do acesso ao espaço e do potencial espacial dos Estados Unidos.

Ocorre que o governo do democrata Barack Obama rompeu com a doutrina Bush de agressão, colocando a diplomacia na vanguarda da política externa, baseando-a em “princípios e pragmatismo, não em rígida diplomacia” (ROMPENDO COM…, 2009, p. A3). O que muda é a concepção de como os Estados Unidos encaram o mundo e relacionam seus interesses com seus parceiros, diminuindo a importância da dimensão militar, colocando o diálogo à frente deste.

Se com a secretária de Estado anterior, Condoleezza Rice, a doutrina se resumia em “power matters”, isto é, o poder conta, reforçando o unilateralismo nas relações internacionais, o poder que a atual secretária de Estado, Hillary Clinton, coloca, é de outra natureza: o chamado “smart power”, ou poder inteligente, conceito formulado pelo cientista político Joseph Nye Jr., da Universidade Harvard, que conjuga o diálogo com o porrete, alternando-os quando necessário, de acordo com o comportamento do país que se está tratando. O próprio Nye explica melhor: “Poder inteligente é a combinação de poder duro (hard power) e poder brando (soft power). Poder brando é a capacidade de obter os resultados preferidos mais pela via da atração do que da coerção ou de pagamentos” (NYE JR., 2009, p. 01).

Essa mudança de paradigma é evidenciada no discurso de Clinton durante audiência de confirmação para o cargo de secretária de Estado:

“Os EUA não podem resolver sozinhos todos os problemas mais prementes, e o mundo não pode resolvê-los sem os EUA. Precisamos usar o que tem sido chamado de ‘poder inteligente’, o leque completo de ferramentas à nossa disposição” (CLINTON apud NYE JR., 2009, P. 01).

Trata-se da consagração de um multilateralismo nas relações com os outros países, considerando “a emergência de atores que nem sequer eram cogitados na configuração herdada da guerra fria e sob o impacto do derretimento do sistema financeiro” (ROMPENDO COM…, 2009, p. A3), o que nos remete a busca pelo diálogo diplomático com países que têm mostrado seu valor no contexto internacional, tais como Brasil, Índia, China, África do Sul. Isso porque, como escreve Nye, “as pesquisas revelam um sério declínio na capacidade de atração americana na Europa, América Latina e em todo o mundo muçulmano” (NYE JR., 2009, p. 01), sendo importante esse câmbio no trato com os países emergentes, por exemplo.

Se antes se falava em atacar terroristas e tiranos, Obama tirou a segunda palavra do discurso e deseja promover a concertação entre os países, antes de sair por aí disparando balas e mísseis. Segundo Sanger (2009), os Estados Unidos têm em mente “não apenas dar uma autoridade maior a instituições internacionais, mas também participar da criação de alguns novos organismos” (SANGER, 2009, p. 01). Por isso a predisposição dos EUA em diminuir seu arsenal de ogivas nucleares, incentivando, assim, os demais a seguir o mesmo caminho. Mas, bem entendido, sem deixar de utilizar o “hard power” quando crer ser necessário, como quando houver “promoção do terrorismo”, “interferência contínua no funcionamento dos governos” e a “busca de armas nucleares” por parte do Irã”.

Enfim, Nye (2009) acredita que os Estados Unidos possam se tornar um poder inteligente ao “complementar o poder econômico e militar americano com mais investimento no poder brando, e centrando em interesses públicos globais” (NYE JR., 2009, p. 01), fazendo com que o país consiga lidar com os desafios mundiais mais complexos. Mais que diálogo, ações positivas práticas e pragmáticas são exigidas do governo Obama para mostrar que, verdadeiramente, os Estados Unidos mudaram sua forma de se relacionar com os demais Estados. E o que vamos analisar a seguir é se no trato com os vizinhos sul-americanos rege a cartilha do “smart power”, especificamente na querela das supostas bases norte-americanas na Colômbia.

Amanhã: 3. Dilema das bases

Texto em partes

1. Introdução

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