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Gildo Marçal Brandão (1949-2010)

Acordo hoje, ligo o computador e procuro, como sempre, as notícias do esporte. Entro no Blog do Juca Kfouri e leio uma notícia que me deixa entristecido e perplexo: a morte do professor Gildo Marçal Brandão, professor do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Juca Kfouri indica que o professor era seu amigo.

De minha parte, professor Gildo deu aula para mim no semestre passado, em conjunto com outros dois professores, na disciplina “Modalidades do Pensamento Político Moderno” e foi o professor que mais gostei, sem desmerecer os demais, obviamente, que também possuem seus méritos. Mas o professor Gildo tinha o pensamento comunista a me chamar a atenção. Seu módulo, o último, tinha Tocqueville, Marx e Weber e me encantou desde o começo, fazendo com que eu não visse a hora de absorver seus conhecimentos. Mas, antes, na primeira aula, os três professores estiveram presentes. E cada aluno falava sua formação, de que curso vinha e o tema de sua pesquisa. Lembro-me dele ter simpatizado com meu tema, perguntando-me o nome de meu orientador, inclusive.

É estranho imaginar que estive presente em uma de suas últimas aulas, em novembro. Mais estranho ainda é cogitar que ele possa ter corrigido o meu trabalho final, já que era relacionado a seu módulo, tendo sido responsável pelo meu “A” em sua disciplina, no comecinho de fevereiro. Encarei aquele texto, uma reflexão referente à obra “O 18 Brumário de Luis Bonaparte” de Karl Marx, como um desafio, pois a matéria era complicada e o livro ainda mais, mas meu gosto pelo autor – além do meu entendimento dele, auxiliado pelo professor Gildo – me fez seguir em frente, numa missão que considerava extremamente delicada e difícil.  Mas consegui. Espero ter deixado o professor Gildo contente, mesmo nós não tendo contato próximo no cotidiano ou nas aulas.

Mesmo sem uma proximidade, aprendi a respeitar seu profundo conhecimento sobre o que falava: citava datas e detalhes de textos e da vida de Marx, impressionantes, além de seus conhecimentos de Weber, que contribuíram até para minha pesquisa. Pena não ter podido dar a aula sobre Tocqueville por conta de um imprevisto, tendo sido substituído por outra professora da disciplina.

O professor Gildo vai deixar um vácuo enorme na discussão sobre a Ciência Política, Sociologia, Filosofia, enfim, sobre o pensar esse Brasil por outro viés. Foi alguém que contribuiu para o aprimoramento do pensamento comunista e que lutou por sua propagação no Brasil. Ele vai após muita luta e a certeza de dever cumprido. Adeus professor Gildo e obrigado por tudo. A USP e o Brasil agradecem.

Como forma de homenagem, republico abaixo o texto que está no Blog do Juca Kfouri.

Amigos e companheiros,
Simone, Joana, Carolina e Lucas,
Dona Eva, dr. Brandão e demais parentes de Gildo

Aqui estamos para prantear o desaparecimento de um personagem singular.

É interessante assinalar que Gildo antes de tudo era um sobrevivente na batalha pela sua existência.

Segundo o relato de sua mãe, dona Eva, na infância os médicos não acreditavam que o primogênito daquela família, nascido no inóspito sertão de Mata Grande, iria sobreviver.

Os diagnósticos eram irrefutáveis. O garoto padecia com a chamada tetralogia di Fallot que afetava de forma total seu sistema cardíaco.

Todavia, dona Eva, com o apoio total de seu esposo, não se curvou diante desse prognóstico.

Recorreu a tudo que a medicina naquela época poderia fazer para salvar seu filho.

Assim, teve início uma batalha que durou quase sessenta anos, porque exatamente hoje Gildo completaria 61 anos de idade.

Mas essas seis décadas foram sobretudo uma sequência de sofrimentos e sacrifícios inauditos desse alagoano fisicamente fraco, mas com fibra de aço. Volta e meia era internado em hospitais e sempre estava preso a dietas intoleráveis.

Duas vezes seu músculo cardíaco teve de ser aberto e na primeira delas sua vida dependeu da perícia do doutor Zerbini.

Recentemente, recorreram à implantação de um marca-passo, que, afinal, não impediu o enfarte que o derrotou anteontem.

Sua grande amiga, cardiologista do Incor, a doutora Ana Maria Braga, sempre nos advertiu: “Fiquem preparados para o que pode acontecer com Gildo”.

Então, na verdade, o sucedido anteontem foi um fato absurdo, mas anunciado, pois a falência de seu sistema cardíaco fora adiada durante seis décadas.

Em primeiro lugar pelo extremo cuidado recebido na infância e na mocidade, graças ao carinho de seus familiares.

Outros fatores básicos foram essenciais na formação dessa figura excepcional como teórico e militante político em nosso país.

Em segundo lugar contribuiu decisivamente seu profundo amor à vida, ao trabalho que realizava como cientista político, sua convicção de que suas pesquisas seriam de enorme importância para o futuro do país.

Note-se que fugiu de São Paulo para uma praia a fim de poder terminar a aula que deveria prestar na segunda semana de março.

Todos sentiam como seus deveres como professor o consumiam, embora sempre apreciasse as coisas boas da vida.

Não por acaso seu último de vida foi um passeio maravilhoso numa praia.

O outro fator básico que permitiu essa atividade espantosa foi o apoio absoluto, total e vigilante de Simone, sua companheira que tudo fazia para que Gildo pudesse viajar, tomar parte na vida social e manter em sua residência um afetuoso e acolhedor clima de amizade com inúmeros amigos, com estudantes estrangeiros que ali se hospedavam, e auxiliando os pós-graduandos orientados por Gildo.

A contribuição de Simone também foi essencial para garantir um melhor padrão de vida da família.

Pois bem, esse alagoano travou essa batalha sem se submeter às normas impostas a uma pessoa fisicamente frágil.

Sua vida é um exemplo de um envolvimento permanente com toda a sorte de dificuldades financeiras, políticas, policiais e de extremo amor a diversas instituições de pesquisa, particularmente a Universidade de São Paulo.

Agora a fatalidade o derruba quando dentro de um mês iria disputar o mais alto posto na academia, a função de professor titular da USP.

O ponto de partida de Gildo na universidade foi o estudo sistemático de filosofia, o que lhe deu uma base teórica que sempre lhe permitiu fazer análises profundas na ciência política e na sociologia.

Daí suas posições ao lado dos que no movimento comunista assumem uma atitude firme na defesa do valor universal da democracia e da firme disposição de aprofundar a correção dos erros cometidos pelos que se engajam na luta por uma sociedade mais justa.

Com orgulho Gildo Marçal Brandão relatava sua qualidade de militante comunista.

Relembro sua disposição de participar ativamente da rearticulação da direção comunista em São Paulo, quando a repressão policial assassinou diversos dirigentes comunistas em 1974 e 1975.

Naquele ambiente de absoluto terror, Gildo cuidou de reorganizar a direção estadual dos comunistas e participou do lançamento do semanário “Voz da Unidade”, que circulou durante vários meses.

Essa atuação criou um problema para ele, porque o afastou durante vários meses da vida acadêmica.

Assumiu o compromisso de uma participação teórica mais intensa no lançamento da revista “Temas de Ciências Humanas”, abordando aspectos essenciais da atividade comunista no Brasil e no mundo.

Para sobreviver viu-se forçado a trabalhar em várias publicações, na qualidade de “free-lancer”, inclusive na “Folha de S. Paulo”, quando foi acolhido por Cláudio Abramo.

Retornando à atuação na academia, Gildo jamais deixou de lado sua atuação destacada como um dos teóricos que dedica parte de seu tempo à elaboração programática do ideário comunista no Brasil e no mundo.

Comecei meus contatos com Gildo depois da minha saída da prisão, em 1979.

De início era um relacionamento distante, mas que foi se estreitando cada vez mais.

Com o passar dos anos diariamente debatíamos problemas e desafios. Tudo o que eu fazia submetia a ele. E ele sempre exigia minhas opiniões. Raramente discordávamos. Agora fico meio perdido sem saber como vou trabalhar sem antes ouvir suas observações.

Assim minha sensação é de perplexidade e de insegurança.

Mas tenho clareza em relação a um ponto.

A contribuição de Gildo foi poderosa e profunda, deixando dois importantes legados.

De um lado, foi sua colaboração intensa para a criação na USP — principalmente nos Departamentos de Ciência Política e de Sociologia — de um clima de renovação entre os professores, visando o aggiornamento do ensino superior no Brasil nas ciências humanas.

De outro lado, pode-se medir a repercussão de seu trabalho na USP através da formação de um grupo de doutores e mestres que leva em conta suas análises críticas.

Encerro minhas palavras fazendo um apelo para que esforços sejam feitos a fim de ser publicado o memorial preparado por ele para o concurso de professor titular da USP.

Documento que, no dizer dele, é um resumo de suas opiniões.

Assim, a divulgação dessa derradeira reflexão será a maior homenagem a um mestre cujo exemplo é um orgulho para a comunidade acadêmica brasileira.

———-

Fala de Marco Antônio Coelho, no crematório da Vila Alpina, em São Paulo, 17 de fevereiro de 2010.

Notícias do front…

Olá, após um longo e tenebroso hiato, estou de volta.

As coisas têm andado realmente complicadas. Estou na fase final do Relatório de Qualificação, sem tempo pra respirar durante a semana e procurando respirar um pouco nos fins de semana, para não enlouquecer. Passo os dias trancafiado no meu apartamento, ou escrevendo ou lendo, o que esgota minhas forças para qualquer outra coisa. É uma rotina desgastante, massacrante até. Mas faz parte do processo, e é gostoso ver o trabalho evoluindo, encontrando novas chaves de reflexão, caminhos para a pesquisa, etc.

Mas não teve jeito e precissei concentrar todos os meus esforços, energias e concentração neste projeto, o oque me fez tomar uma atitude muito difícil no fim do mês passado: sair do Mobilefest. Uma pena, o projeto estava na reta final, já que seu evento foi semana passada, mas as justas cobranças por conteúdo e alterações no site estavam sendo correspondidas por mim a duras penas, e meu nível de cobrança máxima não estava satisfeito com aquilo. Não consigo fazer duas coisas mais ou menos e um projeto pressionava o outro na minha mente. A angústia era enorme. Então, tomei uma atitude drástica, ruim, mas inevitável. Saí do Mobilefest, principalmente porque estou em reta final no primeiro ano do mestrado, tenho burocracias a cumprir e ainda o prazo foi encurtado em um mês, tudo deverá estar pronto antes das festas de dezembro, logo, não há mais tempo.

Triste, mas o projeto andou mesmo sem eu estar por lá, como pude comprovar pela repercussão que rolou por aí. Muito bom, gratificante e o que eu posso fazer é torcer pro sucesso do Mobilefest. E quem sabe um dia as coisas fiquem mais tranquilas para eu poder me dedicar exclusivamente ao projeto? De qualquer forma, desejo sucesso sempre ao Paulo Hartmann e ao Marcelo Godoy, aos que eu agradeço muito o tempo em que convivemos juntos, foi bastante enriquecedor.

E agora minha realidade é o cursor piscando na tela do Word, implacável, me cobrando linhas, letras, palavras, pontuações, acentuações, concordâncias, etc., livros gritando em cima dos puffs paara serem lidos, quase encobrindo minha sala com seu tom inquisidor, ordenando que sejam abertos… E assim vai sser até o fim do ano. Adiantei muita coisa nos últimos tempos, fiz um artigo para uma disciplina, escrevi um capítulo da obra, quase encaminhei outro artigo pra publicação, enfim, as coisas caminham. Só espero passar mais vezes por aaqui pra comentar como estão as coisas e contar o que tenho feito à parte academia, lugares, pessoas, etc.

Até mais! Vou atualizando este espaço do jeito que dá. Espero que “dê” mais vezes. Abraços.

Texto em partes

Como no último artigo, insiro aqui um post com todos os links do texto “Caminhos alternativos para uma estrada sem fim”, trabalho final de fechamento do curso “Signo da Relação”, da professora Cremilda Medina. E assim como da outra vez, quem quiser debater esse e outros assuntos, meu e-mail é: rodrigo.herrero@gmail.com.

Texto em partes

1. Introdução

2. Paradigmas em crise

3. Cultura dentro de um projeto

4. Caminhos e descaminhos no projeto de pesquisa

5. A política de Innerarity

6. Por uma estrada aberta

6. Por uma estrada aberta

6. Por uma estrada aberta

Como não poderia deixar de ser, aboli o item conclusão deste trabalho, afinal de contas, este é apenas um trabalho final da disciplina, que cumpre com as regras do curso de avaliações, notas, etc., não tem, portanto, a pretensão de concluir coisa alguma. E, mais que isto, se estamos numa concepção em que a certeza é uma coisa incerta e as respostas não são nada mais que artigos de um luxo vazio, temos que nos apegar no fato de que nada é definitivo, conclusivo, nada é mais líquido e certo.

A partir de agora temos que encarar qualquer trabalho acadêmico, qualquer reportagem, como um caminho que se inicia numa estrada aberta a mil possibilidades, mudanças, reavaliações, mudanças de rota, de pensamento. As conclusões serão, daqui pra frente, apenas questionamentos para pesquisadores futuros partirem de novos pontos, ajudando, mais que querendo resolver sozinho, a evolução do conhecimento, por mais que seja repleta de idas e vindas, avanços e revezes.

Enfim, o que pude perceber neste primeiro semestre durante a disciplina “Signo da Relação” com a professora Cremilda é que tudo está apenas começando e não tem nada melhor do que o frescor da novidade o tempo todo, mais do que a dura e fria certeza que nos mantém inertes, sem nada produzir, já que tudo está pronto em alguma fôrma e é só copiar – verdadeiro “carma” deste novo século. Temos, no fim das contas, uma estrada sem fim pela frente. Agora não mais de apenas uma reta só, mas sim de vários caminhos alternativos que podem nos levar a diversas formas de conhecimento.

7. Bibliografia

BARROS, Ana Taís Martins Portanova. O jornalismo afetivo: por uma superação da dicotomia entre real e imaginário. São Paulo, 2000. Trabalho final da disciplina “Fundamentos metodológicos do conhecimento científico” – Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo.

INNERARITY, Daniel. A transformação da política. Lisboa: Teorema, 2002.

MEDINA, Cremilda. A arte de tecer o presente, narrativa e cotidiano. São Paulo: Summus Editorial, 2003.

MEDINA, Cremilda. Aventuras e desventuras do paradigma em crise. São Paulo, s/d.

MEDINA, Cremilda. Ciência e Jornalismo, da herança positivista ao diálogo dos afetos. São Paulo: Summus Editorial, 2008.

MEDINA, Sinval. Riquezas e injustiças do Brasil. In: NOVO PACTO DA CIÊNCIA. Planeta Inquieto – direito ao século XXI, São Paulo: ECA/USP, 1998.

OSPINA, William. La decadencia de los dragones. Bogotá: Alfaguara, 2006.

PRIGOGINE, Ilya. O fim das certezas. São Paulo: Editora Unesp, 1996.

RESTREPO, Luis Carlos. O direito à ternura. Petrópolis: Vozes, 2001.

Texto em partes

1. Introdução

2. Paradigmas em crise

3. Cultura dentro de um projeto

4. Caminhos e descaminhos no projeto de pesquisa

5. A política de Innerarity

5. A política de Innerarity

5. A política de Innerarity

Uma das últimas discussões nos encontros da disciplina “Signo da Relação” girou em torno da obra A Transformação da Política, de Daniel Innerarity, que debate diversos pontos de vista da política, mostrando-a de uma forma totalmente diferente do que estamos acostumados a ver, retirando o véu para diversas concepções ideológicas, teóricas, que temos costume por guardar no desenvolvimento de nossa intelectualidade ou mesmo em uma conversa de bar a respeito de corrupção ou das eleições.

Tomei contato com a obra de forma mais efetiva somente ao cabo do curso, em que pude me deter com mais profundidade aos escritos do autor, que pode ser um elemento colaborativo no processo de construção da minha pesquisa, já que tem em seu cerne a política e a forma como ela é praticada, auxiliando na compreensão de como atuam politicamente os governos Hugo Chávez e Luiz Inácio Lula da Silva, tanto em seus respectivos países, Venezuela e Brasil, quanto na relação com seus pares internacionais, sejam vizinhos continentais, parceiros comerciais ou inimigos potenciais. Detive-me particularmente à primeira parte do texto, por considerar a discussão mais interessante para minha pesquisa, apesar de considerar a segunda parte um elemento que mereça a minha atenção em breve.

E a primeira anotação feita que cabe nesta reflexão é justamente quanto à crítica ao discurso ainda usual de esquerda e direita que políticos e governantes em geral utilizam para querer se diferenciar no meio da multidão de profissionais da política que nada se diferenciam, isso sendo feito, pois os perfis programáticos dos partidos são cada vez menos diferentes (INNERARITY, 2002). Mesmo assim, eles acabam sendo vistos pela opinião pública como vermes corruptíveis que sugam os impostos do contribuinte. Escreve Inneratity:

“A distinção política fundamental já não é estabelecida pela oposição esquerda e direita, mas pela de posições que reconhecem ou procuram suprimir a contingência, pela dos que têm na política uma visão acabada aos interessados na realidade e aos exploradores do possível” (INNERARITY, 2002, p. 25).

A contingência, portanto, ganha centralidade nos escritos do autor, indicando que reconhecê-la não se trata de reverenciar o necessário, mas aceitar uma forma de viver que valoriza a imprevisibilidade, a incerteza, a fragilidade ou a oportunidade. Mas o que é contingência para o autor? “Contingência significa possibilidade de que as coisas sejam de outra maneira e convida a procurar alternativas” (INNERARITY, idem, p. 27).

Max Weber foi um dos que melhor e primeiro utilizou este sentido para determinar o que é “político”. Ele coloca a ação política dentro do contexto de aspirar o poder, um termo amplamente utilizado em Realpolitik, mas que pode significar outra coisa bem diferente. “Aspirar a uma coisa significa orientar-se para a modificação do existente. A mudança adquire uma posição central na política, ao passo que a estabilidade acaba por ser uma reação” (INNERARITY, idem, p. 26).

Por isso que, muitas vezes, políticos e marqueteiros de plantão usam e abusam de palavras-chaves como mudança, renovação, reforma, porque se busca o tempo todo transformar algo.  E o que acaba por eleger alguém é o grau de comprometimento que este se dispõe a ter com um cenário diferente do atual, já que o ser humano é eternamente insatisfeito e sempre quererá mais e mais mudanças, crendo, que uma nova proposta, um programa diferente, ou mesmo um partido renovado, podem proporcionar esse El Dorado político.

Por esse motivo a eleição é vista como

“uma interrupção da inércia, uma instituição de ruptura da continuidade. Nesse momento se torna visível de maneira evidente que a política nos introduz num mundo no qual é preciso responder e prestar contas, que o poder não é absoluto no qual é preciso responder e prestar contas, que o poder não é absoluto porque está obrigado a revalidar-se, que a política só dá oportunidades a prazo” (INNERARITY, idem, p. 30).

Dentro desse contexto, a reeleição não pode ser vista como algo benéfico para o desenvolvimento da democracia, bem como da política, já que a acomodação acontece nos Três Poderes e na própria população que se acostuma em ver determinado mandatário a frente do país e chega a crer que muito melhor que está não pode ficar. Não é a toa os cerca de 80% de aprovação do presidente Lula e muitos depoimentos nas ruas de pessoas que votariam nele, caso o mesmo concorresse a um terceiro mandato. A reeleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1998, com o país passando por apuros econômicos, é outro exemplo. Or outro lado, o que dizer da reeleição limitada na Venezuela e das tentativas de outros países de rever a Constituição para aumentar mandatos ou possibilitar reeleições? No entanto, o que atenua é a realização de consultas populares, plebiscitos, que servem para a população participar e decidir se este é ou não o melhor caminho, aproximando assim do que seria uma democracia direta, ou “participativa”, no caso chavista.

Contudo, Innerarity ressalva que se a democracia fosse direta, com as pessoas participando ativamente, as conexões da sociedade se mostram hoje tão complexas que elas não conseguiriam segurar tal demanda e delegariam a outras a tomada de decisões, mais ou menos como ocorre atualmente. Por isso, ele faz uma defesa das instituições criadas para dar conta desse processo, que é a chamada “democracia representativa”: “As instituições são como que o equivalente político da boa educação; são normas que de vez enquando é preciso rever, mas que, entretanto, impedem que a espontaneidade seja dominada pelos instintos mais rudimentares” (INNERARITY, idem, p. 65).

É preciso que a política seja afastada do doutrinarismo que impõe esquemas rígidos dentro de um mundo complexo: “A política não começa com um plano exato, um contrato social originário ou uma plataforma de consenso” (INNERARITY, idem, p. 34). Ou seja, é preciso considerar a política dentro da prática e da experiência cotidiana e não como um modelo teórico ou científico pronto.

E para finalizar este trecho, fico com uma definição de política num sentido mais amplo, feita pelo autor, que sintetiza de forma coerente com seus pensamentos e se aproxima do que a democracia que afirma-se por aí querer:

“A política é a resistência – sempre malograda ou parcialmente realizada – à imposição, à confrontação e à exclusão, é o empenho em resolver os problemas sociais em termos de integração, é um combate contra a incompatibilidade. As suas tarefas fundamentais são a mediação, a convergência, a cooperação e o acordo. Uma boa política não exige que se dê satisfação aos interesses de todos (o que, mais ou menos sempre, se revela impossível), mas não se pode deixar de tê-lo tentado” (INNERARITY, idem, p. 55).

Amanhã: 6. Por uma estrada aberta

Texto em partes

1. Introdução

2. Paradigmas em crise

3. Cultura dentro de um projeto

4. Caminhos e descaminhos no projeto de pesquisa

4. Caminhos e descaminhos no projeto de pesquisa

4. Caminhos e descaminhos no projeto de pesquisa

Outro ponto que considero nevrálgico é quanto à metodologia, tão diversa a cada passo dado, tão indefinida a cada questionamento mais profundo. A dificuldade em conjugar as variadas disciplinas dentro do PROLAM, aproveitando e absorvendo-as para dentro da pesquisa, reflete, principalmente, no tocante à metodologia, ainda mais no desenvolvimento da minha pesquisa, focada numa espécie de comparativo entre os posicionamentos políticos de Hugo Chávez e Lula quanto à integração latino-americana.

Após tentativas de analisar os documentos e discursos, instrumentos de críticas da própria professora Cremilda, como também de meu orientador, o professor Renato Seixas, por permanecer somente nas vozes oficiais de Brasil e Venezuela, ou seja, em discursos prontos apenas lidos pelos presidentes de cada país, elaborados, na verdade, pelas chancelarias de cada Estado, não poderiam se aproximar de uma realidade conectada com o cotidiano e com o que eles realmente desejam fazer.

Com as seguidas investidas argumentativas do meu orientador, alertando justamente para a precariedade de meus objetos de estudos, enxerguei minha grande dificuldade em reavaliar meu projeto, devido à verve mais teórica que prática que possuo, voltada mais às Ciências Políticas que ao Jornalismo, mas também a uma certa irredutibilidade em rever conceitos, premissas e métodos pré-formatados antes de entrar no programa. Mas foi preciso encarar os fatos e a impossibilidade de lidar com as ferramentas de pesquisa escolhidas no projeto original que possibilitou uma guinada ao menos na metodologia da pesquisa, que influirá, certamente, em boa parte da dissertação futura.

Uma forma de trazer à pesquisa ao menos uma reflexão mais social, cultural e, principalmente, sob o ponto de vista da comunicação, e, no fundo, de viabilizá-la, foi a sugestão do orientador para me focar nas declarações dos dois presidentes nos jornais de maior circulação tanto no Brasil (Folha de S. Paulo) quanto na Venezuela (Últimas Noticias) sendo este o critério de escolha e, para focar ainda mais, somente o que sai na primeira página de cada um dos periódicos, no sentido de que a população não costuma comprar jornais, mas se alimenta deles nas tradicionais bancas de jornais espalhadas pelo Brasil afora, ao menos no exemplo brasileiro.

A metodologia está em fase de testes, como uma exploração em uma mina, ou seja, mapeando terreno escuro, desconhecido: estou separando o que saiu no período entre 2007 e 2008 sobre Brasil, Venezuela e América Latina na capa dos dois jornais, para depois selecionar um ou dois temas mais recorrentes e focar o estudo neles, comparando também o que sai na capa destes com o que sai na parte interna, nem sempre lido e nem sempre igual ao que foi destacado na primeira página.

Acredito, com isso, que será possível ter uma maior proximidade, em primeiro lugar, com o que está sendo dito na realidade pelos presidentes, depois, com o processo de mediação simbólica feito pelo jornal e, por fim, em relação à informação que chega ao público. Diante disto, uma nova veia salta neste estudo: a dos estudos dos processos de comunicação, não somente do ponto de vista do emissor, do receptor, do meio, mas principalmente desse processo de mediação, entre o que foi dito pelos governantes, o que foi transmitido e o que foi repercutido depois, que gerou nova declaração dos governantes, por exemplo. Os testes prosseguem e seu sucesso vai depender do andamento e dos aprendizados que serão incorporados ao longo da pesquisa.

Mas agora vamos a um debate sobre política, importante tanto dentro do contexto da disciplina, quanto (e principalmente) na pesquisa em desenvolvimento.

Amanhã: 5. A política de Innerarity

Texto em partes

1. Introdução

2. Paradigmas em crise

3. Cultura dentro de um projeto

3. Cultura dentro de um projeto

3. Cultura dentro de um projeto

A cultura não pode ser somente uma mera palavra importante, mas sem compreendida, muito menos uma simples editoria de jornal. É preciso mais, tanto nos periódicos, quanto na pesquisa acadêmica. Por isso, no texto “Relação entre cultura e projeto de pesquisa” entregue durante o curso, exponho como a questão da cultura foi e ainda é meu calcanhar de Aquiles no projeto. Saliento as dificuldades em relacionar esta dentro de um projeto de política, voltado à análise das relações internacionais.

O mais engraçado é que, naquele texto mesmo eu comecei a enxergar que era possível começar a enxergar aspectos culturais dentro da minha pesquisa, senão em seu cerne, com certeza no seu entorno. Como eu cito naquele texto: Elementos da política interna; composição social da sociedade; questões históricas, econômicas, e, claro, culturais; Tudo isso as relações de um país com os outros.

Assim, eu percebi ser uma questão cultural a forte tradição democrática na sociedade venezuelana, desde os tempos do Pacto de Punto Fijo em 1958, em que a Venezuela foi, por anos, o único país democrático da América Latina. E, na atual governança, essa questão pode ser exemplificada no debate entre democracia representativa x democracia participativa que a Venezuelana chavista travou com os Estados Unidos no início da década na Organização dos Estados Americanos (OEA). Sem falar nos diversos plebiscitos e referendos que pedem a participação popular para confirmar ou negar as ações do governo venezuelano.

No caso brasileiro, a permanência por décadas de Celso Amorim, atual Ministro das Relações Exteriores, no Itamaraty, reforça a cultura de continuidade e fidelidade de um projeto brasileiro no âmbito da política externa, simbolizado numa certa liderança na América Latina e um protagonismo no âmbito mundial. Além da palavra-chave “diálogo”, característica latente desta chancelaria, tratando com governos das mais variadas estirpes ideológicas, tendo clara ligação com o presidente Lula, que tem essa característica em seu gene desde seus tempos de sindicalista, mais evidenciado, porém, agora como mandatário máximo do país.

Ou seja, os exemplos citados aqui podem ser considerados de forma abrangente de que há elementos históricos, sociais, e, porque não culturais, que compõem uma pesquisa focalizada numa análise da política internacional de dois países numa região continental específica. A base social que elegeu cada governo, o impacto interno de cada medida no âmbito externo também pode ser avaliada e inserida no caldo do projeto como um elemento a mais de análise e compreensão dos (des)caminhos de cada projeto político. Ainda mais com a mudança de metodologia proposta pelo orientador e que trato no item a seguir, tais variáveis poderão fazer parte ainda maior desta pesquisa.

Diante disso, portanto, a cultura se coloca de várias formas numa produção acadêmica, no jornalismo, na comunicação em geral. Mas, para isto, é necessário que se abra a mente para essas perspectivas que diferem do que é exposto por aí. Por exemplo, no já citado texto “Riquezas e injustiças do Brasil”, de Sinval Medina, ao cunhar termos como Holambra, Brasiguai (que se tornou real com os ciudadanos brasiguaios que pularam a fronteira rumo ao vizinho) e Periferistão, ele desafia nossas mentes a serem mais que manuais científicos, jornalísticos, acadêmicos. Como escrevi numa reflexão sobre este texto, o autor incita-nos a colocar uma pitada do tempero brasileiro nos nossos textos, pesquisas, reportagens, dissertações, teses, dando uma cara, uma identidade, nossa cultura, enfim, em relação ao que observamos e vivemos. Pois, como ele mesmo diz:

“(…) no mundo unificado ou globalizado economicamente, a nação subsistirá como cultura, as identidades nacionais serão marcadas mais pela produção simbólica do que pela produção material. A riqueza cultural, aliás, é o grande patrimônio brasileiro para enfrentar os desafios do próximo milênio” (MEDINA, S., 1998, p. 219).

Para isso, é preciso sonhar, transcender, acreditar ser possível: é preciso imaginação, fantasia William Ospina em La decadencia de los dragones:

“Creo que la imaginación humana no ha perdido su vigor, pero sí ha cambiado sus temas y sus símbolos. Ese siglo tremendo que acada de irse abundó en obras fantásticas y en creadores asombrosos, y pretender agotada nuestra imaginación sólo evidenciaría que carecemos de ella; pero, al menos en las artes y en las creencias populares, mucho se ha modificado en los últimos tiempos” (OSPINA, 2006, P. 201).

E caminha nessa possibilidade: “Tal vez ése sea el sentido profundo de nuestra literatura fantástica: ser el refugio de la imaginación de escepticismo, pero también la región donde se gesta la salud emocional del futuro” (OSPINA, 2006, P. 213).

Mas agora tratemos das idas e vindas do projeto propriamente dito, importantes por compreender as nuances que foram sendo transformadas ao longo da pesquisa, com alguma influência das disciplinas cursadas, especialmente a referida neste trabalho final.

Amanhã: 4. Caminhos e descaminhos no projeto de pesquisa

Texto em partes

1. Introdução

2. Paradigmas em crise

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