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Eleições: uma análise

E Dilma Rousseff ganhou a eleição mais apertada da história da política brasileira desde a redemocratização. Em uma campanha eleitoral marcada por insultos de ambos os lados, troca de acusações e radicalizações dos discursos de parte a parte, viu-se uma eleição que fugiu aos moldes centristas dos dois partidos. O PT (como quase sempre) lembrou-se de onde veio, convocou os movimentos sociais (e foi atendido), fincou trincheiras contra a Veja após a criminosa capa da Editora Abril e defendeu com unhas e dentes o legado social e trabalhista produzido pelo seu governo nos últimos 12 anos.

Do outro lado, Aécio Neves subverteu Geraldo Alckmin e José Serra e tomou coragem para defender o legado de Fernando Henrique Cardoso – embora tenha perdido a mão ao nomear Armínio Fraga para Ministro da Fazenda, abrindo flanco para ataques do PT. Ao contrário de seus eleitores mais raivosos, disse que iria ampliar o Bolsa-Família e manter a proteção social gerada nos dois mandatos do governo Lula. Ao mesmo tempo que buscava os votos do povo com esses sinais, se colocava ao lado de apoios extremistas e reacionários, relacionados à bancada da bala e evangélica, de perfil ultraconservador até para os primórdios tucanos. Mas o PSDB abraçou de vez nesta campanha o discurso à direita e se consolida, de fato, como a força conservadora do Brasil. Os comentários xenófobos contra o Nordeste nas redes sociais só confirmam esse posicionamento.

O problema é que, desde 2003, o governo petista (e acho esse um dos erros que faz o partido e o governo se contradizer no discurso e prática) se consolidou como uma força moderada e conciliadora de classes. Alguém poderá argumentar que, se não fosse assim, o partido não conseguiria ter alcançado o Planalto, nem se mantido por tanto tempo. Isso é um fato. Mas, ao escolher participar do jogo capitalista, aceitando em geri-lo, sem levar em conta uma perspectiva de transformação, criou para si um monte de amarras que se aprofundam e ficam evidentes a cada nova eleição. Permite um arco de alianças que engloba figuras históricas do conservadorismo brasileiro, como Fernando Collor de Mello, Renan Calheiros e José Sarney, se prende a partidos sem história, focados apenas no fisiologismo do “toma lá dá cá”, ficando sempre vulnerável à corrupção e a manter-se no poder apenas pelo poder e não por um projeto político popular.

Outra coisa que o governo não fez (e aí a crítica vai mais à presidência do que só ao PT) foi fortalecer os movimentos sociais, lutar na fundamentação de uma base social ainda maior (aqui vai uma crítica ao modelo partidário atual, incapaz de trazer as pessoas aos partidos em um mundo que se preocupa cada vez mais com o próprio umbigo), que abarque estratos da classe média brasileira não apenas nos votos, mas na atuação política, que crie lideranças populares para que o projeto se fortaleça, seja aplicado e possa ser defendido durante o processo eleitoral. Ao mesmo tempo, faltou habilidade à esquerda moderada brasileira de criar condições para que novos atores da comunicação forjassem veículos que pudessem se contrapor à meia dúzia de famílias que controlam os meios de informação e, tradicionalmente, se colocam contra o modelo petista de governar, aproveitando das fragilidades das alianças de ocasião do governo para atacar as irregularidade e, por vezes, fazer o tal denuncismo, sem provas. Em outras, as provas saltam aos olhos, há de convir.

Por que tudo isso? Ora, porque não adianta depois reclamar da capa da Veja, do Merval que fala em impedimento a cada segundo, de Reinaldos Azevedos e Constantinos da vida, enfim, de campanha difamatória da imprensa tradicional burguesa se, em 12 anos de governo, não se criou uma mídia alternativa de fato, que vá além de meia dúzia de blogueiros, alguns paranóicos. Não adianta radicalizar o discurso durante as eleições de “nós contra eles”, se durante o resto do mandato os movimentos sociais são escanteados, se a militância é desmobilizada e, para se adequar aos desígnios dessa democracia de eleições, se aliar com o que há de mais conservador e se amarrar tanto que não consegue implementar avanços mais consistentes e duradouros em outras áreas. O emprego é garantido, o estudo é ampliado, o subsídio é dado, mas até um marinheiro de primeira viagem sabe que o modelo econômico voltado para o consumo está esgotado, e há quatro anos. Se não criar outra forma de crescimento e partilha dos lucros (alô, taxação de grandes fortunas!), corre-se o risco até das duras conquistas obtidas nesse período sofrerem golpes.

O processo eleitoral, como vimos, foi bastante radicalizado no discurso, sempre em busca de votos de lá e de cá. Mas é só acabar a eleição que tudo muda. Aécio foi ponderado e isso ajuda a equilibrar após uma margem tão pequena em favor de sua adversária. Só que hoje a Bolsa já caiu vertiginosamente, a imprensa tradicional está aí para fazer seu trabalho sujo, os deputados e senadores vão fazer sua oposição pautada mais em interesses do que em fazer o país andar, o governo paulista vai seguir sua cartilha anti-governo federal, dizendo-se auto-suficiente (a Sabesp tá aí para desmentir para sempre).

Do outro lado, Dilma pregou união e diálogo em seu primeiro discurso. E assim aceita o jogo político que define que tudo volta ao normal assim que as urnas decidem o futuro dos próximos quatro anos. Mas depois não vai reclamar que o MST, MTST e demais movimentos batem no governo, que a mídia traz denúncias sem fundamento ou acoberta a oposição para focar no governo. Se o seu governo não se posiciona de fato em favor de um projeto popular, se não luta por isso, se não radicaliza, vai continuar apanhando dos movimentos, diminuindo seu apoio, e apanhando da direita, a mesma que o governo aceitou dialogar. O PT precisa decidir para quem quer governar de fato nos próximos quatro anos, para que o projeto político popular perdure de fato.

Possíveis raízes do problema

Eu ia acabar acima, mas tem tanto assunto represado… Vou retomar algo que escrevi no Twitter esses dias e que, para quem me conhece há mais tempo, já deve ter ouvido falar. Ocorre que essa opção do PT pelo jogo político estabelecido dentro dos marcos do capitalismo ocorreu não com a Carta Aberta ao Povo Brasileiro, de Lula, em 2002 – isso só foi tornado público e agudizado após a vitória lulista. De fato, não houve uma guinada à direita após sua escolha para presidente. Lembrando a contribuição de Eder Sader, o PT foi forjado por três tipos de vertentes (igreja, operariado e movimentos sociais), mas escolheu o caminho do jogo de cartas marcadas já desde seu início e só ficou mais claro para si próprio após a derrota de 1989, quando movimentos trotskistas e outros defendiam a radicalização do partido, enquanto que Lula e cia., que comandavam o partido, expulsaram a ala que depois se transformou no PSTU, e ali jogou no lixo qualquer opção socialista, a bem da verdade, em um momento que o chamado socialismo real estava condenado pela história. (vale ressaltar também que isso é uma breve generalização, falei melhor disso no meu TCC, embora ainda de forma juvenil, em 2004).

Por que eu lembrei desse fato? Porque o PT carrega seu histórico de esquerda, mas é importante saber que bandeiras históricas desse campo ideológico (e que pertenceram ao petismo também) foram deixadas de lado. Então, a meta é administrar o capitalismo da melhor forma possível. E aí tem que fazer concessão para as elites. Não é a toa que o slogan do governo Lula era “Brasil, um país de todos”. A ideia era ampliar para classes menos favorecidas, mas sem descartar os que já ganham. Em campanha pró-Dilma, Lula disse há pouco que nunca o agronegócio tinha ganho tanto no governo petista.

O PT vive uma dicotomia eterna e irremediável, enquanto não se definir: em momentos de eleição, recorre a sua militância para defender aspectos populares de suas propostas, além de conservar as conquistas passadas. Mas é só vencer que desmobiliza seu “lado esquerdista” e aceita jogar o jogo das elites e a tomar porrada dessa mesma elite que depois vai ser xingada na eleição seguinte. Por mais que haja essa luta PT x PSDB, o fato de aceitar governar com o que há de pior na elite brasileira minimiza essa disputa e aproxima os dois lados. Por mais que haja propostas populares, a governança não é e isso foi enfatizado no governo Dilma, uma técnica menos afeita à política e ao diálogo com os movimentos sociais.

Se mantiver esse pêndulo pós-eleição, vai voltar a ter dificuldades para governar. Com uma Câmara ultraconservadora, as mudanças necessárias não serão feitas e será um mandato jogado no lixo, um governo travado. Mas se apostar em sustentar o discurso do processo eleitoral, arregimentar as forças de esquerda, mobilizar a população e os movimentos sociais, aliado a uma agenda econômica e social forte – como escreveu Breno Altman semana passada -, há chances de fazer frente aos tucanos e àqueles que impedem as transformações populares nesse país. Não é garantia que será fácil, pelo contrário. Mas, ao menos, é uma chance de evitar a paralisia e governar, de fato, para quem mais precisa.

PT vai ter que negociar com o “centrão” para aprovar projetos na Câmara

No último dia de cobertura das eleições no Agora São Paulo, uma das matérias que foi publicada foi essa daqui abaixo. Não tem link no site porque não foi a matéria principal da página, embora tenha recebido um espaço significativo. A seguir eu coloco no blog a versão inteira, até com um parágrafo sobre oposição, que não entrou no jornal por falta de espaço.

PT vai ter que negociar com o “centrão” para aprovar projetos na Câmara

O prefeito eleito Fernando Haddad (PT) não deverá ter problemas para governar a cidade de São Paulo nos próximos quatro anos. Mas vai ter que negociar com o chamado “centrão” para formar a maioria na Câmara Municipal e ter uma vida mais fácil na aprovação de projetos para a cidade.

Os partidos que formam o arco de alianças eleitoral (PT-PP-PSB-PC do B) somam 16 vereadores. Caso essa aliança se confirme em apoio em 2013, Haddad precisará de pelo menos mais 12 vereadores para configurar maioria absoluta na Câmara. Para isso, deverá consolidar no plano municipal a aliança federal com o PMDB e negociar o apoio de partidos menores, como o PR, PV e PRB, que poderão ser o fiel da balança nestas eleições.

“O centrão é um grupo que se reelegeu de maneira expressiva, com alguns entre os mais votados. É um grupo que está fortemente representado e tem fortes características governistas. Mas vai ser preciso demonstrar habilidade para lidar com esses vereadores”, avalia o cientista político Humberto Dantas, professor do Insper.

A dúvida fica por parte do PSD, partido do atual prefeito Gilberto Kassab, contará a partir de 2013 com uma bancada de sete vereadores e pretende reunir os partidos menores em torno de si para poder fortalecer o “centrão”. O partido, que apoiou o candidato derrotado José Serra (PSDB), deverá ser cobiçado para fazer parte da administração municipal.

“O PSD é uma incógnita. Embora o PSD seja aliado de Geraldo Alckmin [PSDB] no Estado de São Paulo, no plano federal eles são mais fieis à presidente Dilma Rousseff”, diz o professor do departamento de política da PUC-SP, Pedro Fassoni Arruda.

Dantas crê que Kassab deverá manter o perfil governista do partido. “O PSD tem grandes possibilidades de fechar com o Haddad. O Kassab está flertando com o PT não é de hoje, só não fechou com o Haddad porque Serra foi candidato”, diz.

Já a oposição terá vida difícil. Com nove vereadores, o PSDB deverá sofrer para compor uma bancada oposicionista forte, que ajude a brecar o ímpeto do Executivo dentro do Legislativo.

“O PSDB e o PPS foram aliados nesta eleição, o que não significa que permanecerão coesos. Além disso, dentro do PSDB tem alguns vereadores identificados ao Serra e outros ao Alckmin, o PSDB está bastante dividido. Se continuar essa cooptação do PSD é provável que ocorra troca de partido durante a legislatura”, afirma Arruda. (Rodrigo Herrero)

Ps: Nos próximos dias eu vou desovar os demais textos publicados no jornal nesse período eleitoral, em especial as matérias especiais. Porque tem uns que tiveram o prazo de validade vencido e nem faz mais nexo colocar aqui. No jornalismo é assim, o que saiu num dia já mudou para o dia seguinte.

PT e a Social-Democracia – Parte VI

Hoje o blog publica o quarto capítulo do livro-ensaio “O PT e a Social-Democracia: de um programa de ruptura à administração do capitalismo”, escrito por mim em 2004 como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo – saiba mais sobre esse projeto clicando aqui.

Mas esse capítulo será dividido em duas partes, devido à sua extensão. Uma mera divisão matemática de páginas, porque o certo seria publicá-lo todo, já que o capítulo compõe outro momento importantíssimo do livro, quando ele se centra em debater o PT sob os olhos de antigos dirigentes que acabaram saindo do partido, e com uma visão propositalmente à esquerda, tais como o presidente nacional do PSTU, José Maria, outro dirigente deste partido, o professor Valério Arcary, ambos co-fundadores do PT, além de Luciana Genro e João Batista Oliveira de Araújo, o Babá, ambos deputados pelo PSOL à época das entrevistas e recém-expulsos do PT, corroborado com textos e obras de pensadores que tratam sobre a social-democracia e movimentos operários. O capítulo é uma ampla reportagem que coloca os entrevistados e autores para conversarem entre si.

Na época, tentaram-se entrevistas com os chefes dirigentes do PT, como José Dirceu e José Genoino, mas, como os e-mails podem comprovar nos anexos desta pesquisa, nenhum dos principais dirigentes do partido quis dar sua versão dos fatos. Por isso, optou-se por focar naqueles que se propuseram a falar, mesmo que tivessem uma maior crítica, por razões óbvias, ao partido. É uma leitura-análise à esquerda e não centrista ou moderada a respeito das transformações do PT: se trata de uma ótica socialista, observando e criticando um partido que nasceu também com essa proposta e foi afastando-a ao longo dos anos e, por conseguinte, aqueles que defendiam tais ideias mais “radicais”. Enfim, vamos à primeira parte da leitura.

Quarto Capítulo: Debate de Idéias entre ex-membros do partido e teóricos contemporâneos a respeito do fenômeno do Partido dos Trabalhadores

A Social Democracia cumpre um papel decisivo na história mundial aos desviar o propósito socialista iniciado por Marx em meados do século XIX para uma concepção reformista, abandonando a necessidade de uma transformação radical da sociedade ao considerar a possibilidade de trabalhar dentro dos marcos do capitalismo para administra-lo e às suas crises.  E o Partido dos Trabalhadores segue o mesmo caminho no Brasil desses partidos social democratas do início do século passado.

Tendo suas bases fundamentadas junto a classe trabalhadora no início da década de 80, na região do grande ABC paulista, o PT aglutinou o maior número de pessoas possível, tornando-se um partido de massas tal e qual estava especificado nos documentos de fundação. O programa do partido também apresentava uma concepção anticapitalista, com aspectos interessantes de não pagamento da dívida externa, expropriação de latifúndios para a reforma agrária, podem ser os mais fortes a destacar. Ao longo do tempo o partido foi se reestruturando e modificando sua forma de agir, a partir do grupo dirigente que denominou-se posteriormente de Articulação, que passou a minar as formas de oposição à esquerda dentro do partido, para poder implantar seu projeto político de conquista da cadeira presidencial acima de qualquer embate ou debate e assim, foi-se distanciando da luta na rua, focando os trabalhos numa disputa eleitoral que o PT acabou mostrando que faria qualquer coisa para alcançar a presidência.

A Evolução da Social-Democracia para a Compreensão do PT

Para ilustrar um pouco esse fenômeno da social democracia na Europa e compreender como isso se dá no PT, trazemos alguns artigos[1] do sociólogo Fiori que colocam em ponto de discussão a busca dos socialistas por uma forma de governo que possa administrar da melhor forma o capitalismo. Ele analisa a evolução histórica européia, as situações na América Latina e, em particular, o Brasil, apontando para a perplexidade da política econômica adotada pelo Partido dos Trabalhadores, sempre caracterizado a tradições populares, de luta operária em favor dos desfavorecidos, com um programa austero de ajuste fiscal e superávit primário, mais rígido e fiel ao programa neoliberal que o próprio governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso.

Fiori aponta para ao que ele chama de “evolução dos programas de governo” dos partidos socialistas, afirmando que eles podem ser analisados a partir de dois pontos de referência. O primeiro atrelado as concepções teóricas de Karl Marx a respeito do capitalismo como “um sistema de expansão contínua, na direção do progresso tecnológico e da globalização, mas também, da desigualdade e das crises periódicas, cada vez mais profundas” (Fiori, 2004).

O segundo refere-se as revisões dos partidos socialistas europeus às teses marxistas.  Como já mostrado até aqui, ele coloca que a mais famosa de todas está nas idéias de ajuste do pensamento de Marx a nova roupagem vestida pelo capitalismo no final do século XIX, teorizado, como já vimos, por Bernstein. De acordo com Fiori essa tese foi aplastrada pela chamada “segundo rodada revisionista” na década de 50 e 60, em que “são abandonadas definitivamente, as idéias de revolução, de eliminação da propriedade privada e de destruição do estado” (Fiori, 2004).

A elas deram lugar “dois projetos ou programas mais conhecidos de ‘gestão igualitária do capitalismo’”: o primeiro é o chamado estado de bem estar social, mencionado com certa profundidade no capítulo inicial, adotado por todos os governos social-democratas e trabalhistas da Europa entre 1946 e 1980, segundo Fiori, e que consistia suas bandeiras no crescimento econômico, pleno-emprego e a elaboração de redes estatais de proteção social aos cidadãos.

O segundo era menos conhecido e tratava de um “capitalismo organizado”, formulado a partir dos anos 20. Nele acreditava-se que o capitalismo pudesse ser “mais igualitário, desde que fosse regulado e planejado a partir de um ‘núcleo econômico estratégico’ de propriedade estatal” (Fiori, 2004). Para ele, este último obteve maior sucesso em vários países conservadores pós-Segunda Guerra Mundial, como França e Japão, apesar de não ter sido vitorioso no governo de Salvador Allende[2] no Chile, na década de 70, nem no governo francês dos anos 80, de François Mitterand[3].

Fiori crê que ocorreu o que ele chama de “giro radical de 180 graus” do pensamento socialista destes partidos, por conta do abandono das teses revolucionárias e o encaminhamento cada vez mais claro para uma adequação dos partidos socialistas no governo ao capitalismo e a uma forma menos desigual de governar esse sistema. “Foi a hora em que os social-democratas deixaram de esperar a ‘crise final’ e passaram a apostar e lutar pela sucessão do capitalismo, como estratégia para criar empregos e financiar suas políticas distributivistas” (Fiori, 2004).

Fiori (2004) coloca que, a partir dos anos 80, um novo problema se colocou para os socialistas, já que o keynesianismo dos 30 anos pós-guerra haviam se esgotado como sistema e o capitalismo prosseguia como afirmava Marx anteriormente, com suas crises e desigualdades a crescer. Dentro de um quadro de crise do socialismo, agravada pela queda do muro de Berlim e do fim do regime “comunista” na ex-União Soviética, começa a ser forjada uma “terceira rodada revisionista”. “O programa de governo da ‘terceira via[4]’ propõe desmontar o ‘estado de bem estar social’, utilizando políticas econômicas do tipo ‘pró-capital’ que diferente do pós 2º Guerra Mundial, são radicalmente contrárias aos interesses dos trabalhadores e assalariados em geral”, escreve no primeiro artigo.

Isso se coloca de forma fundamental no caminho de todos os partidos social-democratas que “perderam seu rumo”, segundo Fiori (2004), pois passaram a administrar o capitalismo. Só que agora, sem buscar alternativas que tentem “humanizar” o capitalismo e sim adotaram medidas que perpetuassem o capitalismo – em sua face neoliberal, a expressão radicalizada e imperialista do sistema capitalista – o que coloca esses partidos numa encruzilhada teórico-política e, ao nosso ver, ocorre também com o Partido dos Trabalhadores hoje e suas medidas radicalizadas de ajuste econômico predatório para a população.

As Quatro Etapas do Reformismo do Movimento Operário, de Valério Arcary

Há também outra forma de avaliar esse processo de mudança reformista nos partidos social-democratas. Em entrevista concedida ao filósofo e historiador Felipe Demier para a elaboração de um livro-entrevista[5], o também historiador Valério Arcary discorre que o movimento operário viveu quatro etapas de uma proposta reformista. O primeiro era o considerado “reformismo clássico”, que acreditava numa via eleitoral para o alcance do socialismo. “Ele defende o programa socialista, mas abandona o método revolucionário”. O programa defendido pelo SPD alemão acreditava ser possível implantar o programa socialista após conquistar a maioria do parlamento alemão. Naquele período os estados haviam cedido terreno à classe trabalhadora nas mais diversas áreas, possibilitando tais pensamentos de mudança via parlamento. “A corrente socialista era uma corrente de milhões e milhões de pessoas e a maioria dos seus líderes procurava a reforma do sistema, procurava que o Estado tivesse um papel regulador para garantir um projeto negociado de distribuição de renda. Bernstein deu consistência teórica ao que era já de fato a escolha política da direção da maioria dos partidos europeus da II Internacional”, esclarece[6].

O segundo reformismo ocorre após 1945, aderido, segundo Arcary, tanto pelos social-democratas quanto pelo stalinismo. “Ele mantém o abandono do método revolucionário para chegar ao poder, mas o seu programa já não é mais socialista, é um programa de desenvolvimento capitalista. Eles aderem a uma concepção keynesiana de Estado regulador do mercado” (Demier, 2003, p. 107).

Dentro dessa perspectiva há uma terceira fase do reformismo, ocorrida a partir da década de 80, que trata-se de um reformismo sem reformas. “É o reformismo que abandonou o programa keynesiano e aderiu ao programa da ‘escola da regulação’, que é a escola das políticas sociais compensatórias” (Ibidem). Para Arcary, este reformismo não pretende fazer transição alguma do capitalismo para outra forma de sociedade menos desigual e sim promover políticas de assistencialismo aos excluídos que estão na cada mais marginalizada da sociedade capitalista.

Por último, temos o reformismo reacionário. “Já não é o reformismo sem reformas, é um reformismo com reformas, com contra-reformas reacionárias, é uma etapa nova” (Ibidem). Segundo Arcary, este é um capítulo que está sendo inaugurado pelo próprio PT. Ele afirma que para explicar o reformismo que se faz necessário entender a evolução do capitalismo. “O capitalismo também mudou nesse período e os reformismos foram (e são) a forma como as organizações moderadas do movimento operário sucumbiram (sucumbem) à pressão da ordem capitalista. Os reformistas contemporâneos preferiam ser reformistas capazes de fazer reformas, eles não o são porque não é possível ao regime do capital fazê-lo” (Ibidem).

Um Debate à Esquerda sobre o Partido dos Trabalhadores

 

Para compreender um pouco como se dá esse processo de transformação do objetivo final do Partido dos Trabalhadores – pois a mudança programática e todo o resto que veio no esteio da renovação do partido pode ser encarada como alteração de seu objetivo – nada melhor que ouvir ex-membros do partido que sentiram na carne esse processo.

O ex-membro da Direção Nacional do Partido dos Trabalhadores, expulso junto com a Convergência Socialista em 1992[7], e atual membro da Direção Nacional do PSTU, o professor e historiador Valério Arcary, crê nessa evolução petista semelhante aos partidos social-democratas europeus. “O PT foi desde o início reformista, revisionista e oportunista”, acredita. Mas, aponta que dentro do PT já existiam correntes divergentes quanto ao caminho a ser seguido pelo partido.

“Acho que desde o início da fundação do PT, existia dentro do partido correntes que tinham um programa reformista e correntes que tinham um programa revolucionário, isso decorre do fato de que a representação política do mundo do trabalho é heterogênea. Neste mundo existem desigualdades internas. A classe trabalhadora mesmo sendo uma classe mais homogênea do que as classes médias ela é tem grandes desigualdades”, afirma Arcary, um dos fundadores do partido.

Para o também ex-membro da Convergência Socialista, expulso do PT, e atual Presidente Nacional do PSTU, José Maria de Almeida[8], 46, o PT nunca teve em sua perspectiva promover a revolução, tanto que nunca se definiu como um “partido socialista revolucionário”. No entanto, o PT, para ele, cumpriu um papel “progressivo” em seu começo por estimular e fortalecer a consciência de classe dos trabalhadores contra a “exploração capitalista” da época, sendo uma alternativa em relação aos partidos burgueses que existiam na fase final da ditadura no Brasil. “O PT significava uma voz política muito importante, era a possibilidade da classe trabalhadora se libertar da manipulação, dos partidos da burguesia que se utilizavam a cada eleição dos votos dos trabalhadores para perpetuar um regime de dominação que assegura a continuidade da exploração da classe trabalhadora pelos empresários”, diz José Maria, também um dos fundadores do PT e, também, do PSTU.

Já Arcary crê nisso como algo “relativamente progressivo” para os trabalhadores, mesmo tendo um avanço na condição de sua organização como classe. “Entre a desorganização e a existência de um partido independente, ainda que fosse com uma estratégia reformista, era um passo a frente. Como sempre progressivo, numa análise marxista, é um termo relativo: é progressivo em relação ao quê, é regressivo em relação ao quê. Nada é absoluto, tudo é relativo. Então, o PT  foi progressivo em relação a situação da classe trabalhadora ao final dos anos 70  que era não ter nenhuma representação política, quem queria votar contra o governo tinha que votar no MDB, ou boicotar as eleições”, afirma.

O  deputado federal pelo Pará, expulso do PT em 2003[9] e atual dirigente do Partido Socialismo e Liberdade (P-Sol), João Batista Oliveira de Araújo[10], 51, conhecido nacionalmente como Babá, explica que o PT surgiu das lutas da classe operária que reivindicava melhorias das condições de trabalho. Contudo, além da discussão sobre a construção de um partido que se estabelecesse como alternativa para a classe trabalhadora, os congressos metalúrgicos desse período (final da década de 70)[11] causaram, segundo ele, a retomada do movimento sindical, “uma vez que historicamente o país nunca teve centrais sindicais fortes e com o governo de Getúlio Vargas[12] houve um atrelamento dos sindicatos ao Estado. Já na ditadura, os poucos sindicatos combativos que tinham foram atacados, ficando uma estrutura muito burocrática do movimento sindical”, atesta Babá, que filiou-se ao PT em 1981.

Naquele período ocorreu uma confluência no aparecimento de grupos de movimentos sociais e sindicais, como o Movimento dos Sem-Terra (MST) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), esta última mais próxima do PT, pois muito de seus membros compunham os quadros do partido. Tudo isso acontecia em volta do PT, segundo Babá, que possuía o “combustível” a alimentar esses movimentos que também fortaleciam o partido em seu caráter de massas, ampliando o seu nascedouro classista, que vinha do surgimento ocorrido no seio da metalurgia de São Bernardo do Campo.

O Quê Mudou?

Arcary indica que o PT, já em seu início era composto por uma burocracia sindical que “faria qualquer discurso, dependendo das circunstâncias”. Isso porque, para ele, o que mudou no partido ao longo dos anos foi o discurso e não a estratégia. “O discurso do PT na sua fundação é muito esquerdista, toda a situação brasileira estava muito à esquerda. Os discursos mudam”, coloca.

De acordo com Arcary, a questão fundamental do partido era a sua estratégia, que sempre foi, na visão dele, a de “construir um  partido legal, em oposição ao que era o MDB, prevendo que havia um espaço à esquerda do MDB que iria transbordar com uma estratégia eleitoral”. Para ele, essa estratégia sempre esteve definida no PT e na época estava à esquerda por desejar “um peso maior do Estado na regulação da economia”, sendo uma “esquerda melhorada, levemente igualitarista”, já que a necessidade daquele momento exigia essa posição.

José Maria crê que a mudança ocorrida no PT se deu por meio de três aspectos distintos: a mudança do programa, da postura ideológica como um partido nascido com ideais de transformação da sociedade, e por final, do aparecimento de uma burocratização ao conquistar cargos no Executivo e no Legislativo das cidades brasileiras. A questão ideológica é vista por ele como o principal elemento causador de todo os outros “problemas políticos”.

“Na direção do PT e na militância do partido, ainda que de maneira difusa, havia um sentimento muito forte pela transformação da sociedade brasileira, no sentido da busca pelo socialismo, que não era um socialismo que se conceituasse, que se definisse com clareza, mas era a busca da transformação da sociedade porque o capitalismo não permitiria e não permite o fim da exploração sobre a classe trabalhadora, da opressão, da discriminação”, acredita. Para ele esse pensamento foi abandonado já a partir da década de 80, ao PT assumir prefeituras, como no caso de São Paulo em 1988, com a Luiza Erundina. “Isso gerou uma pressão sobre a direção do PT pra que ela fosse adaptando seus horizontes das políticas as regras do status quo”, diz[13].

Outro aspecto que contribui nesse sentido foi a queda do Muro de Berlim e o fim do regime socialista soviético, que trouxe a tona o discurso único em torno do neoliberalismo como única alternativa econômica para o mundo. “Isso levou a um aprofundamento da crise ideológica que atingiu a esquerda socialista no mundo todo”, considera.

José Maria, contudo, revela outro componente importante para entendermos essa transformação do Partido dos Trabalhadores. “Muitos desses dirigentes, quadros de militantes do PT, sonhavam transformar isso aqui numa Alemanha Oriental, numa Rússia ou coisa parecida, que eram seguidores das organizações stalinistas que governavam aqueles países, e ao aquilo desmoronar, se constituiu um vazio ideológico que levou esses dirigentes a abandonar qualquer perspectiva de transformação social no país e assimilar que a única forma de organização da sociedade é a chamada economia globalizada do modelo neoliberal” conta.

Arcary diz que houve um arrefecimento das lutas da classe trabalhadora no Brasil e na América Latina nesse período, representada pelo que ele chama de “a grande derrotado campo da revolução”, ou seja, a restauração capitalista na União Soviética. “A classe trabalhadora veio perdendo, veio recuando nos anos 90. O desemprego se instalou, o salário médio caiu, o funcionalismo foi desmoralizado. A vitória de Collor primeiro, depois a posse de Itamar nas condições da saída de Collor, a eleição de Fernando Henrique, a derrota da greve dos petroleiros. E o PT não foi uma trincheira, não foi um instrumento de defesa”, explica.

Para José Maria, essa situação faz levar o PT “a um salto na sua direitização”, deixando de ser um partido que se “caracterizaria como social democrata naquele momento”. Arcary concorda: “A consciência deu um pulo pra trás. E o PT girou à direita para oferecer confiança à classe dominante brasileira de que a sua eleição não mudaria as regras da vida social, não iria haver um terremoto, não teria uma ruptura de contrato”, afirma.

Ou seja, o PT não seria mais uma ameaça ao capitalismo, a partir do momento em que o próprio partido abandonou seu programa de ruptura com esse sistema e também a mobilização junto aos movimentos sociais e a classe trabalhadora foi deixada de lado, concentrando todo o projeto político nas eleições e não mais numa mudança de sistema. Genro coloca que os movimentos e sindicatos são utilizados pelo governo para dar respaldo as suas ações. “Agora, por exemplo, eles tão disputando dentro da CUT, mas qual é a disputa que eles fazem, para que a CUT respalde o governo. Eles tão disputando os sindicatos dos docentes das universidades para que eles respaldem a reforma universitária”, acusa.

Isso mostra que o período crucial na mudança do partido se deu na virada para a década de 90, com as transformações no mundo, o avanço do neoliberalismo, a conquista de cargos na máquina estatal pelo PT e um ingrediente interessante: quando os dirigentes viram que era possível chegar ao governo pelas eleições, até o programa de governo de 1989 que era quase radical e defendia quase todos os pontos dos documentos da fundação foi modificado com essa perspectiva de ascensão ao Planalto, sentida por todos nas eleições presidenciais de 1989.

Isso fez o Partido dos Trabalhadores direcionar todos os seus esforços para a conquista do governo. De acordo com Arcary, o PT possui somente uma tática, a “tática eleitoral” que consiste em ganhar o maior número de votos possíveis. “Nas eleições presidenciais de 1994 não houve nenhum pudor em receber dinheiro do Bradesco, da Odebretch, da Andrade Gutierrez, do Itaú. Para ter votos o PT não teve nenhum pudor em usar táticas publicitárias mais infames de manipulação de massas”, acusa. Para ele as eleições servem para divulgar o programa socialista, entendendo que esse período eleitoral é um “momento de educação, momento de dizer a verdade” àquela parcela da população desinformada e que não possui participação política. “Se a campanha eleitoral não serve para dizer a verdade, não serve pra nada. Vai deseducar ainda mais a massa do povo. O partido que cumpre esse papel é um partido a mais entre os partidos do regime”, sentencia.

Como nos mostra o capítulo anterior, reforçado pelo que disse José Maria, o programa do Partido dos Trabalhadores mudou radicalmente, chegando aos entrevistados afirmarem ser um programa aplicador das políticas neoliberais no Brasil, fato não negado nem pelos líderes do governo. O programa dos primórdios do PT apresentava características totalmente contraditórias com o programa atual, como vimos. Para Babá essa “mudança programática” está ligada a esse processo histórico. Isto é, as vitórias e derrotas na eleições surtiram efeito no programa petista. Babá acredita numa ligação dos acontecimentos dentro do Partido dos Trabalhadores que também sofreu, na visão dele, uma institucionalização, além da burocratização dos dirigentes sindicais, ligados ao partido.

Para alcançar seu objetivo, o PT tinha de ampliar o arco de alianças para alcançar a burguesia, que “não faz nenhuma aliança com o trabalhador se ela não tiver pontos do seu programa contemplado”, coloca Babá. Segundo este, no primeiro turno das eleições presidenciais de 89 existia somente a aliança com o PC do B (Partido Comunista do Brasil). “Para o Lula ampliar o arco de aliança ele tinha obviamente que mudar sua cara, amenizar o discurso e ao mesmo tempo mudar o programa e para isso tinha que ter o controle do partido”, crê.

Ainda sobre a questão das alianças, tema crucial para compreender a mudança no programa do PT, José Maria crê ser natural a postura política do PT em ampliar o arco de aliança, sendo inclusive conseqüências das “opções ideológicas, programáticas e estratégicas que o PT fez ao longo da década de 80 e principalmente na de 90. Se a estratégia é ganhar as eleições e governar nos marcos do capitalismo o caminho é esse mesmo”, aponta.

Para ele o arco de alianças tende a se ampliar, gerando mais “subserviências às grandes empresas”. Ocorre que, na visão de José Maria, as pessoas tem o costume de ver esse processo como algo positivo para o partido. “Elas não tem consciência de classe, não tem consciência de que o interesse é contraditório completamente com o seu, portanto não tem como fazer aliança. Eles vêem como o fortalecimento da proposta de sua direção. Agora vão ficar mais desconfiados – referindo-se as alianças com setores dissidentes do PFL –, mas apoiaram até agora”

Valério Arcary explica que o PT surgiu negando o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e a luta armada, mas depois acabou desenvolvendo “até as últimas conseqüências” a estratégia reformista principal do PCB. “A aliança com o PL faz a aliança de Prestes[14] com João Goulart[15] parecer piquenique de domingo. Em matéria de aliança de classes é brincadeira”, critica. Segundo ele, existe no PT o oportunismo político de “atacar a qualquer preço” que foi se caracterizando ao longo do tempo e da participação dos quadros petistas na máquina do Estado.

A deputada federal pelo Rio Grande do Sul expulsa do PT em 2003 e atual dirigente do P-Sol, Luciana Krebs Genro[16], 33, acredita que as alianças cumprem “um papel nefasto” em dois aspectos: “No momento que o PT bota o Partido Progressista (PP) do Paulo Maluf para dentro do governo ele está dizendo que o PP do Maluf é bom, serve. No momento que Lula chamou o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL) para o governo, ele está dizendo que ele presta, então isso fortalece a direita”, critica Genro que se filiou ao PT em 1985, aos 14 anos de idade.

No entanto, no outro ponto dito por Genro, ela discorda do Babá ao afirmar que as alianças servem como “justificativa” para as alterações no programa: “Eles não mudam o programa por causa dos aliados, eles mudam  programa por querer mudar o próprio caráter do partido e dos governos que fazem, e essa mudança é que torna viável aos aliados se aproximarem. Então, eu não diria que são os aliados que forçam a mudança mas a mudança serve para que os aliados possam se aproximar e possam fazer esses governo de coalizão com a burguesia que é a estratégia política deles”, fala.

José Maria acrescenta que essas alianças estabelecidas para mudar o programa sempre tiveram como objetivo central as eleições. “O Lula desde o ponto de vista da estratégia petista que foi de ganhar as eleições do país a qualquer custo, o que levou a ele abandonar o programa, fazer as alianças com o setor do empresariado. Porque sem isso não tem como ganhar as eleições. As eleições são uma instituição da democracia burguesa, que como todas as outras não tem como objetivo criar as condições para transformar a realidade. Ela tem como objetivo perpetuar a dominação do capitalismo, da burguesia”, afirma.

Para ver a complexidade do problema, o PT e PSDB discutiram e concretizaram a possibilidade de alianças na disputa eleitoral para algumas prefeituras neste ano. “Tem muitas cidades que o próprio PSDB vai querer o apoio do PT. E nós também”, disse o presidente nacional do PT, José Genoino, em entrevista concedida à Rádio Nacional do Rio de Janeiro. “Da nossa parte, aonde for possível composições locais, acertadas em turno de programas para as cidades, nós vamos juntos nesse segundo turno”, confirmou o presidente municipal do PSB e deputado estadual Edson Aparecido[17].

Reflexo disso foi a liberação feita pela Executiva Nacional do PT para os prefeitos em competição no segundo turno façam alianças com PSDB e PFL, segundo matéria da Folha de S. Paulo[18]. O evento ocorreu com 14 dos 24 prefeitos que ainda disputam o pleito e Genoino disse que “apoio não se recusa” ao pedir flexibilidade dos prefeitos. Ainda segundo a reportagem, o presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, teria pedido ao governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), para apoiar a reeleição de Pedro Wilson (PT) em Goiânia. Além dessa aliança, o PT apoiaria o candidato tucano em Teresina no segundo turno. O candidato do PT em Cuiabá, Alexandre César, tem autorização do partido para negociar com o PFL em Mato Grosso.  Em Florianópolis o PT apoiaria a candidatura de Ângela Amim (PP) para obter apoio em São Paulo deste partido para a reeleição de Marta Suplicy na capital paulista[19].

Babá coloca essa postura como um “pragmatismo eleitoral para ganhar a qualquer preço”. Ele cita as alianças do deputado federal e candidato a prefeito de Nova Iguaçu, Lindbergh Farias (PT-RJ) com o Partido da Frente Liberal (PFL) e com o PSDB, afirmando inclusive que César Maia (prefeito reeleito da capital carioca) e seu filho, o deputado federal Rodrigo Maia estariam lá “como cabos eleitorais”, tanto de Farias quanto do candidato à reeleição à prefeitura de Niterói, Godofredo Pinto. “Vim do Mato Grosso esses dias e vi umas 30 prefeituras do PT aliada com o PFL”, acrescenta.

Babá diz que mesmo o programa de governo de 2002, aprovado no 11º Encontro do partido e divulgado aos quatro cantos do Brasil não está sendo aplicado. “Nem aquele programa eles respeitaram, porque naquele programa lá tava definido que o governo Lula seria democrático e popular, de enfrentamento com a política neoliberal de altos juros e iria enfrentar essa política e propor uma renegociação da dívida com auditoria. O programa que está sendo implementado hoje é burguês”, critica.

Segundo o deputado, o encontro aprovou este programa, mas, após o ocorrido no meio da disputa eleitoral o então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso convocou os quatro candidatos à Presidência mais bem colocados nas pesquisa (o PSTU e o Partido da Causa Operária – PCO – ficaram de fora) para propor um acordo que esses candidatos respeitassem os acordos firmados pela gestão da época.

“No caso do PT saiu o que seria Carta ao Povo Brasileiro e na verdade é ‘Carta de acalma banqueiro’, esse deveria ser o nome correto dessa carta. Porquê? Primeiro que não foi uma carta debatida com nem uma instância partidária, foi a cúpula de campanha que definiu aquela carta e na carta sinalizava o cumprimento de todos os acordos com o FMI que foram firmados com FHC, que o governo Lula seria um governo confiável, que eles poderiam acreditar, ou seja, sinalizando tudo o que estão fazendo hoje. Nesse ponto eles cumpriram o compromisso, com os banqueiros, já com os trabalhadores foi o contrário”, dispara.

Sinônimo desse caminho mais próximo da burguesia está nas alianças com o presidente do Banco Central, Henrique Meireles, ex-presidente do Banco de Boston, além do episódio com  o Presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Social (BNDES), Carlos Lessa, citado por Arcary como “presumidamente a ala esquerda do governo”. “Vi hoje nos jornais que o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN), Eduardo Gouvêa Vieira declarou que Carlos Lessa é o homem certo na hora certa, pois tem a proposta de instalar duas siderurgias no Rio de Janeiro no próximo período. Trata-se de um elogio que tem todo um significado sobre o que é o governo Lula”,  coloca.

Os Bastidores do PT

 

As relações entre a base do partido e seus dirigentes sempre foi muito peculiar no PT. O partido sempre pregou possuir uma democracia interna pujante, em que as diversas tendências podiam indicar representantes, dar suas opiniões e principalmente interferir no rumo da organização, as coisas não aprecem ter sido desta maneira. Na verdade o que se vê é um grupo conservador tentando (e conseguindo) ficar no poder para impor seu projeto político e, para isso, esvaziar as muitas, porém com menor número de pessoas, tendências à esquerda do partido. Sim, o PT também possuía setores conservadores e à direita, que na verdade são os mesmos afloraram como tal agora, no governo, mas tinham esse caráter também em seus primórdios. Para isso, cerceavam os mecanismos democráticos do partido para ter maior controle das ações e diminuir o lastro da esquerda dentro do PT.

Para se ter uma idéia disso, Babá diz que o primeiro “ataque importante” realizado dentro do  PT foi justamente a tão defendida democracia interna. Isso porque, como ele conta, o partido era formados por diversos núcleos que também tinham voz nas decisões do partido, ao menos na formulação de encontros e debates, servindo também para pressionar a direção do partido. “E o primeiro ataque foi tirar o poder deliberativo dos núcleos e passaram a ter essa estrutura de encontros municipais. Mas ainda eram encontros municipais, estaduais e federais massivos”, lembra Babá.

Posteriormente, esse quadro foi seno alterado, impondo mais dificuldades aqueles que desejavam participar das instâncias superiores dos encontros do PT: “Eles passaram a montar um filtro da escolha dos delegados, a partir de encontros municipais, estadual e nacional. Você tinha que passar por esse crivo para chegar no nacional. Então ser delegado do encontro nacional do PT é mais difícil do que você passar em vestibular de medicina da USP”, ironiza Babá.

A situação se agravou com o passar dos anos, que ficou clara a postura da cúpula dirigente do partido em privilegiar a disputa eleitoral e minar os debates internos sobre  que quer que fosse, principalmente o socialismo. Os encontros passaram a ser cada vez mais controlados, em que só votava quem tivesse em dia com o pagamento do partido. Babá crê ser correta atrelar o poder de voto a quem contribui ao partido. Ocorre que, segundo ele, isso se alastrou às prefeituras, parlamentares e todo o aparelho burocrático do estado onde o PT tinha acesso. “Todos esses obrigatoriamente ou eram filiados do PT ou passaram a ser filiados e já tinham desconto em folha, ou seja, eram delegados assegurados nos encontros”, revela.

Babá aponta que somente os setores mais organizados do partido tinham condições de manter suas contribuições em dia, causando um número maior de “delegados burocratas do Estado” nos encontros. “Por exemplo, no Rio de Janeiro a Bené[20] quando vice-governadora ela era responsável pelo bolsa-família. Aí o que fazia, a família que se cadastrava no programa para receber 100 reais, se não me engano, naqueles cheques, era filiada ao PT. Então, quando tinham os encontros, obviamente chegavam aquelas kombis e kombis para votar na chapa da dona Bené, pessoas que não sabia nem por onde passava a sede do PT no Rio”, conta.

Babá acrescenta que esses programas sociais que empregam muitas pessoas como o saúde da família, citado por ele, são indicados por vereadores, fazendo cm que esse funcionário faça “bancada para ele” nos encontros do partido. Ou seja, é o ápice da burocratização partidária que ultrapassou a divisa entre governo e partido, transformando numa coisa única, misturada, sem saber quem é militante mesmo e quem é apenas funcionário público, ou ambos.

Conseqüência disso é que a militância ativa do partido se afasta das decisões e do cotidiano, sendo ligeiramente substituída por uma base social nova, atrelada à máquina do governo. “Isso fez com que quem tivesse poder de decisão no partido não fosse mais aquela militância ativa mas fosse qualquer filiado. O cara que é deputado tem condições materiais e políticas de filiar um monte de gente para respaldar a política dele. O prefeito mais ainda.”, aponta Genro.

A coisa piorou quando foi estabelecido que o sistema de eleições seria modificado, implantando do Programa de Eleição Direta (PED), que para Babá somente aparenta ser democrático: “Na verdade é totalmente anti-democrático”, diz. Antes do PED, os encontros eram realizados em dois dias, e a participação no debate era obrigatória, pois somente no fim da tarde do segundo dia é que as urnas abriam para a votação das resoluções a escolha da chapa.

Os encontros foram reduzidos para um dia, em que havia um “simulacro de debate com a vanguarda” e a urna permanecia aberta o dia todo. “Mas era na parte da tarde começava a chegar os delegados para votar, como no caso da Bené”, fala Babá. “Com a eleição direta as pessoas não precisavam mais participar do encontro, bastava depositar uma cédula para votar na direção do partido”, acrescenta Genro.


[1] A série é composta por três artigos. Fiori, José Luís. O Quebra Cabeça da Esquerda. Rio de Janeiro: 2004.

[2] O médico chileno Savador Allende (1908-1973), um dos fundadores do Partido Socialista Chileno em 1933 ganhou as eleições de 1970, após ter perdido três outras. Ele propôs um governo baseado no socialismo democrático, governando para as bases, com total controle do Estado sobre o rumo do dinheiro do país. Ocorre que a burguesia – apoiada pelos Estados Unidos – sempre se mostrou contra, fazendo boicotes sistemáticos ao governo até deflagrar o golpe de Estado de 1973 em que Allende foi morto dentro do palácio presidencial.

[3] O considerado socialista François Miterrand elegeu-se presidente da França em 1981.

[4] A terceira via corresponde a essa “terceira rodada revisionista” dita por Fiori para mostrar a evolução na esquerda mundial nas propostas para gerir o capitalismo. Pode-se dizer que a terceira via procura dar ao projeto neoliberal um aspecto menos desigual, com medidas sociais que procurem “compensar” os duros ajustes fiscais do modelo econômico neoliberal.

[5] DEMIER, Felipe (org.) As Transformações do PT e as Perspectivas da Esquerda Brasileira.Rio de Janeiro: Bom Texto, 2003, p. 107.

[6] Trecho retirado de entrevista concedida por Valério Arcary ao autor em 09/09/2004, no Centro Federal de Educação Tecnológica de São Paulo (CEFET/SP).

[7] A Convergência Socialista (CS) foi expulsa em abril de 1992 após não enquadrar-se como tendência interna do PT, de acordo com as resoluções do 1º Congresso do partido de 1991. Haviam divergências antagônicas entre a Convergência e a Articulação, corrente majoritária no PT, que via a CS como uma entidade estranha ao partido, e utilizar o PT para benefício de suas idéias e objetivos. A CS criticava as posições da Articulação de privar as tendências de exercerem seu espaço como correntes distintas dentro do partido, reivindicando o direito de ter imprensa própria e contato com organismos internacionais, proibido pela resolução do partido. A expulsão da CS confluiu para a formação do PSTU, um  ano depois.

[8] José Maria de Almeida concedeu entrevista ao autor na sede nacional do PSTU, em São Paulo, no dia 30/09/2004.

[9] Em dezembro de 2003 os deputados federais Babá, Luciana Genro, João Fontes e a senadora Heloísa Helena foram expulsos do PT por votarem contra a proposta do governo na Reforma Previdenciária que obrigava a taxação dos inativos a contribuir mensalmente ao Instituto nacional de Seguridade Social (INSS). Os expulsos alegaram que votar a favor da reforma era uma traição às bandeiras históricas do partido que sempre primou pela população. Segundo a Comissão de Ética do PT, os parlamentares “infringiram regras estatutárias” e por isso foram solicitados que fossem expulsos, fato que acabou concretizado após a votação de 55 a favor e 27 contra a expulsão dos quatro parlamentares. Esta informação foi extraída da notícia “PT decide por expulsão de quatro parlamentares”, publicada em 13/12/2003, no sítio do partido: http://www.pt.org.br/site/secretarias_def/secretarias_int_box.asp?cod=220&cat=43&cod_sis=21

[10] O deputado federal João Batista Oliveira de Araújo concedeu entrevista ao autor em seu gabinete, em Brasília, em 14/09/2004.

[11] “Primeiro houve o Encontro dos Trabalhadores das Oposições Sindicais (ENTOES), depois teve o Congresso da Classe Trabalhadora (Conclat) que a surgiu à idéia de construir uma nova central. Quando surgiu a CUT, em 1983, ela também apareceu com poucos sindicatos e muitas oposições, então era um movimento vinha também o operariado jovem do Brasil a partir das industrias automobilísticas naquela região do ABC, e que a partir dali deslanchou a nível nacional um movimento que culminou a fundação da CUT. Ao mesmo tempo, no campo começavam a haver conflitos que acabaram germinando a fundação do MST em 1984, a partir do Sul do país.

[12] Getúlio Vargas foi presidente do Brasil entre 1930-37 e depois implantou uma ditadura denominada Estado Novo para se perpetuar no poder, ficando até 1945, quando sofreu um contra-golpe que foi retirado do poder, voltando à presidência pelo voto popular em 1951, tenso se suicidado em 1954, por sofrer pressões para renunciar ao cargo.

[13] Para compreender um pouco isto cabe uma citação de Valério Arcary sobre o oportunismo, já debatido na entrevista, mas aqui cabe um trecho de sua obra que fala a respeito: “O oportunismo político deriva de idéias mais simples e responde, sobretudo, às pressões mais imediatas. Consiste no aproveitamento de oportunidades e se manifestou, praticamente, em qualquer corrente política que tenha conquistado influência de massas, como processo de adaptação às pressões das circunstâncias e dos momentos, nos mais distintos graus”. (ARCARY, Valério. Há cem anos, Bernstein abre o debate sobre época: a estrategização da tática e a teoria dos campos progressivos. In obra, p. 02)

[14] Luiz Carlos Prestes (1898-1990) foi um revolucionário que dirigiu o Partido Comunista Brasileiro e se lançou na luta pelo comunismo contra o poder burguês no Brasil. Foi aliado do governo Getúlio Vargas, opondo-se depois a este, foi aliado de João Goulart e, com o golpe militar acabou se exilando fora do país.

[15] Foi presidente do Brasil entre 1961 e 1964, ocupando o cargo após a renúncia de Jânio Quadros, sendo deposto do cargo em 1964, com a realização do o golpe militar realizado naquele ano

[16] A deputada federal Luciana Krebs Genro concedeu entrevista ao autor em seu gabinete, em Brasília, em 15/09/2004.

[17] Notícia publicada na sessão especial Eleições, no sítio da Agência Estado no dia 06/10/2004, com o nome PT e PSDB: a unidade possível no 2º turno (http://www.estadao.com.br/eleicoes2004/noticias/2004/out/06/32.htm).

[18] Matéria publicada no sítio da Folha SP em 08/10/2004, com o nome PT libera acertos com PSDB e PFL. (http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u64819.shtml).

[19] Para ver mais o anexo 04 dispõe de um relato sobre a aliança eleitoral de Mogi das Cruzes ente PT e PL, indesejada pelos partidários locais e imposta pela Executiva Nacional do Partido.

[20] Benedita da Silva, vice-governadora do Rio de Janeiro na gestão Anthony Garotinho-1999-2002.

PT e a Social-Democracia – Parte II

Mais um dia, mais um post da série publicada aqui neste espaço do livro-ensaio “O PT e a Social-Democracia: de um programa de ruptura à administração do capitalismo”, escrito por mim em 2004 como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo – saiba mais sobre esse livro clicando aqui.

Hoje é a continuação, e parte final, do primeiro capítulo, que trata sobre as experiências de gestão socialista em governos capitalistas. Após o debate das primeiras tentativas de implantar o socialismo por meio de revoluções, neste post você vai encontrar um histórico sobre a mudança de direcionamento dos partidos socialistas (ou, mais precisamente, social-democratas, apesar de serem compostos, no início, majoritariamente por socialistas, ainda que socialistas amenos, ou seja, que não levavam a ideia da ruptura capitalista como a única e radical opção), buscando a atenuação dos problemas sociais por meio de programas que melhorem a vida das pessoas, sem precisar transformar radicalmente o sistema, o Estado, ou seja, por meio de reformas. Esse modelo vigoraria na Europa , e até nos Estados Unidos, ainda que de forma diferente, dos anos 30, pós o crash na bolsa dos EUA em 1929, até a crise do petróleo nos anos 70, o que vai abrir espaço para uma forma de pensar e governar, o neoliberalismo, que vai obter supremacia até o começo do século passado, ainda que viva moribunda na União Europeia.

Bem, vamos ao texto. Aqui é importante notar como os partidos social-democratas – sempre fugindo do estigma socialista – vão modificar o programa socialista em prol de manterem-se no poder e fazer reformas pontuais, sem mexer nos problemas estruturais advindos do capitalismo. É um prato cheio para entender, mais à frente, as opções do PT nas disputas internas, nos seus documentos, nas eleições e mandatos eletivos. Enfim, a história é uma repetição de eventos aterrorizante, já dizia, com outras palavras, claro, Karl Marx.

 

A Social-Democracia e as Alternativas Econômicas

Mesmo com a Segunda Internacional dizimada os países continuavam cedendo espaço para a administração de partidos social-democratas que tentavam alternativas para conter os movimentos conservadores que voltavam a tona após a destruição proporcionada na Europa após o fim da Primeira Guerra.

Porém, um duro golpe iria abater a economia do mundo e retrair ainda mais a luta dos partidos social-democratas e sua base operária: a Grande Depressão[1]. Ela ocorreu com a quebra da bolsa de valores nos Estados Unidos, que produziu um efeito dominó em todas as economias pelo mundo e colocava em cheque o capitalismo. Nesse momento, pensou-se ser possível a retomada do socialismo. No entanto, esse momento de crise aguda introduziu, em contrapartida, o avanço do nazismo e fascismo em partes consideráveis da Europa, representados na Alemanha e Itália, respectivamente.

A contradição também abateu-se sobre as teorias de Bernstein. Se Marx colocou que o período seguinte era pró-revoluções e ocorrera estabilidade na Europa, as previsões de Bernstein sobre calmaria no mundo capitalista caíram por terra de forma clamorosa: duas grandes guerras, uma revolução comunista, a ascensão do nazi-fascimo e o grande crash na economia mundial mostraram que o capitalismo estava mais do que nunca aberto a variações crises econômicas dramáticas.

Era preciso, portanto, localizar saídas que fizessem a economia retomar seu crescimento. Em 1933, o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, iniciou um plano de políticas públicas – que ficaram conhecidas como o New Deal – incentivando a realização de obras (como a construção de barragens para represas, estradas, viadutos, etc.) em diversas partes do país, para empregar milhares de pessoas que passavam fome, fazendo com que elas tivessem renda para voltar a consumir e fazer girar a economia norte-americana para frente.

O economista inglês Jonh Keynes[2] teorizou essa relação do aquecimento da economia com as pessoas tendo dinheiro para consumir e fazer as empresas produzirem mais e realimentar a produção interna, gerando lucro para maiores investimentos. A teoria do pleno-emprego, acrescidas por outras benesses aos trabalhadores, foi muito difundida nesse período e prevaleceu em quase toda a Europa após a Segunda Guerra, como veremos mais a frente.

A Experiência Sueca

A Suécia foi um dos países que implantou uma forma mais humanizada do capitalismo e teve um dos melhores resultados, elogiados até hoje por teóricos brasileiros, como José Luís Fiori[3]. Ele afirmou que a social democracia sueca criou um caso quase único de “invenção de um novo caminho”, indo no rumo oposta da “ortodoxia da época”. “Em coalizão com o Partido Agrário, eles conseguiram tirar a Suécia da recessão entre 1933 e 1938, inventando o que seria um consenso quase universal até o início da era neoliberal: o Estado de bem-estar e as políticas ativas no campo macroeconômico”, constatou Fiori.

A Suécia, assim como todo o mundo, passava por momentos lentos de sua economia, agravados pela Grande Depressão de 1929. O Partido Liberal entrava em crise e abria-se em racha entre os “Prohibitionist Liberals” e os “Urban Liberals” (que se reuniram somente em 1934, para tentar aplastrar o crescimento socialista do partido social-democrata), colocando a ala conservadora dos partidos suecos em grave crise política.

Sem alternativas para superar os entraves econômicos e o desemprego os conservadores perderam terreno para o Partido Social Democrata Sueco que, em 1932, venceu as eleições e se viu na obrigação de implantar um programa que suprisse as necessidades da população que apoiava nos socialistas suecos como uma esperança de mudança nos rumos de sua nação. Mas o partido conduziu a Suécia a uma direção socialista? Não era essa a intenção, pelo menos o pensamento imediato dos social-democratas suecos que necessitavam urgentemente de um programa específico que reduzisse o desemprego e acalmasse a atmosfera para restaurar o mercado de trabalho.

Foi o que fizeram os social-democratas: elaboraram um novo e austero programa econômico, priorizando a geração de empregos e no aumento de tarifas de importação e do déficit financeiro. O programa buscava revitalizar os negócios locais e garantir uma expansão econômica, através das políticas públicas para o mercado de trabalho. Isso gerou uma equidade maior entre as pessoas que se sentiam mais próximas uma das outras em condições de desenvolver e conseguir trabalho, pois estavam e tinham condições para permanecerem no mesmo nível que as outras, como atesta Hadenius (1997)[4].

Mesmo com a vitória, o partido social-democrata não possuía a maioria no Parlamento, fato que fez as negociações iniciarem para que o programa fosse implantado sem maiores atropelos. Como dito há pouco, três partidos não-socialistas tentaram formar uma coalizão de oposição ao novo governo fato que acabou fracassando. Isso abriu espaço para o partido social-democrata fazer uma aliança com o Partido Agrário, que aceitou o programa do partido dirigente focado combate ao desemprego, verificando-se uma revisão na questão dos preços colocados nos produtos agrícolas.

Essa aliança – que garantiu a maioria do Parlamento aos social-democratas – ficou conhecida como “red-green” na Suécia, pelo fato da união entre socialistas e agricultores, fato ocorrido também em outros países escandinavos como Finlândia, Noruega e Dinamarca, aponta Hadenius (1997). Essa aliança se apresentou bastante satisfatória, pois os fazendeiros necessitavam de um governo ativo par a retomada da economia, pois eles mesmos haviam tomado muito prejuízo com a Depressão de 29.

O “programa anti-Depressão” como era conhecido teve diversas influências do economista britânico Jonh Maynard Keynes e sua teoria do pleno-emprego, foco central do programa social-democrata sueco. Hadenius aponta essa questão com muita propriedade, apesar o clima de crise que a Suécia ainda vivia, principalmente política. “Por exemplo, o governo iniciou um projeto de construção de estradas em que o desempregado ganhou o trabalho comparável a esses no mercado regular. Depois, o governo teve uma chance para implementar outras reformas” (Hadenius, 1997, p. 47 – tradução nossa).

Em 1934, o governo subsidiou famílias para a construção de casas populares e um sistema especial de seguro-desemprego, além de liberar para a pensão um aumento substancial. Diversas reformas no campo social foram introduzidas durante o período. Nas eleições de 1936, uma coalizão mais profunda entre o Partido Social-Democrata e o Agrário se estabeleceu, convidando, inclusive o líder deste último para fazer parte da liderança junto ao Parlamento. Isso proporcionou uma ampla maioria dentro do mesmo. Em 1938, a crise petrificava entre as empresas que queriam um pacto de paz no mercado de trabalho, pedindo inclusive intervenção do governo neste aspecto, por meio dos partidos de oposição conservadores.

Esse “arranjo” não fez sucumbir o crescimento econômico sueco que, com seu welfare state[5], ou, Estado de Bem-Estar, considerado deveras avançado e “impossível” ser concebido para os capitalistas da época fez uma revolução trabalhista na Suécia. Este proporcionou crescimento econômico e trabalho a seus cidadãos, com garantias de renda e desenvolvimento para todos, por conta de um programa de reformas um tanto audacioso que conseguiu garantir uma certa equidade enquanto os Social-Democratas estiveram com o programa no governo. Aliás, foi em 1938, quando essa aliança com os liberais, unida com as preocupações do avanço nazista na Europa e a eminente Segunda Guerra Mundial[6] a avistar suas frontes, fez os social-democratas sucumbirem perante os conservadores, tanto o eleitorado quanto os partidos.

 

A Era do Ouro[7]

A Europa foi arrasada por duas grandes guerras mundiais realizadas em seu terreno num intervalo de 30 anos e pouca perspectiva se avistava para suas nações. Com o fim da Segunda Guerra o mundo se dividiu em duas grandes potências, URSS e EUA, com o triunfo de duas formas de governo antagônicas e intragáveis entre si: o comunismo por parte dos soviéticos, e capitalismo, pelo lado estadunidense.

O primeiro surgira anos antes como a opção de superação do capitalismo, auto-julgando-se como uma forma mais justa de sociedade. Isso assustava a hegemonia do segundo que procurava suplantar o crescimento soviético – principalmente no Leste Europeu, onde dominava, seja pelo ideal ou pela força os países vizinhos. A idéia foi dar um aspecto menos injusto do capitalismo, abrindo espaço às reivindicações da classe operária e colocando o Estado como principal agente regulador da economia, para controlar as agruras do mercado e fazer crescer a economia sem deixar de beneficiar as empresas e, ao mesmo tempo, segurar as crescentes investidas do comunismo em todo o mundo, principalmente na América Latina, considerada desde sempre pelos EUA como seu próprio quintal.

Os partidos social-democratas, cada vez mais desfigurados de seu programa revolucionário, tomaram posse desse programa capitalista de Estado e implantaram muitas das ações experimentadas de forma pioneira pela Suécia da década de 30 e pelo New Deal estadunidense de Roosevelt, apostando principalmente, na tese do pleno-emprego de Keynes.

Essa época ficou conhecida como a Era do Ouro, pois esses países obtiveram crescimento suficiente ao adequar medidas que beneficiavam em parte os cidadãos, sem deixar de lado o lucro do capital. Isso não quer dizer que essas políticas keynesianas eram “a fada madrinha” da classe trabalhadora. Elas apenas amenizavam as desigualdades e traziam alguns benefícios, sem levar, porém, contentamento a todas as classes sociais. Isso porque, enquanto as melhorias vinham, os trabalhadores eram cada vez mais amarrados na estrutura estatal e não tinham espaço para desejar mudar o capitalismo de Estado que vigorara nesses tempos de reconstrução.

Enquanto os países cresciam e os investimentos e retornos se multiplicavam, essas práticas de “bem estar” puderam ser mantidas. Só que essa forma de manter o lucro como agente principal e move a economia numa ponta, entretanto, concedendo benefícios como seguro-desemprego e aposentadoria em larga escala fez com que os Estados quebrassem na primeira grave crise econômica que assolou o mundo pró-guerra.

A Queda do Welfare State

 

O fim do chamado welfare state ocorreu em 1973, por conta da crise do petróleo, que levou a primeira grande tormenta do modelo capitalista pós-guerra. Essa derrocada se deu por conta da combinação de baixas taxas de crescimento com o aumento da inflação, colocando os países em uma profunda recessão.

Esse deslize fez com que uma perspectiva neoliberal que se aventava desde seus formuladores de Mont Pélerin (Suíça) na década de 40 fosse retomada, agora com força total. Friedrich von Hayek e Milton Friedman[8] são considerados os teóricos mais significativos do início desse ressurgimento liberal, desde os tempos de Adam Smith[9]. A crise do petróleo era o que os neoliberais precisavam para trazer a tona o pensamento de uma política mercadológica mais “livre”, sem a intervenção do lobo mau, na visão deles: o Estado.

Mas o fator decisivo que desencadeou o neoliberalismo[10] no mundo foi a vitória na Europa e na América do Norte de governos de coalizão direita-conservadora. Isso ocorreu com a eleição de Margaret Thatcher[11] ao governo britânico, em 1979, e, também, com a vitória de Ronald Reagan[12] à presidência dos Estados Unidos, em 1980, e a derrota da social liberal por Helmut Kohl[13] na Alemanha, em 1982. Essa reviravolta da direta foi importante para o início da consolidação do modelo neoliberal nas principais potências do mundo.

No caso de Thatcher, a Grã-Bretanha implantou de forma mais avassaladora as propostas neoliberais. Isso aconteceu com a privatização de todas as empresas de serviços públicos, a desregulação dos mercados, bem como com a quase ditatorial briga com os sindicatos, tirando quase todos os benefícios adquiridos por lei pelos trabalhadores. Isso ocorre porque, na visão dos adeptos da teoria neoliberal, o dinheiro usado para benefícios deixava de ser aplicado no mercado, imobilizando a economia local e entravando o crescimento do país.

A entrada deste modelo de governo na América Latina se deu a partir de 1973, mais precisamente no regime militar chileno, governado por Augusto Pinochet[14]. O Chile foi utilizado como uma espécie de laboratório para a implantação dessa corrente. Mas foi em meados dos anos 80 que esse fenômeno se generalizou no continente. Segundo Fiori[15] tudo ocorreu em silêncio, em meio a renegociação das dívidas externas sul-americanas, no momento em que a comunidade financeira internacional apresentou aos devedores as suas novas condições: um conjunto de políticas e reformas que repetiam o que foi proposto por Hayek, na década de 40.

O mais interessante de perceber isso tudo, é que essa alteração na América do Sul não se deu por imposição, nem por conspiração. De acordo ainda com Fiori, essa “metamorfose” nas políticas econômicas ocorreu por uma verdadeira revolução cultural entre os acadêmicos e intelectuais do hemisfério sul. O aspecto original dos sul-americanos foi que o ataque ao modelo desenvolvimentista foi conduzido pelas mesmas forças que o sustentaram autoritariamente e que dele se beneficiaram durante meio século. Isso quer dizer que os mesmos que voltaram-se contra o modelo político atual, são os mesmos que foram a favor dele durante décadas passadas.

O Exemplo Espanhol de Felipe González

Aquém (além) da alternativa neoliberal estava a Espanha que vivia a derrocada da ditadura fascista de Francisco Franco[16], após a morte deste em 1975, após quase 40 anos de processo ditatorial. A Espanha iniciou um caminho de transição com a coração a rei para Juan Carlos, que indicou o político conservador Adolfo Suárez como seu primeiro-ministro. Suárez conclamou todos os partidos para estabelecer um acordo que fosse respeitado para a criação da Constituição espanhola (que ocorreu em 1978), garantindo as bases para esses intentos. Este ficou conhecido como o Pacto de Moncloa, por ter sido realizado no palácio da Moncloa, em Madri.

Com isso o Partido Socialista e Operário Espanhol (PSOE) aproveitava os vazios e crescia, tendo na figura de Felipe González[17] seu líder, que levou o partido a uma moderação cada vez maior, fazendo parte da chamada ala “renovadora” do partido. Este mostrava os caminhos que o partido deveria seguir, abandonando pouco a pouco o programa de inspiração marxista, posicionando-se com a democracia social da Alemanha. “Ninguém desconhece que Felipe González ascendeu ao poder com a reorganização da social-democracia européia que, nos anos 70, sob a batuta alemã, redesenhou os partidos socialistas ‘mediterrâneos’”, disse Fiori[18].

Tanto essa mudança de trajetória interna do partido é verdade que Felipe González era contra a entrada da Espanha na organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Após as eleições ele, pessoalmente, durante um plebiscito a respeito do assunto, tomou as rédeas em favor da entrada da Espanha na OTAN, pois González afirmava só existir esta alternativa para o país.

O PSOE venceu as eleições gerais em 1982 com maioria absoluta, tendo em González seu novo chefe de governo. Ele foi eleito por 4 vezes, tendo ficado no poder por 14 anos. Segundo Fiori o governo esteve sempre apoiado “por um verdadeiro rolo compressor parlamentar, majoritário e absolutamente disciplinado, que lhe permitiu aprovação automática no Congresso de todos os seus projetos e reformas”, escreveu em seu artigo “Lições Espanholas[19]”. Ele estabeleceu o controle de conselhos do Estado, Judiciário, de Contas, entre outros e também do Banco de Espanha. Seu programa apontava para uma estratégia político-econômica keynesiana, de acordo com Fiori no artigo, unido a uma planificação de estabilidade econômica e a defesa de um crescimento econômico estruturado, voltados para o aumento do emprego e da equidade social.

Fiori coloca que uma idéia de distinção para a proposta neoliberal estava na vontade de levar o Pacto de Moncloa para além-palácio e transformar aquele pacto entre elites políticas e econômicas num verdadeiro pacto social para o partido conseguir governar sem problemas, tudo sobre a tutela e pró-atividade do Estado em controlar e verificar tudo. Ocorre que a política econômica austera promovia o aprofundamento do desemprego, mesmo com alguns avanços.

A União Geral dos Trabalhadores (UGT) resolve romper com o governo e a agitação socialista obriga González a convocar eleições antecipadas, em que ele vence novamente, mas agora por pequena margem. Em 1993, o PSOE saiu enfraquecido das eleições parlamentares[20], sendo obrigado a fazer alianças com partidos conservadores nacionais basco e catalão. Até chegar em 1996 quando os conservadores do Partido Popular espanhol (PP), encabeçado por José Maria Aznar López, venceu as eleições e encerrou uma hegemonia de ideário socialista e práxis neoliberal que durou quatorze anos seguidos.

González entrou no governo prometendo 800 mil empregos e após o fim do primeiro mandato haviam no país 740 mil novos desempregados (Fiori, 2003), além do Conselho Econômico Social não ter sido regulamentado pelos socialistas, já que constava na Constituição de 1978. Fiori aponta que “as estratégias de controle ou arrocho social e de disciplinamento do mundo do trabalho, implementada pelos socialistas espanhóis, não passara, de fato, pela ‘concertação social’ e sim pela força da lei e do desemprego, como preconizava o modelo neoliberal” (Fiori, 2003).

O controle da inflação a qualquer preço, através de um aperto fiscal duro e cada vez mais “apertado”, entre outras políticas neoliberais, deixando de aplicar todo o programa – se não socialista, ao menos inferior no quesito crueldade com o trabalhador – apresentou um balanço de 7 anos de recessão ou baixo crescimento (1982-1985/1991-1996) e 4 anos de crescimento acentuado (1986-1990), segundo Fiori (2003).

Fiori mostra alguns dados que comprovam a mediocridade do governo “socialista” de Felipe González: Durante os 14 anos de gestão o gasto social do governo aumentou de 19,42% para 21,37% do Produto Interno Bruto (PIB). Na distribuição de renda a questão permaneceu pouco alterada: os 10% das famílias mais pobres aumentaram seus ganhos em apenas 0,44%, enquanto que os 10% de renda mais elevada perderam somente 1,20%. A participação salarial no PIB caiu de 51,2% para 46,1% e a taxa de desemprego atingiu 24% da população economicamente ativa em períodos de maior crise, contra os 15%  quando da entrada do PSOE no governo.

Um raciocínio que pode explicar esse posicionamento dúbio de discurso, programa e atitude no governo está no que Fiori trabalha sobre a dúvida dos socialistas sobre qual projeto seguir dentro do capitalismo e o que viria realmente a ser uma gestão socialista dentro do capitalismo. Os partidos socialistas da década de 80 “abandonaram a idéia de um capitalismo organizado e de planejamento estratégico, e adotaram um programa de tipo neoliberal de gestão do capitalismo”.

A diferença para o caso de Thatcher era que os socialistas gozavam da confiança de seu eleitorado de que poderiam fazer as reformas devidas e trazer o povo a uma melhor condição, fato que acabou não ocorrendo, pois, como diz Fiori, em tempos de credibilidade que a Espanha viveu durante os 14 anos o  PSOE vivia pregando a falta de credibilidade ante ao baixo crescimento nacional, ficando provado que uma política ortodoxa não abre canto para um crescimento sustentado. O espectro neoliberal só vestia roupa vermelha, mas usava plenamente suas ferramentas  neoliberais no governo espanhol, assim como em outros países europeus da época e também ocorre hoje com um gigante dos trópicos do hemisfério Sul.

O Neoliberalismo no Brasil

No Brasil, o modelo neoliberal teve início por volta de 1992 com o ex-presidente cassado, Fernando Collor de Mello. O processo ocorreu lento, mas foi  o bastante para que o então ministro da Fazenda do governo Itamar Franco[21], Fernando Henrique Cardoso[22], iniciasse de vez a instauração das políticas neoliberais, ao implantar o Plano Real. Na verdade, como afirma José Fiori, o Real não foi criado para eleger Fernando Henrique e sim o sociólogo foi concebido à presidência para viabilizar a volta definitiva da coalizão direita-conservadora ao comando total do país.

Na verdade, tudo começou em 1989, a partir de uma reunião em Washington entre acadêmicos e economistas estadunidense, funcionários do governo, do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Dessa reunião saiu um documento, criado pelo economista John Williamson, denominado pelo mesmo de Consenso de Washington. Neste, segundo Célia Chaim[23] rezam as seguintes “recomendações”: disciplina fiscal, reforma tributária, taxas de juros positivas, determinadas pelo mercado, câmbio competitivo, desenvolvimento de políticas comerciais liberais, maior abertura ao investimento estrangeiro, privatização, profunda desregulamentação, proteção à propriedade privada.

Esse “pacote” consistia em uma estratégia de homogeneização das políticas econômicas nacionais operadas em alguns casos, diretamente pelos funcionários daqueles bancos. Essa homogeneização aconteceu, pois, em sendo um consenso, as mesmas medidas deviam ser aplicadas em todos os países, desrespeitando as características de cada nação, povo. Tanto que esse “consenso” foi condicionado a todos os que deviam ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial – supervisores da implantação dessa política. Isso quer dizer que, em muitos casos, as dívidas foram renegociadas ou atenuadas, pois determinado governo aceitou servilmente a implantação desse modelo em seu território. Esse fato ocorreu não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina, menos Cuba, por conta da resistência de Fidel Castro e do povo cubano à tirania dos EUA.

O problema mais grave é que apesar de ter parecido uma imposição, o governo FHC, bem como seus aliados, optaram deliberadamente por essa política, condicionando-a como a única forma de fazer o país crescer. Claro que isso não foi explícito, até mesmo porque FHC nunca admitiu ser um neoliberal e seu partido possui a alcunha de Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB). Mas a maneira encontrada para atrelar a retomada do crescimento a um novo projeto foi a saída pela tangente com o Plano Real e um programa nada social-democrata, que proporcionou uma bolha de crescimento por determinado tempo. O problema é que esta bolha acabou levando o país a um buraco negro sem perspectiva, transformando a população em pagadora dessa situação.

Após a posse de FHC na presidência do Brasil, em 1995, uma das primeiras medidas dele foi convencer a todos que as reformas constitucionais seriam condição sine qua non para a estabilização da moeda e, conseqüente retomada do crescimento do país. Só que as reformas passariam de qualquer forma pelo Congresso Nacional, portanto, esse “alarde” criado pelo presidente se deu mais por alguma justificativa eleitoral, já que seu projeto dos cinco dedos (saúde, educação, emprego, habitação e segurança) para o Brasil caiu no esquecimento depois da vitória na primeira eleição.

A segunda medida tomada foi manter o controle da moeda e da inflação, que na verdade tornou-se algo a ser feito durante todo o governo. Porém, Fiori diz que essa maneira de tentar estabilizar a moeda gerou uma “concentração grande de riqueza no país”, levando “a maioria da população à pobreza” (Fiori, 1998). Esse tornou-se um problema difícil de ser solucionado, pois Fernando Henrique – bem como a maioria dos presidentes da América Latina – foi eleito por conta dessa estabilização em forma de bolha que transformou as economias em reféns da especulação mundial, onde um bilhão de dólares pode passear de uma noite para outra por dois locais distantes no mundo.

Com isso, o mesmo é coagido pelas economias estrangeiras em nome da salvação dos bancos, da economia, em detrimento do povo, para conseguir manter o país em situação favorável a investimentos. Fato que acaba por não ocorrer, pois o investidor tem garantias a curto prazo de manter o capital no país, o que faz o governo apertar ainda mais o ajuste fiscal, como está sendo feito hoje, no governo petista.

A cada renegociação da dívida externa, o FMI e o Banco Mundial impunham as condições, mais que conhecidas, para a cessão de novos empréstimos: manutenção da inflação baixa, taxas de juros altas, preservando sempre os investidores e a economia internacional. E assim se procederam as privatizações das empresas de telecomunicações, da Vale do Rio Doce, da Companhia Siderúrgica Nacional, mantendo essas medidas que já vinham sendo feitas por longos anos.

Porém, nada mudou, pois as vendas não alteraram o grave quadro que amarrou e mantém amarrado o Brasil, bem como todos os países atualmente, impedindo os mesmos de tomar alguma decisão que não prejudicassem a si mesmos e ao mercado. Isso cria a chamada ditadura do mercado, atrelando tudo as necessidades do mercado internacional, relegando a população à segundo plano. No entanto, mesmo quando esses governos obtiveram tal ajuda do FMI e se estabilizaram, estas economias “reformadas” atravessaram profundas recessões, perdas significativas de massa salarial e aumento geométrico do desemprego, os famosos “custos sociais” da estabilização.

A seguir, vamos conhecer um pouco mais sobre as teorias que germinaram todo esse debate e essa evolução dos partidos social-democratas sobre sua origem, e que, ao longo do tempo foram adequando seu programa para atender as necessidades do capitalismo, optando por administrá-lo. Ao mesmo tempo, abandonando os objetivos de ruptura com este sistema e a criação de uma nova sociedade, a  sociedade socialista.


[1] A Grande Depressão refere-se a um grave período de crise econômica que o mundo viveu por alguns anos, após a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, ocorrida em 1929.

[2] John Maynard Keynes foi um dos teóricos que mais influenciaram as políticas capitalistas do século XX. Entre suas principais obras está o livro “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, de 1936. Esse tipo de política ficou conhecida como políticas keynesianistas ou keynesianismo.

[3] Trecho retirado de entrevista concedida por Fiori à Folha de São Paulo, em 10/05/2004.

[4] HADENIUS, Stig. Swedish Politics During the 20th Century: Conflict and Consensus. Trelleborg: Swedish Institute, 1997.

[5] O chamado Estado de Bem-Estar tomou conta da maioria dos países europeus após a Segunda Guerra Mundial. O Estado passa a ter maior importância e ação dentro do sistema capitalista, regulando os mercados, protegendo os cidadãos através de seguro-desemprego e outros direitos sociais (como educação, saúde, transportes, previdência) passam a ser priorizados.

[6] Com a ascensão da Alemanha nazista e a vontade de seu líder Adolf Hitler em expandir os domínios territoriais de sua nação como sendo a única raça – a ariana – a ter o direito de sobreviver são algumas das bases para uma nova guerra em escala mundial. Contando com o apoio da Itália e do Japão, o chamado Eixo lutou contra as forças aliadas, compostas pela Inglaterra, França, União Soviética e, posteriormente, os Estados Unidos.

[7] A Era de Ouro remete ao período citado na nota 19 sobre o Estado de Bem-Estar Social em que o capitalismo viveu seus anos mais rentáveis e com mais justiça social nos países desenvolvidos da Europa.

[8] Hayek e Friedman são considerados os pais do neoliberalismo por terem iniciado, principalmente Hayek com a obra O Caminho da Servidão, as formulações renovadas do pensamento liberal do século XX.

[9] O escocês Adam Smith formulou a teoria econômica e trouxe a luz de todos os fundamentos da economia pouco entendidos até aquele momento do século XVIII, quando Smith viveu. Suas teses formularam o pensamento liberal de toda uma geração, sendo ele o criador de tal teoria. Uma de suas importantes obras a respeito é A Riqueza das Nações, publicada em 1776.

[10] Teoria fundamentada na escola austríaca, de onde veio seu mais famoso teórico, Friedrich von Hayek na Inglaterra e Milton Friedman nos Estados Unidos. A idéia era combater as políticas sociais do Estado de Bem-Estar Social na Europa e da política do New Deal norte-americano. Com o sucesso dessas políticas até a década de 70 os neoliberais recolheram-se e somente voltaram à tona nesse período, e para ficar. Entre suas políticas principais está a desregulamentação da economia, desvinculando totalmente o Estado como intervencionista no mercado, deixando a cargo da “liberdade” destas instituições a rumarem a economia das nações.

[11] Margaret Thatcher foi primeira-ministra da Grã Bretanha entre 1979 e 1990.

[12] Ronald Reagan foi presidente dos EUA entre 1980 e 1989.

[13] Helmut Kohl foi chanceler na Alemanha entre 1982 e 1998.

[14] O General Pinochet comandou um gole de estado que derrubou o governo socialista de Salvador Allende em 1973 e implantou uma ditadura no Chile que durou até 1990 e serviu para a implantação do neoliberalismo na América Latina, sendo o primeiro país dessa região a adotar esse modelo econômico.

[15] FIORI, José Luís. Os Moedeiros Falsos. 4º edição. Petrópolis: Vozes, 1998.

[16] Durante a guerra civil espanhola (1936-1939) Franco foi fundamental para aplastrar os movimentos sociais que ascendiam para uma possibilidade socialista no país. Franco implantou uma ditadura fascista após o fim da guerra civil, recebendo o apoio de Hitler. A ditadura conhecida como “franquismo” durou quase 40 anos, encerrando somente quando de sua morte.

[17] Felipe González foi o líder do governo espanhol e do PSOE de 1982 até 1996, tendo surgido no seio do movimento socialista espanhol como a alternativa de construção de uma sociedade, enfim, socialista.

[18] FIORI, José Luís. Os Moedeiros Falsos. 4º edição. Petrópolis, Vozes, 1998.

[19] FIORI, José Luís. Sítio Desemprego Zero. “Lições Espanholas”. Rio de Janeiro. 01/05/2003.

[20] O partido atingiu somente 38,9% dos votos nas eleições daquele ano, conforme artigo O País, do Centro de Divulgação Científica e Cultural da Universidade de São Paulo (USP).

[21] Itamar Franco assumiu o governo brasileiro em 1992 após a renúncia do então presidente Fernando Collor de Mello, eleito em 1989 e derrubado por denúncias de corrupção e lavagem de dinheiro.

[22] Fernando Henrique Cardoso governou o Brasil por dois mandatos, entre 1995 e 2002.

[23] O artigo que consta tal opinião foi publicado na revista Isto É em 16/10/2002.

Entrevista com o marqueteiro da campanha da Dilma

Vale a pena ler esta extensa entrevista que João Santana concedeu à Folha de S. Paulo semana passada. É muito bom para entender os meandros da campanha eleitoral nestas eleições e conhecer um pouco mais de Dilma e de sua transformação, até a vitória nas eleições presidenciais de 2010.

João Santana: “Não subestimem Dilma Rousseff”

O responsável pelo marketing da campanha de Dilma Rousseff, em rara entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, comenta os aspectos principais e os momentos decisivos da batalha eleitoral pela Presidência da República, ressaltando os papeis do presidente Lula e da candidata. É material jornalístico de grande interesse, pelas informações que contém e por revelar o pensamento de um dos responsáveis diretos pela vitória.

Folha – O sr. fez o marketing das duas últimas campanhas presidenciais vitoriosas no Brasil. Quais as diferenças e semelhanças?
João Santana – Foram campanhas profundamente dessemelhantes.

Destaco alguns dos pontos que tiveram em comum: o profundo desdém da oposição aos candidatos Lula e Dilma nas pré-campanhas; o susto que eles tomaram no início dos dois primeiros turnos com o crescimento rápido e vigoroso dos nossos dois candidatos; a falsa ilusão de vitória que eles criaram na passagem do primeiro para o segundo turno, e a desilusão e desfecho finais.

Entre os vários pontos de dessemelhança, eu gostaria de frisar apenas um, e que diz respeito diretamente à minha área: apesar das aparências, a campanha de 2010 foi de uma complexidade estratégica, e principalmente tática, imensamente maior do que a de 2006. Eu diria, até, que do ponto de vista do marketing, esta talvez tenha sido a campanha presidencial mais complexa dos últimos tempos no Brasil.

A percepção da oposição, então, segundo sua avaliação, foi equivocada?
Na pré-campanha de 2006, a oposição imaginou, erroneamente, que Lula estivesse destruído com o escândalo do mensalão. Imaginou que um discurso udenista, neurótico e tardio, pudesse influenciar amplas camadas da população na campanha. Não perceberam o incipiente, porém já vigoroso, movimento de ascensão social e de gratificação simbólica e material que vinha sendo produzido pelo governo Lula.

Na pré-campanha de 2010, houve um erro porque menosprezaram o valor pessoal e o potencial de crescimento de Dilma e, também, a capacidade de transferência de Lula. É o período da arrogante, equivocada e elitista ‘teoria do poste’.

O grande crescimento que Lula, em 2006, e Dilma, em 2010, tiveram no final das pré-campanhas, e especialmente no início do primeiro turno, deixou-os atordoados. Só se recuperaram um pouco quando foram favorecidos por fatores extracampanhas, o caso dos aloprados e o escândalo Erenice.

Por que Dilma não venceu no 1º turno? Lembro-me que as previsões internas eram de que ela teria de 56% a 57% dos votos…
Por vários fatores, alguns já facilmente percebidos e explicados. Outros que levarão ainda algum tempo para serem corretamente analisados. Começo indo na contramão da maioria dos analistas: o eleitorado brasileiro é, hoje, um dos mais maduros do mundo. E cada dia sabe jogar melhor.

Uma das provas desse amadurecimento é a consolidação, cada vez maior, da “cultura de segundo turno” nas eleições presidenciais. E ela atua, paradoxalmente, junto com a consolidação de um outro comportamento aparentemente antagônico: a consagração do princípio da reeleição. O de deixar um bom governo continuar, mas, ao mesmo tempo não aceitar passivamente tudo o que ele faz. Este conflito é uma forte demonstração de amadurecimento do eleitor brasileiro. No fundo é aquele maravilhoso conflito humano entre a reflexão e a decisão, entre a fé a descrença, entre a confiança e a suspeita, entre a entrega e a autodefesa.

Nas últimas eleições, parte do eleitorado tinha um fabuloso atalho, que era a candidatura Marina, para praticar o “voto de espera”, o voto reflexivo. E utilizou este ancoradouro, este auxílio luxuoso que era a candidatura Marina, para mandar alguns recados para os dois principais candidatos. Por essas e por outras razões houve segundo turno.

Que recados foram estes que os eleitores mandaram para Dilma e para Serra?
No nosso caso foi: “Olha, eu aprovo o governo de vocês, mas não concordo com tudo que acontece dentro dele; adoro o Lula mas quero conhecer melhor a Dilma”.

No caso do Serra: “Seja mais você mesmo, porque desse jeito aí você não me engana; mas afinal, qual é mesmo esse Brasil novo que você propõe?; me diga lá: você é candidato a prefeito, a pastor ou a presidente?”.

Os candidatos, no segundo turno, deram respostas eficientes a esses recados dos eleitores?
Nenhuma campanha, em nenhum lugar do mundo, responde a todas as perguntas, preenche todas dúvidas, nem atenua, completamente, os conflitos racionais e emocionais dos eleitores. Uma campanha será sempre um copo com água pela metade, meio vazio pra alguns, meio cheio pra outros.

No nosso caso, acho que respondemos algumas perguntas. A prova é que não apenas crescemos quantitativamente, como houve uma melhoria, mais que significativa, na percepção dos atributos da nossa candidata.

Em que se sustenta a tese de que essa foi a mais complexa campanha, estratégica e taticamente dos últimos tempos?

Por várias características atípicas, originais e exclusivas desta campanha. Para não me alongar muito, vou comentar apenas alguns fatores do nosso lado. Nós tínhamos um presidente, em final de mandato, com avaliação recorde, paixão popular sem limite e personalidade vulcânica.

Um caso único não só na história brasileira como mundial. Uma espécie de titã moderno.

Do outro lado, tínhamos uma candidata, escolhida por ele, que era uma pessoa de grande valor, enorme potencial, porém muitíssimo pouco conhecida.

Tínhamos o desafio de transformar em voto direto, e apaixonado, uma pessoa que chegava à primeira cena por força de uma escolha indireta, quase imperial. Tínhamos que transformar a força vulcânica de Lula em fator equilibrado de transferência de voto, com o risco permanente da transfusão virar overdose e aniquilar o receptor.

Tínhamos a missão de fazer Dilma conhecida e ao mesmo tempo amada; uma personagem original, independente, de ideias próprias e, ao mesmo tempo, uma pessoa umbilicalmente ligada a Lula; uma pessoa capaz de continuar o governo Lula mas também capaz de inovar.

Tudo isso dentro de um curtíssimo prazo e dentro do cenário de uma das maiores, mais vibrantes e maravilhosamente mal construída democracias do mundo, que é a democracia brasileira. E que tem um dos modelos de propaganda eleitoral, ao mesmo tempo, mais permissivo e restritivo do mundo; um calendário eleitoral hipocritamente dos mais curtos, e, na prática, dos mais longos do mundo. Isso é dose. É um coquetel infernal.

O que mais facilitou e atrapalhou o trabalho?
Acho que o que mais nos ajudou foram as lendas equivocadas que a oposição, secundada por alguns setores da mídia, foi construindo sistematicamente. E se aferrando desesperadamente a elas, mesmo que os fatos fossem derrotando uma após outra.

No início, construíram quatro lendas eleitorais: que Lula não transferia voto, que Dilma ia ser péssima na TV, que Dilma ia ser um desastre nos debates e que Dilma, a qualquer momento, iria provocar uma gafe irremediável nas entrevistas. Nada disso ocorreu, muito pelo contrário.

Construíram, pelo menos, quatro lendas biográficas: que Dilma tinha um passado obscuro na luta armada, que era uma pessoa de currículo inconsistente, que teve um mau desempenho no governo Lula, e que o fato de ter tido câncer seria fatal para a candidatura. Nada disso se confirmou.

E construíram lendas políticas. As principais eram que Dilma não uniria o PT, não teria jogo de cintura para as negociações políticas e que não saberia dialogar com a base aliada. Outra vez, tudo foi por terra.

Ora, com tantas apostas equivocadas, o resultado não podia ser outro. Se você permitir, eu gostaria adiante de comentar sobre novas lendas equivocadas que já estão começando a construir em relação ao futuro governo Dilma.

Na fase final, a oposição apostou numa guerra moral e religiosa, no mundo da ética e dos valores. Isso não atrapalhou?
De forma irreversível, não. Acho, inclusive, que no final o feitiço virou mais contra o feiticeiro. As questões do aborto e da suposta blasfêmia foram apenas vírgulas que ajudaram a nos levar para o segundo turno. Repito, apenas vírgulas.

O caso Erenice foi o mais decisivo porque atuou, negativamente, de forma dupla: reacendeu a lembrança do mensalão e implodiu, temporariamente, a moldura mais simbólica que estávamos construindo da competência de Dilma, no caso a Casa Civil.

Por motivos óbvios, vínhamos ressaltando, com grande ênfase, a importância da Casa Civil. Na cabeça das pessoas, a Casa Civil estava se transformando numa espécie de gabinete paralelo da presidência. E o escândalo Erenice abalou, justamente, esse alicerce.

Voltando à questão da moral religiosa: como a oposição abusou da dose, provocou, no final, rejeição dos setores evangélicos que interpretaram o fato como jogada eleitoral e afastou segmentos do voto independente, principalmente de setores da classe média urbana, que se chocou com o falso moralismo e direitização da campanha de Serra.

Mas essa opção às vezes à direita da oposição, em certa medida, era algo esperado. Ou não?
Eu alertei sobre isso, inclusive, em um seminário interno da Folha que participei em maio. Este é um fenômeno que infelizmente vem acontecendo, na América Latina, com alguns setores desgarrados, que antes de autointitulavam de socialdemocratas e se inclinaram perigosamente para a direita.

Passaram a utilizar, em suas campanhas, um mix de técnicas do Partido Republicano americano, mais ferramentas da direita espanhola e de operadores antichavistas da Venezuela.

Eu me defrontei com este aparato na campanha que fiz para o presidente Mauricio Funes, em El Salvador. Fomos vítimas de uma das mais insidiosas e obscuras campanhas negativas. Mas vencemos. O ideário é o mesmo, os conceitos manipulados semelhantes, as técnicas de medo iguais. O que varia é a dosagem e os instrumentos.

Aqui a direitização ficou mais circunscrita a certos tabus morais e religiosos. Mas também trafegou, principalmente na internet, no obscurantismo político de pior extração. Quem estuda este fenômeno e viu um vídeo que circulou na internet, intitulado a ‘Dama de Vermelho’, sabe do que estou falando. Por sinal, este vídeo é uma réplica de alguns que foram produzidos contra Mauricio Funes, em El Salvador, e a favor da campanha de Felipe Calderón no México.

No início da entrevista, o sr. disse que iria comentar o que considera ‘novas lendas equivocadas’ projetadas para o governo Dilma. Do que se trata?
Eu acho necessário um humilde alerta: não subestimem Dilma Rousseff. Este alerta vale tanto para opositores como para apoiadores da nova presidente.

Dentro e fora do Brasil já começam a pipocar análises apressadas de que Dilma dificilmente preencherá o grande vazio sentimental e simbólico que será deixado por Lula. E que este será um problema intransponível para ela. Bobagem.

Não há dúvida de que a ausência de Lula deixa uma espécie de vazio oceânico. Lula é uma figura única, que uma nação precisa de séculos pra construir. Mas Dilma, em lugar de ser prejudicada por este vazio, será beneficiada por ele. Basta saber aproveitar –e acho que ela saberá– a oportunidade única e rara, que tem nas mãos, de se tornar conhecida e amada ao mesmo tempo.

É preciso também estar atento para o fato de que as paixões populares são múltiplas porque o povo não é politicamente monogâmico. O povo é, por natureza, sincretista e politicamente polígamo. E há na mitologia política e sentimental brasileira uma imensa cadeira vazia, que chamo metaforicamente de “cadeira da rainha”, e que poderá ser ocupada por Dilma.

A República brasileira não produziu uma única grande figura feminina, nem mesmo conjugal. Dilma tem tudo para ocupar esse espaço. O espaço metafórico da cadeira da rainha só foi parcialmente ocupado pela princesa Isabel. Para um homem sim, seria uma tarefa hercúlea suceder a Lula. Para uma mulher, não. Em especial, uma mulher como Dilma. Lula sabia disso e este talvez seja o conteúdo mais genial da sua escolha.

Quando ficou claro que haveria 2º turno? No dia?
No dia da apuração. Havia fortes indícios de perda de substância da nossa candidata, porém, os indicadores nos davam uma relativa segurança de que ganharíamos no primeiro turno.

Ao contrário da eleição de 2006, quando eu fui o primeiro a alertar o presidente Lula de que iríamos para o 2o turno, desta vez eu fui um dos últimos a admitir isso. Acompanhando a apuração no Alvorada, ao contrário de 2006, eu era um dos poucos que ainda acreditava que ainda ganharíamos por uma margem estreita.

A receita do 2º turno deste ano se assemelha à de 2006: acusar os tucanos de serem privatistas e contra o patrimônio nacional. Mas desta vez o efeito não foi tão forte como há quatro anos. Essa fórmula está perto do esgotamento?
É reducionismo dizer que a receita do segundo turno foi a de acusar os tucanos de privatistas. Se você rever os programas e comerciais, vai constatar que discutimos modelo de política econômica, políticas sociais, modelo de desenvolvimento, entre outros temas.

Fui o responsável pela introdução do tema privatizações em 2006. Na verdade, não estava muito apaixonado pela ideia de utilizá-lo outra vez nesta campanha. Inclusive porque, ao contrário de certos homens marketing, não gosto de repetir fórmulas. Mas havia um consenso, na cúpula da campanha, de que o tema ainda estava vivo. Meu convencimento final veio quando decidimos acoplá-lo, de forma mais que justa, ao futuro do pré-sal.

Essa abordagem sobre ‘tucanos privatistas X petistas defensores do patrimônio nacional’ não seria uma exploração indevida do imaginário popular?
Já falei sobre isso e não fui muito bem interpretado. Tucanos e petistas divergem, de fato, profundamente neste tema. A sociedade brasileira sempre acompanhou com o máximo de interesse, receio e com muita cautela essa discussão.

O debate continua vivo. Por que é manipulação reacender ou esquentar esse debate? A propaganda eleitoral brasileira é um espaço bastante democrático, e mais que apropriado para este tipo de discussão. Nela, cada um pode expor seu pontos de vista e estabelecer o contraditório. Com fatos e argumentos. Sem medo e sem timidez.

Por que o Vox Populi, contratado pela campanha de Dilma, não captou a queda nas pesquisas de maneira mais precisa?
Essa é uma pergunta que o instituto pode responder melhor do que eu.

Quando as pesquisas diárias (‘trackings’) começaram as ser feitas? E os grupos de análise qualitativa? Dilma assistiu a alguns desses grupos?
Os trackings começaram uma semana antes da propaganda eleitoral. Os grupos de pesquisas qualitativas começaram também nesse período, e eram quase diários.

No segundo turno, os grupos de qualis eram diários. Eram 12 grupos, distribuídos pelas várias regiões do país. Em São Paulo, eram sempre quatro grupos, variando entre capital e interior. Duas empresas faziam esse trabalho. Em São Paulo, a Oma Pesquisas. No restante do país, a Síntese. A candidata Dilma não assistiu aos grupos por falta de tempo e de interesse direto.

Foi um erro a forma como Lula fez alguns comícios na parte final do 1º turno, falando em extirpar o DEM da política e dizendo que ‘a opinião pública somos nós’?
Como eu já disse, o presidente tem uma personalidade vulcânica. Sua intuição emocional faz com que ele acerte bastante, e às vezes cometa erros. Mas o saldo nesta e em outras campanhas sempre foi muito positivo.

Mas houve uma certa overdose de Lula no final do 1º turno, com ele aparecendo não de forma exaltada em comícios?
Na propaganda eleitoral, não. Desde o início, eu sabia que uma das coisas mais difíceis era a modulação da presença de Lula. Fiz um desenho estático que considero correto. Dividi a campanha com base nos 45 dias de TV e rádio em três fases iguais de 15 dias cada. A primeira, consistiu em colar bastante Lula a Dilma. Depois, seria preciso atenuar um pouco a presença dele no meio da campanha. E, por fim, voltar a colá-los fortemente no final.

Na primeira fase, era preciso mostrar aos eleitores que havia afinidade, respeito e confiança entre eles. Consumado isso em 15 dias, como eu esperava, com êxito, era então necessário reforçar a identidade própria de Dilma. Isso só seria possível se as pessoas conseguissem enxergá-la sem a sombra luminosa de Lula. Assim, os segundos 15 dias da campanha tiveram a troca da persona Lula pela intensificação da representação simbólica do governo Lula.

Só que no final dessa segunda fase ocorreu uma trágica coincidência: o escândalo Erenice.

E o que foi feito?
Fomos forçados a fazer uma reaproximação entre Lula e Dilma de emergência.

Mas Lula não se excedeu nos comícios?
De certa forma, sim. Mas isso é até explicável. A presença de um político no palanque permite certo tipo de arroubo que a propaganda eleitoral não comporta. Acontece que alguém quando está no palanque esquece que trechos editados de sua fala podem aparecer em telejornais de grande audiência.

Na passagem do 1º para o 2º turno, ele deu uma sumida. Por quê?
Foi por um período muito curto. Foi intencional por dois motivos. Primeiro, porque era necessário dar um certo refresco para a imagem do presidente por causa do uso excessivo em todas as campanhas em todas as unidades da Federação. Os candidatos em todos os níveis usaram e abusaram da imagem de Lula de forma excessiva e até irresponsável como nunca ocorrera antes.

Segundo, estávamos fazendo um reposicionamento estratégico, e antes que as transições conceituais ficassem claras, era importante preservar o nosso principal trunfo, que era o presidente. Foi uma operação tão delicada e corajosa que o próprio presidente Lula, na passagem do primeiro para o segundo turno, chegou a me questionar a respeito.

Muitos temeram a derrota nessa fase?
Temer a derrota é inerente a qualquer um envolvido em uma campanha. Sobretudo quando há uma quebra de expectativa, que foi o que ocorreu com a ida para o segundo turno.

De certa maneira, esse mesmo sentimento perpassou a campanha de 2006, no início daquele segundo turno.

Quando Dilma teve câncer, o que a área de marketing da pré-campanha fez?
Primeiro, foi um susto. Uma situação insólita. Iniciar uma campanha com uma candidata pouco conhecida e enfrentando um desafio dessa magnitude. Só havia então um caminho que era buscar o máximo de transparência. Todo o tratamento foi ampla e livremente noticiado pela mídia. Num caso como este não se pode, nem se deve inventar ou maquiar nada. A verdade é o melhor remédio. Até porque ela sempre prevalece.

A sua contratação ocorreu a partir de quando?
O PT me contratou para dar consultoria e fazer as propagandas partidárias em 2009.

Como Dilma reagiu à necessidade de fazer operação plástica no rosto e na região do pescoço, mudar o vestuário, treinar oratória, aceitar cabeleireiro e maquiadora sempre perto?
Variou. A decisão de fazer a operação plástica, por exemplo, foi dela. Como toda mulher, quando se trata de estética, ela gosta de ela mesma tomar iniciativa. Ou, pelo menos, de pensar que foi dela a decisão.

Por que Dilma tem dificuldade para falar em público, às vezes não completando um raciocínio?
Durante toda a sua vida, Dilma foi treinada mais para fazer do que para falar. Além disso, ela é daquelas pessoas que tem raciocínio mais rápido do que a verbalização. E algo ainda mais complexo: imagine uma pessoa que nunca foi candidata a nada inaugurando sua vida eleitoral sendo candidata a presidente de um país do tamanho do Brasil?

Tudo isso provoca um tipo de tensão e ansiedade que obviamente repercute na maneira de se comunicar. Porém, o mais surpreendente, é que Dilma superou todos esses obstáculos de maneira brilhante. O mérito maior é dela.

Como era sua equipe na campanha?
Tive a felicidade de formar um “dream team”. Cerca de 200 pessoas estiveram envolvidas. Alguns já trabalhavam comigo há muito anos como Eduardo Costa, meu braço direito e um dos grandes responsáveis pelo sucesso da campanha. Outros se reaproximaram e foram fundamentais como Marcelo Kértesz, Lô Politi e Giovani Lima, como diretores de vídeo. Sem falar da presença essencial de Mônica Moura, minha mulher e sócia.

Como presidente Lula interagiu com Dilma durante a campanha?
Em termos presenciais, o contato foi muito menor do que quando ela estava no governo.

Haveria alguma forma de o PSDB usar de maneira positiva, em nível nacional, a imagem de FHC em uma campanha presidencial?
Num período muito curto de campanha, seria muito difícil, quase impossível. Se eu estivesse no lugar de Luiz Gonzalez [publicitário da campanha de José Serra], que considero um dos melhores marqueteiros do Brasil, talvez eu fizesse o mesmo que ele fez.

O uso da imagem de FHC só seria viável eleitoralmente depois de um trabalho consistente ao longo de um período de vários anos. Seria preciso recuperar uma narrativa do governo tucano, que teve méritos, mas ficou com a imagem avariada por causa do final da administração FHC.

Creio ter havido um desleixo da parte do próprio Fernando Henrique, com uma atitude olímpica. Quem sabe, por vício acadêmico, ele esperava um resgate histórico que viesse apenas por gravidade. Mas, no seu caso, seria necessário mais do que isso. Ele e seu partido teriam de se esforçar para defender a imagem daquela administração, deixando de lado a timidez ou o medo que demonstram ter.

Teria sido possível neste ano eleger José Serra ou algum candidato de oposição? Com qual estratégia?
Muito improvável. A menos que cometêssemos alguns erros e a oposição milhões de acertos

Aécio Neves teria tido condições de vencer Dilma?
Poderia ter feito uma campanha mais bonita e mais vibrante do que Serra. Mas mesmo assim seria derrotado.

Como foi e com qual frequência se deu neste ano sua relação com o publicitário de Serra, Luiz González?
Sempre tivemos uma boa relação. Admiro o González tanto por sua competência como por seu caráter. E é sempre uma parada dura enfrentá-lo numa campanha. Nos falamos várias vezes durante esta campanha para negociarmos regras de debates e outros detalhes envolvendo participações dos nossos candidatos.

A negociação mais insólita foi quando liguei, pra ele, na véspera do Círio de Belém, sugerindo que abríssemos mão da propaganda eleitoral na TV no dia da festa, no Pará. Ele pediu pra consultar o Serra e topou. Tenho certeza que os paraenses gostaram muito desta atitude e Nossa Senhora de Nazaré, com certeza, abençoou os dois candidatos.

Esta eleição teve dez debates. Quais foram os mais úteis eleitoralmente? Os da Globo, pela alta audiência?
Todos foram importantes, mas nenhum decisivo.

Todos os debates foram engessados por regras impostas pelos candidatos e seus assessores. O que seria necessário para haver debates mais livres?
Os debates, como algumas regras da propaganda eleitoral, têm de ser revistos. O problema dos debates é que dependem da vontade dos candidatos. E vontade dos candidatos é a coisa mais difícil de administrar.

E no caso do horário eleitoral, o que pode ser feito?
Eu acho que a lei de propaganda eleitoral é uma das mais modernas do mundo. Porém, há situações anômalas que devem ser corrigidas. Por exemplo, a legislação sobre pré-campanha. Outra, a legislação do segundo turno.

No caso do segundo turno, como está concebido, é uma violência contra os candidatos, contra os partidos, contra os eleitores e contra as equipes que produzem os programas eleitorais. Deveria haver menos propaganda, mais debates obrigatórios, mais liberdade de entrevistas nos meios de comunicação eletrônicos e a eleição em si ser mais próxima da do primeiro turno.

Qual foi a importância da internet na campanha?

Ao contrário do que se fala, a internet teve um papel importante nesta eleição. Pena que tenha sido usada, muito fortemente, para veicular campanha negativa raivosa, anônima e, muitas vezes, criminosa. Isso terminou por diminuir muito a credibilidade do material que circulava na web. Mas a cada dia o papel da internet será maior nas eleições brasileiras. E isso é muito bom para a disputa eleitoral e para o avanço democrático.

Nos EUA, a web é usada na difusão de propaganda negativa, mas também na arrecadação de fundos. Quando haverá isso aqui?
Como já disse, houve um predomínio de propaganda negativa. Mas a mobilização nas redes sociais foi também intensa. Esta é a grande chave, no futuro, para aumentar o impacto da web nas eleições.

Qual foi o saldo da contratação de técnicos que trabalharam na campanha da web de Barack Obama?
A participação deles ficou praticamente restrita à transferência de tecnologia e de ferramentas. Não participaram da estratégia nem da conceituação da campanha em nenhum nível. Mas são profissionais bem competentes em sua área.

Teria sido possível eleger algum outro ministro técnico como Dilma usando a mesma estratégia?
Acho que seria muito difícil. A escolha de Dilma foi uma das maiores provas da intuição e da genialidade política do presidente Lula. Eu tive o privilégio de ser uma das primeiras pessoas a saber da decisão do presidente e a fazer estudos sobre isso, a pedido dele.

Desde o início ficou claro que a transferência de votos se daria de forma harmônica e fluídica. Está provado que a transferência, na maioria das vezes, se dá mais pelas características do receptor do que do doador. De todos os possíveis candidatos, Dilma reunia as melhores condições para isso. Era mulher, ocupava um papel-chave no governo, tinha passado e presente limpos, era competente, firme, corajosa, combativa e tinha fidelidade absoluta ao presidente.

Além disso, por causa do tipo de personalidade de Lula, era muito mais natural e com maior poder de sedução junto ao seu eleitorado, ele pedir voto para uma mulher do que para um homem.

Em 2014, os parâmetros de exigência da população estarão elevados para outro patamar e o Bolsa Família terá menos importância?
Primeiro é bom esclarecer, que no campo da psicologia do voto, o Bolsa Família é percebido pelos seus beneficiários como um detalhe importante, porém um detalhe, de uma coisa ainda maior e mais forte para eles que é o olhar social do governo Lula.

O programa, em si, tem apelo eleitoral? Tem. Porém menos do que se apregoa. E, como já disse, não funciona de forma isolada. Acho que poucos governos, como o do presidente Lula, e, tenho certeza, o da presidenta Dilma, reúnem tantas condições de poder acompanhar o que você chama de elevação de parâmetros de exigência da população.

Na verdade é mais do que isso. Quando o governo Lula retirou 28 milhões de pessoas da miséria e levou 36 milhões para a classe média estava, ao mesmo tempo, dando vida digna e cidadania a estas pessoas, elevando seu nível de vida e, simultaneamente, elevando os seus ‘parâmetros de exigência’. Ou seja, as políticas públicas de Lula e de Dilma são maiores do que qualquer tipo de pragmatismo eleitoral.

Se quiser vencer, o que deve fazer a oposição daqui até 2014?
Não me sinto apto a dar conselhos à oposição. Ela tem consultores mais competentes do que eu para isso.

O sr. foi convidado a continuar prestando assessoria de imagem e marketing para Dilma Rousseff?
A presidenta eleita não me falou nada sobre isso e eu tenho uma agenda internacional carregada, nos próximos três anos, que atrapalharia bastante um trabalho deste tipo.

Uma ala do PT, entre os quais José Dirceu e Fernando Pimentel, desejava a sua saída e a volta de Duda Mendonça. Como foi essa disputa?
É natural que na política, nos negócios e no amor as pessoas queiram se associar com quem têm afinidade. Até hoje, não sei exatamente quem participou dessa articulação. Só sei que foi um grupo muito pequeno e que não contava com o apoio da cúpula da campanha nem do PT. Lula e Dilma sempre me apoiaram integralmente. O ex-presidente do PT Ricardo Berzoini e o presidente atual da legenda, José Eduardo Dutra, sempre me deram todo apoio.

Quais são os seus planos profissionais a partir de agora?
Eu tenho muitos clientes fora do Brasil e provavelmente me dedique mais a eles, nos próximos dois anos. Estou examinando também, com carinho, uma proposta de sociedade de uma empresa americana de marketing político para atuação junto ao eleitorado latino, nos Estados Unidos.

Quero ver, também, se tenho tempo de terminar dois livros que estou escrevendo, um romance e outro sobre marketing político. Além disso, quero ver se volto a me dedicar à música.

Quanto o sr. cobrou para fazer a campanha de Dilma Rousseff?
O custo total da área de propaganda e marketing, incluindo as pesquisas qualitativas e as quantis estratégicas, foi de R$ 44 milhões.

O Brasil é o país latino-americano no qual as campanhas políticas são as mais caras?
O custo das campanhas no Brasil está diretamente relacionado ao tamanho do eleitorado, à força de sua economia e à qualidade e sofisticação do seu marketing eleitoral. Sem dúvida, um dos melhores do mundo.

Continua a existir uma imagem negativa dos marqueteiros. Esse é um problema de marketing que os principais envolvidos não conseguem solucionar?
Acho que esta suposta imagem negativa está circunscrita a determinados setores da sociedade que não entendem –ou não querem entender– o verdadeiro papel do marketing político.

Para a maioria da população ocorre exatamente o contrário: há uma profunda curiosidade e atração pelo nosso trabalho. Assim como somos um país com dezenas de milhões de técnicos de futebol, estamos também nos transformando num país com milhões de marqueteiros.

É incrível como hoje todo mundo discute e “entende” de marketing político. Chega a ser pitoresco, nos grupos de pesquisa qualitativa, como eleitores de todas as camadas sociais comentam, opinam e desvendam os segredos do marketing. É uma escola de prática de política.

Há semelhanças entre a transferência de poder do russo Vladimir Putin para Dmitri Medvedev, em 2008, e agora no caso dos brasileiros Lula e Dilma?
Li sobre isso na mídia internacional. É um equívoco absoluto, uma leitura caricata e ligeira. A democracia no Brasil é mais complexa e sofisticada. Mas isso me faz lembrar uma história curiosa.

Como a eleição brasileira chama a atenção em vários países, no início de maio, um emissário não oficial do governo russo mandou um recado para a campanha de Dilma. Essa pessoa queria oferecer o que seria uma técnica que dizia ser infalível de transferência de votos baseada na experiência exitosa de Putin para Medvedev.

Demos muita risada e é claro que recusamos. Mas tenho a impressão que um ou outro integrante da nossa campanha chegou a ficar tentado em pelo menos ouvir o que os russos tinham a dizer. Mas é óbvio que nenhum contato foi feito, embora o episódio demonstre como era imprevisível para alguns a capacidade de Lula de transferir votos para Dilma.

Jornal, Instituto de Pesquisa, ou Instituto de Opinião?

Desculpem o sumiço, mas sigo em viagem pelo Brasil. Para saber mais, acesse o meu twitter: @rodrigoherrero.

Aproveito o ensejo sobre o twitter e reproduzo abaixo (com alguns acréscimos) pensamentos após ler a nova pesquisa Datafolha, que dá 38% para Serra e 28% para Dilma. Enquanto todos os outros institutos de pesquisa mostram evolução da candidata petista, o instituto da Folha de S. Paulo aponta estagnação e uma distância de quase 10%.

A cara de pau de jornalistas (e professores, mestres e doutores da área) em acreditar na “verdade acima de tudo” e na “isenção acima de qualquer coisa” é irritante. Como alguém pode acreditar em isenção jornalística se um jornal tem um instituto de pesquisa?

Parto do pressuposto tão claro como água de que os institutos de pesquisa no Brasil influenciam o brasileiro na hora de votar, muito mais que, por exemplo, na Europa. Quem nunca ouviu a expressão: “brasileiro vota em quem tá na frente”? Eu mesmo tive exemplos dentro da minha família disso inúmeras vezes.

Por outro lado, é necessário constatar que os institutos de pesquisa costumam servir a interesses diversos. O jogo de empurra é forte quando uma pesquisa “sem querer” distorce os fatos e acaba por influenciar uma disputa eleitoral – a História revela múltiplos exemplos.  Agora, alie-se isso a um instituto pertencente a um jornal…

Ou seja, temos um pandemônio. Enquanto o jornal “informa” e traz sua “opinião”, o instituto de pesquisa faz aquilo que seu nome manda: pesquisa a opinião das pessoas, no caso, dos eleitores.

A razão do pandemônio? Vamos lá: e se o jornal, ao invés de informar (quantos não desinformam todos os dias?), costuma, por meio de sua credibilidade, tentar convencer seu leitorado de alguma posição? Ou, pior, de que candidato A é mais preparado que B, mesmo que isso não se dê de forma declarada no veículo (e que seria bem mais honesto com os leitores e prestaria um grande serviço à sociedade, mostrando realmente de que lado cada um está – isso porque, ao desmerecer o papo de não há lado para tomar parte, proporciona que, nos meandros do poder, se coloque desta forma sem ônus)?

Será que não há no mínimo um conflito de personalidade de uma empresa que tem como compromisso a “isenção” fazer pesquisas de opinião que ajudam a influenciar os rumos de uma eleição? Não adianta dizer que ambas as empresas (jornal e instituto) são independentes. No cotidiano pode ser, mas qual é o primeiro jornal que divulga a pesquisa em sua primeira página?

Se estamos em uma sociedade que se diz compartimentalizada, em que o jornal informa e o colunista opina e o instituto de pesquisa, pesquisa, isso cai por terra quando uma empresa reúne tudo isso em seu conglomerado, podendo influenciar diretamente a opinião pública.

O fato mais próximo da realidade é que jornal nunca foi independente, pois as influências e disputas via jornal sempre existiram. Desde os tempos do The New York Times (o livro “O Reino e o Poder de Gay Talese é emblemático)  é perceptível o peso que o veículo pode colocar em favor ou contra uma causa. Conheci de perto outro exemplo esta semana em Goiânia, em que o editor do jornal Diário da Manhã, Batista Custódio, publicou durante seis meses reportagens contra as dragas, que acabavam com a reprodução de peixes no rio Araguaia e destruía toda a mata ciliar, prejudicando todo o ecossistema de uma Área de Proteção Ambiental doada pelo próprio, inclusive. Se há motivação para o bem comum ou para a natureza, há também para posições políticas e de poder. Sem falar em questões econômicas, um buraco mais complicado de provar, mas passível de investigação.

Percebo hoje, no entanto, que as posições nos jornais estão mais escancaradas, mesmo que as ações permaneçam revestidas de “jornalismo”. Isto é: as reportagens “batem” mais nos, digamos, desafetos do veículo, enquanto que afagam aqueles que estão mais próximos de suas convicções. Ocorre, no entanto, que isso não é declarado nas páginas do jornal, sendo perceptível mais aos olhos mais intelectualmente apurados, como, por exemplo, dos próprios jornalistas, ou mesmo de acadêmicos que estudam o jornalismo. Para a maioria das pessoas não faz tanta diferença. Só que não é bem assim: já dizia o ditado: uma mentira dita várias vezes vira verdade. Por mais que as pessoas tenham opinião própria e influam nos veículos e na sociedade, quem tem o poder de atingir mais e mais pessoas segue na frente das decisões do país.

Agora, quando é unido este cenário sórdido em um jornal que, ao mesmo tempo, possui um instituto de pesquisa, como fica a independência deste instituto e a lisura de seu trabalho? Só na credibilidade dos seus donos? E se uma pesquisa é direcionada, o quanto esta informação compromete a reportagem do veículo do mesmo grupo, embasada em números que não condizem com a realidade?

Estas perguntas nos remetem a outras, mais de cunho procedimental: em quem acreditar? Por quê acreditar? Como e onde o eleitor deve se informar? Por meio de propostas dos candidatos, através de um veículo de comunicação, por institutos de pesquisa? Há alguma outra forma de procurar se informar e abastecer de subsídios que possibilitem formar uma opinião que faça jus à democracia representativa que vivemos e não apenas uma democracia (não seria uma autocracia?) de eleições?

Pequenos pitacos

Olá.

A vontade de escrever neste espaço prossegue intensa, mas falta-me tempo para colocá-la em prática da forma que desejo. Estou envolto na produção de um dos capítulos da dissertação, enquanto resolvo pendências sobre a marcação do Exame de Qualificação e corro atrás de bolsa de estudo. Não está nada fácil.

Mesmo assim, gostaria de escrever sobre duas coisinhas:

– A SPIndy300 ocorrida no Anhembi no último fim de semana foi uma mistura de fiasco e glória. Fiasco por conta do péssimo piso da pista, pois, além das ondulações absurdas do asfalto, o concreto da passarela do samba tornava a dirigibilidade impraticável, fazendo os carros literalmente sambarem na pista. Com 20 milhões de reais gastos, sendo 12 mi só para propaganda para a Bandeirantes, em uma previsão inicial de 8 milhões gastos no total, o evento foi uma incógnita na arrecadação, pois,sse 30 mil pessoas estiveram no Anhembi, a garantia dos 120 milhões arrecadados, chutaço do prefeito Gilberto Kassab, não tem fonte confiável de checagem. Sem falar em outros problemas, como sinalização falha nos arredores, falta de água para ser vendida ao público, queda de luz no sambódromo que deixou os jornalistas gringos malucos e dificuldade para chegar à região. A glória foi que, apesar de tudo isso, a corrida foi boa e divertida, com a emoção aumentada pela chuva e pelos acidentes, comuns em pistas de rua. O saldo geral foi positivo, mas muita coisa precisa ser corrigida para o ano que vem, principalmente o amadorismo como que esse Grande Prêmio foi tratado, até pelos parcos 4 meses para se fazer uma pista. Mas os organizadores dos Estados Unidos toparam, os resultados contraditórios estão aí.  Bom de um lado, princicpalmente o da competição, ruim partes da organização.

– Outro tema que gostaria de abordar é a estréia da terceira temporada do CQC, ontem, na Band. Gostei muito, fazia tempo que não ria tanto, principalmente com a visita de Rafael Cortez ao Chile, com as palhaçadas de Marco Luque e até mesmo com a Môniza Iozzy, que, à parte sua inferioridade na cobertura de Brasília (porque o Danilo Gentili é insuperável), a mulher da trupe foi de uma acidez fantástica, com vários comentários na “lata” dos entrevistados. A querela do “Proteste Já” censurado deu pano pra manga (a liminar caiu nesta terça-feira, inclusive), um verdadeiro absurdo que só é possível graças a nossa “Justiça” brasileira. A matéria da SPIndy300 foi um tanto fraca e laudatória, pra puxar um pouquinho o saco da Band,  não tocou nos problemas da corrida, previsível. Dos quadros novos, “Marco Luque Responde” achei fraquíssimo, não há necessidade de se dar um quadro solo pro ótimo Luque, sei lá, fica superficial. Prefiro as palhaçadas dele ao vivo na mesa, são engraçadíssimas. “Cidadão em Ação” achei bem interessante, exceto a parte de fazer a PM atender ocorrência falsa, lembrada no twitter pela repórter Vanessa Ruiz, da Revista ESPN. No geral foi boa, a maioria do público elogiou muito, mesmo com algumas críticas que li aqui e acolá na internet, principalmente dos tais jornalistas e órgãos “especializados”.

– Por fim, gostaria de indicar uma entrevista recente que Ciro Gomes, presidenciável pelo PSB, concedeu à Folha de S. Paulo. Desconsidere o título preconceituoso e editado ideologiacamente sobre o PT ser um desastre, pois o que vale é a entrevista completa, em que o candidato (que pode ser até para governador de São Paulo) comenta diversas situações, põe o dedo na ferida do PSDB (por que esse não foi o ponto destacado da entrevista?) e coloca sua posição estratégica no jogo da sucessão, demosntrando como o PT está confuso, especialmente na candiddatura para o governo paulista, que começa a ganhar corpo com senador Aloizio Mercadante. Clique aqui e leia a entrevista.

Um grande abraço e até a próxima!

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