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Archive for dezembro \22\UTC 2009

A Política como Vocação – Max Weber

É, o ano está terminando e os textos também. Este é o último do curso Modalidades do Pensamento Político Moderno: “A Política como Vocação”, de Max Weber. Lembrem-se: é só uma leitura livre do que apreendi do texto, não é uma resenha técnica, muito menos precisa do conteúdo.

O livro trata de vários aspectos da política, começando pela definição dela mesma, depois partindo para a função do Estado e o surgimento de atores designados para atuarem dentro desse processo, denominados de políticos profissionais, em que Weber mostrará os desafios que a sociedade e esta categoria, em particular, possuem pela frente, sendo estes os pontos principais deste escrito.

Weber lembra existir um amplo sentido para a palavra política, com diversos significados. Mas ressalta que seu foco estará no objetivo de tentar compreender a política a partir da “direção ou influência sobre a direção de uma associação política, ou seja, de um Estado[1]”.

Mas, para seguir adiante na análise, Weber procura definir o que é o Estado, indicando que este só pode ser definido por um específico meio que o é peculiar, em sendo, no caso desta associação política, o uso da força física, isto é, da violência. “Se inexistissem estruturas sociais fundadas na violência, teria sido eliminado o conceito de Estado e emergiria uma situação que mais adequadamente designaríamos como anarquia, no sentido específico da palavra[2]”.

Ele coloca, no entanto, que a força não é o único recurso do Estado, porém trata-se de um elemento específico do próprio Estado, sendo bastante comum em várias épocas da humanidade. Nos dias atuais, Weber define o Estado como uma comunidade humana que vive em um determinado território e que utiliza o monopólio (considerado) legítimo da violência física, tendo o Estado o único a possuir tal direito.

Em sendo o Estado uma relação de homens que dominam seus iguais, o autor considera que para isto se consolidar é preciso que os dominados obedeçam a uma suposta autoridade dos poderes dominantes. Mas ele indaga sobre o porquê dos homens obedecerem desta forma, para responder na existência de três justificativas que fundamentam a legitimação da dominação. A primeira é o que ele chama de tradicional, poder exercido pelo patriarca ou príncipe já estabelecido. Há também a carismática, também chamada dom da graça, tendo como fundamento a devoção e a confiança cega nos atributos pessoais do líder. Por último, a legitimação via legalidade, fundamentada na crença que o estatuto legal é válido e no resultado produzido pelas normas estabelecidas.

Antes de prosseguir, cabe trazer uma rápida passagem de Weber no que tange à política, definida como um conjunto de esforços que visam diversos interesses, tanto na distribuição, manutenção como na transferência do poder. “Os que atuam na política aspiram ao poder ou como meio para atingir outros fins, abstratos ou individuais, ou como poder pelo poder, para desfrutar da sensação de status que ele proporciona[3]”.

Isso para voltarmos aos desdobramentos do Estado, que, em sendo o ator principal das sociedades, onde as discussões políticas e os rumos dos Estados são definidos, requer uma categoria de atuação específica que é a do político profissional, que transforma o fazer político em uma vocação. Weber afirma ser possível viver ou para a política ou da política: “Quem vive para a política a torna o fim de sua existência, ou porque essa atividade permite obter no simples exercício do poder, ou porque mantém seu equilíbrio interior e sua auto-estima fundados na consciência de que sua existência tem sentido à medida que está à serviço de uma causa. Num sentido profundo, todo aquele que vive para uma causa vive dela também. É o aspecto econômico um dos elementos importantes da condição do homem político. O que vê na política uma fonte permanente de rendas, vive da política como vocação; no caso oposto, vive-se para a política[4]”.

É evidenciada a preocupação de Weber é fazer com que o recrutamento de profissionais políticos não seja pautado em aspectos plutocráticos, fazendo com que a organização política garanta recursos regulares aos atores políticos que não são proprietários de bens e, portanto, estão à parte das classes interessadas em manter a ordem econômica como está, ajam de forma independente, em prol da política e não apenas de interesses próprios.

Porque, se quem possui bens pode viver para a política, pois não depende dela pra sobreviver, no entanto, pode utilizar-se da política como forma de manter o status quo, podendo interferir negativamente no andamento da sociedade e do Estado, sendo necessária, portanto, a legitimação da criação de políticos profissionais que possam ter sua renda garantida para que não dependam da política para viver. O problema é que, justamente a criação desta categoria profissional, com o objetivo de evitar uma acomodação de interesses, pode provocar justamente o mal que ela pretende remediar, fazendo com que os políticos profissionais atuem de forma a manterem seus cargos e posições para ampliar suas benesses, prejudicando o bom andamento do Estado.


[1] Weber, Max. A Política como Vocação. Brasília: Universidade de Brasília, 2003. Página 08.

[2] Idem, p. 09.

[3] Idem, p. 10.

[4] Idem, p. 22-23.

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Praia

Pôr do sol na praia - Itanhaém - SP - 07.09.09

Pôr do sol no feriado - Itanhaém - SP - 07.09.09

Em tempos de férias, nada como uma praia para divertir, relaxar e recarregar as energias para os desafios do próximo ano. Está chegando o meu tempo de descanso.

Enquanto às férias propriamente ditas não vêm, ficamos com imagens e lembranças.

Boa semana a todos.

Ciclos e passagens

O sumiço destes dias no blog não foi por falta de vontade de postar. Uma verdadeira tragédia aconteceu com o adeus de um parente de uma querida amiga muito próxima a mim. Foram dois dias que ficarão marcados para todo o sempre, de um extremo pesadelo que ainda não acabou e ainda vai levar um tempo para amenizar, quiçá passar para quem vive o tormento. Abaixo reproduzo algo escrito a partir do Twitter, um singelo desabafo e reflexão da nossa insignificância na Terra.

Estou destroçado física e emocionalmente, nem as horas de cochilo mesclado com sonhos e pensamentos ruins mudaram muita coisa. Quando acontecem tais coisas a gente pensa em muitas outras, nos traz à uma realidade duríssima que lutamos em nosso cotidiano para fugir.

Nossa crença na eternidade é tão vã, que quando uma tragédia dessas ocorre, a gente se vê sem chão e percebe o quão tênue é a linha entre a vida e a morte e o quão estamos dependentes de tudo e vulneráveis. Não temos direito a nada aqui.

Não é alarde, nem revolta, mas é uma triste constatação: a de que “viver é uma dádiva fatal no fim das contas ninguém sai vivo daqui”. Tudo fica meio sem sentido, viver, amar, procurar crescer, trabalhar, sair, etc., porque você sabe que tudo acaba mais cedo e surpreendentemente do que imaginamos, mesmo que saibamos que tudo tem um fim. E a cada “surpresa” dessas você também morre um pouco. Com aquele que amamos se vai uma parte de nossa rápida existência. E dói.

Mas, como diz o próprio poeta: “vamos com calma”. O jeito é seguir vivendo, tentando achar um motivo, manter-se firme em homenagem e agradecimento a quem já foi, mas também a quem aqui está. É duro, mas é preciso. Ainda não sabemos porquê, mas é preciso.

Dizem que o homem comeu a maçã da sabedoria e desde então adquiriu conhecimento. Mas faltou o conhecimento da vida e da morte, para que ele pudesse viver mais em paz, despreocupado e menos angustiado com suas perdas.

Mas assim é a vida e seu ciclo: nascemos, vivemos, procriamos, outros assumem nosso postos, antes de morrermos, para que o ciclo prossiga. E assim a vida caminha, entre alegrias e tristezas, lágrimas e sozinhos, dor e paz…

Espero apenas que tenhamos calma e força a cada manhã para seguirmos em frente…

Para concluir esta reflexão em homenagem a quem fez muita gente feliz e também deixou muitas saudades, deixo uma canção que tem a ver com o tema: “For Martha”, da banda The Smashing Pumpkins, pertencente ao álbum Adore de 1998.

For Martha
Para Martha

whenever I run

Sempre que procuro

whenever I run to you, lost one

Sempre que te procuro, desaparecida

it’s never done

Nunca consigo

just hanging on

Apenas aguardo

the past has let me be

O passado fez me ser

returning as if dream

Solícito como se num sonho

shattered as belief

Destroçado como a fé

if you have to go, don’t say goodbye

Se tiveres que ir, não diga adeus

if you have to go, don’t you cry

Se tiveres que ir, não chores

if you have to go, I will get by

Se tiveres que ir, eu aceitarei

someday I’ll follow you and see you on the other side

Um dia te seguirei e te verei no outro lado

but for the grace of love

Mas pela benção do amor

I’d will the meaning of

Eu desejaria o sentido do

heaven from above

Paraíso lá de cima

your picture out of time

Seu velho retrato

left aching in my mind

Doendo em minha memória

shadows kept alive

Sombras mantidas vivas

if you have to go, don’t say goodbye

Se tiveres que ir, não diga adeus

if you have to go, don’t you cry

Se tiveres que ir, não chores

if you have to go, I will get by

Se tiveres que ir, eu aceitarei

someday I’ll follow you and see you on the other side

Um dia te seguirei e te verei no outro lado

but for the grace of love

Mas pela benção do amor

I’d will the meaning of

Eu desejaria o sentido do

heaven from above

Paraíso lá de cima

long horses we are born

Longa-Marchas nós nascemos

creatures more than torn

Criaturas mais que dilaceradas

mourning our way home

lamentando nossa volta ao lar

Novo, velho conto

Aproveitando a proximidade com as festas de fim de ano, aquui vai um conto que é mais um desabafo, uma reflexão sobre vários assuntos. Aproveitem, critiquem, debatam, leiam!

Ah, a propósito, o conto de ontem não foi o primeiro do ano, escrevi “Lembranças de um tempo perdido” esse ano direto no blog, portanto, não o tinha nos meus arquivos, logo, havia descartado-o. Mas, revisto o erro, vamos ao novo, velho conto!

Conto de pensamentos desconexos

Num feriado remoto, um jovem estudante vê o mundo desabar em sua cabeça

Mais um feriado idiota no calendário. A ausência de movimento num dia considerado santo, em que a falsidade puritana recobre as aparências de boa parte da população, enquanto você procura entender o real sentido para sua angústia.

O mais engraçado é que na segunda-feira você fica na expectativa de que a semana passe rápido para que o feriado chegue e você possa se livrar do cotidiano imbecil e agressivo dos dias chamados úteis, mas que você faz de tudo para que pareçam inúteis. Nada na cabeça, as tarefas parecem entediá-lo cada vez mais, enquanto nenhuma música lhe toca o coração como antigamente. Nenhum amor toca seu coração como antigamente. Nenhuma dor, nenhuma alegria faz sua vida se movimentar para um outro caminho, que não seja para frente, ou para trás, isso depende do estado de espírito.

A véspera da folga chega, mas não há planos do que fazer com esse dia a mais de descanso. E os eternos pedidos para um dia considerado inútil perdem sentido, pois não há lado nenhum para correr. O famigerado dia chega e o desânimo acomete de vez a alma do pobre coitado que não sabe mais o que pensar. O tédio domina suas ações e nada além do alienante cotidiano o move para algo satisfatório. A cabeça está vazia, o coração está vazio, tudo aquilo que sempre pensou é questionado por todos, e por si mesmo.

Seus ideais ligados ao passado querem sobreviver ao bombardeio do presente, mas sofrem com tamanha descrença, desunião e hipocrisia dos seres humanos. Nada mais do que falam se acredita ou vale para alguma coisa. Você diz: isso eu não faço. Mas basta alguém mandar você fazê-lo que tudo é esquecido. Por quê? E aí alguém diz que você também fará o mesmo um dia, pois quando você ficar velho, tua família, teu status, tuas obrigações o farão ser igual aos outros.

Mas se você não se enquadra ao que todos são, é taxado de bitolado, antiquado, alguém que não vai crescer. Contudo, o que significa crescer? As pessoas se esquecem que o que pode ser importante para um, pode não ser para outro. Se não fizermos algo para mudar, qual sentido fará nós estarmos aqui? Que algo é esse que trará alguma razão? Será que existe alguma razão para tudo isto?

O ser humano é de extrema mutação. Porém, o que ele pretende mudar é a si mesmo, enquanto o mundo que se espatifa em suas brincadeiras de guerra e de justiça. Quando alguém quiser fazer alguma coisa, que vá a rua e faça por si mesmo. Cadê aquele espírito jovem de união e desejo de um mundo melhor? Não se faz nada sozinho, mas também ninguém quer fazer, apenas aparecer.

O mundo é uma eterna briga entre o novo e o velho, entre o justo e o certo, entre o buscar e o esquecer, entre o ser e o agora. E você, nesse mundo caótico, vê as pessoas se dominarem por dizeres dos outros, crêem com uma fé cega em uma coisa que nunca viram ou sentiram de verdade, e pensa ser mais fácil isso do que se deparar com a vida como ela é, com a impossibilidade das coisas. É mais preferível ao ser humano culpar alguém, aceder a uma entidade superior que decide por nós, do que encarar o mundo de frente e perceber que somos todos culpados pelo que somos, e somente nós.

Porque quando você encara a vida de forma independente, você sente que nada faz sentido, que o certo e o errado são abstrações humanas de compreensão improvável. Nota, portanto, que sua vontade de fazer se perde no desejo de todos em deixar como está, pois o ser humano não é piedoso. E aí vem a depressão, o tédio, a raiva, a letargia, e você acredita ser um maluco doente que só resmunga, enquanto a vida corre a rédeas soltas lá fora, como sempre desejou que fosse realmente, mas que apenas aparenta ser, enquanto todos crêem ser livres.

* Escrito em 2005.

Em branco

Olá. Há muito não apareço por aqui. Mas hoje venho com algo diferente: o primeiro conto que escrevo esse ano, em meio a um mestrado que me conseome avassaladoramente. Espero que gostem. Até mais.

Em branco

Hugo Luiz enxerga a sua direita uma pilha de livros caindo da cadeira da cozinha que serve de apoio em seu quarto. Sem esboçar a menor reação, continua observando um a um os livros irem de encontro ao piso gelado: uma rajada de vento vinda da janela foi a responsável pela quebra da harmonia no quarto de Hugo Luiz.

Concentrado, olhos fixos para a tela do computador, aturdido, não foi capaz de fazer qualquer movimento. Sua preocupação é outra: a falta de inspiração que lhe aflige há dias, impingindo uma angústia enorme em si ao permanecer com olhar petrificado para a página em branco do editor de textos.

Mesmo assim, fugiu de sua tormenta mental e recolheu todos os livros de volta à cadeira. Mas se deteve em um em específico: um livro sobre política que falava sobre esperança, determinação, ação. Folheou um pouco, lembrou-se da parte da sua vida que estava atrelada àquelas páginas e se estremeceu com o que lhe vinha à memória. As crenças mais simples quando se é jovem e a vontade na ponta dos cascos não passava do que hoje é um conceito genérico de um teórico francês.

Hugo Luiz, num balançar rápido de cabeça para afastar tais pensamentos, voltou-se para sua tela em branco: já estava há quatro dias sem sair daquele quarto, sem idéias, sem perspectivas, sem o que preencher aquele espaço em branco. Desligara-se do mundo e, com ele o Msn permaneceu fechado, assim como o Google Talk e o Skype. O Orkut abria apenas para ver suas próprias fotos antigas de vez enquando, como que em um arroubo patético de querer voltar àqueles momentos e congelá-los para sempre, sem viver a dor cotidiana da rotina e da negação a amedrontar sua alma.

Apenas o Twitter continuava aberto, para prosseguir com o ritual insólito desta humanidade em saber o que se passa com a vida dos outros, o que as pessoas fazem, com quem saem, o que lêem, o que escrevem, como se já não bastasse cada um preocupar-se com a própria vida. Mas se ocupar do microcosmo do cotidiano de celebridades e pessoas comuns serve como uma ótima droga para narcotizar-nos enquanto esquecemo-nos das mazelas desta sociedade mal construída. De repente, um recado em “caixa alta”: “vou comprar o celular tal, tô super feliz”. Outro perfil transcreve o pronunciamento do presidente e “ainda bem que não há mais perfis on line, assim não me ocupo com essas baboseiras a cada aviso do programa”, alivia-se Hugo Luiz, pois até em seus momentos toda essa encheção chateia, entedia os viciados por desinformação.

Sentia-se deslocado, descolado de tudo aquilo. Esse sentimento de não-pertencimento fazia mal dentro de si. Não conseguia sentir-se parte nem de sua própria vida ou de seu corpo. Sentia-se despedaçado por dentro, como se tivesse tentado lutar tanto para sair dali e alcançar outro espaço que o preenchesse.

Após passear seus olhos cansados pelos perfis dos outros, Hugo Luiz volta para sua tela em branco para tentar dar seqüência à sua missão, apesar de não saber mais de onde buscar para preencher uma linha que seja daquilo. Ao mesmo tempo, uma ansiedade consome seu coração e mente, na espera de um e-mail que pode facilitar ou complicar sua vida. Enquanto não chega, a ansiedade transforma-se em uma angústia virulenta que quase o leva a uma depressão desesperada.

E entre e-mail e o editor de textos, entre uma agonia e outra, o tocador de música repete insistentemente a mesma voz, as mesmas notas, a mesma canção de 15 minutos durante toda a noite. O violão é repetitivo, a voz é aguda, a qualidade é baixa também por ser uma gravação ao vivo do que parece um bar. Há muita gritaria e conversação. Mesmo assim, a canção permanece vitoriosa no tocador, falando de uma garota má e de conversas de bar, da cidade, das ruas, de qualquer coisa que ele não entende.

De repente, o Twitter começa a infernizar com tantos avisos de mensagens novas. E, como forma de fuga, Hugo Luiz volta-se a todo o momento para a página do programa para saber quem escreveu o quê e porquê, como que em uma necessidade obsessiva de se desviar do que precisa fazer, mascarada por uma pseudo-preocupação em obter novas informações, alguma novidade, ou notícia importante sobre qualquer coisa.

O desespero é tanto que ele fecha o programa para tentar se concentrar no seu dilema. Muda a canção no tocador e finalmente obtém uma centelha de inspiração, alguma idéia passa por sua mente e ele a segura com todas as suas forças, fazendo daquilo seu momento máximo em dias. É uma música que fala de amor, mas não é isso que chama atenção. O que lhe importa é o retorno da sensibilidade e gana necessárias, por um instante, para voltar a escrever. E começa.

14 de dezembro de 2009.

O DEBATE DA POLÍTICA EXTERNA: OS CONSERVADORES

Muito bom esse texto do grande teórico José Luís Fiori, professor de Economia Política Internacional no Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O DEBATE DA POLÍTICA EXTERNA: OS CONSERVADORES

JOSÉ LUÍS FIORI

“É desconfortável recebermos no Brasil o chefe de um regime ditatorial e repressivo. Afinal, temos um passado recente de luta contra a ditadura, e firmamos na Constituição de 1988 os ideais de democracia e direitos humanos. Uma coisa são relações diplomáticas com ditaduras, outra é hospedar em casa os seus chefes”.

José Serra, “Visita indesejável”, FSP, 23/11/2009

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Já faz tempo que a política internacional deixou de ser um campo exclusivo dos especialistas e dos diplomatas. Mas só recentemente, a política externa passou a ocupar um lugar central na vida publica e no debate intelectual brasileiro. E tudo indica que ela deverá se transformar num dos pontos fundamentais de clivagem, na disputa presidencial de 2010. É uma conseqüência natural da mudança da posição do Brasil, dentro do sistema internacional, que cria novas oportunidades e desafios cada vez maiores, exigindo uma grande capacidade de inovação política e diplomática dos seus governantes. Neste novo contexto, o que chama a atenção do observador, é a pobreza das idéias e a mediocridade dos argumentos conservadores, quando discutem o presente e o futuro da inserção internacional do Brasil.

A cada dia aumenta o numero de diplomatas aposentados, iniciantes políticos e analistas que batem cabeça nos jornais e rádios, sem conseguir acertar o passo, nem definir uma posição comum sobre qualquer dos temas que compõem a atual agenda externa do país. Pode ser o caso do golpe militar em Honduras, ou da entrada da Venezuela no Mercosul; da posição do Brasil na reunião de Copehague ou na Rodada de Doha; da recente visita do presidente do Irã, ou do acordo militar com a França; das relações com os Estados Unidos ou da criação e do futuro da UNASUL. Em quase todos os casos, a posição dos analistas conservadores é passadista, formalista, e sem consistência interna. Além disto, seus posicionamentos são pontuais e desconexas, e em geral defendem princípios éticos de forma desigual e pouco equânime. Por exemplo, criticam o programa nuclear do Irã, e o seu desrespeito às decisões da comissão de energia atômica da ONU, mas não se posicionam frente ao mesmo comportamento de Israel e do Paquistão, que além do mais, são Estados que já possuem arsenais atômicos, que não assinaram o Tratado de Não Proliferação de Armas Atômicas, e que tem governos sob forte influencia de grupos religiosos igualmente fanáticos e expansivos.

Ainda na mesma linha, criticam o autoritarismo e o continuísmo “golpista” da Venezuela, Equador e Bolívia, mas não dizem o mesmo da Colômbia, ou de Honduras; criticam o desrespeito aos direitos humanos na China ou no Irã, e não costumam falar da Palestina, do Egito ou da Arábia Saudita, e assim por diante. Mas o que é mais grave, quando se trata de políticos e diplomatas, é o casuísmo das suas análises e dos seus julgamentos, e a ausência de uma visão estratégica e de longo prazo, para a política externa de um Estado que é hoje uma “potência emergente”.

Como explicar esta súbita indolência mental das forças conservadoras, no Brasil? Talvez, recorrendo à própria história das idéias e das posições dos governos brasileiros que mantiveram, desde a independência, uma posição político-ideológica e um alinhamento internacional muito claro e fácil de definir. Primeiro, com relação à liderança econômica e geopolítica da Inglaterra, no século XIX, e depois, no século XX – e em particular após à Segunda Guerra Mundial – com relação à tutela norte-americana, durante o período da Guerra Fria. O inimigo comum era claro, a complementaridade econômica era grande, e os Estados Unidos mantiveram com mão de ferro, a liderança ética e ideológica do “mundo livre”.

Depois do fim Guerra Fria, os governos que se seguiram adotaram as políticas neoliberais preconizadas pelos Estados Unidos e se mantiveram alinhados com a utopia “cosmopolita” do governo Clinton. A visão era idílica e parecia convincente: a globalização econômica e as forças de merca¬do produziriam a homogeneização da riqueza e do desenvolvi¬men¬to, e estas mudanças econômicas contribuíram para o desaparecimento dos “egoísmos nacionais”, e para a construção de um governo democrático e global, responsável pela paz dos mercados e dos povos. Mas como é sabido, este sonho durou pouco, e a velha utopia liberal – ressuscitada nos anos 90 – perdeu força e voltou para a gaveta, junto com a política externa subserviente dos governos brasileiros, daquela década.

Depois de 2001, entretanto, o “idealismo cosmopolita” da era Clinton foi substituído pelo “messianismo quase religioso” da era Bush, que seguiu defendendo ainda por um tempo o projeto ALCA, que vinha da Administração Clinton. Mas depois da rejeição sul-americana do projeto, e depois da falência do Consenso de Washington e do fracasso da intervenção dos Estados Unidos a favor do golpe militar na Venezuela, de 2002, a política externa americana para a América do Sul ficou à deriva, e os Estados Unidos perderam a liderança ideológica do continente, apesar de manterem sua supremacia militar e sua centralidade econômica. Neste mesmo período, as forças conservadoras foram sendo desalojadas do poder, no Brasil e em quase toda a América do Sul. Mas apesar disto, durante algum tempo, ainda seguiram repetindo a sua ladainha ideológica neoliberal.

O golpe de morte veio depois, com e eleição de Barack Obama. O novo governo democrata deixou para trás o idealismo cosmopolita e o messianismo religioso dos dois governos anteriores, e assumiu uma posição realista e pragmática, em todo mundo. Seu objetivo tem sido em todos os casos, manter a presença global dos Estados Unidos, com políticas diferentes para cada região do mundo. Para a América do Sul sobrou muito pouco, quase nada, como estratégia e como referencia doutrinária, apenas uma vaga empatia racial e um anti-populismo requentado. Como conseqüência, agora sim, nossos conservadores perderam a bússola. Ainda tentam seguir a pauta norte-americana, mas não está fácil, porque ela não é clara, não é moralista, nem é binária. Por isto, agora só lhes resta pensar com a própria cabeça para sobrevier politicamente. Mas isto não é fácil, toma tempo, e demanda um longo aprendizado.

O que é o Iluminismo? – Immanuel Kant

Mais um texto do curso Modalidades do Pensamento Político Moderno, discutido recentemente. O texto desta semana é “O que é o Iluminismo”, de Immanuel Kant. Lembrem-se: é só uma leitura livre do que apreendi do texto, não é uma resenha técnica, muito menos precisa do conteúdo.

No texto que procura responder a esta pergunta, Kant traz à baila a idéia do período Iluminista, do conhecimento, do livre pensar e criar, ou seja, o fim da chamada “era das trevas” para a vivência da “era das luzes” tanto na vida acadêmica, artística, bem como da sociedade, liberta do jugo dos padres e dos reis. Ele coloca que o Iluminismo é o caminho para o homem sair do que ele chama de “menoridade”, que ele especifica como sendo a “incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem[1]”. Ou seja, se esta é a menoridade, o Iluminismo é a capacidade do homem pensar e agir por si mesmo, de forma livre, sem os indicações ou imposições de uma outra pessoa ou instituição.

E como se está vivendo em uma época em que a liberdade de pensamento e ação estão em voga, Kant critica e ironiza o ainda servilismo com que boa parte dos homens permanecem nas suas relações, delegando a outros o que devem pensar, dizer, discutir, fazer, enfim. “É tão cômodo ser menor. Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um diretor espiritual que tem em minha vez consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar[2]”. Ele complementa, indicando ser realmente difícil passar de menoridade para a maioridade, daí o medo e a apatia para dar esse passo à frente.

Toda essa reflexão é importante, dentro do contexto da formação dos Estados, do pacto social para a criação de uma sociedade regida por leis, pois, se todos não estão mais sob os desejos e desvios de um rei, seguindo, agora, um corpo de leis e representantes que atuam para o bem da sociedade, não há mais nada para o homem comum fazer, a não ser cuidar da sua própria vida, já que há alguém para cuidar de sua segurança, criando leis que impeçam que hajam excessos na sociedade. Dentro da perspectiva de Kant, no entanto, isso acaba sendo nocivo, pois a participação dos homens nos debates e no pensamento é minada pelo comodismo de uma vida em que suas atitudes, no plano da razão, estão na mão de outro.

Voltando à análise do texto, Kant afirma que a liberdade é fazer o uso público da sua razão, mas que esta é ameaçada pelo momento contrário que desmotiva que isso ocorra. Mas, o que seria uso público da razão? Ele explica: “Por uso público da razão entendo aquele que qualquer um, enquanto erudito, dela faz perante o grande público do mundo letrado[3]”. Existe também o uso privado da razão, que Kant coloca como o uso da razão em um cargo público ou em alguma função específica.

Ocorre que, em muitos casos, os assuntos de interesses de todos acabam sendo resolvidos de forma passiva, sob a forma de uma “unanimidade artificial”, tendo a orientação do governo, causando o impedimento de raciocinar e, mais, apenas e tão somente obedecer ao que foi definido. Ele ressalta que não é possível a insubordinação ou não-cumprimento das normas ou leis estabelecidas, mas que faz sentido que se as questione, de forma erudita, por meio de escritos, dirigindo-se a um “público genuíno”, declarando sua insatisfação sobre determinado tema. Como esclarecimento, este seria um uso público da razão, enquanto que, uma palavra de um professor sobre qualquer tema seria um uso privado, por se tratar de um público restrito e direcionado.

O papel de um governante seria o de tornar o povo livre para pensar e escolher seus próprios caminhos, no que diz respeito à consciência, principalmente quando o tema é religião, já que, como diz Kant, nas ciências e nas artes, os governantes não desejam exercer tutelas sobre seus governados, sendo a tutela religiosa mais prejudicial e até desonrosa. Sendo assim, “um príncipe que não acha indigno de si dizer que tem por dever nada prescrever aos homens em matéria de religião, mas deixar-lhes aí a plena liberdade, que, por conseguinte, recusa o arrogante nome de tolerância, é efetivamente esclarecido e merece ser encomiado pelo mundo grato e pela posteridade como aquele que, pela primeira vez, libertou o gênero humano da menoridade, pelo menos por parte do governo, e deu a cada qual a liberdade de se servir da própria razão em tudo o que é assunto de consciência[4]”.

O autor afirma, ao dizer que sua época ainda não era uma “época esclarecida”, apesar de já se viver num período do Iluminismo: “Falta ainda muito para que os homens tomados no conjunto, da maneira como as coisas agora estão, se encontrem já numa situação ou nela se possam apenas vir a por de, em matéria de religião, se servirem bem e com segurança do seu próprio entendimento, sem a orientação de outrem[5]”. Isto é, o caminho para se desvincular do outro, principalmente dos clérigos, símbolos da supremacia eclesiástica na “era das trevas” ainda parecia árduo.


[1] Kant, Immanuel: A Paz Perpétua e Outros Opúsculos. Lisboa: Edições 70, 2004. Página 11.

[2] Idem, p. 11-12.

[3] Idem, p. 13.

[4] Idem, p. 17.

[5] Idem, p. 17.

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