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Archive for novembro \28\UTC 2009

Quadrinhos de Um Sábado Qualquer narra criação do universo com humor

Aproveito que hoje é sábado para indicar um blog de quadrinhos fantástico que conheci por algumas retuitadas no Twitter. Trata-se de Um Sábado Qualquer, feito pelo designer e ilustrador Carlos Ruas, que aborda a criação do mundo de uma forma bem humorada, através de tirinhas curtas e muito bem sacadas.

O blog tem cerca de 15 mil acessos diários com tiras engraçadíssimas, feitas de “uma forma fofinha”, como comenta Carlos Ruas em entrevista à CBN, que blogo abaixo. Outra coisa interessante é que as tiras seguem uma ordem cronológica da criação do universo, como se estivéssemos “lendo” a Bíblia, pelo menos na semelhança dos temas tratados no livro.

Os personagens principais são, claro, Deus, o Diabo (chamado hilariamente de Luciraldo), Adão e Eva. Mas além desses, as tirinhas também possuem outros personagens, como o naturalista inglês Charles Darwin e o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Para ir direto nas tiras desses dois pensadores, clique aqui e aqui. Vale a pena.

Para conhecer o site, acesse: http://www.umsabadoqualquer.com.

Para ouvir a entrevista com o criador do blog, Carlos Ruas, vá ao site da CBN, clicando aqui!

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18 Brumário de Luis Bonaparte

Mais um texto do curso Modalidades do Pensamento Político Moderno. A discussão ddesta semana girou em torno do “18 Brumário de Luis Bonaparte”, de Karl Marx.

Esta obra de Marx trata a respeito da conjuntura social, política e econômica da França no período em que Luis Bonaparte assume o controle do Estado por meio de uma eleição (1848) até a consecução de um golpe de Estado (1851) pelo próprio mandatário. Vários temas podem ser observados nesse livro e que são importantes dentro do contexto da obra do autor, tais como: teoria das lutas de classes, a revolução proletária, a doutrina do Estado e a ditadura do proletariado. Mas o objetivo da obra é analisar os fatores históricos e sociais que propiciaram a tomada do poder por Bonaparte de forma tal que seu modelo de Estado autoritário seja base de análise de outros Estados semelhantes nos dias de hoje.

A análise parte da revolução proletária e 1848 que foi frustrada e esmagada pelo exército, através de uma aliança burguesa com a aristocracia francesa. Mas, antes desse fim trágico, abordemos as condições de sua breve vitória, o “período de fevereiro”, que vai de 24 de fevereiro (quando da queda de Luís Felipe) até 4 de maio de 1848 (quando da instalação da Assembléia Constituinte): é a época que Marx chama de “prólogo da revolução”, onde todas as decisões tem caráter provisório, ocorrida após a fuga da monarquia e a condescendência do exército que não se opôs ao levante, tornando-se lógica a criação de uma República. E já que eram os proletários que conseguiram conquistá-la (apesar de terem iniciado com apoio da burguesia, que almejava tomar o poder do monarca e derrubar a aristocracia financeira), eles deram o nome de República social: “Indicava-se, assim, o conteúdo geral da revolução moderna, conteúdo esse que estava na mais singular contradição com tudo que, com o material disponível, com o grau de educação atingido pelas massas, dadas as circunstâncias e condições existentes, podia ser imediatamente realizado na prática[1]”.

No entanto, Marx revela que todos os grupos que fizeram parte da Revolução de Fevereiro tiveram seu quinhão no governo, provocando vozes diversas e contraditórias dentro de um processo que, a bem da verdade, não se sabia onde ia dar, principalmente porque os proletários não tinham em mente o que fazer com aquilo. Enquanto isso, os velhos grupos derrotados temporariamente estavam se agrupado para uma contra-ofensiva para por no chão os trabalhadores e retomar o poder, o que de fato ocorreu e desembocou no que o autor chama de segundo período, de 4 de maio de 1848 até o fim de maio de 1849, em que a República burguesa é constituída.

A vitória da burguesia – e o conseqüente massacre aos trabalhadores insurretos – teve entre seus aliados a aristocracia financeira, a burguesia industrial, a classe média, a pequena burguesia, o exército, o lumpen-proletariado, intelectuais de prestígio, o clero e a população rural – o que acabou por se congregar num partido único, o Partido da Ordem. O que indica, sob o ponto de vista dos trabalhadores: “sempre que uma das camadas sociais superiores entra em efervescência revolucionária o proletariado alia-se a ela e, conseqüentemente, participa de todas as derrotas sofridas pelos diversos partidos[2]”. Essa derrota proletária evidencia outro item, ainda mais importante, segundo Marx, de que “República burguesa significava o despotismo ilimitado de uma classe sobre as outras”. Ou seja, o central aqui é o tema da luta de classes no cerne da análise de Marx, não apenas de uma vitória de um grupo sobre o outro, mas de uma classe sobre a outra, sendo que o resultado desta disputa é que vai condicionar o tipo de governo, Estado, Constituição a serem elaborados, privilegiando a classe vencedora.

Esse justamente vem a ser o problema a seguir, pois, a partir da vitória das velhas forças da sociedade, a preocupação agora é criar uma Constituição, por meio de uma Assembléia Constituinte, que atenda aos interesses vários do Partido da Ordem, encabeçado pela burguesia, promulgando todas as liberdades para os “amigos da ordem”, sendo vedadas as liberdades “aos outros ou permitindo o seu gozo sob condições que não passam de armadilhas policiais, isto é feito sempre, apenas no interesse da ‘segurança pública’, segurança da burguesia, como prescreve a Constituição[3]”. O problema é que de um lado há os representantes eleitos por sufrágio universal para compor uma Assembléia Nacional “que desfruta da onipotência legislativa”, sendo que do outro está o presidente, Luis Bonaparte, com “todos os atributos do poder real, com autoridade para exonerar seus ministros independente da Assembléia Nacional”, com toda a verba disponível para realizar a governança sem a participação do Legislativo, evidenciando um problema sério na divisão de poderes da Constituição francesa à época, o que vai facilitar a realização do golpe de Estado pelo próprio Luis Bonaparte, em 1851. Isso porque, “enquanto a Constituição outorga poderes efetivos ao presidente, procura garantir para a Assembléia Nacional o poder moral[4]”, o que, em termos práticos não garante nada, além de poderes máximos ao mandatário.

Essa disputa pelo poder via Constituição vai desembocar, justamente, no Golpe de Estado de Luis Bonaparte, tornando o governo despótico da burguesia num despotismo único, do velho novo imperador Bonaparte, agora III. Isso porque houve um embate entre monarquistas e os republicanos burgueses a respeitos das leis orgânicas suplementares à Constituição, casos de lei do ensino, culto religioso, sendo importante, na visão dos monarquistas, que eles próprios elaborassem essas leis, evitando que os republicanos as escrevessem. Contribuiu também para o encurtamento da Assembléia Constituinte, a discussão sobre uma lei sobre responsabilidade do presidente da República, que estava sendo escrita na Assembléia, mas, antes desta ser colocada em prática, Bonaparte fez o conhecido golpe de 2 de dezembro de 1851, impedindo que ele fosse submetido também a regras constitucionais.

A tomada do poder definitivo por Luis Bonaparte encurrala os burgueses republicanos, que não tem mais saída, por viver sob o jugo de um déspota que, mesmo garantindo a aparência da Assembléia Nacional e a Constituição, impõe a força para fazer valer suas predileções e objetivos, como no caso da reeleição de seu mandato, impossível pela Constituição, mas que, com a votação na Assembléia se tornaria factível, mas sendo necessário o apoio dos burgueses para a confirmação desta mudança constitucional. Só que, caso se opusessem, impulsionariam Bonaparte a um novo golpe para permanecer no poder; caso legitimasse a eleição, se colocariam em má posição, acabando, pois, reféns do próprio golpe imposto aos proletários, anos antes, como bem destaca Marx: “No Parlamento a nação tornou lei a sua vontade geral, isto é, tornou sua vontade geral a lei da classe dominante. Renuncia, agora, ante o poder executivo, a toda vontade própria e submete-se aos ditames superiores de uma vontade estranha, curva-se diante da autoridade. (…) A França, portanto, parece ter escapado ao despotismo de uma classe apenas para cair sob o despotismo de um indivíduo e, o que é ainda pior, sob a autoridade de um indivíduo sem autoridade[5]”. Ou seja, o uso da classe trabalhadora pela burguesia proporcionou que alçasse espaço em um governo que não desejava o proletariado e que acabou por suplantá-lo através de um golpe, colocando-a, por sua vez, no cabresto de um governo despótico, revivendo os tempos da Monarquia, ou seja, um grande passo atrás, não só para os proletários, que se viram sozinhos após o massacre em 1848, mas principalmente para a burguesia, que apostou em uma aliança com os monarquistas e a aristocracia financeira, membros de um regime anterior que almejava revivê-lo e viram em Bonaparte o personagem para a concretização desse objetivo, derrubando os burgueses em um momento oportuno.


[1] Marx, Karl. O 18 Brumário de Luis Bonaparte. São Paulo: Escriba, 1968. Página 23.

 

[2] Idem, p. 25.

[3] Idem, p. 31.

[4] Idem, p. 33.

[5] Idem, p. 129.

11ª Festa do livro da USP vai até sexta 27/11

Vai de hoje até sexta-feira (27) a 11ª Festa do livro da USP, com mais de 100 editoras e cerca de 15 mil títulos a preços bem mais em conta que nas livrarias. As editoras prometem desconto mínimo de 50% para as mais diversas obras, estando contempladas não apenas antigas, mas também lançamentos. O acesso é gratuito.

O horário é das 9h às 21h no saguão do prédio da Geografia e História da USP (Av. Professor Lineu Prestes, 338 – Cidade Universitária – São Paulo – SP).

Banner do evento (Ilustração: Edusp)

 

Com informações do spmetropole.

Democracia na América

Retomo a publicação de textos do curso Modalidades do Pensamento Político Moderno. Esta, uma resenha muito singela e pobre de alguns pontos específicos da obra “Democracia na América”, de Alexis de Tocqueville, discutidos na semana passada.

A obra de Tocqueville analisa as origens da Revolução Americana e seus efeitos, para entender como se deu a constituição da democracia como tal naquele país, como uma proposição de estabelecer um comparativo com o que estava em andamento no continente europeu, mais especificamente na França, sua terra natal. Ele enxerga proximidades entre França e EUA, mas vê peculiaridades que caracterizam a sociedade democrática americana em desenvolvimento que não poderiam ser igualadas na Europa, pois ambos são muitos diferentes um do outro.

De início é possível perceber o deslumbramento de Tocqueville com a sociedade americana com “igualdade de condições”, partindo de que todos os membros da sociedade são socialmente iguais, sendo este seu foco, já que economicamente ele crê ser impossível a igualdade. Isto é, a característica desta sociedade democrática não é exatamente a igualdade pura e simples, mas a possibilidade de ascensão de classe, tanto de baixo para cima quanto o inverso. É uma igualdade de condições que cada cidadão possui para desenvolver-se, e que não é inferior na sociedade civil em relação ao Estado, influenciando os costumes políticos e das leis, abarcando todos e de todas as formas: “cria opiniões, faz nascer sentimentos, sugere usos e modifica tudo o que não é produtivo[1]”.

Um aspecto importante é a divisão que ele faz entre a revolução pacífica e a revolução violenta, sendo a primeira de caráter irresistível, avançada apesar dos esforços opostos, sendo, pois, não-humana, ou seja, ela acontece independentemente do que se faça. Em oposição a esta forma há a revolução violenta, que rompe com o passado e modifica o curso dos acontecimentos, sendo, pois, provocada pelo homem. Tocqueville afirma que a democracia é uma revolução social e não meramente uma forma de governo, se caracterizando por um processo histórico de igualização que está mais próximo da revolução pacífica e que acabou por vigorar nos EUA.

Outra questão importante é a ausência da aristocracia nos EUA, por se tratar de um Estado jovem na época, já que seu governo anterior era a representação monárquica da Grã-Bretanha, fazendo com que não houvesse esse agrupamento social, e, conseqüentemente, estando democracia nos EUA em estado puro. Em comparação com a França,e sta constituiu seu regime democrático após uma revolução violenta que buscou destruir justamente as instituições aristocráticas, basilares do período monárquico, que mantinham uma sociedade de desiguais, fundamentada em hierarquias fixas e num sistema fundiário que concentrava as terras entre os nobres (aristocracia) e, principalmente, à coroa. Mesmo com a derrubada dos aristocratas, alguns vícios permanecem, como Montesquieu cita a respeito da derrubada do Antigo Regime francês, em relação ao instauro de uma revolução burguesa e uma recaída ao sistema anterior por repetição de práticas e ausência dos expurgos necessários. Isso, de acordo com o raciocínio tocquevilliano, impossibilitaria uma democracia pura, que privilegiasse os princípios de igualdade de condições.

A liberdade no texto de Tocqueville é tratada no campo da liberdade política, ou seja, numa participação direta e sistemática da população, não meramente representativa. É o que em inglês e chama de self-government, ou, autogoverno, em que a sociedade age para se regular e estabelecer obrigatoriedades, padrões em relação a si mesma. Isto fica claro no fato de que o legislador que faz a regra também está vinculado a ela, isto é, a pessoa que participa das decisões e rumos do país também está sujeita às regras e leis criadas por ela mesma, ao contrário de um monarca que faz as leis para seus súditos cumprirem, estando este acima da lei, de tudo e de todos.

A questão da soberania é tema relevante na obra de Tocqueville, em que ele coloca que a soberania precisa ser limitada, para não pôr em risco a democracia, transformando o governo em uma tirania, com um poder ilimitado que acabaria por impedir a liberdade política citada acima. Aconteceria o que se chama de despotismo, cuja característica principal é a de indivíduos dispersos, já que eles consentiram a uma autoridade central a concentração de todos os poderes, tirando dos homens a atuação política, pois eles se sentem representados pelo déspota.

Tocqueville denomina essa forma de governo de despotismo democrático, justamente por conta desta especificidade que é esse consentimento dado pelos indivíduos, não sendo, por isso, opressivo, sem deixar de ser tirânico. O grupo ou o déspota, então, que recebeu esse poder, toma a voz da totalidade dos indivíduos, privando-os de participação política ativa, levando-os à condição de irreversível infância, de animais passivos, sem capacidade de desenvolvimento, acéfalos politicamente e socialmente.


[1] Tocqueville, Alexis de. La Democracia em América. México D. F.: Fondo de Cultura Económica, 1957. Página 01.

 

Descendo a Serra

Via Anchieta - Serra do Mar - SP - 02.11.09

Post atrasado, passei o dia indo daqui pra lá e de lá pra cá, com pouco tempo para internet. De qualquer forma, um a foto de uma viagem que gosto e fazer muito: descer a serra e ir para a praia, no litoral paulista. Esse dia foi um tanto maluco, um “bate-volta” no meio da tarde em pleno feriado rumo à Praia Grande.

Pela data, a Imigrantes estava fechada no acesso via SãoBernardo, o que fez seguir pela Anchieta mesmo, um trajeto mais difícil, lento, sinuoso, periogoso, mas lindo, com sua estrada feita contornando a Serra. Vale a pena o passeio, é sempre delicioso viajar, ainda mais por um percurso desse.

As férias estão chegando e eu não vejo a hora de ver cenário semelhante novamente. A excitação da viagem é simplesmente a melhor sensação das férias.

Boa semana!

“O Incidente” – Parte II

Hoje publico a parte II do conto. Só agora que notei que fiz a divisão errada, não cortei no meio, mas sim antes! Mané! Enfim… Bom proveito!

“O Incidente” – Parte II

No dia seguinte, ele se arrumou melhor e foi pro bar por volta das 15h, sob um sol de rachar, que fazia escorrer suor pela sua testa vermelha. Comprou um suco e esperou Jussara. Ela veio, já pelas 18h. Descia a ladeira e, em frente ao boteco, acenou discretamente para Zé Fernando, que, levantou-se e foi em direção a ela, e disse: “Quer tomar um suco comigo?”. A pergunta, surpreendente, assustou a tímida jovem, que se esquivou e recusou o convite: “Tenho que ir para a casa agora, estou cheia de coisas para fazer”, respondeu, apesar de saber que ia passar a noite assistindo novela e ouvindo reclamações de sua mãe. Mesmo assim ela foi, apressando o passo. Zé Fernando se irritou e berrou para o dono do bar: “Troca essa merda de suco vagabundo por uma pinga agora mesmo”, exclamou, abandonando seu corpo à cadeira.

A partir dali, desandou de vez. Ia para o bar logo cedo e não saia dali enquanto não fosse carregado para casa. Sentava-se com a cadeira para o lado oposto da rua onde poderia passar Jussara. Via agora uma rua calma, repleta de caminhos de madeira, com árvores em tamanho médio, de não mais que dez anos de vida. Parecia se fixar num pé de amora. O dono do boteco deixava o pobre infeliz afundar na inércia de suas mágoas até meia-noite, quando não agüentava mais e fechava o bar, empurrando o bêbado para a calçada. “Zé, tá tarde. Preciso sair e já faz uma hora que devia ter fechado isso daqui. Vai pra casa hômi”.

Tropeçando em lamúrias, Zé ia sem falar uma palavra, sem mexer um músculo da face. Seus parentes não entendiam o que acontecia. Francisco só resmungava, praguejando para que o bebum fosse embora. Isabel, preocupada com o irmão, não recebia respostas dele e se desesperava: “mas ele tinha parado de beber pinga. Mal bebia cerveja. Por quê?”, indagava, em vão. Maria morria de medo e se trancava no quarto, indo dormir só quando o tio se estatelava no sofá. Temia que ele quebrasse a casa ou algo do gênero. Já se passavam 13 dias e a situação continuava insustentável: da casa para o boteco, de lá para a casa, com o fedor de pinga e de suor aumentando, já que ele não tomava banho há dias. Zé não percebera, já que sentava de costas para a outra rua, mas Jussara, desde o “incidente”, não passara mais por ali.

No décimo quinto dia Pedro tentou fazer com que Zé desistisse de curtir essa dor e falou: “Rapaz, já faz seis dias que a moça não passa por aqui. Esquece isso, volta pra e toca a tua vida!”, recomendou, de um jeito veloz e difícil de entender, típico dos moradores daquela região. Mas funcionou. Naquele momento acendeu uma luz sobre a cabeça do pobre homem que se maltratava por causa daquela mulher. Levantou-se, jogou a pinga longe e foi pagar Pedro, que se assustou com o movimento brusco e inesperado de Zé, mas ficou aliviado por se livrar de um homem “que vai se matar se continuar assim e ainda acabariam me culpando”, pensou. Ele comemorou em um grito: “Isso mesmo Zé, toma rumo na vida”, disse. Zé pagou a conta e cumprimentou o dono da espelunca com um aceno de cabeça. Quando virou-se para descer os degraus e pegar o caminho da calçada ficou branco de susto. Jussara passara naquele instante pela rua, mas, ao contrário de antes, olhando para Zé com rosto piedoso. “Mas o velho Pedro garantiu que ela não tinha passado mais aqui”, pensou Zé, espantado com o que via, enquanto Jussara atravessava a rua e ia até ele.

“Zé, eu queria te dizer uma coisa”, iniciou o diálogo a moça, com a voz agitada. “Eu fiquei sabendo o que você fez depois daquele dia que conversamos. Se tu num sabe, sua irmã é amiga da minha tia”, continuou. “Quero que você pare de encher a cara, senão eu acabo me sentindo culpada”, disse. “Mas a culpa é sua mesmo”, retrucou Zé, amargurado. “Eu só te chamei para um suco e você me destratou daquela forma”. “Zé, e lá isso é desculpa pra encher a cara e viver caindo pela calçada?”, indagou Jussara, implacavelmente. “É sim”, devolveu Zé. “É porque eu gosto d’ocê, Jussara”, completou. A moça permaneceu imóvel diante dele por alguns segundos, num silêncio devastador, quebrado apenas pelo farfalhar de algumas folhas de árvores e pelo canto distante de um passarinho. “Mas hômi de Deus, a gente nunca conversou direito. Tu me viu uma ou outra vez. Como pode?”, perguntava Jussara, perplexa. “Não sei, só sei que foi assim. E se você veio aqui só pra passar sermão é bom tomar seu rumo, porque isso não ta ajudando em nada”, respondeu Zé, que complementou: “E fique a senhora sossegada que eu vou embora amanhã mesmo, assim deixo esse fim de mundo de uma vez”. Nesse momento, Jussara fez uma expressão que se assemelhava com algo muito triste que tivesse ouvido naquele segundo. “Eu preciso voltar mesmo ao batente na capital e aqui não consegui descansar nem um pouco”. E assim, Zé partiu para a casa de seus parentes, sem se despedir da amada que o rejeitou. Jussara, enquanto isso, permanecia em pé na frente do bar, sentindo uma leve ponta de arrependimento brotar-lhe no peito.

Zé chegou na casa da irmã, tomou banho, jantou com todos, sem pronunciar uma palavra, até arrumar as malas, quando declarou: “Amanhã à noite eu pego o ônibus das nove da noite, vou voltar porque ta na hora de trabalhar”. A fala miúda de Zé assustou os presentes, ainda mais que o banho tomado e o jantar com eles. “Vai mesmo, Zé? Melhor pra ti guri”, falou Francisco. “Que bom”, exclamou Maria. “Resolveu seu problema, Zé?”, questionou Isabel. “Sim mana, apesar de não ter descansado o que devia, to pronto pra tocar minha vida novamente”, respondeu.

No dia seguinte, Zé acordou bem cedo e com toda a disposição. Cumprimentou a todos da casa , tomou café e foi pra banca pegar um jornal. Voltou pra casa, leu e passou o resto do dia assistindo televisão, passando pela primeira vez o tempo todo em casa. Só lá pelas seis tarde saiu da casa, quando era possível notar o cair da tarde da cidade interiorana, onde ainda é possível ver o céu com clareza, suas estrelas surgindo em meio às violáceas e rosáceas que pintam um quadro belo no céu. Passou no bar do Pedro para comprar um Plaza e se despedir do dono. Na saída, foi surpreendido pela aparição de Jussara. “Oi Zé, precisamos conversar”,iniciou o diálogo. “Não tenho nada para conversar, daqui três horas meu ônibus parte”, retraiu. “Eu sei. Por isso mesmo”, retrucou Jussara. “Então diz logo, diacho”, zangou-se Zé.

Jussara, então, respirou fundo e começou: “Eu gostei de você desde o primeiro dia que te vi”, disparou, fazendo Zé dar um passo para trás, assustado. “Eu passava de cabeça baixa, com medo que me apaixonasse por você. Mas não agüentei e, pelo menos, acenava para ti, até que você resolveu falar comigo”, disse, prosseguindo. “Eu queria muito tomar aquele suco com você, mas eu já sou comprometida, você se esqueceu de saber disso. Meu namorado mora longe e ta viajando. Mas logo ele volta para a gente casar”. Continuava Jussara, dilacerando, em palavras, o coração puído de José. “”Eu gosto muito dele, que foi sempre muito bom comigo. Mas e você? Vem aqui, com data marcada pra voltar, vida resolvida muito longe daqui, com amigos, família, trabalho. E eu também tenho tudo isso aqui, mas com uma realidade muito diferentes da sua. Que história isso ia dar?”, perguntou Jussara. Mas Zé não conseguia balbuciar uma sílaba sequer, ficando paralisado em frente à amada. “Então eu parei de passar aqui, mas senti remorso quando soube de sua bebedeira. Sinto que parta agora, mas talvez seja melhor, antes que essa história acabe mal”, prosseguiu, enquanto uma lágrima despencava da bochecha esquerda de Zé. “Eu só queria esclarecer tudo e falar pra você que adorei saber que se interessou por mim, mas não posso abandonar tudo que tenho aqui por você, pois sei que você acabaria pedindo isso, todos que vêm da cidade grande pedem isso”, finalizou Jussara, dando um beijo no rosto de Zé, antes de ir pra sua casa.

O pedreiro em férias, recuperado de alguns minutos de torpor, se recompôs e foi pegar suas malas, sem dizer mais nada até chegar à rodoviária, levado pelos parentes. Zé agradeceu a estadia, pediu desculpas pelos incômodos e se despediu deles. Ao sentar no banco sentiu um aperto no coração, enquanto algo parecia ser empurrado de baixo para a cima até à garganta. Francisco e Isabel acenavam  do lado de fora, respondidos por Zé, durante aqueles angustiantes segundos de espera até o ônibus partir. Quando os pneus do veículo começaram a rodar rumo à estrada, a vizinha de banco de José se estranhou ao perceber algumas lágrimas do rapaz. Zé, por seu turno, sentia que aquela pressão na garganta desaguava pelos seus olhos, enquanto uma dor indescritível machucava-lhe a alma. Sua visão, embaçada pelo choro, via a escuridão da mata refletida no céu, entrecortada por algumas estrelas e por reflexos negros das nuvens e da mata rasa. A certeza de que nunca mais veria Jussara doía-lhe fundo. E essa imagem bucólica da noite daquela cidadezinha do interior trazia ainda mais tristeza, pelas lembranças e pela saudade que a viagem cravaria em seu coração pelo resto de seus dias. Após esses instantes de desalento, José tampou a janela com as cortinas e pôs-se a dormir, como se isso fosse fazê-lo esquecer de tudo, enquanto que uma cantiga de amor pulsava em seu velho radinho.

“O Incidente” – Parte I

Olá.

Hoje o dia foi bastante complicado (quem me acompanha pelo twitter sabe bem disso), então fica difícil ter tempo para pesquissar alguma coisa interessante para publicar aqui.

Mas, cavucando nas minas dos meus alfarrábios, eis que acho um conto que acreditava já estar publicado aqui. Trata-se de “O Incidente”, escrito lá pelos idos de 2007 e tem muita relação com A Partida, já publicado no blog (clique no nome do conto para lê-lo).

Ambos recebem influência muito forte de uma viagem a passeio que fiz no fim de 2006 e início de 2007 pelo Paraná, passando alguns dias em Umuarama (noroeste do Estado) e a capital Curitiba. Os cenários, as pessoas, os ritmos, enfim, a vida desses dois lugares interessantes, cada um a seu modo, me inspiraram a escrever esses dois contos, que tratam de amor, amizade, dor, desilusão, e, de certa forma, falam de esperança.

No caso de “O Incidente”, recordo-me que não havia colocado no site por ser extenso e um tanto cansativo. Daí que agora ocorreu-me esta idéia de dividi-lo (de forma aleatória, pela metade nas páginas do Word) para facilitar a leitura. Vamos ao conto! Amanhã tem a segunda parte. Espero que seja do agrado de quem frequenta este espaço. Até mais!

“O Incidente” – Parte I

José Fernando estava na cidade havia cinco dias. Foi visitar alguns parentes que não via há anos. Depois de muito tempo brigado com Francisco e Isabel (tio e irmã, de José, respectivamente) por um motivo que ele nem lembrava mais, as mágoas passaram e eles o convidaram a passar alguns dias na pequena cidade interiorana, há léguas de distância da capital. José Fernando achou de bom grado, pois havia anos que não tirava férias da construção civil desde que pegou aquele hospital público que nunca terminava. Mas, enfim, acabou e ele pôde descansar alguns dias, antes que a próxima obra começasse.

Rumou para lá com uma mochila, uma muda de roupa enfiada de qualquer jeito, três maços de cigarro Plaza e uma garrafa de pinga que era retirada a todo instante para o deleite de seu dono. Isso sem falar no seu inseparável radinho de pilha, permanentemente grudado ao ouvido. Assim, ele pegou o ônibus no maior terminal da cidade e desembestou pela estrada adentro. “Lugar que não chega nunca, diacho”, reclamava José, após 5 horas de viagem, entre um gole e outro de sua aguardente. “Boa para danar”, costumava elogiar seu líquido, vindo de uma cidadezinha distante em outro Estado.

No entanto, o trajeto para o interior era muito longo mesmo: cortava três Estados e passava por mais de 20 cidades. Ia demorar umas 20 horas. “Raio de estrada que num muda. Só vejo mato e boi em tudo que é lado”, resmungava a cada meia hora para a pessoa do banco ao lado, que mal agüentava seu bafo de cana. Nas seis paradas da viagem, ele só descia para urinar, fumar seu cigarro e esticar seu joelho esquerdo que costumava atormentá-lo quando passava muito tempo em pé ou sentado.

Francisco, Isabel e Maria, filha de Isabel, o esperavam na minúscula rodoviária da cidade, que mais parecia uma praça, situada num círculo, com comércio, invariavelmente botecos, no centro e vários espaços para os ônibus estacionarem, mesmo que parasse apenas um ônibus por dia dali. O resto servia mais para estacionamento de carros e parada de intermunicipais. Finalmente, o ônibus de José Fernando chegou: “Êta, pessoar!. Ceis não mudaram nada hein”, disse, em tom brincalhão, típico do interior, para provocar seu tio, enquanto tropeçava em seus próprios pés, quase caindo pela bebedeira do percurso. Francisco pegou a mochila e deu um suspiro de arrependimento. Isabel ajudou a erguê-lo e Maria não entendia, nada, já que era muito nova quando viu o tio pela primeira vez. “Já chega bêbado Zé? Assim fica difícil”, exclamou Francisco.

Chegando em casa, depois daquela conturbada recepção, Zé foi para o banheiro meio a contragosto. Refeito, Francisco, Isabel e Zé conversaram para acertar os ponteiros definitivamente, deixando, contudo, a situação na mesma: Francisco não gostava muito de Zé e Isabel só o admitia em sua casa porque era irmão. E Zé sabia de tudo isso. Mesmo assim, resolveu ficar, pelo menos uns dias para esfriar a cabeça do ano duro que tivera. Já estava com 35 anos, trabalhara muito e não tinha tempo de sair, muito menos se divertir. Sozinho há dois anos, não conseguia se sentir atraído por nenhuma moça do bairro onde morava. Meio que inconscientemente, decidira ficar só por um tempo, depois de sua relação frustrada com Dorinha, a faxineira que foi sua vizinha por quatro anos.

Zé estava há cinco dias e não entendia o porquê. Achava que três dias eram o bastante. Não tinha nada para fazer ali. Acordava às 10, tomava café preto e comia pão com manteiga. Botava sua roupa e saia a perambular pelas ruas tranqüilas da cidadezinha. Tranqüilas porque não tinha uma viva alma nas calçadas, nem carros pelas vias. “Fim de ano é sempre assim. Todo mundo que pode foge daqui”, contava Maria para o tio. Depois de caminhar, ler jornal, bater papo com algum senhor de idade prostrado na pracinha, Zé retornava à casa para almoçar e tirar uma soneca de umas duas horas na rede que fica nos fundos. Só lá pelas quatro horas, sol ainda forte, ele ia para um boteco próximo tomar cerveja (tinha parado com a pinga, mas “descontava” tudo na cerveja) e fumar seu Plaza.

Passava pelo menos umas quatro horas por ali, olhando absorto para o nada, sem ninguém para conversar, apenas seu radinho de pilha, que lhe evitava a solidão. Pensava na vida enquanto ouvia as modas de viola e as canções “dor de corno” da rádio local. Nada o fazia mover dali. E cerveja atrás de cerveja passava pela mesa dele. No fundo, ele sabia a causa, tanto de sua permanência estendida na cidade quanto de suas bebedeiras, que acabavam lá pelas oito da noite, céu quase todo revestido de negro, quando ele resolvia ir embora, jantar, tomar banho e dormir, sem quase falar com seus parentes.

O motivo para aquilo tudo era Jussara, moça de idade semelhante a de Zé. Jeito simples, pouca instrução, mas de beleza rara. Tez branca, olhos e cabelos negros bem escuros. Tinha estatura mediana e cintura fina. Bem diferente de Zé: alto, cabelo castanho, magricela de dar dó, mas com uma barriga saliente e um pouco mais de estudo. Ela passava por aquela rua todos os dias, voltando de seu trabalho como costureira numa fábrica perto de sua casa. Descia a rua vazia com aquele ar tristonho da solidão, mas bela. Mas como ela não o conhecia, nem o cumprimentava. Seguia de cabeça baixa para casa, sempre com pressa, com um certo ar amedrontado. Apenas após o quarto dia, de rito semelhante, e, percebendo a simpatia do rapaz que bebia no bar e sempre a olhava com um sorriso no rosto e levantava o chapéu, ela reparou e resolveu dizer um “olá, boa tarde” ao desconhecido. Já tinham se passado oito dias pensando o porquê de estar ali remoendo sentimentos, enquanto a moça o cumprimentava educadamente, Zé resolveu agir.

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