Archive

Archive for outubro \30\UTC 2011

Rock Brasília

Ontem assisti o documentário “Rock Brasília – Era de Ouro”. Muuuuito bom! Legal a história sendo contada pelos caras que a construíram. As melhores participações foram do Dado Villa-Lobos (com uma desenvoltura poucas vezes vista), Renato Russo (Vladimir Carvalho parecer ter escolhido de propósito os trechos mais engraçados da entrevista para a MTV, tirando um pouco da carga negativa que paira sobre o Renato, um “poeta sofrido”), André Mueller, e o Phillipe Seabra, que foi até Patos de Minas, reconstituir o primeiro show da Legião Urbana, quando todos os integrantes da Plebe e da Legião foram presos ao final da apresentação. A história é muito engraçada.

Aliás, os melhores momentos foram os que procuraram reconstituir alguns momentos importantes da história daquele período, como o fatídico show da Legião Urbana de Brasília em 1988, que ocorreu um grande tumulto, brigas, invasão de palco, feridos*. Aliás, penso eu, e o biógrafo do Renato Russo atestou isso no documentário, que aquela apresentação foi um divisor de águas na carreira da banda. Ali eles tiveram a exata dimensão de que eles estavam grandes demais e o erro naquele dia foi não saberem disso e contar com uma estrutura falha e algumas atitudes de palco do Renato criticáveis, de enfrentamento com o público.

Outro aspecto interessante foi o de trazer os pais dos músicos para dar um contexto histórico ao documentário, falar do porquê aquelas famílias foram parar em Brasília, porque é importante inserir o surgimento daquele cenário dentro do contexto da criação de Brasília décadas atrás, que levou milhares de pessoas para morarem lá, tal e qual a canção “Faroeste Caboclo” indica. Inclusive, o filme tem esse mérito de sempre contextualizar os momentos e as ações daqueles jovens punks, que depois viraram artistas consagrados, e mais tarde viveriam a decadência de suas carreiras, com o momento político e econômico do país – tendo, claro, a ditadura militar como um elemento importante daquela ebulição rock. Sem teorizar muito, sem trazer sociólogos, antropólogos, historiadores. Tudo saído pela boca dos próprios músicos e de seus familiares, dando um pano de fundo interessante do momento que o país vivia.

No entanto, creio que o fato de não teorizar o documentário – e essa foi uma aposta do diretor, não torná-lo tão didático, nem definitivo -, o espectador precisa ter alguma bagagem cultural, algum conhecimento de história brasileira para entender algumas informações e conexões que o documentário faz por meio de seus entrevistados. Alguns momentos não são tão simples de compreender. Mas como todo brasileiro tem obrigação de conhecer a história de sua nação (ah, doce utopia), acho que isso não é um problema.

Tudo isso, apesar da concepção bem lado B do projeto, com microfone aparecendo, o entrevistador sendo personagem do documentário, surgindo o tempo todo, de costas ou falando diretamente para a câmera. Algumas cenas improvisadas, sem cortes. Enfim, a forma como o documentário é conduzido e produzido é fiel ao que ele retrata. Se o rock de Brasília surgiu naquela do “faça você mesmo”, o documentário é meio que uma extensão daquilo, com imagens de Super 8 e muita improvisação. Mas não acho que isso comprometa o produto final, apenas que, em uma análise mais técnica, realmente o processo deixa um pouquinho a desejar.

Um problema, um pouco mais sério, foi a tentativa frustrada de tentar contar a história das três principais bandas daquele cenário após-Brasília. Não creio que ele conseguiu, de forma satisfatória,  pontuar historicamente a história da Legião, Plebe e Capital. Como eu conheço mais a história da primeira banda, consegui compreender o resumo feito no filme. Mas a história que os entrevistados contaram nas outras duas bandas não formou um material compreensível em sua totalidade, ficaram alguns buracos. Por exemplo, o Dinho falava de determinado álbum, mas não se sabia de que ano ele falava e uma legenda resolveria isso facilmente. Só quem é fã pra saber a discografia de cabeça.

Mas, no geral, o filme cumpriu o seu papel de contar as raízes históricas do rock de Brasília, que precisava mesmo ser contada, de tão rica que foi e com reverberações que alcançam as pessoas até hoje. Foi um bom resumo da história do rock de Brasília, um documento arqueológico em muitas vezes, antropológico noutras.

* Corrigido 07.11.2011, as 12h23

%d blogueiros gostam disto: