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Archive for dezembro \15\UTC 2011

A imagem no documentário Face Leste

Hoje apresentamos o último post no Blog da Bonita sobre o documentário Face Leste, que terá seu lançamento, em conjunto com o livro, no próximo sábado, dia 17, às 20h, na Capela São Miguel Arcanjo, em São Miguel Paulista.

O foco deste post direciona-se para a questão estética e imagética do documentário. Se do ponto de vista teórico-conceitual temos a predileção pelas pessoas e suas impressões a respeito da Zona Leste, o ponto de vista do conceito imagético recai na figura de uma pessoa que decide passear pela Zona Leste para conhecê-la.

“Todos os planos de imagem, toda a estética do documentário foi pensada a partir do olhar dessa pessoa, tanto que todas as câmeras apresentam movimentos suaves. Às vezes nós procuramos mostrar a pessoa caminhando, mostrando seus passos pelos lugares, pois a gente queria passar essa sensação de andar na Zona Leste. E em alguns momentos o espectador está tão próximo que ele está atrás desse andarilho, por isso pegamos cenas da mochila, do ombro do viajante”, explica o diretor de fotografia do documentário, Theo Grahl.

Além de captar o caminhar desse cavaleiro errante que vaga pela Zona Leste até então desconhecida para ele, outra intencionalidade do vídeo é mostrar como ele se locomove pela região. E a equipe tomou ônibus, metrô e trem para tentar se aproximar mais da cotidianidade dos moradores dos bairros. Outro ponto foi contextualizar cada região por elementos que a identifiquem, caso da Basílica Nossa Senhora da Penha, a estação de trem em Guaianases ou mesmo a construção do estádio do Corinthians, em Itaquera, elemento que coloca agora a região em destaque.

Outro ponto importante e próprio é a respeito das entrevistas: “As entrevistas estão no tripé é porque é o momento em que o personagem senta pra conversar com a pessoa, então ele para para conversar. E a segunda câmera busca detalhes de onde a pessoa está, porque quando a gente está conversando a gente olha para o lado e observa o que tem à nossa volta, por isso, a gente vai passeando pelo lugar em busca desses olhares, tentando entender aquela pessoa”, conta.

E a imagem que o documentário passa a respeito Zona Leste, para Theo Grahl, é surpreendente. Isso porque, ele, como um não-residente da região, tinha uma percepção completamente diferente sobre. “Minha visão era um pouco preconceituosa. Mas era muito por não conhecer, por estar distante dela. E por mais que digam sobre a violência, eu percebi muita tranquilidade. Você vê aquele mundo de casas, principalmente da Penha para a frente, não é uma coisa caótica, por mais que pareça, mas caótica pela forma como ela foi ocupada e construída. Mas quando eu cheguei na Cidade Tiradentes me senti como se estivesse em uma cidade do interior, onde todos se conheciam, onde as crianças brincavam na avenida principal como se estivessem em uma ‘ruazinha’, enfim, como se fosse uma grande vila. Você vê uma familiaridade, uma proximidade entre as pessoas”, afirma, em um depoimento revelador de como a pesquisa e a imersão na realidade de um novo mundo modificaram completamente o seu pensamento. Nada como a vivência para quebrar estigmas e paradigmas.

Não se esqueça: sábado, dia 17, às 20h, na Capela São Miguel Arcanjo, o lançamento do livro e do documentário Face Leste!!!

Detalhes sobre o documentário Face Leste

Post publicado originalmente em: http://bonitaproducoes.wordpress.com/2011/12/13/detalhes-sobre-o-documentario-face-leste/.

Olá amigos. Voltamos com mais um post no Blog da Bonita, agora para falar especificamente sobre o documentário Face Leste. Se o livro procura focar o ponto de vista histórico da Zona Leste, ainda que contenha o depoimento de moradores e sua relação com os bairros da região, o documentário procura apresentar fragmentos e impressões a respeito da face leste da cidade, sob uma perspectiva poética. Para isto, parte exclusivamente do olhar das pessoas que ajudaram a construí-la e que demonstram um carinho todo especial por ela. E o nome do projeto surge justamente por se tratar de um recorte sobre a face leste do rosto de São Paulo.

“O documentário é uma produção sinestésica, de sentidos. O objetivo das entrevistas foi o de entender a experiência das pessoas e a partir das suas próprias experiências. Então quando eu entrevisto a mulher do Brás, eu não estou preocupado com a fundação do Brás, eu quero entender a relação dela com o Brás, mas, principalmente, com a Zona Leste. E a gente percebe é que essa relação é uma relação local. Muitas vezes quando as pessoas falam, elas tratam a Zona Leste como um bairro, não apenas como uma região. A visão deles é restrita ao bairro, aquele espaço onde eles moram, é por isso que a maioria demonstra um extremo carinho. O documentário, podemos dizer, é uma viagem que faz um retrato sensível e emocional da Zona Leste de São Paulo”, explica o diretor do documentário, Daniel Reis.

A pesquisa de personagens dos bairros ocorreu de várias formas. A primeira delas caminhou em parceria com o livro, em uma fase em que ambos os processos foram desenvolvidos em conjunto, com as pesquisas de campo do livro sendo acompanhadas e observadas pela equipe do documentário. Com isso, alguns dos entrevistados garimpados na fase inicial da pesquisa do livro acabaram sendo incorporados na produção do vídeo. Outros foram conseguidos em incursões pelos bairros ou por meio de indicações de amigos, associações de bairro, ou mesmo com o auxílio de ONG’s.

“A gente buscou personagens que falavam com o coração, que não se prendessem a uma teoria, que pudessem agregar sentimento e tivessem desenvoltura. E Guaianases é uma das histórias mais legais, que tem no centro o seu Benedito, que demonstra a força da comunidade. No local existia uma favela com umas casas, que acabaram sendo retiradas e o terreno, gigante, virou um lixão. E como naquele lugar não havia lazer nem qualquer outra infra-estrutura, as pessoas se uniram, limparam o lixão e o transformaram em um campo de várzea. Hoje lá têm campeonatos e também o local se tornou também um espaço de convivência entre os moradores daquela comunidade. Eles viram beleza onde não existia”, finaliza Daniel Reis.

Ainda esta semana traremos outro post tratando sobre o documentário Face Leste, mas de uma perspectiva mais imagética e estética do vídeo. Não perca!

E não se esqueça: sábado, dia 17, às 20h, na Capela São Miguel Arcanjo, o lançamento do livro e do documentário Face Leste!!!

Chegou o dia!

 

Chegou o grande dia! No próximo sábado, 17, lançamento do livro e documentário da Zona Leste!!! haverá a exibição do documentário e quem for ganhará um exemplar do livro! Compareça!

Curiosidades sobre o livro – Parte II

Segue mais um texto da série que estou produzindo sobre o projeto do livro Face Leste: revisitando a cidade, que escrevi para o pessoal da Bonita produções e que está em fase de finalização.

Post publicado originalmente em: http://bonitaproducoes.wordpress.com/2011/12/06/curiosidades-sobre-o-livro-parte-ii/.

Como prometido, estamos de volta com a segunda parte das curiosidades sobre os bairros que fazem parte do livro Face Leste: revisitando a cidade, que a Bonita Produções está fazendo em parceria com a Associação Cultural Beato José de Anchieta e a Prefeitura de São Paulo. Também faz parte do projeto um documentário audiovisual, que estaremos abordando aqui neste espaço em breve.

Se na semana passada o texto tratou de alguns dos bairros mais antigos da Zona Leste, hoje trazemos informações de alguns bairros mais recentes, mas que tiveram importância. São os casos de Itaquera e Guaianases, que tem uma presença maior de povoamento no fim do século XIX, e foram importantes para o contexto de crescimento de São Paulo por fornecerem matéria-prima para a construção civil por meio de suas pedreiras e suas olarias. Outro fator que possibilitou o desenvolvimento desses bairros até então longínquos foi a extensão da linha do trem que se dirigiu rumo ao Rio de Janeiro, cortando toda a Zona Leste.

Mas esses bairros – assim como Ermelino Matarazzo, São Miguel Paulista, Itaim Paulista, São Mateus, Aricanduva e toda a face leste da cidade – acabaram por ter um aumento da população a partir da segunda onda de urbanização e industrialização vivida por São Paulo, a partir dos anos 40 (mas que se intensificou nos anos 50 e 60 e se consolidou a partir dos 70), que impulsionou São Paulo em direção a uma grande metrópole e trouxe diversos de migrantes de várias regiões brasileiras para a capital paulista.

São Miguel Paulista e seus vizinhos viveram isso de forma mais presente com o complexo industrial da Nitro Química, que empregou milhares de funcionários e motivou vários mineiros, paranaenses, baianos, pernambucanos, e muitos outros, a rumarem ao desconhecido. Ermelino Matarazzo surgiu no entorno de uma fábrica de celofane do Conde Francisco Matarazzo. São Mateus surgiu a partir de um sonho de um italiano de criar uma região de nobre na Zona Leste, mas cresceu em torno do desenvolvimento da indústria automobilística do ABC e do pólo petroquímico de Mauá.

E com tanta gente migrando para essas áreas, faltou moradia para tanta gente, não é a toa que os movimentos populares de grande relevância na época se destinavam à luta por moradia, em um contexto de luta pela redemocratização do país, entre o fim dos anos 70 e boa parte dos 80, ainda sob a ditadura militar.

Nesse período foram criados os conjuntos habitacionais que foram insuficientes para adequar a gritante demanda por casas. Itaquera e Guaianases foram os locais que mais receberam casas e apartamentos da COHAB – parte de Guaianases que recebeu as construções foi transformada em Cidade Tiradentes posteriormente. Já o CDHU implantou imóveis no Itaim Paulista, principalmente, além de São Miguel e outras localidades.

Como foi possível perceber, a história da Zona Leste está ligada à história da migração dos brasileiros rumo às capitais e à luta por moradia. Mas é muito mais que isso, como o livro propôs pretende revelar. Há muitas histórias para contar, aqui é apenas um aperitivo do que queremos mostrar com o livro, na expectativa de que todos possam saborear as histórias, curiosidades e “causos” da face leste da cidade que a fazem ser esse verdadeiro – e rico – caldeirão de diversidade.

Curiosidades sobre o livro – Parte I

Segue mais um texto da série que estou produzindo sobre o projeto do livro Face Leste: revisitando a cidade, que escrevi para o pessoal da Bonita produções e que está em fase de finalização. Em breve, quando eu tiver informações sobre o lançamento, divulgo aqui. Por enquanto, conheça um pouquinho mais sobre a história do livro!

Post publicado originalmente em: http://bonitaproducoes.wordpress.com/2011/12/02/curiosidades-sobre-o-livro-parte-i/.

Hoje a gente traz no Blog da Bonita a primeira parte de um texto com algumas curiosidades sobre os bairros selecionados para o livro Face Leste: revisitando a cidade. A cada pesquisa iniciada, a cada leitura concluída, as informações iam brotando aos borbotões, e sendo agregadas ao material anterior, indicando um mundo gigantesco de histórias e possibildiades de abordagem para cada capítulo-bairro. E cada bairro, claro, com sua peculiaridade, revelando que a Zona Leste possui um mosaico complexo e heterogêneo, modificando um pouco o cenário cinza e único de pobreza e abandono, comum quando se faz comentários sobre a região. Mas, além de produzir uma diversidade social e cultural ricas, a Zona Leste também tem muita história.

A mais antiga delas remete aos primórdios da colonização brasileira e da fundação de São Paulo, ainda Vila de Piratininga. São Miguel Paulista foi um dos primeiros aldeamentos da cidade, e teve no seu fundador o valioso personagem religioso, o Beato José de Anchieta, partícipe da fundação de São Paulo. O aldeamento de São Miguel de Ururaí era estratégico no século XVI, principalmente por proteger a Vila de Piratininga dos ataques dos franceses, auxiliados pelos índios Tamoios, que vinham do Litoral Norte e ameaçavam atacar via Mogi das Cruzes.

Outra região antiga da Zona Leste é a da Penha, que surgiu a partir do fervor religioso em torno de Nossa Senhora da Penha, que foi a origem e o motor do bairro. As extensas procissões de fiéis até a região para venerar a santa proporcionou a formação do bairro que hoje é bastante tradicional na Zona Leste e até já foi sede do governo da antiga província de São Paulo, durante a revolução de 1924, quando o então governador Carlos de Campos se refugiou no bairro ante os ataques dos tenentes revoltosos. E até uma visita do então imperador Dom Pedro II no final do século XIX é fato de orgulho para seus moradores.

Esse período também foi marcante por conta da crescente imigração estrangeira, que trouxe italianos, portugueses, espanhois, japoneses e toda a sorte de imigrantes que vinham com o sonho de prosperar na farta terra brasileira. Muitos foram trabalhar na lavoura de café no interior paulista, em regiões como Jundiaí, e eram levados até lá de trem a partir do desembarque no Porto de Santos. E um dos pontos de recrutamento de imigrantes era na Hospedaria dos Imigrantes do Brás, que motivou o crescimento deste bairro, da Mooca, Vila Prudente e Pari na Zona Leste, além do Ipiranga, Lapa, Barra Funda, Bom Retiro, as regiões em torno da linha férrea, que receberam várias indústrias, em que muitos imigrantes que não se acostumavam com a lavoura acabavam por trabalhar.

Por agregar tantos operários, esses bairros também foram fontes de reivindicação por melhorias nas condições de trabalho e salário, sendo símbolo a Greve de 1917, que teve início na Mooca e produziu diversos progressos nas leis que foram formuladas nos anos seguintes, principalmente no governo Getúlio Vargas.

Uma peculiaridade interessante está na Vila Prudente ter sido fundada por uma família de italianos, que desejavam instalar uma grande fábrica de chocolate e confeitos e forjaram um bairro para fazer seu negócio dar certo.

Apesar da história do Tatuapé remontar ao século XVII, o bairro também abrigou indústrias, embora em um período posterior, o que propiciou um melhor desenvolvimento tecnológico, empresas mais avançadas e maiores. Isso vai proporcionar, anos mais tarde, uma condição especial na construção de empreendimentos imobiliários para muitas das famílias ricas e tradicionais do bairro, aproveitando os imensos galpões vazios das antigas fábricas, o que vai dar elevar o padrão de moradia e de moradores no Tatuapé em anos mais recentes.

Na semana que vem, a segunda parte desse texto repleto de curiosidades sobre os bairros da Zona Leste paulistana. Até lá.

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