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O que será?

Sentado no banco da praça, em frente à rodovia, ele observa o vai e vem dos carros, ônibus e caminhões, e pensa em como seria melhor sua vida se fosse um viajante itinerante, frequentemente perdido entre idas e vindas por cidades distantes, próximas, desconhecidas, irreconhecíveis, vazias, perdidas. Mas sempre novas e excitantes, por serem novas pra ele.

Mas ele cai em si após alguns instantes em devaneios e lembra-se que tudo se esvai em lembranças irrealizáveis, sonhos fracassados e memórias fragmentadas.

Sempre teve essa ânsia e essa saudade daquilo que nunca vivenciou ao olhar para uma estrada. Lembra de anos anteriores, em que mirava outra rodovia nas horas de almoço e projetava mil coisas para a sua vida, quando ainda era um jovem estudante e tentava injetar alguma droga fantasiosa em seu cérebro para fugir daquela rotina horrorosa de um trabalho horrorosamente distante de sua casa e de seus objetivos, interminável como todo e qualquer a fazer que não se deseja fazer.

Mas a vontade de seguir estrada continuava ali, presente, mais ou menos dez anos depois. Vivenciou por um tempo a experiência que nem imaginava que tanto sonhava. E por mais que sofresse com a rotina dura de muito trabalho e com as poucas noites e mal dormidas de sono, sentia-se completo por perambular de um destino a outro, ainda que lamentasse vivenciar por pouco tempo realidades tão distintas, e por vezes melhores, do que a sua.

Mas tudo que é bom, dura pouco e a salvação para a sua eterna dúvida de existência não seria respondida ali. Agora, de volta a uma rodovia como cenário, quadro de um cotidiano massacrante, observava sem tantos sonhos, mais como saudade daquilo que poderia ter tido, mas nunca teve chance para tê-lo. E ainda dizem que todos têm as mesmas oportunidades. Ao menos, podia dizer, viajava quando em vez para encontrar seus próximos e sentia o prazer e a adrenalina breve e passageira de seguir livre rumo ao infinito das paisagens e do asfalto de concreto.

Há tempos ele se acostumou a se contentar com pouco e já não sonha com a mesma ilusão de antes, já aprendeu que os limites da vida são maiores do que os da morte. Sim, viver lhe parece mais frustrante. Mas já faz parte do cotidiano, assim como conviver com a negação a seus prazeres, limitados cada vez mais pela saúde e pelo escasso dinheiro. A cada boa notícia, dez más notícias. Não há como ter paz assim. Não há como ver sentido a cada aprisionamento do corpo num coletivo alucinadamente cheio.

Só se completa quando ruma para outro destino, distante de tudo aquilo que lhe transtorna. Só assim imagina sentir sua alma livre de qualquer opressão, verdadeiramente leve e feliz. Mas como isso é impossível, se contenta com as migalhas diárias oferecidas pelos afortunados ou pelos acasos da vida. Não é assim, afinal de contas, que todos estão acostumados a viver? O que será do futuro senão uma repetição das mazelas do passado? O que será do futuro senão uma sequência de desacertos e frustrações, intercaladas com bálsamos esporádicos? O que será de tudo isso? O que será?

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Categorias:Contos, Crônicas
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