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Jornalismo internacional no Brasil: um problema de perspectiva

Pingou no meu twitter há pouco esta notícia: Produtores globais de vinho se unem para questionar protecionismo do Brasil. A leitura me levou a escrever aqui no blog.

O título já indica o que nos espera.  Ao ler a reportagem, a premissa é confirmada. Parece que estamos lendo um jornal europeu ou estadunidense. A perspectiva é sempre do que o Norte acha do posicionamento do Brasil, indicando que o país estaria exagerando, fazendo errado, etc., e o que as nações de cima pensam e o que vão agir para combater.

A reportagem não ouve o lado brasileiro, não aprofunda as razões das salvaguardas, só faz copy paste do que a agência do Norte escreveu sobre um assunto nosso. Alguém vai dizer que a matéria é assinada por um correspondente, não é de agência. Tanto pior: para quê ter um correspondente na Europa com uma visão de lá e não do ponto de vista do Brasil? O jornalista vive há tanto tempo lá que deve ter perdido a conexão com a realidade brasileira, vendo as coisas muito mais com os olhos de lá do que daqui. Visão não quer dizer defender o Brasil, mas compreender a perspectiva tupiniquim, coisa que não houve no texto.

Independentemente de quem produziu, o que estou discutindo aqui é que o jornal produziu um conteúdo que não possui jornalismo na sua raiz, embora tenha todas as técnicas sobrepostas ali. Mesmo dizendo, breve e parcamente, os motivos brasileiros, a reportagem mais parece de uma assessoria do Norte, ao escrever sob o olhar dos interesses econômicos dos países produtores de vinho e que estariam sendo prejudicados pela atitude brasileira de desejar proteger o seu próprio mercado.

Enfim: se o Brasil e o SUL em geral tivessem agências de notícias que produzissem seu próprio conteúdo, que não tivessem a perspectiva das elites na sua linha editorial e fossem preferencialmente populares – tudo muito difícil, pois quem detém o poder e o dinheiro, detém a informação, caso da elite atual – duvido que porcarias europeizadas como essa saíssem por aqui. Mas a grande imprensa, representando sua elite, segue comprando o que o Norte oferece, como se aquilo fosse mais importante do que o que é feito aqui.

Enquanto essa mentalidade pequena e discriminatória não mudar, jornalismo internacional de notícias não existirá no Brasil. Só assessoria do Itamaraty, a partir do jornalismo declaratório, formal e ritual em Brasília (e que um CQC outro dia quebrou o tal rito protocolar de puxação de saco e saiu escorraçado do lugar por jornalistas “horrorizados”), ou assessoria do Norte, baseada em cobertura de agências de notícias que falam inglês e de correspondentes e perspectivas editoriais elitizadas, europeizadas e atrasadas.

O que salva são as análises e artigos de muitos estudiosos – e poucos jornalistas – que se dignificam a ir mais a fundo do que o raso jornalismo internacional vai. Jornalismo de foco internacional não pode ficar na borda do fato, precisa mergulhar, compreender e esmiuçar para ser entendido em toda a sua complexidade.

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  1. Ariane Gervásio
    26/09/2012 às 7:06 PM

    Concordo…Fiz uma pesquisa sobre isso na monografia da pós-graduação.

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    • rodrigoherrerolopes
      29/09/2012 às 11:13 AM

      É uma tema bem complicado mesmo. Obrigado pelo comentário! Um abraço!

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