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Não é uma certeza

Vontade de rumar à Rodoviária, olhar o primeiro destino, comprar a passagem e ir embora daqui… E só voltar quando sentir falta. Más já criei tantas raízes aqui, há tantos impeditivos reais que inibem a subversão para uma irrealidade que, hoje, faz mais sentido a mim. E só o faz simplesmente porque é uma outra possibilidade, não por ser uma certeza. Na verdade, se fosse uma certeza, não seria uma opção. Pois o que agrada não é o certo ou o real, é a possibilidade, a expectativa, a esperança.

Mas meu desejo de sair, ver coisas, conhecer lugares, cores, cheiros, sabores, luta fortemente contra a compulsória inércia de minha atualidade. As dificuldades materiais, as escolhas realizadas, os caminhos que me trouxeram até o que não sou hoje insistem em pesar contra qualquer mudança. Apenas sobra a inveja e a impossibilidade de assimilar o sucesso dos outros; o próprio fracasso.

A música instrumental se repete centenas de vezes no computador, como as horas, que se repetem em dias, semanas… inertes. A levada de cordas de violão e guitarras, sem batida, é harmoniosa e, ao mesmo tempo, marcial, insistente, como os acontecimentos da vida que parecem se repetir como uma farsa, um engodo, sem motivo para comemorar.

A espera de um fim de semana que amenize a solidão intelectual e me faça esquecer do vazio diário dos já distantes dias úteis. Até que chega o dia em que se percebe que tudo que faz, come, bebe, se diverte ou se ocupa é uma fuga de uma realidade imóvel e não desejada. Lá se vai a certeza passear em outros campos, deixando a dúvida em seu lugar.

A música se aproxima do seu fim, mais uma vez. Um som angelical de teclado toca fundo a alma, alegra e entristece ao mesmo tempo, mas não aplaca a dor e as lágrimas que brotam de um beco sem saída, ou da penumbra de um quarto. A única certeza é a repetição deste minuto no minuto seguinte, com a incerteza certa de uma resposta aguardada, adiada, abandonada. E o que fica é apenas uma vontade grande, intangível, incomensurável, ainda maior que a frustração de uma vida que abandonou a si própria; cansou de si mesma.

14.03.2012

PS: Recomenda-se ler o texto ao som de “O Passeio da Boa Vista”, da Legião Urbana, canção ouvida durante a concepção destas mal traçadas linhas.

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  1. DAIANE
    14/03/2012 às 1:29 PM

    NOSSA… ADOREI O TEXTO! COMO SEMPRE VC SE EXPRESSA MUITO BEM. INCRIVEL COMO PARECE TER RELATADO UM SENTIMENTO QUE INSISTE EM ME ACOMPANHAR…
    MAS VOU VIVER COM ELE OU NÃO! BJOS

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    • rodrigoherrerolopes
      14/03/2012 às 1:32 PM

      Pra você ver, não é apenas você que convive com certas coisas… No fim das contas, viver é aguentar um monte de coisas que não gostamos e não estamos afim. Normalmente, a gente tolera, alguns dias, como hoje, a gente cai.

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