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PT e a Social-Democracia – Parte I


Olá. Hoje começo com a publicação do livro-ensaio de 2004, “O PT e a Social-Democracia: de um programa de ruptura à administração do capitalismo” – saiba mais sobre esse livro clicando aqui. Para começar a reflexão, publico a apresentação do livro e uma primeira parte do primeiro capítulo. Não vou colocar todo o capítulo, senão fica muito extenso. Mas antes de falar sobre os partidos socialistas gerindo o capitalismo, ponto central do livro e de partida para a compreensão do PT hoje, vale apresentar a teoria que projeta o governo socialista, que clama pela ruptura e substituição do sistema capitalista, a partir de Karl Marx e da Revolução Comunista apregoada por ele, incluindo alguns exemplos de tentativas de levar essa revolução à prática, caso da Comuna de Paris e do movimento que vai consolidar a Revolução de 1917 na Rússia. Esse introdutório é importante para compreender em que consiste o projeto socialista, para, mais à frente, observar como ele vai sendo deixado de lado pelos partidos dito socialistas, sendo substituído gradativamente por ideias reformistas. Mas isso é assunto para um próximo post. Vamos lá.

Apresentação

A idéia de falar sobre a transformação do Partido dos Trabalhadores estava em minha mente desde 2003, meio que por acaso, meio por indignação de ver um partido que levantou tantas esperanças a uma parcela da população ter tomado o rumo que tomou. O trabalho consiste em compreender os fatores que levaram a essa mudança de projeto político do PT, nascido de tradições populares, da classe trabalhadora e modificando seu objetivo para uma estratégia meramente eleitoral, abandonado o programa de ruptura com o capitalismo, optando por gerir este sistema e suas crises. Para entender isso, parte-se do pressuposto que o PT seja um mero reflexo da social-democracia européia e os rumos que a esquerda no mundo tomaram. Não que o PT seja um partido social-democrata, mas sim que o que aconteceu com o PT no Brasil nesses últimos 20 e poucos anos ocorreu com a grande maioria dos partidos de esquerda. Por isso, este trabalho tenta encontrar uma explicação para essa situação que é histórica, não se trata de um privilégio do PT.

É claro que, antes de iniciar esta trilha, eu não pensava que o problema seria tão profundo, intrincado e muito mais complexo que os dizeres de traição ou debandada de lado que por muitas vezes incorre em conversas de bar ou fila de supermercado. Afinal, um
clima de decepção ainda paira no ar de quem sempre acreditou no PT como uma força capaz de modificar a sociedade e deixá-la um pouco mais justa. Nem cogito a questão do socialismo, pois a maioria dos brasileiros nem sabe o que isso significa ou quando sabe tem
uma visão muito distorcida a respeito. Falo apenas de que todos viam e ainda vêem Lula – cada vez menos hoje – como uma esperança de mudança de modelo econômico, de melhor poder de compra, distribuição de renda, emprego, entre diversos outros temas que se
colocados aqui teriam uma lista interminável de problemas da sociedade brasileira que precisam ser resolvidos urgentemente.

De qualquer forma, eu não imaginava que este trabalho ganhasse corpo dessa forma, necessitando, inclusive, de uma visita à social-democracia dos tempos de Marx e Bernstein para compreender o fenômeno do PT que, como bem disse o professor Valério Arcary, é um fenômeno mundial” dos partidos de esquerda do mundo de nascerem com uma proposta revolucionária e mudarem seu objetivo, seu programa, sua base, sua tática, enfim, tudo, com o ensejo final de vencer as eleições e administrar as crises do capitalismo, ao invés de supera-lo. Além disso, deveria ser feita também uma oportuna análise interessada sobre a história dos governos de esquerda e um debate que tomou conta no início do século passado que foi a “teoria de adaptação do capitalismo” de Bernstein e as críticas a essa teoria por parte da revolucionária alemã Rosa Luxemburgo. Ou seja, para compreender essa trajetória de mudança de objetivo no Partido dos Trabalhadores, uma simples lida em sua história não dá a medida exata de como se consolida essa mutação, que não foi feita de uma hora para outra, como o partido deu a entender na esfera pública na campanha presidencial de 2002.

O PT é hoje um reflexo de sua história, repleta de percalços e influências externas, bem como de disputas internas, que deram uma cara ao partido toda peculiar na história brasileira, mas que, no mundo, tem sido muito comum, principalmente na Europa, o berço da social-democracia. Essa visão do PT como membro de carteirinha da história da socialdemocracia só é possível após leituras mais profundas do partido, entendendo o que mudou dentro dele e aí sim notar as semelhanças do quê e como ocorreu essa transformação no PT em relação aos partidos social-democratas europeus.

O motivo de ser o PT é um tanto óbvio: é o maior partido de esquerda da América Latina, com uma das maiores representatividades de esquerda nessa região, agravando-se o fato do partido e de Lula virem de origens populares. O partido, da classe operária e de um
movimento que cresceu contra a ditadura militar que atacava o Brasil e outro, vindo do Nordeste, como tantos outros que descem o Brasil em direção ao Sudeste, Sul, em busca de trabalho e melhores condições de vida. Por tudo isso, qualquer ato do PT e de Lula tem
ressonância nos países pobres, principalmente da América Latina. A necessidade de se compreender esse fenômeno vindo de um país em eterno (sub)desenvolvimento se faz latente na medida que hoje a esquerda encontra-se desorientada no país, tentando ainda recolher os cacos provocados pelo PT hoje nos movimentos sociais e na população menos favorecida. Entender o que aconteceu com o PT é primordial para a seqüência de uma trilha que evite as mesmas situações na construção de uma alternativa à esquerda do Partido dos Trabalhadores.

Capítulo Um: Uma Breve História da Gestão Socialista em Governos Capitalistas

Marx e a Revolução Comunista

“Um fantasma ronda a Europa: o fantasma do comunismo(1)”. Foi assim que, em 1848, Karl Marx e Friedrich Engels abriam um dos textos mais importantes e de maior polêmica nos debates políticos do mundo inteiro, que iria influenciar diversas gerações até os dias de hoje, com uma atualidade impressionante: O Manifesto Comunista. Aqui foi o começo de tudo. O início do debate por uma sociedade socialista saiu da utopia e ganhou corpo, ruas, idéias concretas, graças a esses dois alemães que possuíam o desejo de ver um mundo mais justo. A partir desta teoria, amplamente discutida e contrariada, que os partidos social-democratas deram seus primeiros passos na busca (ou não) de um socialismo verdadeiro, possível.

Em um período marcado por agitações contra as injustiças sociais e reivindicações do movimento operário na Europa, Marx e Engels redigiram o Manifesto a pedido da Liga dos Comunistas – primeira organização comunista internacional, criada por Marx e Engels
em 1847, com sede em Londres. O texto evidenciava a necessidade dos socialistas da época em se diferenciar dos partidos de esquerda existentes e, também, com o intuito de radicalizar o discurso para deixar bem claro o que os comunistas da Europa desejavam
implantar no mundo. Como coloca Adam Przeworski(2), o socialismo emergia como “um movimento que completaria a revolução iniciada pela burguesia, arrebatando-lhe o ‘poder social’ exatamente como ela conquistara o poder político”, escreve.
Vivia-se em pleno século XIX, onde tudo que se falava devia ser provado, Marx e
Engels inauguraram o que viria depois a ser chamado de socialismo científico(3). Nessa
época a burguesia sofria conflitos em larga escala, vindos principalmente pelo lado do proletariado, que crescia e se mostrava como os coveiros a enterrar a burguesia, como profetizara o Manifesto.

Após a Revolução Francesa de 1789(4) , os operários passaram a ter posição
importantíssima no quadro político dos países europeus. Eles eram levados sempre a fazer
alianças com a burguesia para que esta pudesse derrotar seus inimigos mortais, como as
monarquias e quaisquer entraves restantes do feudalismo(5). Naquele momento o modo de
vida capitalista substituía a forma arcaica anterior, emergindo duas classes sociais novas, a
burguesia e proletariado.
O burguês é proprietário dos meios de produção e possui uma relação capital versus
trabalho de “cima para baixo” com as pessoas que vendem sua força de trabalho e não
possuem esses meios de produção, vivendo apenas de salários que o proprietário paga a
essas pessoas, que fazem parte, no caso, do proletariado. Muitos, como Marx e Engels,
viam nisso uma grave exploração da mão de obra, imobilizando uma forma de sociedade
mais justa, baseada na igualdade e na liberdade entre os seres humanos, em que não
houvesse a propriedade privada que existe na burguesia.

Isso, aliado aos movimentos insurrecionais que o proletariado à época tomava corpo
a fazer em países como França, Inglaterra e Alemanha no meio do século XIX fizeram com
que a base comunista européia elaborasse um documento que expusesse as diretrizes do que deveria ser essa sociedade igualitária e a relação dos comunistas com a burguesia e os
demais partidos de esquerda que lutavam por objetivos semelhantes a eles.

Foi assim que Karl Marx e Friedrich Engels redigiram o Manifesto do Partido
Comunista, nos quais se destacam alguns pontos, a serem aprofundados no capítulo
seguinte: “a formação do proletariado em uma classe, a derrubada da supremacia burguesa,
a conquista do poder político pelo proletariado” (Marx e Engels, 2002, p. 30). Outro ponto
bastante importante do programa comunista descrito no manifesto está na abolição da
propriedade privada, em benefício do trabalhador, impedindo que a propriedade, os meios
de produção, fiquem nas mãos de poucos que exploram os trabalhadores.

Segundo Przeworski, o socialismo se apresentava como uma escolha a ser feita, pois
a democracia se fazia presente nas instituições políticas. “O projeto dos primeiros
socialistas, adeptos do comunismo, era construir uma sociedade dentro da sociedade, uma
comunidade de produtores imediatos associados em oficinas e fábricas, cooperando como consumidores e administrando suas próprias atividades” (Przeworski, 1989, p. 19).

Os movimentos anticapitalistas cresciam em toda a Europa, com greves de operários
e conflitos diversos entre os funcionários das fábricas e seus superiores, abrindo uma
possibilidade histórica de um cenário voltado para a criação de uma nova sociedade. Em
1864 Karl Marx fundou a Associação Internacional dos Trabalhadores – que viria a ficar
conhecida posteriormente como a Primeira Internacional – em Londres. Esta associação
recebia sindicalistas e líderes operários e intelectuais das principais cidades européias. O
objetivo da associação era fortalecer o movimento operário em torno de suas lutas, unindoo
em todas as localidades industrializadas. Ela dura até 1876, quando é dissolvida, após
disputas internas entre comunistas e anarquistas que questionavam o posicionamento
revolucionário-violento dos primeiros.

A Comuna de Paris

Em 1871 aconteceu um fato muito importante que fez Karl Marx ter como base para
análise a primeira experiência de governo dos operários, A Comuna de Paris, ocorrida na
capital francesa em março daquele ano.
O Império Francês estava em guerra com o Reino da Prússia, por conta das regiões
da Alsácia e da Lorena e vivia a Monarquia ditatorial de Luis Bonaparte. Este acabou sendo
derrubado pela Prússia e por seu “súditos” franceses, que proclamaram, em 4 de setembro
de 1870, a República na França, constituindo-se um novo governo. Esse governo foi erigido
e dominado por deputados que tiveram seus mandatos prescritos, mas tomaram o poder da
Câmara Municipal de Paris – e transferiram depois a Assembléia para Versalhes –, sem
haver eleições. Entre eles estavam Adolphe Thiers, eleito pela Assembléia presidente em
exercício da República, Jules Favre, ministro das Relações Exteriores deste curto período, entre outros burgueses da França que estavam do lado de Napoleão III na derrota da guerra Franco-Prussiana.

O país vencedor impôs o armistício que indicava que os cidadãos franceses teriam
de optar pela paz – empregada pelos seus “líderes ilegítimos” – e pagar uma dívida de cerca
de 5 bilhões de francos, mais 5% de juros dos prazos a vencer como pagamento pela vitória
prussiana e a manutenção de 5 mil soldados deste Estado em terras francesas, para garantir
a tomada de poder dos “Thiers” e “Favres” da vida.
Preparado o terreno para a capitulação francesa, faltava a devolução das armas pela
Guarda Nacional, que, para Marx (1986) tratava-se do “único obstáculo sério que se seguia
no caminho da conspiração contra-revolucionária(6)”. A alegação de Thiers era que o
armamento da Guarda Nacional pertencia ao Estado e lhe devia ser devolvido. Só que,
depois da capitulação de 28 de janeiro de 1871 os canhões e metralhadoras passaram a
pertencer a Guarda, pois foi excluído do tratado a entrega dos armamentos aos
conquistadores após resistência da guarda.

O então presidente em exercício tentou retomar os canhões, preso pela Guarda
Nacional e pelo povo, fazendo com que Thiers “deixasse” os canhões ficarem. Isso fez com
que a Guarda Nacional se pudesse de prontidão nas ruas e estabelecesse Paris como a dona
das próprias rédeas e resistisse a investida aristocrata. Estava conflagrada a “gloriosa
revolução operária de 18 de março”, como definiu Marx, que tomou o poder de Paris, tendo
com o Comitê Central seu governo provisório.

A efervescência e crescimento da Comuna impedia o domínio da França por
completo, fazendo com que Thiers e seus comparsas ajoelhassem ao chanceler da Prússia,
Otto von Bismarck, para ceder os prisioneiros soldados franceses para derrubar Paris,
contando, também, com a investida prussiana na cidade-luz. O fato inevitável ocorreu em
maio, após lutas sangrentas e assassínios que derrubaram o povo parisiense de sua condição incontestável de formar um governo do povo para o povo.

Marx viu na Comuna uma forma democrática de relação entre os parisienses, com
conselhos municipais eleitos por sufrágio universal em várias partes da cidade e uma
corporação de trabalho, executiva e legislativa ao mesmo tempo, descartando o padrão de
órgão parlamentar. A polícia foi “despojada de suas atribuições políticas” e transformada em instrumento da Comuna, podendo ser substituída em qualquer ocasião. O mesmo aconteceu com os demais funcionários da administração.

A Comuna de Paris deveria ser modelo para as demais na França, portanto,
procurou elaborar um esboço de como deveria ser a organização nacional do “autogoverno
dos produtores” nas províncias vizinhas. Sobre a proposição, Marx explica que o esboço
“diz-se claramente que a Comuna devia ser a forma política inclusive das menores aldeias
do país e que nos distritos rurais o exército permanente devia ser substituído por uma
milícia popular, com um tempo de serviço extraordinariamente curto. As comunas rurais de
cada distrito administrariam seus assuntos coletivos por meio de uma assembléia de
delegados na capital do distrito correspondente e essas assembléias, por sua vez, enviariam
deputados à delegação nacional em Paris, entendendo-se que todos os delegados mantidos
seriam substituídos a qualquer momento e comprometidos com um mandato imperativo
(instruções formais) de seus eleitores” (Marx, 1986).

Marx coloca que se pensava em organizar a nação em um “regime comunal”,
convertendo-a numa realidade ao destruir o poder do Estado e não destruir a unidade da
nação. Ele aponta que a grande medida social da Comuna foi a própria existência e trabalho
dela. “A simples existência da Comuna implicava, como algo evidente, um regime de
autonomia local, porém já não como contrapeso a um poder estatal, que agora era
supérfluo”, atesta. ”Outro fator importante está na economia tão desejada pelos burgueses e feita tranqüilamente pela Comuna ao acabar com dois fatores de gastos no governo: “o
exército permanente e a burocracia de Estado” (Marx, 1986).

Marx afirma a Comuna como uma forma de governo flexível, ao contrário das
formas anteriores e diz que sem essa condição, este regime teria sido impossível. “A
Comuna era, essencialmente, um governo da classe operária, fruto da luta de classe
produtora contra a classe apropriadora, a forma política afinal descoberta para levar a cabo
a emancipação econômica do trabalho” (Marx, 1986).

Reviravolta Socialista

Ao mesmo tempo que as teses marxistas traziam à baila uma série de discussões
polêmicas sobre como deveria ser conduzida a atividade política dos movimentos operários
no mundo, uma boa parte dos socialistas, localizados principalmente na Alemanha de
Marx, aderia à prática gradualista de chegar ao socialismo por meio da ação parlamentar e
da disputa eleitoral, abandonando por completo a perspectiva revolucionária ao fazer dos
meios citados um fim em si.

Tanto que a Segunda Internacional – fundada na França em 1889, com grande
atuação na sua criação por parte de Friedrich Engels que, após a morte de seu amigo Marx,
em 1883, se tornou a referência na interpretação das teses do marxismo – era dividida por
duas correntes: os representantes do operariado inglês e francês que defendiam o marxismo
revolucionário e os representantes alemães que acreditavam na luta pelas reformas que
visassem a melhoria da condição de vida e trabalho do proletariado.

O socialismo na Alemanha, após a cassação das leis anti-socialistas(7) de Bismarck, na
Prússia, crescia em proporções gigantescas, culminando na formação do Partido Social
Democrata Alemão (SPD) que se tornaria referência em parte da Europa, sendo um dos
mais importantes, devido as suas conquistas no âmbito parlamentar, quase se tornando
maioria da população alemã(8). Isso trouxe à pauta do socialismo grandes polêmicas sobre
qual caminho deveria ser seguido para a conquista do poder político: preparar o terreno
para a revolução ou simplesmente fazer das formas atuais burguesas a luta permanente do
proletariado em busca de reformas num prazo de tempo curto.

A polêmica se intensificou quando o alemão Eduard Bernstein se propôs a teorizar
toda a questão do socialismo “gradualista”, e publicou entre 1896 e 1898 uma série de
artigos – que ficaram conhecidos como Problemas do socialismo – na revista Die Neue
Zeit, do SPD, dirigida por Karl Kautsky(9). Em 1899, Bernstein lançou o livro As premissas
do socialismo e as tarefas da social democracia, em que defendia a necessidade do SPD
ser um partido da reforma social e criticava a possibilidade de uma revolução social na
Alemanha, acreditando ser algo irreal e desnecessário. “O socialismo somente pode
realizar-se de modo autêntico nos marcos do sistema democrático-representativo”, diz
Bernstein(10), o teórico alemão que fundamentou a teoria social democrata de cunho
reformista (e não mais revolucionária, como pregara Marx) que revolucionou – como
veremos a seguir – os partidos socialistas da Europa no final do século XIX .

Bernstein alegava que a época não havia confirmado a previsão de Marx para o surgimento de revoluções na Europa pelo fato que da intensificação das crises econômicas – outra previsão de Marx – não havia se concretizado, pois a economia européia,
principalmente a alemã, passava por um momento de crescimento, em que os operários
tinham maior participação inclusive nas ações das empresas, fato bastante levantado e
coberto com muitos dados em seu livro. Afirmava Bernstein: “Não haverá nenhuma crise
catastrófica que fará desaparecer do mapa o capitalismo” (Bernstein, 1997, p. 15).
Para ele o capitalismo havia dado concessões importantes para os trabalhadores e
que, com a expansão das forças produtivas e o crescimento dos mecanismos financeiros de
acesso ao crédito, as possibilidades de auto-regulação do capitalismo haviam surgido e as
crises comerciais poderiam ser evitadas ou minimizadas. Com isso, o movimento operário
deveria brigar dentro do sistema político, através dos partidos socialistas, pelas reformas
necessárias para amenizar o aspecto desigual do capitalismo. “O partido da classe
trabalhadora deve empenhar-se em obter transformações que resultam na melhoria concreta
de suas condições de vida e trabalho”, disse (Bernstein, 1997, p. 15)

Rosa Luxemburgo atribuiu a teoria de Bernstein como algo insustentável em si, pois
descaracteriza o objetivo do socialismo e apenas o coloca como uma mera “política de
compensações”. “O revisionismo reduz o movimento operário a um simples movimento
compensatório e reformista, encaminhando-se naturalmente para o abandono do ponto de
vista de classe”, declara(11).

Mesmo assim, essa reviravolta socialista para o âmbito das reformas e a busca da
vitória através do voto pareceu vingar nos partidos social-democratas europeus, fazendo-os
crescer em número a cada movimento eleitoral. “De eleição em eleição, as forças do
socialismo adquiriam maior peso. De alguns milhares que eram nos primeiros e difíceis
momentos, os socialistas viram seu eleitorado aumentar para milhões”, atesta (Przeworski, 1989, p. 33)(12). Acreditava-se piamente que as urnas colocariam as forças socialistas no poder (como o fizeram) e fariam transformar as condições de vida do capitalismo vigente para um socialismo igualitário, fato que não ocorreu.

Uma das hipóteses colocadas por Przeworski (1989) está no fato do proletariado
nunca ter sido maioria numérica dos votos nas eleições. Isso fez com que a socialdemocracia
da época prestasse contas para grandes parcelas da classe média que haviam
votado e não desejavam as alterações socialistas que o movimento operário pretendia, além
de não terem migrado para o proletariado como havia sido previsto antes.

A Segunda Internacional entrou em grave crise com as sucessivas derrotas dentro do
parlamento, não sendo possível concretizar as transformações desejadas pela sua base
proletária, o que fez com que a mesma se afastasse de seus dirigentes e provocasse um
certo vazio dentro dos partidos. A situação se agravou quando o SPD, liderados por
Kautsky – que antes era um fervoroso crítico de Bernstein e defensor das teses de Marx e
depois se mostrou favorável às teses de adaptação, tanto que passou a ser chamado de
oportunista por muitos marxistas –, fez uma aliança com a burguesia de seu país em favor
da participação da Alemanha na Primeira Guerra Mundial.

Esse acordo contrariava as decisões do Congresso da Segunda Internacional,
realizado na cidade suíça da Basiléia, em 1912, que pregava a unidade em torno da causa
socialista, criticando abertamente a guerra que aventava começar – e teve início em 1914,
após o assassinato do herdeiro do trono Austro-Húngaro, o arquiduque Franz Ferdinand,
em Sarajevo, Bósnia, fato que desencadeou a Primeira Guerra Mundial(13) – em que era
considerada imperialista, por conta da busca de territórios que o conflito entre os países
capitalistas estaria para ocorrer.

Vladimir Lênin(14) pregou a falência da Segunda Internacional após a união dos
social-democratas ao imperialismo, que ia frontalmente contra as reivindicações operárias e
não era nada saudável ao movimento socialista. “É evidente a traição ao socialismo por
parte daqueles que votaram pelos créditos de guerra entraram para os ministros e
advogaram a idéia da defesa da pátria em 1914-15”, diz Lênin(15). Em nome desta defesa e
da unidade nacional os partidos social-democratas seguiram, quase todos, o SPD e se
aliaram ao governo na luta imperialista, fato que provocou um racha definitivo dentro da
Segunda Internacional que passava a se tornam cada vez mais inviável.

Isso porque, outro fato acabaria por mudar o foco da discussão entre reforma ou
revolução e intensificar as diferenças entre seus defensores: a vitória da revolução
comunista russa em outubro de 1917, em meio a primeira grande guerra, derrubara o
governo provisório burguês e estabelecia o governo erguido pelo proletariado, mostrando
que ainda era possível acreditar na via da revolução política.

A recém-criada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), através do
líder de sua revolução proletária, Lênin, decidiu romper definitivamente com a Segunda
Internacional e fundar a Terceira Internacional Comunista, que colocava a necessidade da
criação de partidos comunistas que se mostrassem identificados com as teses do marxismo-revolucionário, desgrudando dos partidos social-democratas, que, para Lênin, eram considerados como oportunistas, pois não cumpriam a função de unir os operários em busca de sua emancipação(16).

Isso fez esvaziar por completo a Segunda Internacional. Mas, também, minou
qualquer tipo de união com a União Soviética, que se isolou dos outros países e de suas
lutas para encampar a revolução noutras nações. Principalmente, após a morte de Lênin em
1924 e a ascensão de Joseph Stálin(17) à liderança do Partido Comunista Soviético, que
intensificou o burocratismo partidário e a repressão e extermínio das lideranças da
revolução bolchevique de 1917.

Notas

1 MARX e ENGELS, Karl e Friedrich. O Manifesto Comunista. 7º edição. São Paulo: Paz e Terra, 2001, p. 07.
2 PRZEWORSKI, Adam. Capitalismo e Social Democracia. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 19.
3 No sítio Comunismo (www.comunismo.com.br/cientifico) encontra-se a seguinte explicação para este termo: “O Socialismo Científico foi desenvolvido no século XIX por Karl Marx e Friedrich Engels. Recebe também, por motivos óbvios, a denominação de Socialismo Marxista. Ele rompe com o Socialismo Utópico por apresentar uma análise crítica da realidade política e econômica, da evolução da história, das sociedades e do capitalismo. Marx e Engels enaltecem os utópico pelo seu pioneirismo, porém defendem uma ação mais prática e direta contra o capitalismo através da organização da revolucionária classe proletária”.

4 Trata-se de um movimento ocorrido na França, liderado pela burguesia contra o poder absoluto do Rei Luís XVI que governava com a ajuda do Clero e da Nobreza, oprimindo a classe burguesa que emergia no antigo sistema feudal, que foi destruído com a ascensão da burguesia, surgindo assim, o capitalismo.
5 No sítio Saber História (www.saberhistoria.hpg.ig.com.br/feudalismo1) há a definição retirada do livro História e Consciência do Mundo, que diz: “A palavra feudalismo ou sistema feudal foi o modo de organização da vida em sociedade que caracterizou a Europa durante grande parte da Idade Média. Ele não foi igual em todas as regiões européias, variando muito de acordo com a época e o local”. COTRIM, Gilberto. História e consciência do Mundo. São Paulo: Saraiva.1994

6 MARX, Karl. A Guerra Civil na França. São Paulo, Global, 1986.

7 Conjunto de regras estabelecidas pelo chanceler prussiano Otto von Bismarck durante seu comando no governo da Prússia, entre 1878 e 1890, contra o crescimento da social democracia. A justificativa para esta medida estava na realização de dois atentados contra o Imperador Guilherme I Entre elas estava a proibição de qualquer atividade dos socialistas alemães, unificados na legenda denominada Partido Socialista Operárioda Alemanha (SAPD).
8 ARCARY, Valério. Há cem anos, Bernstein abre o debate sobre época: a estrategização da tática e a teoria dos campos progressivos. In obra.
9 O alemão Karl Kautsky (1854-1938) foi um líderes dirigentes do Partido Social Democrata da Alemanha no início do século XX. Foi também um importante teórico do socialismo e entre suas principais obras está A Questão Agrária, de 1898.}
10 BERNSTEIN, Eduard. Socialismo Evolucionário. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, p. 13.
11 LUXEMBURGO, Rosa. Reforma ou Revolução? São Paulo: Flama, p. 37.
12 Para se ter uma idéia desse crescimento, o próprio Przeworski aponta alguns números que apontam para o crescimento do desempenho dos partidos social-democratas europeus: “O partido alemão (…) cresceu, apesar dos anos de depressão, de 125 mil votos em 1871 para 312 mil em 1881, 1.427 milhões em 1890 e 4.250 milhões às vésperas da Primeira Guerra Mundial”. Na “religiosamente politizada Holanda”, o partido local cresceu de 9,5% em 1896 para 18,5% em 1913. Ver mais dados a respeito na página 32 e 33 do livro já citado deste autor.
13 Esse fato foi somente um pretexto para eclodir uma guerra que já dava sinais de que iria acontecer. Ela foi motivada por disputas territoriais entre diversos países europeus e opôs a Tríplice Aliança, composta pela Alemanha, Áustria-Hungria e Itália) e a Tríplice Entente, formada pela Inglaterra, França e Rússia).
14 Vladimir Ilitch Lênin nasceu na Rússia e foi um dos principais dirigentes da social democracia russa do início do século XX. Lênin liderou o partido bolchevique – representantes da maioria do partido – que conduziu o país a uma revolução do proletariado, derrubando o governo burguês provisório em outubro de 1917.
15 LENIN, Vladimir. O Oportunismo e a Falência da II Internacional, p. 4.
16 Em entrevista realizada em 09/09/2004, o professor e historiador Valério Arcary, explica a diferença entre oportunismo, reformismo e revisionismo: “O revisionismo é você revisar uma teoria que existia, a qual você tinha aderido. Nesse sentido o marxismo sofre revisões permanentes, primeiro porque o mundo se transforma, segundo porque as sociedades dependendo dos continentes são sociedades muito diferentes. O revisionismo é um procedimento, existem evidentemente vários tipos portanto de revisionismos, existem revisionismos que mantém a doutrina e atualizam. E existem revisionismos que rompem com o método, na verdade cedem à pressão de idéias que são hostis. Revisionismo é um procedimento teórico político. O reformismo é um projeto, um programa político não propriamente uma teoria somente, é mais que uma teoria, um programa político, é diferente do marxismo. O oportunismo existe em todas as correntes sejam elas revolucionárias ou reformistas. O oportunismo é um comportamento político, é adaptar-se, aproveitar as oportunidades”.
17 Joseph Stálin foi um dos dirigentes mais representativos do Partido Comunista Russo após a revolução de outubro. Principalmente após a morte de Lênin, em 21 janeiro de 1924, quando Stálin radicalizou o processo ditatorial na URSS – conhecido como stalinismo –, em que eliminou seus opositores socialistas.

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  1. Carlos
    24/08/2012 às 2:21 PM

    Olá Rodrigo, tudo bem?
    Se puder, por favor, envia versão .pdf seu livro-ensaio “O PT e a Social-Democracia: de um programa de ruptura à administração do capitalismo”.
    Grato pela camaradagem
    Parabéns pelo trabalho
    Um abraço
    Carlos Kalifa
    Núcleo Largo do Machado PT-RJ

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    • rodrigoherrerolopes
      27/08/2012 às 1:37 PM

      Oi Carlos, tudo e você?

      Tô mandando no seu e-mail, embora o conteúdo todo esteja aqui no blog.

      Apenas leve em conta que o texto é de um TCC de jornalismo de 2004, não pretendo definir nada em termos de análise, embora eu tenha visto, nos anos subsequentes ao término do TCC, situações bastante semelhantes ao que eu pontuei no livro.

      Abraço.

      Rodrigo.

      Curtir

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