PT no divã

Começo hoje uma série de posts que pretendem retomar uma reflexão acerca das transformações sofridas pelo Partido dos Trabalhadores ao longo de sua história, em um momento em que o partido flerta com o Gilberto Kassab, do PSD, que representa (ou deveria representar) o seu oposto no espectro político, com o PT se vê obcecado à vencer as eleições paulistanas e paulistas, em 2014, a todo custo, para retirar o último baluarte e reduto tucano na eterna briga entre os partidos mais representativos do país.

Pelo que eu vejo e leio em alguns lugares, a percepção de críticos do partido é a de que o partido se afastou da sua identidade fundacional não hoje, nem em 2002, com a ampliação do arco de alianças e a Carta ao Povo Brasileiro, para levar as primeiras eleições presidenciais da história do partido. Trata-se de um movimento que ocorre desde os princípios do partido e é fruto de uma disputa interna por espaço que levou o grupo majoritário que ora está no poder do país ao controle do PT, e ao consequente expurgo e perseguição de quem se opunha radicalmente a essa transformação. Por isso, resolvi publicar neste espaço um livro-ensaio que fiz como Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo em 2004 no finado curso de Comunicação Social da Universidade Cruzeiro do Sul.  É preciso levar em conta os oito anos de distância da produção teórico-jornalística, o que impõe compreender o amadurecimento intelectual que ainda precisava àquele tempo, quando eu só tinha 22 anos. Mas, levando isso em conta, alguns pontos argumentativos e objetivos da análise atual estão ali, numa época que ninguém conseguia entender muito bem o que estava acontecendo com o PT.

Contudo, para servir como uma base mais encorpada sobre o que eu quero com essa série de posts que trarei nos próximos dias e as reflexões que deles poderão partir em um ano eleitoral e de escolhas cada vez mais infelizes por parte dos líderes petistas, trago dois artigos de pessoas gabaritadas no assunto. O primeiro é do professor Livre-Docente de História Contemporânea da USP, Lincoln Secco, autor do livro “História do PT (1978-2010)”, que, pelo que me informei, faz um trabalho fantástico no resgate da história do partido e na busca por compreender as transformações dentro do partido, fugindo de explicações superficiais e imediatistas. Espero ler esse livro em breve, mas pelo que já percebi, o caminho que segui em 2004 estava correto.

O outro texto é uma resenha do jornalista e professor da Faculdade Casper Líbero, Igor Fuser, sobre a obra de Lincoln e que vale a pena ler porque traz elementos conectantes entre o livro de Lincoln e o meu humilde livro-ensaio de conclusão de curso. São ótimas introduções para o que pretendo publicar a partir de amanhã. Então, até amanhã com a primeira parte do livro-ensaio “O PT e a Social Democracia – de um programa de ruptura a administração do capitalismo”

Pragmatismo ou disputa de hegemonia?

Por Lincoln Secco

Uma vez iniciado o processo de abandono dos princípios que norteavam a ação de um partido, ele não tem mais volta. Quando os partidos sociais-democratas surgiram eles tinham tanta força militante que logo os agrupamentos burgueses os imitaram.
Depois que os trinta anos gloriosos permitiram um interregno de bem estar social na selvageria capitalista, a incorporação da classe operária no consumo de massa cimentou a base de um consenso para o qual todas as forças políticas convergiram. Os políticos chamaram-no de “centro”. Na verdade, um não-lugar da política, onde todos os princípios tornam-se o seu contrário. Aconteceu, então, o contrário da época áurea da Social-Democracia: os partidos operários passaram a imitar os burgueses, transformaram-se em “partido pega tudo” e deixaram de lado com a plataforma socialista o seu apelo de classe.

No Brasil, a história do PT mostrou que ele civilizou a sociedade civil, introduziu a pauta ética na política e, principalmente, as questões da democracia social. Seu alto grau de organização fez com que os partidos burgueses invejassem sua estrutura. Tentaram (e tentam) imitá-lo sem sucesso.

Mas eis que o PT começa mais cedo que seus congêneres europeus a se transformar num partido apenas eleitoral, apesar da resistência de muitas lideranças e tendências internas. O recente exemplo da aliança com o prefeito direitista de São Paulo só reforça o sentido da conjuntura petista: trata-se de uma busca desesperada pela hegemonia num Estado em que o PSDB é a força dirigente há muitos anos.

O raciocínio de Lula e seus companheiros é sedutor: uma vez que o partido aceitou as alianças de 2002 para chegar ao poder federal é esperado que na principal cidade do país se faça o mesmo. Desse modo, alguns princípios vão sendo ofendidos em nome da vitória. Como o PT acumulou uma legitimidade ideológica muito grande ao longo de seus primeiros vinte anos, ele se dispôs desde 2002 a gastá-la. Mas seu crédito tem fim. O velho eleitorado petista tem aceitado todas as mudanças por falta de opção à esquerda. É verdade que este velho eleitorado não faz o partido ganhar. Lula comprovou que um novo contingente de eleitores é que lhe deu a vitória. Mas se o velho eleitorado não faz ganhar, ele pode fazer perder. E se não puder, pode retirar do PT aquilo que ainda o diferencia dos demais. Neste caso, uma duvidosa vitória eleitoral será uma bela conquista de cargos, mas não de hegemonia.

Resenha / História Viva:

A incrível metamorfose do PT

Por Igor Fuser

Como se pode prever já pelo título, a História do PT é uma obra que mobiliza paixões, não tanto entre os adversários do Partido dos Trabalhadores, mas sobretudo entre as sucessivas gerações de brasileiros que abraçaram a legenda da estrela vermelha como depositária do sonho de um mundo mais justo. Para uma enorme parcela desses antigos militantes, a trajetória das três décadas de petismo – retratada pelo historiador Lincoln Secco com equilíbrio e honestidade intelectual – traz consigo um sentimento de decepção. A organização construída a partir de núcleos de base deu lugar a uma máquina burocrática onde só têm voz os portadores de mandatos eletivos. O porta-estandarte de um ousado projeto socialista se tornou um “partido da ordem”, voltado para a gestão eficiente do capitalismo.

A incrível metamorfose petista constitui o fio condutor dessa narrativa empolgante. Entre os muitos méritos do autor, destaca-se o de ter resistido às explicações simplistas com o foco na ideia de “traição”. Secco preferiu buscar as respostas no contexto histórico onde o PT nasceu, cresceu e venceu. Trata-se de um partido que surgiu como fruto da ascensão das lutas populares entre meados da década de 1970 e o final dos anos 1980, mas se consolidou e se tornou governo numa época de hegemonia neoliberal.

Entre os presentes ao encontro fundador no aristocrático Colégio Sion – lugar improvável como berço de uma organização proletária – figuravam representantes de diferentes tradições da esquerda: os sindicalistas combativos, os católicos da Teologia da Libertação, os sobreviventes da luta armada, os intelectuais socialistas, as pequenas organizações revolucionárias (trotskistas, na maioria). Mas a força decisiva foi o sindicalismo, claramente refratário à influência marxista.

O novo partido teve seu batismo de fogo na maior onda de greves da história brasileira. Essa fase inicial, que incluiu a participação na luta pelas “Diretas Já”, durou até a campanha presidencial de Lula em 1989. Foi marcada por muita mobilização e magros resultados eleitorais. Já o período seguinte, o da afirmação do PT como principal baluarte da oposição política, coincidiu com a avalanche neoliberal da década de 1990. As greves diminuíram. As privatizações encolheram o contingente de trabalhadores na economia formal e as ruas se esvaziaram. Enquanto a eleição de Luisa Erundina em São Paulo foi movida pelo ativismo voluntário, a de Marta Suplicy, doze anos depois, ocorreu por meio de cabos eleitorais profissionalizados. Dentro do partido, as tendências de esquerda perderam terreno para o grupo majoritário, articulado em torno da liderança pragmática de Lula.

Após a dramática batalha do “quase-lá”, percebeu-se que, para conduzir Lula ao Planalto, era necessário domesticar os radicais do partido, ampliar as alianças e abrandar o discurso, tornando-o palatável ao establishment midiático e empresarial. Enquanto José Dirceu, presidente do PT entre 1995 e 2003, enquadrava a militância com mão de ferro, Lula reforçava sua imagem de redentor das classes subalternas com as Caravanas da Cidadania – contraponto perfeito ao pífio desempenho social da gestão tucana.

A Carta aos Brasileiros, em que o PT se compromete a preservar os fundamentos da política econômica vigente, foi interpretada por muitos como a rendição ao ideário conservador. Secco rejeita essa crença como reducionista, lembrando que a moderação ideológica já estava em curso desde 1990, quando o PT fez seu aprendizado em pragmatismo nas dezenas de municípios que governou.

A posse triunfal de Lula, em 2003, trouxe um paradoxo com o qual o partido convive até hoje: maior partido da base governista, o PT exerce escassa influência sobre as decisões políticas, concentradas no círculo próximo ao presidente (ou presidenta). O partido ficou com “o ônus de defender o governo sem o bônus de ditar-lhe os rumos”. Mas se enganou quem viu na queda da vitalidade petista um sintoma de declínio terminal. O partido sobreviveu à sua maior crise, o escândalo do “mensalão”, período em que os analistas eram unânimes em decretar sua morte como uma força eleitoral relevante.

O PT manteve a lealdade das bases, reelegeu Lula e levou Dilma à vitória. Mas aprofundou a crise existencial sintetizada em duas perguntas para as quais o autor confessa não ter a resposta: “É melhor manter os princípios e nunca chegar ao governo e não fazer mudanças favoráveis aos mais pobres? Chegar assim ao poder muda essencialmente a sorte dos de baixo?”.

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