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Uma tarde no estádio do Bernô

Nesta calorenta tarde de sábado em São Bernardo do Campo, eu e pouco mais de 1.600 testemunhas estivemos no famoso estádio Primeiro de Maio de tantas histórias para acompanhar mais um vexame do São Bernardo Futebol Clube, ou simplesmente Bernô, que não honrou o passado político e animado do estádio. O time da casa perdeu de 2 a 1 para o Atlético Sorocaba e, desgraça pouca é bobagem, já é a quarta derrota em quatro rodadas da Série A2. Nem a demissão de Luiz Carlos Martins, após míseras três rodadas, trouxe um resultado melhor.

Muita gente entrou de graça, com um ingresso-convite que tinha que preencher nome e RG para entrar. Eu paguei 5 reais pela meia na arquibancada geral. E a diferença para a arquibancada social que uma atendente me disse existir, é, pelo que vi, apenas a facilidade da sombra, pois é o mesmo cimentão duro. Na região “social” tem os camarotes dos dirigentes, políticos e aspones, o que garante a sombra dos mais afortunados, já que o ingresso é o dobro só para curtir uma sombra. Mas na suposta “geral” – uma arquibancada como as outras–, o contato com as figuras do futebol é mais próximo e divertido.

Em menos de 20 minutos o Sorocaba já vencia por um a zero e já havia metido uma bola na trave, tamanha a superioridade. Infelizmente para a terra bernardense, o time da casa é HORROROSO! Zaga falha, sem cobertura, principalmente ela esquerda, o meio-campo não marca e não há um meia para criar. Todo mundo fica enfiado na área e ninguém aparece para jogar. Foi o estopim para a indignação da torcida local. Um cara atrás de mim só gritava “terceira divisãooooo..ou”, dezenas de vezes, em meio a palavrões e berros.

O Sorocaba atacava, encurralava um desorientado São Bernardo que não conseguia jogar e já temia pelo descenso em pleno início de torneio. O sorveteiro vem, eu peço um sorvete de limão e ele solta: “pô, em vez de incentivar”. Mas não dava. Na sequência, o centroavante do time recebe uma bola na área, não vê o companheiro à esquerda livre para empurrar para o gol e perde a bola para seu marcador. O sorveteiro não resiste, xinga e volta ao seu trabalho.

Intervalo. Um calor de rachar. No cimento da arquibancada parecia que sofríamos com um calor de 40 graus. A saída: descer até o banheiro, tomar água e ficar abaixo da arquibancada até o segundo tempo começar. O problema era a lotação do banheiro para apenas duas míseras torneiras (havia outro banheiro do outro lado do campo) e o fedor desgraçado em um dos banheiros. Difícil beber aquela água, mas era o jeito. Caso contrário, iria gastar uns 20 reais só de copinho d’água, dado o calor que fazia. Nessa hora me lembrei do banheiro do Baetão, também em São Bernardo, onde os jogos da Copinha foram sediados. Privada comum (e não fossa) e pias individuais, não um curral d’água. E ainda tinha torneiras improvisadas da Sabesp. No Primeiro de Maio, tinham duas caixas d’água de 1.500 litros que não serviram de nada.

Na volta para o segundo tempo, resolvi ficar na grade da arquibancada, em pé. Ali pude ficar mais próximo de um maluco fanático pelo Bernô. Um senhor de idade, com um boné com as cores da bandeira venezuelana (ou equatoriana, ou colombiana, são as mesmas devido ao momento da libertação desses países por Simón Bolívar) e uma camisa – acima da barriga, exibindo a avantajada protuberância – que estava escrito atrás “Mané Cachimbo”. Seu nome, pelo visto. Ele corria de um lado para o outro, acompanhando o ataque e a defesa de sua equipe, proferindo impropérios com toda a raiva do mundo contra os seus atletas. “Corre cabeça pelada, vagabundo”, era como ele se dirigia ao lateral esquerdo que entrou no segundo tempo. A cada chilique do Mané, os torcedores urravam e incentivavam.

A torcida organizada, que no início cantava gritos de incentivo, algo como o tradicional “vamu meu Bernô”, já mudara o discurso. As duas facções – sim, mesmo em São Bernardo, conseguiram dividir a organizada em duas -, Guerreiros e Império, se uniram para mandar palavras de ordem contra a diretoria, jogadores e técnico. E pediam, deslavadamente: “É, Luxemburgo!”. Confesso que caí na gargalhada na primeira vez. Será que falaram sério ou o deboche era tanto contra o seu clube, que desdenhavam quanto a uma possibilidade do todo poderoso Luxa assumir o capenga time da Segunda Divisão Paulista. Bem, seria um novo desafio ao pofexô, que poderia aplicar o seu pojetu na equipe do ABC.

No final o Bernô ainda empatou de pênalti. A essa hora eu já estava abaixo da arquibancada, vendo o jogo abaixo do nível do campo, tendo ido no banheiro me refrescar novamente. Como consolo, pude ver o penal ser cobrado na linha do pênalti, à lateral do campo. O problema é que, entretido pensando como não notara que a bola havia entrado, ao me atentar ao pulo do goleiro ao vazio, não alcançando a bola, o Sorocaba avançou na saída da bola e voltou a ficar à frente, sem que eu tivesse a imagem registrada na retina. Só percebi pelos gritos de indignação dos torcedores. O fato de estar abaixo do nível do gramado e do outro lado do campo impossibilitava enxergar qualquer coisa.

O segundo gol foi a senha para quase todos os torcedores caírem fora do Primeirão de Maio. Até as organizadas saíram antes do apito final, em meio a batuques e berros de “vergonha, time sem vergonha!”. Os poucos que ficaram, como eu, agonizaram ante um Bernô perdido, sem brilho, sem técnica, sem jogadores, sem comando. É, o fim de semana dos são-bernardenses, como o Mané do Cachimbo, vai ser de cabeça inchada.

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