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Música letárgica

Começo este texto com um dilema. Ao mesmo tempo em que pretendo começar a destilar uma série infindável de críticas à “Melhor Banda dos últimos Tempos da Última Semana”, me sinto compelido a rever meus próprios pré-conceitos. Vamos à primeira parte.

Em meio às correrias com um problema de saúde na família, tenho acessado o computador só de vez enquando e desde ontem vejo citações a uma tal de “Banda Mais Bonita da Cidade”, tanto no Facebook, quanto no Twitter. Pensava: “que porra é essa?”, enquanto a curiosidade aguçava, mesmo que repulsiva. Mas os meus melindres sempre me impedem de acessar certas porcarias de imediato.

Mas hoje não teve jeito: gente xingando muito no Twitter, gente elogiando, resolvi assistir ao clipe de “Oração”. Vamos às amenidades. A música é bonita, a frase única da canção é bacaninha, tem uma boa sacada, o clipe é bem inventivo, afinal de contas, articular o rumo da música com o rumo do clipe, seus instrumentos, indo de cômodo em cômodo da casa, é surpreendentemente bem feito, com pitadinhas de inspiração cinematográfica, tudo num suposto plano sequência – não me estenderei aqui, pois não é da minha área. Com um adendo atualizado: a ideia do clipe é copiada da banda Beirut, como a própria banda sinaliza no vídeo do You Tube.

Quem gostou da banda, é melhor parar de ler aqui. Porque o rock and roll vai começar.

Desculpem-me, mas que porra é esse nome “A Banda Mais Bonita da Cidade”? Vivemos em uma sociedade muito babaca ultimamente, não? Tudo colorido, tudo bonito, tudo legal, as pessoas são fantásticas, o Brasil é o país do presente, sem pobreza, somos fodas. Ah, tá. Como o @Alerocha falou, o Brasil é a vanguarda do atraso, com 40 anos de atraso o movimento hippie chega à música brasileira. Acrescento que isso é fruto de cantores sem culhão, de bandinhas emo que cobram pra fã entrar no camarim, de cabelinhos lambidos chorarem dor de amor de 15 anos e tocarem o foda-se para o resto. E de uma MPB desconectada da realidade, apolítica, desmobilizada e mediana qualitativamente. De tudo isso surge uma banda gigante, cantando uma frase por seis intermináveis minutos, com um ar meio oba-oba, rimando penteadeira e despensa com amor e coração, em uma clara contribuição losermaniana, utilizando dos piores momentos de Camelo e companhia. Muitos elogiaram a letra. Que letra?  Uma frase repetida ad nauseam

Todo esse movimento que vejo na música há uns 15 anos me faz ter saudade dos tempos em que o artista, se não era engajado, ao menos se posicionava perante a sociedade, não se sujeitava a certas coisas, batalhava por um espaço dignamente e criticava quando algo o incomodava. Hoje todos são tão apáticos, tão… alegres.

A alegria meio forçada no clipe “Oração” forjada da necessidade em aparecer algo suave, cool, positivo, me enraivece de tal forma que estou aqui ouvindo Rage Against the Machine, com saudade de bandas como Clash e Legião Urbana (especialmente nos primeiros anos e em alguns momentos inspirados dos últimos), que tinham algo a dizer e sentiam, se insatisfaziam, com os rumos do mundo. Parece que vivemos hoje em um lugar em que quase ninguém tem algo a dizer. A não ser coisas floridas, amenas, supostamente alegres. E quando alguém se posiciona, é taxado de preconceituoso, exagerado, ideológico, ultrapassado. Azar. Prefiro seguir com meus ideais a subvertê-los e um nome de um mundo e sociedade “felizes”.

Um contraponto

Por outro lado, o texto datado de hoje no blog Febre Alta me fez pensar quanto aos meu próprios preceitos e, posso dizer, que encaixo em boa parte dele. Como exemplo: “E ouvir essa musiquinha me mostrou o que eu não queria ver: eu não sei mais ouvir música. Eu não consigo mais. Tá lá o clipe, tudo o que eu preciso é ouvir e me deixar levar, mas não. Fico tentando encontrar a picaretagem, quem trabalha em alguma agência de publicidade, quem tem pai cineasta ou dono de banco, quem é da turma do Marcelo Camelo, fico tentando entender qual é “a jogada”. Tá, e se não tiver jogada nenhuma?”.

Eu acho que me sinto assim às vezes. Toda vez que vou ouvir algo novo começo a comparar, fazer relações com o passado, pensar se não é alguma jogada de marketing, etc. Não consigo mais gostar de música, é um verdadeiro parto para eu gostar de algo, tanto que após mais de ano ouvindo Them Crooked Vultures fui gostar, e nem é uma banda com frescor jovem, já que é feito por velhacos do rock. Arctic Monkeys, Kaiser Chiefs e Strokes eu gosto de um disco cada e nada mais.

Mas tem muito a ver com isto daqui: “A Banda Mais Bonita da Cidade me mostrou o que eu não queria ver, que eu me tornei tão escravo dos meus preconceitos, a ponto de simplesmente não conseguir mais me entregar a algo tão singelo quanto ouvir uma musiquinha inocente sem pensar em outras coisas que absolutamente não interessam. É uma vontade de ter a minha inocência de volta, misturado com a preguiça de ter que encontrar mais lugar no IPod pra mais gente entrar na casa do Dylan, Chico, Bowie, Clapton, Lennon, McCartney, George, Springsteen, Ben, Melodia, Novos Baianos, Luís Gonzaga, Chet e Ella e Cole e Thelonious e… simplesmente não cabe. Estou cheio”.

E, tal e qual o autor do texto do blog Febre Alta, ouvir essa tal banda bonita (desculpa, mas puta nome idiota…) me fez ter uma “necessidade quase física de ouvir The Clash e pensar noutro tipo de juventude, uma outra postura, um outro contexto”. E estou eu aqui ouvindo Rage Against the Machine, achando que isso sim tem muito mais a ver com o tipo de sociedade que eu quero estar inserido e viver do que uma bobalhagem feita por estudantes de Ciências Sociais da PUC que moram em Perdizes e estiveram no churrasco da gente diferenciada – eu sei que exagerei.

Ok, apesar do mea-culpa feito acima, continuo com o pensamento de que esse tipo de música e atitude não faz parte do meu universo. Por isso, eu poderia ignorar, etc., mas não dá, porque parece que é só essas baboseiras que as pessoas buscam hoje em dia. Cada vez mais me sinto desconexo do mundo atual. Mas eu não prefiro ser essa metamorfose ambulante não, prefiro ter convicção pelos meus ideais e prosseguir lutando por eles, adaptando-os, mas nunca deturpando-os em nome de preceitos e da cultura oba-oba que para mim são furados.

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  1. 20/05/2011 às 9:20 PM

    Boa. Identifiquei-me em grande parte com suas inquietações, embora eu talvez ainda não esteja “evoluído” [aspas minhas, relaxe] a ponto de ter a generosidade que vc e o outro blogueiro demonstram ter, a ponto de rever os seus [pré]conceitos. E com um ‘agravante’: sou 12 anos mais velho que você, portanto com mais potencial catártico-revisionista a ser decantado. Mas eu [eventualmente] chego lá…
    Abraço,
    Guy

    PS: tb gosto/ouvi muito do RATM, mas nessas horas vou ouvir Ramones mesmo. 😛

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    • rodrigoherrerolopes
      21/05/2011 às 5:26 PM

      Hello Guy!

      Realmente, eu fiz um mea-culpa que é mais uma análise psicológica-interna que eu resolvi externar, mas eu prefiro ficar com meu pensamento supostamente antiquado, preservar meus valores e viver com aquilo que eu acredito e ouvir as bandas que seguem trilha parecida, do que ficar tentando ouvir coisas bundas só para dizer que sou uma pessoa aberta à novas experiências. Não é porque as experiências são novas que significam que são boas. Ah, mas Ramones também é ótima pedida! Abraço!

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  2. Evandro.
    14/06/2011 às 11:07 AM

    Pois é. Dias desses, ouvindo meus velhos CDs de Rock, meu cunhado perguntou se eu não tinha nada novo ali no meio deles. Não, não tenho. Mas depois fiquei pensando: “caramba, pq não tenho nada novo?” e lendo esse seu texto percebi o pq não tenho nada novo. Concordo com o q disse, e me sinto assim em relação a música tb. Acho q alguma coisa ficou presa lá atras.

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    • rodrigoherrerolopes
      15/06/2011 às 3:23 PM

      Fala Evandro! Como vai? O pensamento é por aí… Se lá fora já tá difícil, aqui no país – seu foco – as coisas tão ainda mais tristes… O jeito é ouvir o bom e velho rock and roll. Abraços.

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