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Estação Angélica: exageros, preconceitos e superficialidades

A polêmica em torno da construção da estação de metrô Angélica da Linha 6 – Laranja na esquina da avenida Angélica com a rua Sergipe transcendeu a discussão sobre a necessidade da ampliação do transporte público de massa na cidade de São Paulo e partiu para uma aparente discussão entre classes sociais, mesmo que não haja mobilização de fato da classe mais interessada: os trabalhadores que poderão utilizar do benefício de haver uma estação de metrô no bairro de Higienópolis, região central da capital paulista.

De início, o projeto apontava a construção tanto da estação Angélica e, também, da estação Pacaembu, situada na praça Charles Miller. Esta última sumiu das projeções seguintes. Coincidência ou não, após a Associação Defenda Higienópolis iniciar protestos contra uma estação na avenida Angélica, o metrô acabou retirando a estação do desenho original, devolvendo a estação Pacaembu ao trajeto da linha.

Em nota em seu site, o metrô defende que está reavaliando a posição da estação Angélica devido a esta estar próxima somente a 600 metros da futura estação Higienópolis-Mackenzie, da linha 4, prevista para 2014, e que irá integrar a linha 6 ao sistema metropolitano. Enquanto isso, a estação seguinte à Angélica – PUC-Cardoso de Almeida – ficaria desta a 1.500 metros de distância. De fato, há um desequilíbrio e o argumento do metrô é válido. Tanto que a mesma nota – além de declarações do próprio presidente da companhia, Sérgio Avelleda, em diversos veículos – indica que a “área técnica do Metrô estuda a melhor localização de uma nova estação que atenda à FAAP, Av. Angélica, Praça Vilaboim e Estádio do Pacaembu”.

Acredita-se hoje que a melhor solução seja mesmo uma estação na região da Praça Vilaboim, com saída para a porta da Faap, atendendo tanto o público da universidade, os visitantes do Museu do Futebol e torcedores em dias de jogos, como aqueles que seriam atendidos diretamente com a estação Angélica. Do ponto de vista racional, essa parece ser a melhor solução, diante dos impasses provocados de lado a lado.

O problema de foi a condução desse processo, que revela que não é apenas uma questão técnica que está em jogo. Todos os veículos de comunicação usaram e abusaram do palavreado enojado de alguns moradores de Higienópolis que temem ver suas calçadas parisienses contaminadas de pobres, mendigos, ladrões e toda a sorte de desprivilegiados. Atônito com a repercussão, restou ao metrô dizer que o possível cancelamento da estação Angélica foi uma decisão de caráter “exclusivamente técnico”, o que, sendo ou não, não “cola” mais. Vai ficar marcado na História que a estação deixou de ser construída – caso seja mesmo retirada do local inicial – devido à forte pressão de alguns moradores do bairro, que preferem não ter metrô, e, como argumento, utilizaram de arquétipos preconceituosos para tratar do tema.

Personagens nada diferenciados

Do outro lado, surgiu uma manifestação brincalhona, irreverente, mas esquisita. De um encontro organizado de brincadeira no Facebook, milhares de pessoas foram no último sábado ao bairro de Higienópolis fazer churrasco e posar para fotos, demonstrando toda a sua “indignação” com as “elites” de Higienópolis que não querem a estação para os trabalhadores que vão até o bairro. Suponho que poucos dos manifestantes tomam metrô além do circuito Vila Mariana-Trianon-Masp aos fins de semana, alguns estudam nas faculdades da região e chegaram até o local estacionando seus carros nas quadras adjacentes à manifestação. Pelo que eu li no Twitter, no Facebook e nos sites noticiosos no dia da manifestação, boa parte daquele público advém de uma classe média que acha que uma rede social será capaz de revolucionar nossa sociedade – maldito exemplo subvertido do Egito.

Apesar da motivação ser válida e importante, o movimento de sábado aparentou ser nada mais nada menos que uma reunião de gente que queria aparecer, fazer farra, beber, fazer piada, ver e ser vista, para contar todas as aventuras do “protesto” aos amigos. Não teve uma vocação ideológica, reflexiva, profunda. Foi apenas um movimento que, de ajuda, serviu para manter o tema em pauta. Mas não procurou, com ele, pensar na viabilidade desta linha que, se vai atender ao desassistido público da zona noroeste da cidade, também vai passar por áreas cuja presença do metrô é amplamente questionável, em comparação com outras de maior prioridade e urgência.

O que quero dizer aqui é que nem a associação supostamente pró-Higienópolis, tampouco os manifestantes de classe média que fazem protestos nas suas folgas e depois debatem as “aventuras” na balada ou na escola nos dias seguintes, são representativos das parcelas menos favorecidas da sociedade. Não dá pra dizer que 3.500 assinaturas de um abaixo-assinado representam a totalidade de um bairro com 55 mil moradores, menos ainda achar que mil pessoas que acham que churrascão marcado por uma rede social representam a vontade da sociedade.

Isto é, a suposta discussão entre classes nada mais é que um ranço entre grupos mais bem favorecidos. Enquanto um quer evitar ser “contaminado” pelos efeitos colaterais do progresso (enquanto se diverte em viagens de metrô pelos EUA e Europa), o outro grupo posa de pseudoidealista e pseudoengajado, tentando mostrar estar antenado com os mais pobres, ajudando o “coitadinho” que não pode ficar sem metrô para trabalhar, mas não está aqui para protestar. Ou seja, a aparente divisão de classes nessa disputa a respeito do metrô nada mais é do que uma briguinha de poucas parcelas não-representativas da sociedade, uma querendo evitar aparecer, a outra, procurando holofotes. O povo mesmo, o real interessado, mais uma vez, foi pouco e mal ouvido.

Bairro “higienizado”?

Para terminar, uma percepção prática a respeito do comentário de uma das moradoras do bairro que gerou tanta indignação de tanta gente. A tal expressão #gentediferenciada, que virou, como se vê, até hashtag de Twitter, bradando contra a chegada do metrô, que levaria também pessoas de má estirpe. Como se não houvesse mendigos, ladrões e outras coisas no bairro atual – estou supondo que a tal mulher não foi tão preconceituosa a ponto de referir-se também aos trabalhadores que vão até a região, o que de fato, já acontece, ela querendo ou não, já que existem ônibus, metrôs ao redor, enfim, Higienópolis não é uma ilha. Saí hoje para caminhar a esmo e acabei indo parar em Higienópolis, o que me levou a seguir até o Pacaembu, e pude constatar como a tal senhora não anda pelo bairro que tanto venera – e se esse é o único argumento da Associação Defenda Higienópolis, idem.

A poucos passos do cruzamento entre as avenidas Higienópolis e Angélica, há uma quadra da improvável estação de metrô, uma mulher sentada com uma criança implorava por uma esmola, sob um frio de 14 graus.  Do outro lado, já na avenida Angélica, outra senhora jazia na rua fria. Após cruzar a mesma avenida, mais alguns metros depois e outra mulher, com um bebê ao colo e uma pré-adolescente ao seu lado, a pouquíssimos metrôs do Shopping Pátio Higienópolis, onde o protesto “diferenciado” começou.

Segui caminhando pelas ruas do bairro e saí numa ruela que desembocava na FAAP, para a minha surpresa. Desci até o estádio do Pacaembu, dei a volta pela faculdade e voltei a subir rumo a minha casa, sem antes deixar de ver uns oito homens fumando maconha na parte debaixo da praça Esther Mesquita, ali no bairro europeu de Higienópolis, tão bem protegido por seguranças na própria praça ou, mais à frente, no Colégio Sion. Ou seja, o mundo perfeito daquele bairro existe mesmo na cabeça de algumas poucas aberrações que lá residem.

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