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Venezuela – Dia…

É, já perdi a conta dos dias, os posts não tem sido diários, então paremos com a numeração.  E vamos logo para o post de hoje.

Neste domingo aqui na Venezuela começou o Venezuelão 2011, ou o Bolivarianão 2011, ou ainda o Chavão 2011, como queiram. É o Clausura daqui que fecha a temporada 2010-2011. Pena que o Caracas estreou fora, ante o Monagas, em Maturín. O que me sobrou, em princípio, o clássico entre os “Deportivos”, o Petare, da capital, e o de Anzoátegui. “Pero”, hoje cedo, fuçei na internet para confirmar e descobri que o jogo a ser disputado no estádio Olímpico de Caracas, que fica na Universidade Central (ao lado do campo de beisebol (eu fui num jogo semana passada, preciso contar essa história), seria disputado a “puerta cerrada”, sem explicação aparente. Daí, me restou o outro jogo na capital caraqueña, de terceira linha: Real Esspor x Mineros de Guayana, no estádio Brígido Iriarte, zona sudoeste de Caracas.

E, após um dia com amigos dos amigos que me acolheram num clube “cerca” de Caracas, me deixaram de carro na volta na porta do estádio, uma moleza, considerando que estávamos fora da cidade e que o estádio fica numa região mais periférica. Para entender, imaginei um morro bonito, todo verde, alto, ondulado. Agora, imagine esse mesmo “cerro”, só que, ao invés do verde da mata, tá o vermelho do tijolinho, dos milhares de tijolinhos, das casas, dos “ranchos”, que formam várias e várias favelas pelos morros da capital venezuelana. Embaixo de um desses tinha até um túnel, por onde passamos (e outro depois) para chegar ao destino.

No Google Maps indicava que havia metrô perto, mas o meu novo amigo, Frank, me sugeriu pegar um “metrobus” (Sim, a pataquada igual a do Rio de chamar ônibus de metrô) que era mais seguro e fácil. Diante disso, dei uma volta no estádio, até a avenida, e voltei, só para me ambientar com o lugar e tirar umas fotos da fachada.

O detalhe bom é que a entrada foi livre, grátis, ou seja, não paguei um bolívar sequer. Eu li algo assim num site de notícias. Só não saquei a explicação, mas isso eu conto na sequência.

Entrei há uma meia hora do jogo começar e os dois times estavam aquecendo no gramado, na maior cordialidade. Engraçado que a torcida estava dividida, aepsar de Puerto Ordaz – cidade-sede do visitante – ser longe pacas de Caracas. Vieram uma meia dúzia de “hinchas” mais fanáticos que ficaram pulando e soltando fogo do outro lado. Mas na parte debaixo onde fiquei e estava repleta, tinha torcedores misturados e um número expressivo de torcedores com camisa do Caracas, curiosíssimo. Exceção feia a um grupo de 20 torcedores do Esppor, organizador, “por supuesto”, que batucavam vários instrumentos, pareciam uma mistura de Olodum com escola de samba, e não paravam. E toda hora um garçom ia lá levar cerveja e refrigerante. Moleza torcer assim. De qualquer forma, e de resto, era um clima meio amador, o pessoal comemorava gol dos dois times, me senti vendo futebol nos EUA nos anos 70 (um episódio de “Anos Incríveis” sobre futebol ilustra bem isso), meio estranho.

E a qualidade da peleja, “seguro”, foi fraquíssima, como já era esperado. Mesmo assim, saíram cinco gols, num 3 x 2 empolgante para os donos da casa. Empolgante porque eles saíram perdendo, em um golaço de jogada individual de um “minero”, que tabelou pela meia-esquerda, cortou para o meio, passando por dois e mandou no ângulo esquerdo do goleiro da casa. Mas antes do fim da primeira etapa, os donos da bola empataram em cruzamento após escanteio da ponta esquerda.

Aqui, um parênteses. No intervalo, resolvi dar uma volta, primeiro, para tomar uma cerveja (sim, os caras vendem cerveja no estádio, e a um dólar!), ver o estádio de outro ângulo, tirar umas fotos, essas coisas. Aí me dei conta de uma coisa. Mas antes, é preciso explicar que o Brígido Iriarte é tal e qual o Olímpico, do Grêmio. Quem não conhece, é assim: são dois lances de arquibancada com, na parte final das cadeiras um corredor e um espaço para venda de comida e banheiros. O detalhe é que no Iriarte esses espaços ao fundo estavam quase todos tapados com lençol ou plástico preto. Daí fui entender o que a mensagem do jornal dizia: que o presidente do Real Esspor liberou a entrada porque no estádio estão 1.200 “damnificados” pelas chuvas do fim de ano. Ou seja, parte dos desabrigados estão morando no estádio!!!!! Surreal! Não entendi a relação disso com ser gratuito o jogo, mas, enfim, me dei conta da informação, que havia lido com desdém, ser imaginar que, minutos depois da constatação, veria uma idosa na “porta” de sua “casa”, um lençol rasgado no meio, observando tudo, com mais umas pessoas ali dentro, vendo TV. Sim, havia desabrigados ali no estádio. Em um desses buracos não havia lençol e deu para fotografar as beliches – na verdade, foi nesse instante que me toquei do que havia ali. E logo ao lado, uma gritaria e uma multidão clamando por cerveja. Além desses desabrigados, há outros pessoas numa fortaleza militar, em um pequeno aeroporto central e outras em moradias provisórias afastadas, enfim, prédios. As coisas são meio malucas aqui na Venezuela, ainda mais Bolivariana, com Chávez no poder.

Voltando ao jogo. Logo no início do segundo tempo, o Esspor virou de cabeça novamente, após outro cruzamento, este vindo da esquerda. Era a jogada dos caras, chutão e cruzamento. O Mineros tentava por a bola no chão e chegar dessa forma, mas o que errava de passe… Mesmo assim, na base do abafa, já aos 30 e “picos”, empataram, com outro golaço. Após escanteio da esquerda, a zaga da casa rebateu mal para a entrada da área e o atleta visitante pegou do jeito que ela veio e mandou no canto alto esquerdo do goleirão.

Mas como as duas defesas eram uma porcaria, aos 44′, após um lançamento da defesa, um neguinho baixinho que corria o ataque todo, veio da direita para a esquerda atrás da bola. Os zagueiros do Mineros ficaram olhando e o atacante do Esppor tomou a frente, invadiu a área, virou o corpo e bateu de direita, à esquerda do goleiro. Festa dos batuqueiros e torcedores do Esspor. E deste que vos bloga, que teve melhor sorte desta vez, já que no jogo de beisebol, o time da casa perdeu. Mas essa é história para outro dia. Até lá.

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