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Jornal, Instituto de Pesquisa, ou Instituto de Opinião?

Desculpem o sumiço, mas sigo em viagem pelo Brasil. Para saber mais, acesse o meu twitter: @rodrigoherrero.

Aproveito o ensejo sobre o twitter e reproduzo abaixo (com alguns acréscimos) pensamentos após ler a nova pesquisa Datafolha, que dá 38% para Serra e 28% para Dilma. Enquanto todos os outros institutos de pesquisa mostram evolução da candidata petista, o instituto da Folha de S. Paulo aponta estagnação e uma distância de quase 10%.

A cara de pau de jornalistas (e professores, mestres e doutores da área) em acreditar na “verdade acima de tudo” e na “isenção acima de qualquer coisa” é irritante. Como alguém pode acreditar em isenção jornalística se um jornal tem um instituto de pesquisa?

Parto do pressuposto tão claro como água de que os institutos de pesquisa no Brasil influenciam o brasileiro na hora de votar, muito mais que, por exemplo, na Europa. Quem nunca ouviu a expressão: “brasileiro vota em quem tá na frente”? Eu mesmo tive exemplos dentro da minha família disso inúmeras vezes.

Por outro lado, é necessário constatar que os institutos de pesquisa costumam servir a interesses diversos. O jogo de empurra é forte quando uma pesquisa “sem querer” distorce os fatos e acaba por influenciar uma disputa eleitoral – a História revela múltiplos exemplos.  Agora, alie-se isso a um instituto pertencente a um jornal…

Ou seja, temos um pandemônio. Enquanto o jornal “informa” e traz sua “opinião”, o instituto de pesquisa faz aquilo que seu nome manda: pesquisa a opinião das pessoas, no caso, dos eleitores.

A razão do pandemônio? Vamos lá: e se o jornal, ao invés de informar (quantos não desinformam todos os dias?), costuma, por meio de sua credibilidade, tentar convencer seu leitorado de alguma posição? Ou, pior, de que candidato A é mais preparado que B, mesmo que isso não se dê de forma declarada no veículo (e que seria bem mais honesto com os leitores e prestaria um grande serviço à sociedade, mostrando realmente de que lado cada um está – isso porque, ao desmerecer o papo de não há lado para tomar parte, proporciona que, nos meandros do poder, se coloque desta forma sem ônus)?

Será que não há no mínimo um conflito de personalidade de uma empresa que tem como compromisso a “isenção” fazer pesquisas de opinião que ajudam a influenciar os rumos de uma eleição? Não adianta dizer que ambas as empresas (jornal e instituto) são independentes. No cotidiano pode ser, mas qual é o primeiro jornal que divulga a pesquisa em sua primeira página?

Se estamos em uma sociedade que se diz compartimentalizada, em que o jornal informa e o colunista opina e o instituto de pesquisa, pesquisa, isso cai por terra quando uma empresa reúne tudo isso em seu conglomerado, podendo influenciar diretamente a opinião pública.

O fato mais próximo da realidade é que jornal nunca foi independente, pois as influências e disputas via jornal sempre existiram. Desde os tempos do The New York Times (o livro “O Reino e o Poder de Gay Talese é emblemático)  é perceptível o peso que o veículo pode colocar em favor ou contra uma causa. Conheci de perto outro exemplo esta semana em Goiânia, em que o editor do jornal Diário da Manhã, Batista Custódio, publicou durante seis meses reportagens contra as dragas, que acabavam com a reprodução de peixes no rio Araguaia e destruía toda a mata ciliar, prejudicando todo o ecossistema de uma Área de Proteção Ambiental doada pelo próprio, inclusive. Se há motivação para o bem comum ou para a natureza, há também para posições políticas e de poder. Sem falar em questões econômicas, um buraco mais complicado de provar, mas passível de investigação.

Percebo hoje, no entanto, que as posições nos jornais estão mais escancaradas, mesmo que as ações permaneçam revestidas de “jornalismo”. Isto é: as reportagens “batem” mais nos, digamos, desafetos do veículo, enquanto que afagam aqueles que estão mais próximos de suas convicções. Ocorre, no entanto, que isso não é declarado nas páginas do jornal, sendo perceptível mais aos olhos mais intelectualmente apurados, como, por exemplo, dos próprios jornalistas, ou mesmo de acadêmicos que estudam o jornalismo. Para a maioria das pessoas não faz tanta diferença. Só que não é bem assim: já dizia o ditado: uma mentira dita várias vezes vira verdade. Por mais que as pessoas tenham opinião própria e influam nos veículos e na sociedade, quem tem o poder de atingir mais e mais pessoas segue na frente das decisões do país.

Agora, quando é unido este cenário sórdido em um jornal que, ao mesmo tempo, possui um instituto de pesquisa, como fica a independência deste instituto e a lisura de seu trabalho? Só na credibilidade dos seus donos? E se uma pesquisa é direcionada, o quanto esta informação compromete a reportagem do veículo do mesmo grupo, embasada em números que não condizem com a realidade?

Estas perguntas nos remetem a outras, mais de cunho procedimental: em quem acreditar? Por quê acreditar? Como e onde o eleitor deve se informar? Por meio de propostas dos candidatos, através de um veículo de comunicação, por institutos de pesquisa? Há alguma outra forma de procurar se informar e abastecer de subsídios que possibilitem formar uma opinião que faça jus à democracia representativa que vivemos e não apenas uma democracia (não seria uma autocracia?) de eleições?

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