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A Alma Boa de Setsuan

Cheguei há pouco do Teatro Tuca, em Perdizes (zona oeste de São Paulo), onde assisti à peça “A Alma Boa de Setsuan”, de Bertold Brecht, com a Denise Fraga como atriz principal – temporada a preços populares (20 e 30 reais) vai até 28/03 no Tuca (Teatro da PUC-SP). A peça trata da dificuldade do ser humano ser bom em mundo competitivo, injusto e maldoso como vemos hoje. Deus (Ary França) chega no povoado chinês de Setsuan em busca de uma alma boa a quem valha ainda acreditar na humanidade e recompensá-la por isso. E encontra em Chen Tê (Denise Fraga) alguém que em sua casa e acaba recebendo uma fortuna por tal gesto que os outros moradores do lugar recusaram.

Só que Chen Tê é boa demais, o que faz as pessoas se aproveitarem dela, usurpando seu dinheiro, usando sua piedade em troca de migalhas, de suas moedas, de sua loja, de seu amor, roubado, enganado, atirado na lata do lixo. Para combater esse antro de leviandades, Chen Tê inventa a existência de um primo, que é ela mesma, de nome Chui Ta. Mais rígido e de coração bem mais firme, o tal “primo” luta para manter a dignidade de sua “prima” e espantar os espertalhões, uma missão cada vez mais difícil, principalmente após um longo sumiço de Chen Tê, fazendo recair as suspeitas sobre Chui Ta.

Há momentos hilários na peça, principalmente durante as intervenções de Ary França, seja no palco, seja com o público, marca brechtiana. Denise Fraga é uma baita atriz, não só na televisão, mas principalmente no palco. O elenco ajuda e a peça, de praticamente duas horas, passa como um ótimo lazer.

Mas o que ajuda mesmo é o texto de Brecht (muito bem lida e interpretada pelo grupo) e a reflexão que ele proporciona ao levantar a discussão sobre como ser bom em uma terra devastada pelo dinheiro e pelos desejos próprios, pelo individualismo capitalista que prega que todos têm direito, mas que poucos podem alcançá-lo realmente, devido à desigualdade pré-existente. Uma luta exacerbada pelo próprio espaço, sem que se olhe para o espaço do outro, como um cavalo e seu tapa-olho, vendo apenas seu caminho, derrubando os dos outros, se preciso.

Mas, se há tanta miséria, o auxílio é possível àqueles que têm. Mas como fazê-lo de verdade, sem interesse, de forma incondicional, apenas para ver o “sorriso no rosto do outro”? Como ser bondoso de verdade sem ter medo de ser enganado, violentado, morto? Como espalhar bondade em um mundo de espertos que cada vez mais se aproveita de qualquer lacuna para “se dar bem”? O que cabe uma questão sob outro ponto de vista: como ser bom em um mundo de miseráveis?

Ou, como Chen Tê pergunta pra Deus perto do fim da peça: “Como não ser mal se você não ter nem o que comer”. É a velha disputa pela sobrevivência, tão propagada pelo liberalismo/individualismo há alguns séculos. O que leva Chen Tê a questionar Deus: “Como a maldade pode ser recompensada e a bondade punida?” O resultado é uma careta e uma cara de bunda de Deus, sem resposta, a não ser gestos indecifráveis e um ar lamurioso querendo dizer: “não sei”. Se “Deus” não possui a resposta, como encontrar a razão, como encontrar o que é verdade, o que é certo, errado? É realmente possível explicar como certas coisas acontecem totalmente diferentes do que nos ensinaram e acreditamos? Será que aquilo que acreditamos é crível, realizável? Ou o ser humano é fadado a conviver naturalmente com sua condição de ser passível a atrocidades?

E não se trata de um texto datado. A frase vale, certamente, para os dias de hoje, em que delitos, corrupções, assassinatos e violências são cometidos contra o ser humano e a punição demora, quando alcança os réus. Mas quem é reto, correto, honesto, bom, é taxado de bobo, tonto, idiota, lunático. Quem nunca ouviu as expressões: “deixa de ser bobo”; “estão se aproveitando de você”; “tem mais é que levar vantagem?”. É só escolher.

Hoje em dia é estranho alguém desejar o bem e praticá-lo sem nenhum interesse, de coração mesmo. É difícil alguém ser amável de verdade, buscar o melhor para todos, ser solidários em ser piegas e sem buscar a auto-promoção naquilo que faz. Será realmente possível acreditar que a  predominância humana está na bondade? É uma pergunta que me faço neste momento e tendo a responder com uma negativa. E a peça explora isso de forma perfeita: quanto mais se ajuda mais se deseja arrancar desta alma boa. O jeito é tentar “achar uma saída” que torne possível praticar o bem do fundo da alma, sem que esta seja vilipendiada. É o desejo do espetáculo. É o meu também, apesar de um tanto descrente.

Bom fim de semana a todos. Até amanhã.

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