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A luta não mais continua, companheiros

Aqui vai um conto escrito em 2003, na redação do curso de jornalismo da Unicsul, escrito à toque de caixa, pois foi solicitado para ser entregue na mesma aula. Ou seja, 50 minutos para escrever um conto relacionando com algum autor ou obra favoritos. Já na época eu não lia quase nada e só me veio à cabeça Karl Marx e seu “Manifesto Comunista”, feito em parceria com Friedrich Engels. Portanto, peço a gentileza que relevem prováveis erros infantis. Mas vale pelo fervor juvenil, inexistente nos dias de hoje, talvez por causa ddessa desesperança de que trata o próprio conto, escrito já há sete anos. Boa leitura e até a próxima.

Ele caminha desolado por entre as ruas. Parece não acreditar em tudo que seus saltados olhos vêem. Os pingos batem em seu casaco preto e surrado, fazendo pesar a roupa permeável. De repente um susto. Algo passa apressado, quase a derrubá-lo. Era um garoto entregador de frangos que estava atrasado em sua missão. O bom velhinho não entendia o porquê de tanta pressa. Mesmo que temesse que um dia isso viria a acontecer, não imaginava que seria tão devastador.

Após duas horas caminhando comigo pela cidade, vagando totalmente sem destino pelos becos, favelas, bolsas de valores, centros empresariais, e tudo o mais que significava a vitória–derrota acachapante do capitalismo canibalesco, ele parou. Avistou um grupo de meninos nus, saindo de um barraco feito de madeira velha e podre. Olhou em volta e avistou putas, padres, bêbados, comerciantes e táxis. Inclinou sua cabeça para o chão e fez sinal de negativo com a mesma. De repente disse: “porque aceitei este convite?”. Nosso autor se referia a minha solicitação para trazê-lo de seu profundo, clássico e tranqüilo descanso para conferir o que acontecia depois de quase duzentos anos de luta por uma vida mais justa e igualitária. “É o fim”, dizia ele. “E eu que pensei que o capitalismo teria fim um dia, derrotado pelo socialismo, que faria a transição para um sistema único e para todos, estou vendo exatamente o contrário: o triunfo do capital sobre as pessoas”.

Finalmente Karl Marx sentia, depois de mais de um século, o fracasso. Nada do que escrevera antes, nem o “Manifesto Comunista”, com seu amigo Engels, nem com a Gazeta Renana, jornal onde relatou suas opiniões e posições durante anos. Muito menos sua principal obra, “O Capital”, em que a crítica, embasada em argumentos claros e transparentes deixava urgente a necessidade de uma atitude que alterasse o quadro tenebroso que ele vivia na época e que, na entrada do novo milênio ele não imaginava encontrar. Nem a Revolução Russa com Lênin, nem Cuba com Che Guevara, nem nada que se tentou após a vida de Marx resultou em pleno êxito. Agora tudo se baseia no neoliberalismo, na abertura de das economias, no lucro levado as últimas conseqüências, na mais-valia, detectada por nosso pensador, como a fonte para a desigualdade de renda e exploração de mão de obra. Os meios de produção totalmente nas mãos de quem ele sempre combateu, com teses que servem de base até hoje na História da Humanidade.

Apesar de muitos chamarem-no de ultrapassado, velho e arcaico, suas idéias ainda fervilham nos pensamentos de muitos admiradores de seus escritos. O problema é, como mostrou-se ao autor, que seus “seguidores” se perderam em seus textos e esqueceram de agir, se perdendo em palavras e situações inúteis, destruindo toda a possibilidade de um caminho melhor, contra aquilo que se criou com Hayek e seu livro, “O Caminho da Servidão”. O definitivo socialismo científico criado por Marx não mais satisfaz os hipócritas social-democratas que não desejam perder de vista seu capital. Os atuais esquerdistas se perdem na corrupção conservadora da direita, e calam-se ou enturmam-se com as conspirações vindas da burguesia. Quem pretende mudar comove-se com tudo que vê, mas nada faz para alterar esse modus vivendi.

Para Marx restaram as lágrimas e o pessimismo, a constatação da deturpação de tudo que ele criara e direcionara no passado. Foi a verificação de um fim para aquilo que convencionou chamar de marxismo. O começo do fim está nas mãos do capitalismo neo liberal-canibal, que está fazendo bem o trabalho, quebrando todas as correntes de resistência. Muito diferente do que Marx idealizou na “ditadura do proletariado”, onde o povo tomaria o poder e mandaria nas ações e rumos do governo. Sem políticos escabrosos, nem empresários oportunistas, apenas o povo e sua comuna, como em um mês de 1848 em Paris. Mas isso tudo era longínquo e efêmero em demasia, como sua estada, que chegara ao fim. A contemplação do fracasso da humanidade que amargara Marx profundamente neste dia, encerrava-se. Chegara a hora de partir de volta para casa. O momento era de despedida e desprendimento, mas com uma ponta de esperança. Talvez, um dia, isso chegue a tal ponto destrutivo, que as pessoas poderiam pensar em viver para si no todo e não somente para si e seu lucro.

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