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Cartas

Aqui vai um conto meia boca escrito, acho, que em 2006. Não revisei,  nem o li por completo, vai como foi concebido à época, um período distante…

Cartas

Quando o medo aprisiona a mente de um louco…

Esta era a décima carta que Maurício das Flores escrevia para algum amigo distante com quem havia perdido o contato. Mais folhas eram escritas a esmo, já que ele não tinha a menor pretensão de enviá-las. Tinha medo. Engraçado, pois o medo da solidão o fazia passar horas na internet enviando emails, conversando com pessoas desconhecidas nos bate-papos da vida, sem falar nas já citadas cartas. Tudo feito para espantar a frígida escuridão que, à noite, enegrecia a janela de sua casa.

E era esse mesmo medo, agora apontado para outro lado, que o fazia não enviar as cartas a seus amigos mais íntimos, com quem desenrolou anos de amizade e cumplicidade. Esse outro lado era a simples vergonha de se expor e alguém rir de algum pensamento ou palavra má colocada, das lágrimas borradas nas letras azul-bic. Anos e anos de vivência e agora isto, o medo. Simples, único, presente, forte, machucando cada centímetro do coração e da mente do escritor de cartas, como um vento cortante que fere o fraco sistema imunológico de alguém gripado.

Seu pequeno quarto é o ambiente em que permanece quase a totalidade do tempo. Uma cama de solteiro no canto esquerdo, a escrivaninha no lado oposto, defronte da janela, para poder observar as árvores, pássaros, pessoas, carros, passando pela rua onde mora. No sentido da porta, uma televisão 14 polegadas velha e um cômodo de quatro gavetas para guardar suas roupas surradas pelo tempo e não substituídas pela falta de dinheiro. Acima do cômodo um som com tocador de CD, já um tanto fora de moda perante a atual tecnologia de mp3 e ipod.

Mas é na escrivaninha de madeira que escrevia suas cartas para afastar o tédio dos dias longos e o medo das noites intermináveis. Madeira maciça, velha, caindo aos pedaços e, mesmo assim, recebia o peso do microcomputador. Este era de bom porte, claro, afinal, é sua principal ferramenta de trabalho, além de sua mente para pensar e mãos para digitar no teclado as idéias. E o micro precisa de uma capacidade adequada para agüentar as quase 168 horas semanais ligado ininterruptamente. Sim, pois das 24 horas de cada dia, Maurício fica acordado pelo menos 18 horas. Vai dormir apenas às 6 da manhã, para acordar lá pelas 11, meio-dia no máximo.

Ah, esqueci de contar: ele é escritor, aposentado forçosamente devido à sua pouca adequação ao mercado. Na verdade, ele nunca teve nada publicado, que lhe frustra até os dias de hoje. Deu aulas durante alguns anos, até ser aposentado por invalidez, aos 30, quando sofreu uma série de crises nervosas que quase o mataram. Hoje, aos 35 anos, vive do resto do INSS e de alguns bicos de tradutor e revisor que costuma fazer em casa. Sua saúde está em farrapos, debilitada por problemas respiratórios que degeneram seu organismo.

Apesar de tudo isso, “seu Flores”, como o jornaleiro costuma chamá-lo, gosta de acompanhar o noticiário pelo rádio e televisão, apesar de não ler jornais, “para não perder a paciência com as mentiras que eles publicam”, resmunga sempre, com razão. Livros, ele tem poucos, até pela pouca verba, mas já leu bem mais que hoje, quando tinha vontade e vigor físico de sair de casa em direção à biblioteca situada na região central da cidade.

Mas seu convívio mesmo é com os escritos políticos, poéticos, sobre o cotidiano, além das cartas… Ah, essas cartas já tomam um espaço significativo no seu quarto: desde quando se aposentou juntou duas caixas de sapato com folhas escritas para os poucos parentes distantes que possui, amigos, ex-namoradas, colegas da internet, pessoas por quem se apaixonava, mas nunca tinha coragem de dizer. Enfim, as cartas tomavam um longo tempo de sua parca vida.

E ele tinha medo. Medo de alguém ler aqueles textos pessoais demais para serem enviados a alguém. Ali, toda a sua decepção em relação ao mundo, a dor de viver em solidão por tanto tempo, o reclame das visitas cada vez mais exíguas de seus amigos, o amor que deixou de sentir há muito e ainda o preocupa, etc. Tudo que envolvia seus sentimentos era tema das cartas.

Mas ele tinha medo. O medo nada mais era do que confirmar a frustração de sua vida não ter um sentido (que tão poucos buscam para si, pois preferem saborear a monotonia do dia-a-dia), não ter valido a pena, não ter feito tudo o que desejava fazer, transformar o que desejava, amar e ser amado como ele sempre viu nos cinemas. Comédias românticas que só servem para iludir a cabeça dos jovens a acreditar que no fim das contas a mocinha da história vai aceitá-los e ambos viverão juntos e felizes para sempre.

Esse tipo de ficção devia ser banido da humanidade, ponderava ele, apesar de que, em cada ato vivido nas telonas, em cada personagem com problemas de relacionamento e, por conseqüência, solitário no seu caminho, Maurício sempre viu um pouco de si. Talvez por isso, ele dizia aquele tipo de coisa, pois, apesar de tudo, gostava de ver que, ao menos no filme, o rapaz que tinha um pouco de seu temperamento alcançava o objetivo e ficava com a garota.

Medo. Sempre presente, desde a infância, quando evitou a todo custo andar de skate em pé, já que sua mãe dizia ser “perigoso demais”. Medo na adolescência, de chamar as meninas para sair, de ser motivo de chacota dos colegas de sala, de sair para beber e fazer alguma bobagem, afinal, não tinha muito controle (e nem queria ter) frente à bebida. Medo no primeiro emprego, de conversar com os outros, de errar em alguma atividade. Até medo de morrer ele já tivera.

Mas agora, frente a seu estado de saúde definhando, nem ligava mais para isso. Nem mais medo de perder seu amor, quando foi abandonado e sentiu o gosto amargo de ter sido preterido, nojo que nunca deixou sua boca, seu corpo, sua alma. E nesse momento, do que poderia ter medo? Não era mais criança para ser ameaçado pelas barras da saia da mãe, não era mais jovem para ser motivo de chacota da sala nem de sair com as meninas ou beber, já que este último nem podia mais. Não trabalhava e só esperava o tempo que os problemas respiratórios agravassem. Então, o que temer?

“Tudo”, pensava Maurício. De ser motivo de chacota dos vizinhos do prédio, dos conhecidos e amigos da internet, de alguém desprovido de bom senso que fosse até a casa dele e visse seu estado deplorável. Das cartas. Sim, ele tinha medo das cartas. Na verdade a culpa não era delas, mas sim do que ele expôs ali. Sua vida estava escrita naquelas páginas – algumas até amareladas pelo tempo – como se fossem uma autobiografia. Nem a escuridão o atormentava mais. Apenas a solidão o afetava mais que o medo de suas cartas.

Talvez por isso que, um dia, Maurício resolveu enfrentar o problema e foi até a caixa de sapatos. Estava disposto a pegar carta por carta, folha por folha, e lê-las todas, com o objetivo de enviar aos seus devidos destinatários. A idéia fixa já estava na mente dele e nada poderia demovê-lo: ia mandar a todos para que seu ego de escritor fosse finalmente realizado. Ele pretendia se matar após a limpeza das caixas, sem antes avisar a todos com uma carta de despedida trágica e lamuriosa sobre suas intenções, para que os amigos, parentes e outros, realizassem, após a sua morte, sua vontade de publicar o conteúdo das correspondências.

E começou. Primeiro foram as cartas endereçadas ao amigo Rafael, que sumira há uns dois anos. Casou, arrumou emprego em outra cidade e esqueceu todo mundo. Olhou aquelas confissões e achou tão fora de propósito que desejou rasgá-las todas, mas sentiu que o motivo histórico do período em que o texto foi escrito o obrigava a mantê-las vivas. Separou todas as cartas do amigo sumido e fez um texto novo, explicando o que se tratava e o motivo daquelas mensagens tão antigas estarem sendo enviadas com tanto atraso.

A próxima da lista foi Marisa, uma ex-namorada com quem só conversava esparsamente pela internet, mas sem assuntos muito profundos. Cartas a ela havia umas doze, todas enraivecidas, logo após o período da separação, quando a moça decidiu seguir seu caminho sozinha. Hoje está casada e nem se importa, como antes, com as opiniões de Maurício. Nosso escritor leu um a um os textos e fez o mesmo procedimento: escreveu uma correspondência nova, contando que havia escrito tudo aquilo em outros tempos, mas que agora não sentia nenhum ódio e que desejava a ela toda a felicidade do mundo, avisando apenas que queria que Marisa guardasse aquele material como parte da lembrança da união dos dois, omitindo, claro, seu objetivo final.

Teve também Adriana, uma velha amiga, daquelas que a pessoa tem mais como irmã do que como amiga. Residente de outro estado, essa foi praticamente a única que Maurício manteve contato, seja por carta ou email, durante todos os últimos e longos 5 anos. O relacionamento de amizade entre ambos nunca foi abalado, mesmo pelo tempo e distância. A falta de comunicação por alguns meses logo era retomada por um dos lados. Mesmo assim, Maurício deixou de enviar vários escritos, no eterno medo de se expor demais, o que no caso era um tanto exagerado. Ambos tinham um amor incondicional pelo outro, que transpassava qualquer barreira egoísta. O respeito e a amizade sempre estiveram acima de tudo entre eles.

E, com explicações e textos antigos, dezenas de colegas, amigos, conhecidos eram presenteados. Mensagens de incentivo, de felicitação por aniversários e outras datas comemorativas, desabafos, confissões, xingamentos, notícias, tudo estava naquelas caixas de sapatos guardados há anos e só agora vinham à tona, já um tanto sem porquê. Até que chegaram as cartas de Alissa. O grande amor da vida de Maurício que nunca foi correspondido. Na verdade, ela nunca soube realmente se ele gostava ou não dela. Eles até tiveram algum contato mais próximo durante a faculdade, mas os caminhos foram rumados a portos diferentes.

Maurício nunca escondeu a frustração de ter perdido algo que nunca teve. Sua falta de ação perante a garota, a timidez, o medo de tomar um “não”, tudo confluiu para o fracasso que ele sempre tentou apagar de sua mente. Porém, naquele segundo, a caixa de sapato mostrava o passado de forma inexorável na sua frente, apontando uma interrogação para o futuro. O medo de enviar e mesmo ler aquelas cartas vinha com maior vigor. Maurício jogou as folhas no chão e foi para a cozinha. Abriu a geladeira e tomou uma garrafa de água gelada quase num gole só. Ao pôr a garrafa em cima da pia sentiu o exagero e tossiu tanto que caiu no chão e quase desmaiou.

Depois de passar algumas horas no sofá da sala, assistindo televisão e evitando o encontro crucial para se libertar de toda aquela dor, Maurício tomou coragem e voltou para o quarto. Já eram onze e meia da noite. E Maurício leu as correspondências de Alissa repletas de borrões, lamentos e paixão. Sim, pois, apesar de todo o recato desse sentimento, o amor que Maurício nutria pela garota era intenso e profundo.

Interessante que, com o passar das páginas, ele começou a ver que tudo aquilo não passava de bobagem e aqueles sentimentos não iriam fazer sentido para Alissa, como já não faziam para ele. Talvez esse conformismo oportunista de jogar para o outro a responsabilidade da ação – ou da falta dela – tenha salvado a vida de Maurício, que resolveu enviar todo o conteúdo para seu amor platônico, mas sem temer a reação dela. Seu medo, por fim, terminara. E, portanto, a razão para o suicídio também. E graças a um ato que aliou a coragem do envio das cartas com uma razão bastante covarde: a de achar tudo aquilo perda de tempo, só para sufocar uma paixão reprimida. Mas enfim, daqui por diante, Maurício pode viver seus últimos dias de vida em paz. Nossa existência é muito irônica mesmo.

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