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Cotidiano de Alguém Sozinho

São onze horas da noite e Júlio se despede de seu último amigo na faculdade, encaminhando-se para o ponto de ônibus, à espera do circular que o levará até sua residência. Ah, que saudades de casa! Depois de trabalhar o dia inteiro em outra cidade e ocupar o tempo noturno com mais trabalhos e reuniões na universidade, agora Júlio se reencontraria com seu descanso: sua acolhedora e confortável cama.

O jovem rapaz sentia-se cada dia mais exausto, com menos forças e ânimo para seguir em frente com seus objetivos. Andava também confuso, é verdade, perdido em pensamentos e amores frustrados. Mas naquela hora tudo que Júlio pensava era em seu simpático beliche, com o colchão de espuma sobre o estrado de madeira velha e barulhenta. Sim, à medida que ele se remexia na cama a madeira “estralava” num ruído chato, irritando seu velho pai no outro quarto. Mas o costume era tanto que só em dias muito irritados para Júlio xingar aquele velho estrado e almejar uma cama de casal em seu pequeno quarto de solteiro.

Após longos minutos aguardando a condução, pois dois coletivos passaram batido pelo ponto, não ligando para o braço estendido do menino, finalmente um ônibus parou para recolhê-lo rumo a seu destino. Momentos dispersos no interior do veículo: reflexões duras sobre o andamento de seus projetos de vida e sérias dúvidas quanto ao amor que desejava atormentavam-lhe a mente enquanto o motorista corria livre pela Avenida São Miguel.

Na descida do ponto final, Júlio lembrou de uma canção que há muito não saia de sua cabeça e que naquele dia a ouvira uma dezena de vezes em seu trabalho, enquanto cumpria suas obrigações no emprego. Era uma música de uma banda que acabou no final da década passada, que falava de sangue, lágrimas, desesperanças, dor, mas no fundo, no fundo, ela retratava o amor, mesmo sendo por uma pessoa que tinha ido embora. Júlio pensou, penou aquela poesia, louco de vontade de chegar em casa e ligar seu antigo som para ouvi-la novamente.

No caminho de casa Júlio reparava nas luzes dos postes de iluminação, nas árvores escurecidas pelo manto negro da noite, os carros passando e ainda as poucas pessoas voltando para suas moradas já próximo da meia-noite. Ele relacionava tudo aquilo com os faróis que a letra da canção sinalizava, com as percepções vazias de um momento que ele mesmo desejava esquecer, mas que não podia evitar de relembrar. Sim, eram velhos momentos de seu coração novamente partido que entoavam forte dentro de sua alma.

Júlio saiu recentemente de uma decepção amorosa e busca no trabalho sua fonte da juventude, para recuperar-se enquanto o mundo parece roubar-lhe o chão. Aquela sagrada música o faz relembrar todos os dias dos tormentos e descaminhos vividos, os enganos, que naquele momento eram bons, o amor dado sem retorno e tudo aquilo que sempre pensou ser real. Até o momento em que tudo se foi no mesmo piscar de olhos que chegou para Júlio, e aquilo que o fazia forte o fez ruir completamente.

O que restou para ele foram a canção e as memórias de sua mente. “Cadê as chaves?”, pensa alto Júlio, enquanto procura o molho de chaves em sua bolsa rasgada. Entra no prédio, olha resignado a cor de salmão ridícula pintada na fachada do condomínio e percebe a Lua límpida e brilhante no céu, vista de longe por uma estrela ou planeta grande. Nem ele sabe o que é, mas acha bonito. Sobe os vinte e quatro lances de escada, até chegar em seu andar. Mas antes, olha pela janela da escada do seu bloco a paisagem bucólica de uma noite comum: prédios escuros, uma favela iluminada ao canto, escuridão e mais escuridão; apenas a Lua a iluminar “qualquer coisa que o valha”, como diz com raiva o rapaz.

Júlio adentra em sua casa. Todos estão dormindo, afinal, era muito tarde e todos acordam cedo em sua casa para trabalhar. De tão cansado, Júlio prefere deixar o banho para quando acordasse. Foi direto à cama, trocando de roupa já deitado e com a colcha em cima de seu corpo cansado. Percebeu que o controle do som estava jogado do outro lado do quarto e xingando aos montes resolveu pegá-lo para ligar o som. O mau humor corroía-lhe a pacata personalidade de alguém que não teve um bom dia.

Aproveitando que estava em pé, pegou o CD com a música e colocou em um volume baixo para não incomodar ninguém. Ouviu em respeitoso silêncio, até a primeira lágrima cair de seus pequeninos olhos pretos. A partir daí Júlio começou a cantar com maior força, até chegar no final da canção que pergunta: “aonde foi o seu coração?” O jovem perguntava para si mesmo o que tinha-lhe acontecido, mas preferia esquecer toda a dor e todas as garotas que amou. Júlio seguia agora seu caminho como sempre vivera, no final das contas, sozinho.

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