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Gildo Marçal Brandão (1949-2010)

Acordo hoje, ligo o computador e procuro, como sempre, as notícias do esporte. Entro no Blog do Juca Kfouri e leio uma notícia que me deixa entristecido e perplexo: a morte do professor Gildo Marçal Brandão, professor do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Juca Kfouri indica que o professor era seu amigo.

De minha parte, professor Gildo deu aula para mim no semestre passado, em conjunto com outros dois professores, na disciplina “Modalidades do Pensamento Político Moderno” e foi o professor que mais gostei, sem desmerecer os demais, obviamente, que também possuem seus méritos. Mas o professor Gildo tinha o pensamento comunista a me chamar a atenção. Seu módulo, o último, tinha Tocqueville, Marx e Weber e me encantou desde o começo, fazendo com que eu não visse a hora de absorver seus conhecimentos. Mas, antes, na primeira aula, os três professores estiveram presentes. E cada aluno falava sua formação, de que curso vinha e o tema de sua pesquisa. Lembro-me dele ter simpatizado com meu tema, perguntando-me o nome de meu orientador, inclusive.

É estranho imaginar que estive presente em uma de suas últimas aulas, em novembro. Mais estranho ainda é cogitar que ele possa ter corrigido o meu trabalho final, já que era relacionado a seu módulo, tendo sido responsável pelo meu “A” em sua disciplina, no comecinho de fevereiro. Encarei aquele texto, uma reflexão referente à obra “O 18 Brumário de Luis Bonaparte” de Karl Marx, como um desafio, pois a matéria era complicada e o livro ainda mais, mas meu gosto pelo autor – além do meu entendimento dele, auxiliado pelo professor Gildo – me fez seguir em frente, numa missão que considerava extremamente delicada e difícil.  Mas consegui. Espero ter deixado o professor Gildo contente, mesmo nós não tendo contato próximo no cotidiano ou nas aulas.

Mesmo sem uma proximidade, aprendi a respeitar seu profundo conhecimento sobre o que falava: citava datas e detalhes de textos e da vida de Marx, impressionantes, além de seus conhecimentos de Weber, que contribuíram até para minha pesquisa. Pena não ter podido dar a aula sobre Tocqueville por conta de um imprevisto, tendo sido substituído por outra professora da disciplina.

O professor Gildo vai deixar um vácuo enorme na discussão sobre a Ciência Política, Sociologia, Filosofia, enfim, sobre o pensar esse Brasil por outro viés. Foi alguém que contribuiu para o aprimoramento do pensamento comunista e que lutou por sua propagação no Brasil. Ele vai após muita luta e a certeza de dever cumprido. Adeus professor Gildo e obrigado por tudo. A USP e o Brasil agradecem.

Como forma de homenagem, republico abaixo o texto que está no Blog do Juca Kfouri.

Amigos e companheiros,
Simone, Joana, Carolina e Lucas,
Dona Eva, dr. Brandão e demais parentes de Gildo

Aqui estamos para prantear o desaparecimento de um personagem singular.

É interessante assinalar que Gildo antes de tudo era um sobrevivente na batalha pela sua existência.

Segundo o relato de sua mãe, dona Eva, na infância os médicos não acreditavam que o primogênito daquela família, nascido no inóspito sertão de Mata Grande, iria sobreviver.

Os diagnósticos eram irrefutáveis. O garoto padecia com a chamada tetralogia di Fallot que afetava de forma total seu sistema cardíaco.

Todavia, dona Eva, com o apoio total de seu esposo, não se curvou diante desse prognóstico.

Recorreu a tudo que a medicina naquela época poderia fazer para salvar seu filho.

Assim, teve início uma batalha que durou quase sessenta anos, porque exatamente hoje Gildo completaria 61 anos de idade.

Mas essas seis décadas foram sobretudo uma sequência de sofrimentos e sacrifícios inauditos desse alagoano fisicamente fraco, mas com fibra de aço. Volta e meia era internado em hospitais e sempre estava preso a dietas intoleráveis.

Duas vezes seu músculo cardíaco teve de ser aberto e na primeira delas sua vida dependeu da perícia do doutor Zerbini.

Recentemente, recorreram à implantação de um marca-passo, que, afinal, não impediu o enfarte que o derrotou anteontem.

Sua grande amiga, cardiologista do Incor, a doutora Ana Maria Braga, sempre nos advertiu: “Fiquem preparados para o que pode acontecer com Gildo”.

Então, na verdade, o sucedido anteontem foi um fato absurdo, mas anunciado, pois a falência de seu sistema cardíaco fora adiada durante seis décadas.

Em primeiro lugar pelo extremo cuidado recebido na infância e na mocidade, graças ao carinho de seus familiares.

Outros fatores básicos foram essenciais na formação dessa figura excepcional como teórico e militante político em nosso país.

Em segundo lugar contribuiu decisivamente seu profundo amor à vida, ao trabalho que realizava como cientista político, sua convicção de que suas pesquisas seriam de enorme importância para o futuro do país.

Note-se que fugiu de São Paulo para uma praia a fim de poder terminar a aula que deveria prestar na segunda semana de março.

Todos sentiam como seus deveres como professor o consumiam, embora sempre apreciasse as coisas boas da vida.

Não por acaso seu último de vida foi um passeio maravilhoso numa praia.

O outro fator básico que permitiu essa atividade espantosa foi o apoio absoluto, total e vigilante de Simone, sua companheira que tudo fazia para que Gildo pudesse viajar, tomar parte na vida social e manter em sua residência um afetuoso e acolhedor clima de amizade com inúmeros amigos, com estudantes estrangeiros que ali se hospedavam, e auxiliando os pós-graduandos orientados por Gildo.

A contribuição de Simone também foi essencial para garantir um melhor padrão de vida da família.

Pois bem, esse alagoano travou essa batalha sem se submeter às normas impostas a uma pessoa fisicamente frágil.

Sua vida é um exemplo de um envolvimento permanente com toda a sorte de dificuldades financeiras, políticas, policiais e de extremo amor a diversas instituições de pesquisa, particularmente a Universidade de São Paulo.

Agora a fatalidade o derruba quando dentro de um mês iria disputar o mais alto posto na academia, a função de professor titular da USP.

O ponto de partida de Gildo na universidade foi o estudo sistemático de filosofia, o que lhe deu uma base teórica que sempre lhe permitiu fazer análises profundas na ciência política e na sociologia.

Daí suas posições ao lado dos que no movimento comunista assumem uma atitude firme na defesa do valor universal da democracia e da firme disposição de aprofundar a correção dos erros cometidos pelos que se engajam na luta por uma sociedade mais justa.

Com orgulho Gildo Marçal Brandão relatava sua qualidade de militante comunista.

Relembro sua disposição de participar ativamente da rearticulação da direção comunista em São Paulo, quando a repressão policial assassinou diversos dirigentes comunistas em 1974 e 1975.

Naquele ambiente de absoluto terror, Gildo cuidou de reorganizar a direção estadual dos comunistas e participou do lançamento do semanário “Voz da Unidade”, que circulou durante vários meses.

Essa atuação criou um problema para ele, porque o afastou durante vários meses da vida acadêmica.

Assumiu o compromisso de uma participação teórica mais intensa no lançamento da revista “Temas de Ciências Humanas”, abordando aspectos essenciais da atividade comunista no Brasil e no mundo.

Para sobreviver viu-se forçado a trabalhar em várias publicações, na qualidade de “free-lancer”, inclusive na “Folha de S. Paulo”, quando foi acolhido por Cláudio Abramo.

Retornando à atuação na academia, Gildo jamais deixou de lado sua atuação destacada como um dos teóricos que dedica parte de seu tempo à elaboração programática do ideário comunista no Brasil e no mundo.

Comecei meus contatos com Gildo depois da minha saída da prisão, em 1979.

De início era um relacionamento distante, mas que foi se estreitando cada vez mais.

Com o passar dos anos diariamente debatíamos problemas e desafios. Tudo o que eu fazia submetia a ele. E ele sempre exigia minhas opiniões. Raramente discordávamos. Agora fico meio perdido sem saber como vou trabalhar sem antes ouvir suas observações.

Assim minha sensação é de perplexidade e de insegurança.

Mas tenho clareza em relação a um ponto.

A contribuição de Gildo foi poderosa e profunda, deixando dois importantes legados.

De um lado, foi sua colaboração intensa para a criação na USP — principalmente nos Departamentos de Ciência Política e de Sociologia — de um clima de renovação entre os professores, visando o aggiornamento do ensino superior no Brasil nas ciências humanas.

De outro lado, pode-se medir a repercussão de seu trabalho na USP através da formação de um grupo de doutores e mestres que leva em conta suas análises críticas.

Encerro minhas palavras fazendo um apelo para que esforços sejam feitos a fim de ser publicado o memorial preparado por ele para o concurso de professor titular da USP.

Documento que, no dizer dele, é um resumo de suas opiniões.

Assim, a divulgação dessa derradeira reflexão será a maior homenagem a um mestre cujo exemplo é um orgulho para a comunidade acadêmica brasileira.

———-

Fala de Marco Antônio Coelho, no crematório da Vila Alpina, em São Paulo, 17 de fevereiro de 2010.

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