Início > Política e América Latina > 2.1 Brasil x Argentina: do conflito à cooperação

2.1 Brasil x Argentina: do conflito à cooperação

Ao mesmo tempo em que se buscava uma integração entre os países da América Latina via experiências da CEPAL, o Brasil começava a diversificar suas relações internacionais, entrando em choque com os Estados Unidos, seu fiador desde os tempos do alinhamento automático do Barão de Rio Branco. Isso por conta da procura, pelo país, de mercados e petróleo no Hemisfério Sul, fazendo com que passasse a priorizar convergências econômicas e comerciais, deixando de lado possíveis posições políticas e ideológicas contrárias em meio a negociações no chamado Terceiro Mundo. Essa subordinação da lógica estratégica às questões nacionais colocou o país em desacerto em relação à política internacional estadunidense em áreas como a África Negra e o Oriente Médio (MELLO, 1996).

Exemplo disso é a postura do então presidente da Ditadura Militar, Ernesto Geisel, em relação a ser o primeiro governo a reconhecer a independência de Angola e o governo do Movimento Marxista Libertador na Angola (MPLA), opondo-se frontalmente com a política dos EUA. Essa maior atenção do Brasil com os países africanos, tanto no âmbito diplomático quanto no âmbito comercial, possui um dividendo geopolítico bem interessante:

A relevância da África Ocidental para a segurança da costa brasileira e das linhas de comunicação sul-atlânticas, sobejamente enfatizada nos escritos geopolíticos do general Golbery do Couto e Silva, à época ministro-chefe do Gabinete Civil do governo Geisel, não estava em absoluto alheia aos cálculos dos oficiais militares e dos diplomatas do Itamaraty” (MELLO, 1996, p. 200).

A América Latina também passou a receber atenção do Brasil nas relações internacionais, mas ainda com aquela relação de conflito com a Argentina, seu principal parceiro-contendor na região. Ocorre que, devido à hegemonia dos Estados Unidos sobre as Américas, os dois países sul-americanos não possuem condições de se inserirem de forma proeminente na região da Bacia do Prata, o que iria contra os interesses estadunidenses na região. Com isso, no caso brasileiro, o país só pode ser preponderante na região, mas não é hegemônico, porque os EUA exercem o poder superior e hegemônico no continente americano. Trata-se de um conceito de Mello (1996), retirado da obra de Raymond Aron, dos três tipos de força existentes: equilíbrio, hegemonia e preponderância, sendo que esta última ocorre quando dentro de um determinado agrupamento de unidades políticas, a ocorrência de uma ruptura no equilíbrio do poder entre Estados não provoca à unidade vitoriosa uma posição de supremacia inconteste, muito menos diminui os demais a um estado de impotência, fazendo com que essa preponderância dentro de determinado subsistema esteja subordinada à hegemonia de outra unidade, mais poderosa, fazendo com que essa preponderância dentro de determinado subsistema esteja subordinada à hegemonia de outra unidade, mais poderosa, no sistema mais abrangente.

Portanto, a hegemonia se torna impossível, primeiro pelo rompimento da aliança preferencial que o Brasil possuía com os EUA, depois, pela aproximação do país em relação à América Latina, formando, ao contrário, uma relação de cooperação entre os estados latino-americanos e anti-hegemônica no subcontinente. Isso fez com que o medo de uma ameaça subimperialista por parte do Brasil, vinda dos tempos da rivalidade da monarquia portuguesa versus os estados independentes de fala espanhola, fosse derrubado em prol de um clima de cooperação. O primeiro passo para neutralizar esse sentimento antibrasileiro na região foi a criação do Tratado de Cooperação Amazônica, firmado em Brasília em 3 de julho de 1978 pelos oito países que detém parte dessas terras: Venezuela, Colômbia, Brasil, Equador, Guiana e Suriname.

No caso da Argentina, verificou-se rapidamente ser preciso dinamizar as relações, pautando-as por uma orientação de economia política. Sendo assim, o relacionamento Brasil-Argentina avançou de um status de conflito para cooperação em pouco tempo, tendo a distensão marcada pela resolução do conflito Itaipu-Corpus, após Acordo Tripartite, assinado por Brasil, Argentina e Paraguai em 19 de outubro de 1979. Já o Programa de Integração argentino-brasileiro, assinado em 29 de julho de 1986 pelos presidentes Sarney e Alfonsín, com cada um dos países já vivendo a abertura democrática, foi o motor possível do atual Mercosul, por marcar a para o clima de cooperação entre os principais atores do subsistema platino. Vários acordos e protocolos marcaram essa aproximação, tendo como pontapé a Declaração de Iguaçu de 30 de novembro de 1985, que foi emblemático pelo caráter simbólico:

A negociação do acordo representou o abandono de uma postura hegemônica que por 150 anos havia prevalecido em diferentes momentos frente ao país vizinho. É a partir desse quadro que começa a diluir-se o peso determinante da hipótese de conflito com a Argentina, sempre presente na doutrina militar brasileira” (HIRST apud MELLO, 1996, p. 212).

Em processo mais ou menos paralelo a este, aconteceu outro movimento nessa mesma linha que apontava para um futuro integracionista partindo dos dois maiores países da América do Sul. Com o fracasso da Alalc, foi proposta sua reformulação, fato que acabou por forjar, em 12 de agosto de 1980, a Aladi, por meio um novo Tratado de Montevidéu, de conteúdo bem mais genérico e sem tantas obrigações entre os países, tendo como seu principal foco “o de compatibilizar a tendência anterior a acordos bilaterais ou sub-regionais com a sobrevivência do aparelho institucional preexistente” (VERSIANI, 1987, p. 36). Além deste, os acordos sub-regionais e os de complementação também estavam na centralidade do novo Tratado, que previa apenas uma integração econômica “por convergência” num futuro, em que acordos restritos por setores ou regiões seriam vinculados ao longo do processo.

Amanhã: 2.2 O modelo liberal do Mercosul

Artigo em partes

Artigo em partes

1.Introdução

2. Breve e sintético histórico da integração latino-americana

2.1 Brasil x Argentina: do conflito à cooperação

2.2 O modelo liberal do Mercosul

2.3 Mercosul volta à cena

2.4 A Venezuela e o Mercosul

3. Alba x Mercosul

4. Alca, União Européia, OMC e um impasse

5. Conclusão

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