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Em branco

Olá. Há muito não apareço por aqui. Mas hoje venho com algo diferente: o primeiro conto que escrevo esse ano, em meio a um mestrado que me conseome avassaladoramente. Espero que gostem. Até mais.

Em branco

Hugo Luiz enxerga a sua direita uma pilha de livros caindo da cadeira da cozinha que serve de apoio em seu quarto. Sem esboçar a menor reação, continua observando um a um os livros irem de encontro ao piso gelado: uma rajada de vento vinda da janela foi a responsável pela quebra da harmonia no quarto de Hugo Luiz.

Concentrado, olhos fixos para a tela do computador, aturdido, não foi capaz de fazer qualquer movimento. Sua preocupação é outra: a falta de inspiração que lhe aflige há dias, impingindo uma angústia enorme em si ao permanecer com olhar petrificado para a página em branco do editor de textos.

Mesmo assim, fugiu de sua tormenta mental e recolheu todos os livros de volta à cadeira. Mas se deteve em um em específico: um livro sobre política que falava sobre esperança, determinação, ação. Folheou um pouco, lembrou-se da parte da sua vida que estava atrelada àquelas páginas e se estremeceu com o que lhe vinha à memória. As crenças mais simples quando se é jovem e a vontade na ponta dos cascos não passava do que hoje é um conceito genérico de um teórico francês.

Hugo Luiz, num balançar rápido de cabeça para afastar tais pensamentos, voltou-se para sua tela em branco: já estava há quatro dias sem sair daquele quarto, sem idéias, sem perspectivas, sem o que preencher aquele espaço em branco. Desligara-se do mundo e, com ele o Msn permaneceu fechado, assim como o Google Talk e o Skype. O Orkut abria apenas para ver suas próprias fotos antigas de vez enquando, como que em um arroubo patético de querer voltar àqueles momentos e congelá-los para sempre, sem viver a dor cotidiana da rotina e da negação a amedrontar sua alma.

Apenas o Twitter continuava aberto, para prosseguir com o ritual insólito desta humanidade em saber o que se passa com a vida dos outros, o que as pessoas fazem, com quem saem, o que lêem, o que escrevem, como se já não bastasse cada um preocupar-se com a própria vida. Mas se ocupar do microcosmo do cotidiano de celebridades e pessoas comuns serve como uma ótima droga para narcotizar-nos enquanto esquecemo-nos das mazelas desta sociedade mal construída. De repente, um recado em “caixa alta”: “vou comprar o celular tal, tô super feliz”. Outro perfil transcreve o pronunciamento do presidente e “ainda bem que não há mais perfis on line, assim não me ocupo com essas baboseiras a cada aviso do programa”, alivia-se Hugo Luiz, pois até em seus momentos toda essa encheção chateia, entedia os viciados por desinformação.

Sentia-se deslocado, descolado de tudo aquilo. Esse sentimento de não-pertencimento fazia mal dentro de si. Não conseguia sentir-se parte nem de sua própria vida ou de seu corpo. Sentia-se despedaçado por dentro, como se tivesse tentado lutar tanto para sair dali e alcançar outro espaço que o preenchesse.

Após passear seus olhos cansados pelos perfis dos outros, Hugo Luiz volta para sua tela em branco para tentar dar seqüência à sua missão, apesar de não saber mais de onde buscar para preencher uma linha que seja daquilo. Ao mesmo tempo, uma ansiedade consome seu coração e mente, na espera de um e-mail que pode facilitar ou complicar sua vida. Enquanto não chega, a ansiedade transforma-se em uma angústia virulenta que quase o leva a uma depressão desesperada.

E entre e-mail e o editor de textos, entre uma agonia e outra, o tocador de música repete insistentemente a mesma voz, as mesmas notas, a mesma canção de 15 minutos durante toda a noite. O violão é repetitivo, a voz é aguda, a qualidade é baixa também por ser uma gravação ao vivo do que parece um bar. Há muita gritaria e conversação. Mesmo assim, a canção permanece vitoriosa no tocador, falando de uma garota má e de conversas de bar, da cidade, das ruas, de qualquer coisa que ele não entende.

De repente, o Twitter começa a infernizar com tantos avisos de mensagens novas. E, como forma de fuga, Hugo Luiz volta-se a todo o momento para a página do programa para saber quem escreveu o quê e porquê, como que em uma necessidade obsessiva de se desviar do que precisa fazer, mascarada por uma pseudo-preocupação em obter novas informações, alguma novidade, ou notícia importante sobre qualquer coisa.

O desespero é tanto que ele fecha o programa para tentar se concentrar no seu dilema. Muda a canção no tocador e finalmente obtém uma centelha de inspiração, alguma idéia passa por sua mente e ele a segura com todas as suas forças, fazendo daquilo seu momento máximo em dias. É uma música que fala de amor, mas não é isso que chama atenção. O que lhe importa é o retorno da sensibilidade e gana necessárias, por um instante, para voltar a escrever. E começa.

14 de dezembro de 2009.

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  1. Paty
    14/12/2009 às 9:03 PM

    Adoro seus textos e não poderia ser diferente com esse. Você escreve com paixão, com sentimento e em muitos momentos de Hugo Luiz, vejo meus momentos, quando tenho que encarar a página de caderno em branco que nada me traz de novidades.
    Beijos no coração, anjo!!!

    Curtir

  1. 22/12/2009 às 12:10 PM

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