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“O Incidente” – Parte I

Olá.

Hoje o dia foi bastante complicado (quem me acompanha pelo twitter sabe bem disso), então fica difícil ter tempo para pesquissar alguma coisa interessante para publicar aqui.

Mas, cavucando nas minas dos meus alfarrábios, eis que acho um conto que acreditava já estar publicado aqui. Trata-se de “O Incidente”, escrito lá pelos idos de 2007 e tem muita relação com A Partida, já publicado no blog (clique no nome do conto para lê-lo).

Ambos recebem influência muito forte de uma viagem a passeio que fiz no fim de 2006 e início de 2007 pelo Paraná, passando alguns dias em Umuarama (noroeste do Estado) e a capital Curitiba. Os cenários, as pessoas, os ritmos, enfim, a vida desses dois lugares interessantes, cada um a seu modo, me inspiraram a escrever esses dois contos, que tratam de amor, amizade, dor, desilusão, e, de certa forma, falam de esperança.

No caso de “O Incidente”, recordo-me que não havia colocado no site por ser extenso e um tanto cansativo. Daí que agora ocorreu-me esta idéia de dividi-lo (de forma aleatória, pela metade nas páginas do Word) para facilitar a leitura. Vamos ao conto! Amanhã tem a segunda parte. Espero que seja do agrado de quem frequenta este espaço. Até mais!

“O Incidente” – Parte I

José Fernando estava na cidade havia cinco dias. Foi visitar alguns parentes que não via há anos. Depois de muito tempo brigado com Francisco e Isabel (tio e irmã, de José, respectivamente) por um motivo que ele nem lembrava mais, as mágoas passaram e eles o convidaram a passar alguns dias na pequena cidade interiorana, há léguas de distância da capital. José Fernando achou de bom grado, pois havia anos que não tirava férias da construção civil desde que pegou aquele hospital público que nunca terminava. Mas, enfim, acabou e ele pôde descansar alguns dias, antes que a próxima obra começasse.

Rumou para lá com uma mochila, uma muda de roupa enfiada de qualquer jeito, três maços de cigarro Plaza e uma garrafa de pinga que era retirada a todo instante para o deleite de seu dono. Isso sem falar no seu inseparável radinho de pilha, permanentemente grudado ao ouvido. Assim, ele pegou o ônibus no maior terminal da cidade e desembestou pela estrada adentro. “Lugar que não chega nunca, diacho”, reclamava José, após 5 horas de viagem, entre um gole e outro de sua aguardente. “Boa para danar”, costumava elogiar seu líquido, vindo de uma cidadezinha distante em outro Estado.

No entanto, o trajeto para o interior era muito longo mesmo: cortava três Estados e passava por mais de 20 cidades. Ia demorar umas 20 horas. “Raio de estrada que num muda. Só vejo mato e boi em tudo que é lado”, resmungava a cada meia hora para a pessoa do banco ao lado, que mal agüentava seu bafo de cana. Nas seis paradas da viagem, ele só descia para urinar, fumar seu cigarro e esticar seu joelho esquerdo que costumava atormentá-lo quando passava muito tempo em pé ou sentado.

Francisco, Isabel e Maria, filha de Isabel, o esperavam na minúscula rodoviária da cidade, que mais parecia uma praça, situada num círculo, com comércio, invariavelmente botecos, no centro e vários espaços para os ônibus estacionarem, mesmo que parasse apenas um ônibus por dia dali. O resto servia mais para estacionamento de carros e parada de intermunicipais. Finalmente, o ônibus de José Fernando chegou: “Êta, pessoar!. Ceis não mudaram nada hein”, disse, em tom brincalhão, típico do interior, para provocar seu tio, enquanto tropeçava em seus próprios pés, quase caindo pela bebedeira do percurso. Francisco pegou a mochila e deu um suspiro de arrependimento. Isabel ajudou a erguê-lo e Maria não entendia, nada, já que era muito nova quando viu o tio pela primeira vez. “Já chega bêbado Zé? Assim fica difícil”, exclamou Francisco.

Chegando em casa, depois daquela conturbada recepção, Zé foi para o banheiro meio a contragosto. Refeito, Francisco, Isabel e Zé conversaram para acertar os ponteiros definitivamente, deixando, contudo, a situação na mesma: Francisco não gostava muito de Zé e Isabel só o admitia em sua casa porque era irmão. E Zé sabia de tudo isso. Mesmo assim, resolveu ficar, pelo menos uns dias para esfriar a cabeça do ano duro que tivera. Já estava com 35 anos, trabalhara muito e não tinha tempo de sair, muito menos se divertir. Sozinho há dois anos, não conseguia se sentir atraído por nenhuma moça do bairro onde morava. Meio que inconscientemente, decidira ficar só por um tempo, depois de sua relação frustrada com Dorinha, a faxineira que foi sua vizinha por quatro anos.

Zé estava há cinco dias e não entendia o porquê. Achava que três dias eram o bastante. Não tinha nada para fazer ali. Acordava às 10, tomava café preto e comia pão com manteiga. Botava sua roupa e saia a perambular pelas ruas tranqüilas da cidadezinha. Tranqüilas porque não tinha uma viva alma nas calçadas, nem carros pelas vias. “Fim de ano é sempre assim. Todo mundo que pode foge daqui”, contava Maria para o tio. Depois de caminhar, ler jornal, bater papo com algum senhor de idade prostrado na pracinha, Zé retornava à casa para almoçar e tirar uma soneca de umas duas horas na rede que fica nos fundos. Só lá pelas quatro horas, sol ainda forte, ele ia para um boteco próximo tomar cerveja (tinha parado com a pinga, mas “descontava” tudo na cerveja) e fumar seu Plaza.

Passava pelo menos umas quatro horas por ali, olhando absorto para o nada, sem ninguém para conversar, apenas seu radinho de pilha, que lhe evitava a solidão. Pensava na vida enquanto ouvia as modas de viola e as canções “dor de corno” da rádio local. Nada o fazia mover dali. E cerveja atrás de cerveja passava pela mesa dele. No fundo, ele sabia a causa, tanto de sua permanência estendida na cidade quanto de suas bebedeiras, que acabavam lá pelas oito da noite, céu quase todo revestido de negro, quando ele resolvia ir embora, jantar, tomar banho e dormir, sem quase falar com seus parentes.

O motivo para aquilo tudo era Jussara, moça de idade semelhante a de Zé. Jeito simples, pouca instrução, mas de beleza rara. Tez branca, olhos e cabelos negros bem escuros. Tinha estatura mediana e cintura fina. Bem diferente de Zé: alto, cabelo castanho, magricela de dar dó, mas com uma barriga saliente e um pouco mais de estudo. Ela passava por aquela rua todos os dias, voltando de seu trabalho como costureira numa fábrica perto de sua casa. Descia a rua vazia com aquele ar tristonho da solidão, mas bela. Mas como ela não o conhecia, nem o cumprimentava. Seguia de cabeça baixa para casa, sempre com pressa, com um certo ar amedrontado. Apenas após o quarto dia, de rito semelhante, e, percebendo a simpatia do rapaz que bebia no bar e sempre a olhava com um sorriso no rosto e levantava o chapéu, ela reparou e resolveu dizer um “olá, boa tarde” ao desconhecido. Já tinham se passado oito dias pensando o porquê de estar ali remoendo sentimentos, enquanto a moça o cumprimentava educadamente, Zé resolveu agir.

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