Início > Política e América Latina > Maquiavel e o embate entre plebeus e nobres em Roma

Maquiavel e o embate entre plebeus e nobres em Roma

Olá. Após dias dispersos volto por aqui para publicar mais uma análise dos Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, como base da aula de hoje da disciplina Modalidades do Pensamento Político Moderno. O debate foi sobre o capítulo 37, no oqual específico abaixo. Hoje a professora Eunice Ostrensky nos trouxe a percepção do que representa o referido capítulo, bem diferente do exercício ao qual fui proposto a realizá-lo. Mas vale a leitura, trago outras abordagens, que, creio, valem ao menos a análise.

Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio – Capítulo 37

O capítulo 37 do livro tem como título: “Dos tumultos gerados em Roma pela lei agrária; e como são grandes, numa república, os tumultos causados por uma lei voltada demais para o passado e que contrarie algum antigo costume da cidade”. Maquiavel trata neste capítulo da questão da lei agrária e seus desdobramentos em Roma, sendo motivo de discórdia entre plebeus e nobres, o que acabou levando à servidão romana, segundo consta no capítulo. Mas, mais que isso, Maquiavel faz uma leitura a respeito da busca dos plebeus por mais riquezas, buscando suplantar ou conter o avanço dos nobres, impedindo que estes tivessem muitas terras (primeiro artigo “principal” da lei citado pelo autor) e, também, obter o reparte das terras conquistadas no exterior (outro artigo importante da lei).

Digo isso porque Maquiavel faz uma análise até mesmo filosófica a respeito do homem e sua constante insatisfação por não conseguir obter tudo o que se quer, já que a vontade de obter as coisas é sempre maior que a capacidade de lográ-las. Essa condição inerente na natureza do homem criou, segundo o texto do livro, uma maior ambição da plebe em conseguir mais vitórias para também se proteger dos nobres, que, em contrapartida, desejavam manter o que já possuíam. Não bastava mais a criação dos tribunos para o quinhão político dos plebeus nas discussões e decisões do estado romano. A luta agora era pela divisão de cargos e patrimônio, como coisa mais importante agora em comparação às honrarias de antes. “Daí surgiu a doença que gerou o conflito da lei agrária, que acabou por ser a causa da destruição da república[1]”.

E essa “doença” é retratada nas discussões e tumultos provocados após a instauração desta lei, fazendo com que os nobres se sublevassem contra os plebeus, mas, inicialmente, de uma forma indireta, sem um confronto aberto. Eles preferiram temporizar, criaram mecanismos para fazer com que a plebe desintegrasse sua união ou diminuísse seu desejo por terras. No primeiro caso colocando um tribuno contra o outro e, no segundo, enviando colônias para a área conquistada, muito longínqua, por vezes infértil, despreparada para receber um povo. Isso acabou por adormecer a lei, mas somente até os Gracos, que fez reacender a divergência, provocando um conflito armado entre nobres e plebeus, saindo os primeiros como os vencedores, após muito derramamento de sangue. Maquiavel atribui a este infortúnio a perda de liberdade de Roma, exemplificada na vitória de César sobre Pompeu, opositores nesta matéria, sendo alçado à governança o primeiro tirano de Roma.

Apesar deste desfecho, Maquiavel mantém sua posição pró-discussões entre nobres e plebeus, considerando que, não fosse a atuação destes últimos, mesmo nesta questão da lei agrária, refreando a ambição dos nobres por meio de sua própria, Roma teria caído em ruínas muito antes dos 300 anos em que esta querela começou até o início do período de servidão romana. Ou seja: “em se temporizando, ou o mal demora mais a chegar, ou por si mesmo se extingue com o tempo antes de atingir sua meta[2]”.

Por fim, Maquiavel alerta para a disputa de posses, patrimônios, em relação às honrarias. Se nestas últimas, concedidas freqüentemente pelos nobres aos plebeus, nunca houvera grave abalo, quando o embate rumou para a distribuição do patrimônio, a disputa foi encarniçada, com os nobres tentando, a todo o custo, evitar a repartição com os plebeus, que precisaram recorrer a meios extraordinários para tal êxito.


[1] Maquiavel, Nicolau. Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. São Paulo: Martins Fontes, 2007. Página 113.

[2] Idem, página 116.

Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: