Início > Política e América Latina > Maquiavel: liberdade dentro da república

Maquiavel: liberdade dentro da república

Publico hoje um texto escrito pra aula de ontem na FFLCH/USP: Modalidades do Pensamento Político Moderno. Muito interessante o curso. O tema das duas primeiras aulas é “República e liberdade” e o autor central (já que a idéia do curso é estudar os autores modernos) é Maquiavel, especificamente o livro Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio.

E como primeira atividade, a professora Eunice Ostrensky solicitou uma análisse do capítulo 16, relativo à liberdade (dentro da égide republicana) e formas de governo. E toda a semana vai ser assim, um texto relacionado ao que está sendo estudado. Portanto, sempre um “textículo” por semana dentro desta disciplinaestará aqui. Fiz meio corrido, mas dá pra passar a idéia do texto. Então, bom proveito!

Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio – Capítulo 16

O capítulo 16 do livro tem como pontapé a frase “O povo acostumado a viver sob a autoridade de um príncipe, se por algum acontecimento se torna livre, dificilmente mantém a liberdade”, retirada dos discursos de Tito Lívio, qual seja, objeto da obra de Maquiavel. E trata justamente da impossibilidade do povo em viver em liberdade, tendo que haver ou um rei ou governante para dar as diretrizes necessárias e liderar e/ou dominar e/ou subjugar a população, sendo esta a tese central do capítulo.

Para exemplificar isto, ele utiliza compara o povo a “um animal bruto que, embora de natureza feroz e silvestre, tenha sido criado no cativeiro e na servidão, e que depois, ao ser solto em campo aberto, por não estar acostumado a alimentar-se e por não conhecer os lugares onde possa refugiar-se, torna-se presa do primeiro que queira aprisioná-lo de novo[1]”. Detalhe importante: esta explanação está embasada numa realidade em que a população e o estado não estejam corrompidos, porque, caso seja este o caso, Maquiavel afirma que este povo “não pode, nem por breve tempo, viver livre[2]”.

Entre os argumentos utilizados para a tese central está o de que, como o exemplo acima levantou, o povo não consegue viver livre, por não ter a capacidade de organização diária da vida pública, sem poder se defender ou atacar nas chamadas “lides públicas”. Outro argumento é de que um estado livre nutre somente inimigos, principalmente aqueles que foram afastados do comando deste estado ou das benesses recebidas quando havia tirania. Isso faz com que este estado seja mais vulnerável que outros, já que a sua liberdade não aumenta o número de amigos deste, mas sim de adversários.

Maquiavel coloca que a saída é dizimar aqueles que conspiram contra o príncipe, se colocando ao lado do povo, que é muito, e não ao lado de poucos no poder, o que faria ter de provocar um governo muito cruel e, consequentemente, vulnerável. E para conquistar a amizade do povo, é preciso saber quais são suas necessidades, o que o autor aponta: vingar-se do tirano anterior e a outra é devolver a liberdade. A primeira é considerada mais fácil, já que basta acabar com os opositores do povo, que este se coloca a seu favor. Agora, quanto a dar-lhes liberdade, isso se torna mais complicado, sendo preciso verificar mais a fundo a necessidade da maioria do povo em ser livre: viverem com segurança. Para isso, é preciso criar leis e ordenações que atinjam “tanto o poder do príncipe quanto a segurança de todos. E, sempre que assim se fizer, se o povo vir que, por nenhum acontecimento, tais leis serão violadas, o príncipe em breve começará a viver seguro e contente[3]”.

O problema, no entanto, está quando a sociedade está corrompida. Neste caso, não há leis que regulem a vida das pessoas, sendo necessário o emprego de maior força, que “com poder absoluto e excessivo, ponha cobro à excessiva ambição e corrupção dos poderosos[4]”, citando a região de Toscana para exemplificar tal argumento. Ele conclui o raciocínio afirmando ser importante, par a criação de uma república onde existam muitos gentis-homens, a eliminação de todos. E quando quiser criar um reino ou principado onde predomine a igualdade só poderá concretizá-lo extraindo homens que tenham “ânimo ambicioso e inquieto, tornando-os gentis-homens de fato”, dando-lhes várias benesses e posses dos que comandam o poder, para que “postos no meio desses homens, por meio deles mantenham seu poder, e tais homens, por meio dele, mantenham sua ambição[5]”.


[1] Maquiavel, Nicolau. Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. São Paulo: Martins Fontes, 2007. Página 64.

[2] Idem, página 65.

[3] Idem, página 68.

[4] Idem, página 161.

[5] Idem, página 162.

Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: