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2. Smart power de Obama

2. Smart power de Obama

A política externa do governo republicano de George W. Bush (2001-2009) teve um obrigatório redirecionamento de metas por conta dos atentados ocorridos no fatídico dia 11 de setembro de 2001, quando aviões foram jogados contra o World Trade Center e o Pentágono. Trata-se de uma variação muito profunda em relação ao passado dos Estados Unidos. Isso porque, antes dos anos 70, a doutrina militar norte-americana era motivada pela Guerra Fria, centrada no conceito de “duas guerras e meia”, sendo uma possível com a União Soviética, outra com a China e, ao mesmo tempo, outra em escala regional, como nos explica La Gorce (2002). Já com a dissidência chinesa em relação ao comunismo soviético, seguindo o seu caminho próprio rumo ao socialismo, o então presidente Richard Nixon adotou o conceito de “uma guerra e meia”, prevendo um grande conflito com a União Soviética ou China e um conflito menor, restrito.

Ao cabo da Guerra Fria, o então presidente George Bush publicou, em 1991, o documento Base Force Review, prevendo “dois conflitos regionais” importantes. Tais orientações foram confirmadas em 1993 e 1997 pelo governo de Bill Cllinton, que rebatizou os conflitos em “guerras principais do cenário”. Já no discurso do secretário norte-americano de Defesa, Donald Rumsfeld, realizado em 31 de janeiro de 2002, já sob os efeitos trágicos dos atentados terroristas em território próprio, ampliou as possibilidades de conflito para quatro “cenários principais”.

“Colocou no mesmo campo inimigo as organizações terroristas com ‘ambições mundiais’ e os países que as apóiam, principalmente os que poderiam ajudá-las comas armas de destruição maciça (nucleares, biológicas e químicas) com as quais estariam se equipando. A ameaça já não se define somente por sua origem, mas também por sua natureza” (LA GORCE, 2002, p. 2).

Ou seja, a partir deste ponto, as ações foram direcionadas contra os terroristas e os países que os acobertassem. Diante disto, Afeganistão, Iraque, Coréia do Norte, Sudão e Cuba, em primeiro plano, e China, em segundo lugar, são vistos como inimigos em potencial (o famoso “Eixo do Mal”) ou, no caso chinês, um parceiro competidor. Não se trata mais apenas de uma guerra entre países, localizada em determinado território. A escalada da violência contra o terrorismo pode ocorrer em vários lugares ao mesmo tempo, contra diferentes inimigos. Isso fica claro nos seis objetivos da política de defesa apresentada por Rumsfeld: proteção do território nacional e das bases norte-americanas no exterior: projeção de forças para os palcos de operação distantes; destruição dos santuários do inimigo; segurança dos sistemas de informação e comunicação; desenvolvimento do uso de técnicas necessárias às operações conjuntas em terra; e proteção do acesso ao espaço e do potencial espacial dos Estados Unidos.

Ocorre que o governo do democrata Barack Obama rompeu com a doutrina Bush de agressão, colocando a diplomacia na vanguarda da política externa, baseando-a em “princípios e pragmatismo, não em rígida diplomacia” (ROMPENDO COM…, 2009, p. A3). O que muda é a concepção de como os Estados Unidos encaram o mundo e relacionam seus interesses com seus parceiros, diminuindo a importância da dimensão militar, colocando o diálogo à frente deste.

Se com a secretária de Estado anterior, Condoleezza Rice, a doutrina se resumia em “power matters”, isto é, o poder conta, reforçando o unilateralismo nas relações internacionais, o poder que a atual secretária de Estado, Hillary Clinton, coloca, é de outra natureza: o chamado “smart power”, ou poder inteligente, conceito formulado pelo cientista político Joseph Nye Jr., da Universidade Harvard, que conjuga o diálogo com o porrete, alternando-os quando necessário, de acordo com o comportamento do país que se está tratando. O próprio Nye explica melhor: “Poder inteligente é a combinação de poder duro (hard power) e poder brando (soft power). Poder brando é a capacidade de obter os resultados preferidos mais pela via da atração do que da coerção ou de pagamentos” (NYE JR., 2009, p. 01).

Essa mudança de paradigma é evidenciada no discurso de Clinton durante audiência de confirmação para o cargo de secretária de Estado:

“Os EUA não podem resolver sozinhos todos os problemas mais prementes, e o mundo não pode resolvê-los sem os EUA. Precisamos usar o que tem sido chamado de ‘poder inteligente’, o leque completo de ferramentas à nossa disposição” (CLINTON apud NYE JR., 2009, P. 01).

Trata-se da consagração de um multilateralismo nas relações com os outros países, considerando “a emergência de atores que nem sequer eram cogitados na configuração herdada da guerra fria e sob o impacto do derretimento do sistema financeiro” (ROMPENDO COM…, 2009, p. A3), o que nos remete a busca pelo diálogo diplomático com países que têm mostrado seu valor no contexto internacional, tais como Brasil, Índia, China, África do Sul. Isso porque, como escreve Nye, “as pesquisas revelam um sério declínio na capacidade de atração americana na Europa, América Latina e em todo o mundo muçulmano” (NYE JR., 2009, p. 01), sendo importante esse câmbio no trato com os países emergentes, por exemplo.

Se antes se falava em atacar terroristas e tiranos, Obama tirou a segunda palavra do discurso e deseja promover a concertação entre os países, antes de sair por aí disparando balas e mísseis. Segundo Sanger (2009), os Estados Unidos têm em mente “não apenas dar uma autoridade maior a instituições internacionais, mas também participar da criação de alguns novos organismos” (SANGER, 2009, p. 01). Por isso a predisposição dos EUA em diminuir seu arsenal de ogivas nucleares, incentivando, assim, os demais a seguir o mesmo caminho. Mas, bem entendido, sem deixar de utilizar o “hard power” quando crer ser necessário, como quando houver “promoção do terrorismo”, “interferência contínua no funcionamento dos governos” e a “busca de armas nucleares” por parte do Irã”.

Enfim, Nye (2009) acredita que os Estados Unidos possam se tornar um poder inteligente ao “complementar o poder econômico e militar americano com mais investimento no poder brando, e centrando em interesses públicos globais” (NYE JR., 2009, p. 01), fazendo com que o país consiga lidar com os desafios mundiais mais complexos. Mais que diálogo, ações positivas práticas e pragmáticas são exigidas do governo Obama para mostrar que, verdadeiramente, os Estados Unidos mudaram sua forma de se relacionar com os demais Estados. E o que vamos analisar a seguir é se no trato com os vizinhos sul-americanos rege a cartilha do “smart power”, especificamente na querela das supostas bases norte-americanas na Colômbia.

Amanhã: 3. Dilema das bases

Texto em partes

1. Introdução

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  1. 21/08/2009 às 9:55 AM

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