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5. A política de Innerarity

5. A política de Innerarity

Uma das últimas discussões nos encontros da disciplina “Signo da Relação” girou em torno da obra A Transformação da Política, de Daniel Innerarity, que debate diversos pontos de vista da política, mostrando-a de uma forma totalmente diferente do que estamos acostumados a ver, retirando o véu para diversas concepções ideológicas, teóricas, que temos costume por guardar no desenvolvimento de nossa intelectualidade ou mesmo em uma conversa de bar a respeito de corrupção ou das eleições.

Tomei contato com a obra de forma mais efetiva somente ao cabo do curso, em que pude me deter com mais profundidade aos escritos do autor, que pode ser um elemento colaborativo no processo de construção da minha pesquisa, já que tem em seu cerne a política e a forma como ela é praticada, auxiliando na compreensão de como atuam politicamente os governos Hugo Chávez e Luiz Inácio Lula da Silva, tanto em seus respectivos países, Venezuela e Brasil, quanto na relação com seus pares internacionais, sejam vizinhos continentais, parceiros comerciais ou inimigos potenciais. Detive-me particularmente à primeira parte do texto, por considerar a discussão mais interessante para minha pesquisa, apesar de considerar a segunda parte um elemento que mereça a minha atenção em breve.

E a primeira anotação feita que cabe nesta reflexão é justamente quanto à crítica ao discurso ainda usual de esquerda e direita que políticos e governantes em geral utilizam para querer se diferenciar no meio da multidão de profissionais da política que nada se diferenciam, isso sendo feito, pois os perfis programáticos dos partidos são cada vez menos diferentes (INNERARITY, 2002). Mesmo assim, eles acabam sendo vistos pela opinião pública como vermes corruptíveis que sugam os impostos do contribuinte. Escreve Inneratity:

“A distinção política fundamental já não é estabelecida pela oposição esquerda e direita, mas pela de posições que reconhecem ou procuram suprimir a contingência, pela dos que têm na política uma visão acabada aos interessados na realidade e aos exploradores do possível” (INNERARITY, 2002, p. 25).

A contingência, portanto, ganha centralidade nos escritos do autor, indicando que reconhecê-la não se trata de reverenciar o necessário, mas aceitar uma forma de viver que valoriza a imprevisibilidade, a incerteza, a fragilidade ou a oportunidade. Mas o que é contingência para o autor? “Contingência significa possibilidade de que as coisas sejam de outra maneira e convida a procurar alternativas” (INNERARITY, idem, p. 27).

Max Weber foi um dos que melhor e primeiro utilizou este sentido para determinar o que é “político”. Ele coloca a ação política dentro do contexto de aspirar o poder, um termo amplamente utilizado em Realpolitik, mas que pode significar outra coisa bem diferente. “Aspirar a uma coisa significa orientar-se para a modificação do existente. A mudança adquire uma posição central na política, ao passo que a estabilidade acaba por ser uma reação” (INNERARITY, idem, p. 26).

Por isso que, muitas vezes, políticos e marqueteiros de plantão usam e abusam de palavras-chaves como mudança, renovação, reforma, porque se busca o tempo todo transformar algo.  E o que acaba por eleger alguém é o grau de comprometimento que este se dispõe a ter com um cenário diferente do atual, já que o ser humano é eternamente insatisfeito e sempre quererá mais e mais mudanças, crendo, que uma nova proposta, um programa diferente, ou mesmo um partido renovado, podem proporcionar esse El Dorado político.

Por esse motivo a eleição é vista como

“uma interrupção da inércia, uma instituição de ruptura da continuidade. Nesse momento se torna visível de maneira evidente que a política nos introduz num mundo no qual é preciso responder e prestar contas, que o poder não é absoluto no qual é preciso responder e prestar contas, que o poder não é absoluto porque está obrigado a revalidar-se, que a política só dá oportunidades a prazo” (INNERARITY, idem, p. 30).

Dentro desse contexto, a reeleição não pode ser vista como algo benéfico para o desenvolvimento da democracia, bem como da política, já que a acomodação acontece nos Três Poderes e na própria população que se acostuma em ver determinado mandatário a frente do país e chega a crer que muito melhor que está não pode ficar. Não é a toa os cerca de 80% de aprovação do presidente Lula e muitos depoimentos nas ruas de pessoas que votariam nele, caso o mesmo concorresse a um terceiro mandato. A reeleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1998, com o país passando por apuros econômicos, é outro exemplo. Or outro lado, o que dizer da reeleição limitada na Venezuela e das tentativas de outros países de rever a Constituição para aumentar mandatos ou possibilitar reeleições? No entanto, o que atenua é a realização de consultas populares, plebiscitos, que servem para a população participar e decidir se este é ou não o melhor caminho, aproximando assim do que seria uma democracia direta, ou “participativa”, no caso chavista.

Contudo, Innerarity ressalva que se a democracia fosse direta, com as pessoas participando ativamente, as conexões da sociedade se mostram hoje tão complexas que elas não conseguiriam segurar tal demanda e delegariam a outras a tomada de decisões, mais ou menos como ocorre atualmente. Por isso, ele faz uma defesa das instituições criadas para dar conta desse processo, que é a chamada “democracia representativa”: “As instituições são como que o equivalente político da boa educação; são normas que de vez enquando é preciso rever, mas que, entretanto, impedem que a espontaneidade seja dominada pelos instintos mais rudimentares” (INNERARITY, idem, p. 65).

É preciso que a política seja afastada do doutrinarismo que impõe esquemas rígidos dentro de um mundo complexo: “A política não começa com um plano exato, um contrato social originário ou uma plataforma de consenso” (INNERARITY, idem, p. 34). Ou seja, é preciso considerar a política dentro da prática e da experiência cotidiana e não como um modelo teórico ou científico pronto.

E para finalizar este trecho, fico com uma definição de política num sentido mais amplo, feita pelo autor, que sintetiza de forma coerente com seus pensamentos e se aproxima do que a democracia que afirma-se por aí querer:

“A política é a resistência – sempre malograda ou parcialmente realizada – à imposição, à confrontação e à exclusão, é o empenho em resolver os problemas sociais em termos de integração, é um combate contra a incompatibilidade. As suas tarefas fundamentais são a mediação, a convergência, a cooperação e o acordo. Uma boa política não exige que se dê satisfação aos interesses de todos (o que, mais ou menos sempre, se revela impossível), mas não se pode deixar de tê-lo tentado” (INNERARITY, idem, p. 55).

Amanhã: 6. Por uma estrada aberta

Texto em partes

1. Introdução

2. Paradigmas em crise

3. Cultura dentro de um projeto

4. Caminhos e descaminhos no projeto de pesquisa

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  1. 17/08/2009 às 8:01 AM

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