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2. Paradigmas em crise

2. Paradigmas em crise

Meu projeto busca comparar as assimetrias e divergências entre a política externa para a América Latina dos governos de Hugo Chávez, presidente da Venezuela desde 1999, e Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil desde 2003, com enfoque especial em dois processos de integração em curso no subcontinente, a saber: Mercosul, liderado por Brasil e Argentina e retomado pelo governo Lula como um dos pontos principais de sua política externa e a Alba, criado pela Venezuela, em parceria com Cuba, num dos pontos centrais da legitimação externa e interna de Chávez e sua atuação baseada em investimentos retirado dos lucros do petróleo venezuelano. A idéia inicial era buscar nas falas presidenciais, e, até mesmo, das chancelarias dos dois países, o que cada um pensa a respeito da América Latina, qual sua atuação na região e o que se busca realmente: uma integração regional ou a consolidação de uma liderança no subcontinente via projeto vitorioso?

Vários problemas foram colocados pela professora Cremilda Medina em decorrência da apresentação do projeto aprovado no PROLAM: desde cuidados com o título do projeto, dicas sobre interpretação de textos, mas principalmente, tomar cuidado com as dicotomias na hora de fazer comparações; trabalhar sempre no campo das dúvidas e não das certezas, como colocava de forma imperativa o trabalho; agregar à razão decifradora a sensibilidade intuitiva para que busque uma melhor compreensão da complexidade dos fenômenos a serem estudados; dentro disso, ainda, aliar à objetividade elementos subjetivos, diminuindo a distância entre esses dois mundos.

Confesso que tudo isso produziu um enorme ponto de interrogação, simbolizado no texto “Inquietações + incertezas + dúvidas = ?”, entregue em sala de aula, em que levanto várias dúvidas sobre como prosseguir diante de tal conjuntura, um tanto desanimado, mas principalmente assustado, perdido, no emaranhado labiríntico das novas, até então pra mim, teorias que brecavam a imposição positivista e da razão sobre todas as coisas.

Mas aos poucos, ao ir tomando contato com esses outros paradigmas, através de leituras, comecei a me familiarizar e tentar compreendê-los. Exemplo do texto “Aventuras e desventuras do paradigma em crise”, em que Cremilda propõe uma trajetória esclarecedora quanto ao desenvolvimento de sua pesquisa nessa área, especificamente quanto à Comunicação Social e, em particular, ao Jornalismo. Ela traz no texto o que Kuhn considera quanto aos paradigmas, ou seja, “realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” (KUHN apud MEDINA, C., s/d, p. 01). Repare na expressão “durante algum tempo”. Ou seja, não se trata de algo que resolva para sempre os problemas da humanidade, pois não há essa ferramenta.

E é exatamente este o ponto trazido pelo texto, que os paradigmas que fizeram sucesso a partir do século XIX, após as obras de Augusto Comte e René Descartes, estão em declínio e precisam ser suportados por outros preceitos que ajudem a dar conta e a responder as necessidades humanas atuais. “O embrião de novos paradigmas surge no processo da ciência estabelecida e o significado da crise se concentra numa necessária renovação que vai além do universo fechado das leis, modelos e metodologias operacionais” (MEDINA, C., s/d, p. 01).

Segundo Medina (2008), Comte, através, principalmente, de seu “Discurso sobre o espírito positivo”, previa no estado positivo da ciência “a consequência necessária das relações regulares, descobertas entre os fenômenos, e rejeita a vã erudição que acumula fatos sem aspirar a deduzi-los uns dos outros” (MEDINA, C., 2008, p. 19). Outro elemento que mostra bem o estado positivo é o do privilégio da razão, colocando a observação como única premissa basilar possível para se alcançar a verdade, relacionados estritamente às necessidades reais.

Isso faz com que na academia nos valhamos das “certezas ideológicas, da verdade absoluta, da determinação única dos acontecimentos e da relação fiel e objetiva com eles quando se produz um relato” (MEDINA, C., 2008, p. 31), apontando para René Descartes, que, entre outras coisas, dividiu o corpo da mente, proporcionando, portanto, “a separação das operações mais refinadas da mente, para um lado, e da estrutura e funcionamento do organismo biológico, para o outro” (DAMÁSIO apud MEDINA, C., 2008, P. 34).

Isso porque, segundo a professora, em Discurso do Método, obra de Descartes que fecha a questão da razão na obra do autor, a mente deve estar conformada perante quatro regras: verdade comprovada via razão; divisão em muitas partes de tudo que se mostra complexo; simplificar cada parte para ordenamento futuro; revisões ou verificações das verdades científicas. E a crítica da professora Cremilda vai justamente neste caminho, que é a primazia da razão, da certeza, da partição de algo abrangente, tornando algo tão específico que se perde o contato com o todo, das fórmulas prontas para responder a tudo, em contraposição à intuição criadora que permite olhar, sentir e, enfim, viver, outras possibilidades, trazendo o saber local, a cultura e as pessoas para o centro da pesquisa e não analisá-las distanciadamente.

Sua crítica nos faz retornar ao texto sobre os paradigmas em crise:

“A fragmentação vem de uma prática racionalista empobrecida pela atrofia da intuição criativa. O raciocínio mecanicista que divide em partes o fenômeno ignora a dinâmica do processo, se reflete em relatos que mais parecem um rol de aspectos sem nenhuma conexão” (MEDINA, C., s/d, p. 13)..

Ou, como Restrepo coloca em seu “Direito à Ternura”, vale a pena desconfiar da opinião comum e reconhecida de que a abertura ao afetivo e sensorial serve para artistas e poetas, mas não serve para a ciência:

“Esta percepção, baseada na arbitrária distinção entre o afetivo e o cognitivo, recebeu sua sanção definitiva nas obras do chanceler Francis Bacon, pioneiro da racionalidade instrumental, para quem o exercício científico exigia declarar guerra aos fantasmas da imaginação, a fim de obter uma objetividade a toda prova” (RESTREPO, 2001, p. 38).

Esse tipo de reflexão, portanto, provoca a dificuldade de transcender quando um problema surge de uma forma completamente diversa. Por exemplo, no texto “Riquezas e injustiças do Brasil”, de Sinval Medina, em que ele começa a refletir se o Brasil na época do presidente Fernando Henrique Cardoso ia ou não pra frente, se avançava ou regredia, levando em conta as duas possibilidades, estava sendo colocado exatamente esta dificuldade de perceber coisas distintas e, mais que tudo, opostas, convivendo harmoniosamente no caos de nossa sociedade: “Afinal, pelos padrões lineares, não complexos, baseados em sim ou não, certo ou errado e assim por diante, é impossível incorporar contrários e trafegar num oceano de incertezas sem perder o norte” (MEDINA, S., 1998, p. 214).

A alternativa passa pelo trabalho realizado em 1990, com o “1º Seminário Transdisciplinar sobe a Crise de Paradigmas”, culminando no ano seguinte num documento que tem seus pontos centrais resumidos pela própria Cremilda Medina e colocados a seguir, como objetivos de romper com o paradigma fragmentalista-racionalista vigente, mas em queda livre nos dias atuais:

– Necessidade de desconstruir a fragmentação e construir visões abrangentes do mundo (no jornalismo, na medicina, no direito, na geografia ou na genética);

– A emergência de redescobrir a mobilidade interior ou a intuição criativa;

– A superação da dicotomia sujeito-objeto para desenvolver a dialogia sujeito-sujeito;

– Às lógicas clássicas somar a não-lógica das contradições;

– Da visão estreita dos problemas transitar para a cosmovisão societária;

– O reconhecimento de que a especificidade humana não cabe em modelos que de regem pela fixidez dos manuais;

Portanto, o desenvolver do projeto de pesquisa de acordo com uma proposta mais atual sob o ponto de vista acadêmico passa por uma revisão epistemológica dos próprios paradigmas teóricos que vêm caindo gradativamente nas várias disciplinas enrijecidas pela hierarquia positivista. Isso faz com que seja aberto espaço para outras propostas, que enxergam na poesia, na literatura, na aproximação da cultura a todos os momentos, enfim, para exemplificar, na relação Eu-Tu e não Eu-Isto, em que o pesquisador se aproxima do pesquisado e não o observa placidamente à distância. Um debate interessante e, confesso, desesperador para um estudante, que se vê as voltas mais de descaminhos que caminhos. Mas essa é a primeira nuance dos “novos” paradigmas: abandonar as certezas e fortalecer-se na busca por compreender nas dúvidas que instamos o tempo todo, uma base firme, sustentável, para consolidar uma pesquisa madura e conectada com a realidade humana atual. Não é a toa que a cultura ganha um pedaço especial neste texto, que é mais uma reflexão em cima de todo o curso.

Amanhã: 3. Cultura dentro de um projeto

Texto em partes

1. Introdução

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  1. 12/08/2009 às 11:04 AM

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