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Invenções de quem viveu Ilusões

– Olá! Como vai? Que surpresa topar contigo por essas bandas…

– Eu vou bem, e você?

– Ah, estou bem. Estou indo ali na locadora agora. E você, o que faz por aqui?
– Nada. Estou voltando da casa de uma amiga e vou aproveitar e ir na padaria comprar uns pães.

– Como andam as coisas contigo? Faz tempo que não nos falamos…
– É, correria né? Casa-trabalho-faculdade-casa. Quase tou sem tempo de sair pra balada.
– Ah tá. Eu já num tenho muito o que dizer. A não ser que estava pensando em me mudar.
– Sério? Vai pra onde?

– Curitiba, talvez. Tou vendo isso ainda, não é muito certo não. Mas preciso me encontrar.

– Bem, er… é verdade, está certo. Espero que fique tudo bem com você então. Bom, eu tenho que ir. O pessoal em casa deve estar preocupado. Foi bom te ver, até logo.

– Tudo bem então, o jeito é aproveitar esse frio e ir pra casa. Legal te reencontrar também, até.

E enquanto a moça se distanciava, uma lágrima gelada caia do rosto do jovem Bernardo, que via todo o seu esforço em vida e amor sumindo na esquina da rua 14.

Lembranças de uma mente atordoada

Nisso, volta-se ele para seu mundo. Lembra-se que iria para a locadora, mas já sem vontade, preferiu prosseguir a caminhada por seu bairro calmo e silencioso, ainda mais naquele dia em que o frio se fazia presente.

Prostrou-se em frente a uma casa antiga, cheia de árvores, destacando o verde por conta da fina chuva que caía naquela manhã. Ficou olhando a entrada da casa por horas a fio, sem notar as pessoas que caminhavam com ar estranho e curioso, ávidas por saber o que aquele rapaz tanto enxergava naquela velha morada caindo aos pedaços.

Bem, isso na visão dos transeuntes, pois para Bernardo, aquela residência contava-lhe a vida, boa parte de uma existência que ele próprio não sabia se valia mais a pena. Principalmente pelos últimos cinco anos, em que apenas sobreviveu do parco oxigênio de lembranças vividas em épocas totalmente distintas e distantes daquela manhã garoenta.

Parecia um filme épico, em ambiente medieval, com toda pompa e circunstância que merecia uma história como a da vida daquele jovem. As imagens corriam-lhe os olhos com uma velocidade estonteante, mas com uma riqueza de pormenores que impressionaria qualquer escritor. Um filme, um livro, uma história, um recorte de tempo entre o nascimento e àquele momento de relembranças. Tudo pela enésima vez. Sim, aquela pobre alma se prendera em uma janela temporal, noutra dimensão, remoendo seu pretérito como se pudesse, com isso, trazê-lo de volta, com uma energia que não se vê em outras situações da vida do pobre garoto.

Pessoas alegres, festas, família, tudo presente e vivendo harmoniosamente, muito diferente do que o quadro desesperador de um Van Gogh que se pintava naqueles dias tristes e frios. Ele tinha amor, tinha paz, tinha a felicidade em seus braços, possuía tudo e era bondoso com o que recebia, sem se deixar levar pelo labirinto da presunção que o poderia embrenhá-lo na floresta da escuridão. E, em meio a esses pensamentos do passado, se perguntava: “porque eu perdi tudo isso? O que eu fiz de errado para ser como sou hoje?”. Bem, perguntas perspicazes, afinal, neste dia ele não passava de um farrapo humano, a perambular inerte e inofensivo pelas ruas de sua vila.

Mas o que Bernardo não percebera, era o fato de que essas respostas encontravam-se diante de seus olhos lacrimejantes. O que ele nunca notaria era o fato de que tudo aquilo foi um sonho, uma mentira muda de sua mente atordoada. E, quando começou a entender o que se passara com seus últimos anos, foi-se tudo em um passe de mágica e aí sim ele começou a viver a realidade, algo completamente vazio e sem perspectivas, como aliás sempre foi sua vida. Tudo aquilo que pensara ter virou areia e dissipou-se no mar da insanidade. Os últimos cinco anos passaram-se de memórias delirantes que nunca haviam ocorrido.

No entanto, preferia ele mil vezes “relembrar” tais fantasias, que, no entanto, faziam mais sentido em sua mente, do que admitir que tudo não passou de ilusão e sua existência se resumia a um total fracasso. Não restava mais nada a não ser vagar inútil e inexpressivo pelas ruas, não-vivendo os dias que se passavam, até apresentar-se a insaciável morte do espírito, este que tanto lhe gritava a manter-se em pé, mas que não possuía influência alguma em seus loucos devaneios.

* Escrito em 2004.

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