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4.2 Por quê o Mercosul?

Sexta parte do artigo.

4.2 Por quê o Mercosul?

Sob o ponto de vista venezuelano, a entrada do país no Mercosul pode ser analisada sob dois aspectos. O primeiro deles é a possibilidade de abrir um mercado importante para a aquisição de produtos dos atores do bloco, com tarifas reduzidas, suprindo parte significativa de suas necessidades, já que o parque industrial da Venezuela está direcionado, majoritariamente, ao petróleo e seus correlatos. Mas o mesmo vale no sentido inverso: são novos países compradores de seu petróleo, numa tentativa de diminuir a dependência em relação aos Estados Unidos. Isto pode nos fazer acreditar que os esporádicos ataques de Chávez ao Mercosul se dariam muito mais quanto ao projeto político do bloco, querendo forjar um novo, enquanto deseja aproveitar as benesses econômicas do processo de integração.

O segundo aspecto é estratégico: a atuação da Venezuela no Mercosul aproxima Caracas a Brasília e Buenos Aires, os dois pilares do Mercosul, como vimos acima, sendo, por isso, prioritária essa aproximação com o bloco. E principalmente no que se refere ao Brasil, verdadeira menina dos olhos dos investidores internacionais e dos presidentes do mundo todo, a aproximação de Chávez a Lula busca uma legitimidade às ações venezuelana dentro de um contexto maior de integração latino-americana, totalmente condizente, neste sentido, com a política externa brasileira de integrar o subcontinente.

Apesar de Chávez ganhar ascendência na América Latina, após a acomodação de Lula com os EUA e o sistema financeiro internacional, a Venezuela depende do Brasil para por em marcha qualquer projeto de integração que reúna todo o subcontinente (CARMO, BARROS, MONTEIRO, 2007). Apesar do discurso radical, Chávez faz sempre concessões para que o Brasil esteja junto das negociações relacionadas à integração que a Venezuela faça parte. Do outro lado, Lula, por sua base social e sua origem, não pode ir contra as iniciativas chavistas, mas acaba por impor um ritmo mais lento, o discurso não é agressivo, tomando, enfim, uma postura pragmática, incorrendo assim porque, pelo lado brasileiro, não há relação de atrito e ameaça com os EUA.

E essa integração sem volta tem como método a questão energética, que também serve como um ponto de partida para o aprofundamento desse processo integracionista no subcontinente:

“A incorporação do país ao Mercosul em 2006 foi um primeiro passo da estratégia presidencial orientada para o desenvolvimento de um esquema mais amplo de integração sul-americana, que tem a ALBA e a Petroamérica como aspectos centrais. Os eixos principais dessa estratégia são, em primeiro lugar, a idéia de uma liderança venezuelana com a finalidade de fomentar a integração bolivariana. Em segundo lugar, como vimos anteriormente, a constituição de um ‘eixo Sul’ junto com o Brasil e a Argentina, como primeiro passo para a constituição de um mundo multipolar. Por último, uma reformulação do Mercosul para privilegiar o tema dos chamados ‘déficits sociais’, bem como atribuir maior importância aos conteúdos políticos. Do ponto de vista venezuelano, os temas comerciais e econômicos passariam a ter um papel secundário” (JÁCOME, 2007, p. 82).

Cabe ainda ponderar a respeito de um terceiro item, relacionado à integração, mas de fundo mais interno. Os projetos de integração apresentados pela Venezuela são sempre de caráter político, ou seja, motivados por razões de poder, com o objetivo de aumentar o poder dos Estados do subcontinente, diminuindo sua dependência, além de frear a dominação política e econômica dos EUA na região (CARMO, BARROS, MONTEIRO, 2007). A integração que Chávez busca tem como objetivo impedir um caminho inverso após sua saída, por isso: “Chávez insiste numa integração com uma concepção política claramente definida; busca uma integração sul-americana bolivariana (ainda que fora da Alba) para que sirva de barreira a eventuais políticas bolivarianas no interior da Venezuela”. (CARMO, BARROS, MONTEIRO, 2007, p. 35).

Pelo que foi exposto acima, o Mercosul se mostra importante para a Venezuela, inicialmente, na questão das relações econômicas, em que pese o surgimento de parceiros vizinhos para incrementar as exportações e importações para o país, num princípio de desvinculação da Venezuela quanto a um mercado prioritariamente exportador de petróleo para os Estados Unidos, que a torna vulnerável, também, sob o ponto de vista político. E aí reside o segundo ponto de vista mencionado anteriormente: uma integração subcontinental, que parte dos recursos naturais energéticos para não haver retorno, é vital para a consolidação do projeto bolivariano, tanto internamente, quanto na América Latina, tendo a Argentina, mas, principalmente, o Brasil, como um ator vital para a continuação do andamento dos processos de integração no subcontinente, mesmo que não partilhando do teor bolivariano incrustado na retórica chavista.

Amanhã: 5. Alba: um projeto político

Artigo em partes

1. Introdução

2. Antecedentes: democracia representativa e petróleo

3. A política bolivariana de integração

4. Mercosul

4.1 A entrada da Venezuela no Mercosul

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  1. 17/07/2009 às 10:26 AM
  2. 18/07/2009 às 9:33 AM

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