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A Partida

Após sete horas de viagem, o ônibus se aproxima do seu destino pontualmente às seis horas da matina de uma segunda-feira. Sentado no banco, Márcio acorda e sente o frio arrepiar sua pele, coberta apenas por uma camiseta e uma bermuda, afinal de contas, o sol teimava em arder em Cascavel naquele mês de janeiro e agora, em Curitiba, o tempo nublado, cinza e gélido predomina no clima e na paisagem. O garoto pega a sua mala marrom do bagageiro com os olhos repletos de lágrimas. O motorista percebe, mas prefere não se meter: “Já me basta os problemas que eu tenho”, pensa. Enquanto isso, Márcio caminha em direção aos bancos de espera, já que sua estada na capital paranaense irá durar cinco horas. Isso porque, ele encontrou vaga no ônibus que o levará até sua casa em Paranaguá somente às onze e meia. “O que vou fazer nesse intervalo? Já não basta essa tristeza a tomar conta de mim?”, dizia Márcio para si mesmo.

O jovem de 16 anos havia passado um mês na casa se sua avó Olinda, em Cascavel. Mas o que importava mais era Silvia, sua namorada de mesma idade, que mora há pouco mais de cem metros da casa de sua avó. Dona Olinda, de 88 anos, era o motivo da visita do garoto até três anos atrás, quando Márcio conheceu e se apaixonou por Silvia, iniciando um namoro que dura até hoje. Agora ele usa a casa da avó apenas como morada para ficar próximo de Silvia. Duas vezes por ano ele visita sua amada, nas férias de fim de ano e em algum feriado prolongado que ele pega uma folga extra para ir até lá. Já Silvia consegue ir somente uma vez, nas férias de julho da escola. E agora, início de janeiro, em que findam suas férias, ele se vê obrigado a voltar para casa e retomar sua vida, seu trabalho, sua solidão.

Mesmo com pouca idade ele já trabalha, para ajudar a tia Selma, que cuida dele desde que os pais do garoto morreram em um acidente automobilístico, há cinco anos. Sua tia tem 65, está doente e sobrevive com uma aposentadoria miserável. E para complementar a renda, Márcio trabalha como aprendiz num escritório de advocacia. Ele também guarda um pouco que recebe para fazer a tão sonhada faculdade de Agronomia, quando concluir o ensino médio. Daqui dois anos. Vive só com a tia em Paranaguá, pois seus irmãos Téo e Mateus, com 27 e 28 anos respectivamente, dividem apartamento em São Paulo. E lá Márcio não quer chegar nem perto, pelo menos por enquanto. Talvez quando precisar arrumar emprego ele se dirija ao interior desse estado, mas ele não gosta muito do ambiente feroz de cidade grande.

O pensamento tristonho foi-se embora por um reclame persistente do estômago que necessitava digerir algo. Márcio andou pelos corredores da rodoviária antiga curitibana, que mais parece um retângulo furado, pois são quatro corredores de dois andares, em que, no andar de cima, as empresas de viagem se instalam, além das lanchonetes, lojas de doces, presentes, jornais e revistas. No térreo ficam os bancos de espera e as plataformas dos ônibus. Os veículos que chegam e partem a todo o momento ficam na parte central. Mesmo assim, naquele instante a rodoviária estava tranqüila, pelo menos na visão de Márcio que, do segundo andar, percebia poucos ônibus saindo.

Enfim achara um lugar para comer. Pediu um leite com achocolatado e um pão na chapa. Comeu vagarosamente, já que tinha tempo sobrando, enquanto observava as pessoas da lanchonete: dois homens de uns 30 anos de idade, mais ou menos, tomando café e comendo coxinha, conversavam calorosamente sobre um trabalho de servente de pedreiro que iriam fazer. Na outra ponta, uma mulher de uns quarenta anos brigava com o filho, que devia ter uns 10, sobre o que ele devia comer àquela hora da manhã: ele queria um salgadinho e ela desejava dar-lhe pão. Márcio pensou na loucura de fixar-se em cada cena e lembrou-se de Silvia. Nunca imaginou que pudesse namorar tão cedo e por tão longo tempo. Quando tinha uns 12 anos costumava dizer pra todo mundo que só ia querer saber de brincar, farrear e trabalhar, só pensando em namoro depois dos 18. Achava que deveria curtir mais a vida do que se prender com uma garota.

Esse pensamento maduro para uma criança vinha de experiências de seus dois irmãos, que acabaram largando suas esposas depois de um tempo de casados, pois haviam se juntado cedo e viviam reclamando da falta de liberdade. E sempre alertavam o irmão mais novo de que “casar cedo é furada”, “o importante é curtir a vida antes de se amarrar com alguém”. Mas aí ele conheceu Silvia.

Foi engraçado como tudo aconteceu. Era julho, fazia frio e chovia em Cascavel. Os garotos jogavam bola num terreno baldio atrás da casa de Dona Olinda. De repente caiu um raio, que fez todos correrem para suas casas. Ao chegar na sua, Márcio viu uma menina no fim da rua chorando e foi até lá. Ele nunca a tinha visto, parecia ter se mudado recentemente. Ela estava com medo dos trovões e raios, mas seus pais não estavam em casa. Márcio a levou para a avó, que cuidou da menina. Desde então, eles ficaram bastantes amigos e brincavam sempre. Mas, com o passar dos anos as coisas mudaram, a idade dos treze anos já começa a indicar outras coisas, as brincadeiras logo passaram para flerte e, quando viram, já estavam se beijando, começando um namoro puro e infantil, mas que permanecia até hoje.

As lágrimas rolaram pela sua face novamente. Mas dessa vez não esperou que lhe perguntassem nada. Pagou a conta rapidamente e foi ao banheiro mais próximo. Chorou por uns 10 minutos. Depois se lavou na pia e se olhou no espelho. Sentia-se só, perdido numa cidade estranha, desconhecida para ele, que parava de passagem entre uma viagem e outra. Tinha medo. Por isso, nunca saía da rodoviária. Uma vez, durante um fim de ano, precisou ter que esperar 14 horas para tomar o outro ônibus e, mesmo assim, ficou o tempo todo dentro daquela rodoviária bucólica. Já se acostumara àquele cenário triste de pessoas chegando, indo embora, felizes, tristes.

Ao voltar para o corredor de espera, lembrava-se da cena de despedida em Cascavel, com sua amada aos prantos, sempre com o mesmo discurso: “Será que vamos nos ver de novo, Márcio? Eu tenho medo de que nós não possamos manter nosso namoro tão à distância”. Duas cidades, dois corações, separados por aproximadamente 600 quilômetros. Contudo, ele costumava responder com aquelas frases que só jovem mesmo para dizer, sem saber o que os espera pela frente. Ou até para afugentar o futuro. “Acalme-se Silvia. Nós nos amamos e nunca vamos nos separar”, dizia. Mesmo assim, ele lamentava e a sucessão de choros, abraços e beijos desesperados prosseguia até o momento em que o motorista gritava pela última vez, avisando que o ônibus partiria naquele instante.

Voltava os sentidos para a realidade. Uma garoa fina, mas intensa, descia do carrancudo céu curitibano, levando mais melancolia para a escura rodoviária e para os corações dos viajantes. Já eram quase onze e meia e Márcio se via aliviado pelo momento do embarque para sua cidade se aproximar. Apesar de não ter desejado sair da cidade de Silvia, detestava essa angustiante espera entre a chegada e a partida, que se transformava numa verdadeira tortura, por lembrar tudo o que saboreara nos últimos trinta dias e agora se resignava a voltar à sua rotina, distante de seu amor.

Márcio caminha até a plataforma dezessete, em que o ônibus para Paranaguá partirá em instantes. Observa as pessoas que adentram no veículo, entrega o tíquete ao motorista, sobe as escadas e se dirige ao seu lugar. Coloca sua grande mala marrom, que guarda suas coisas e sua história, e senta na poltrona 14. Abre a janela e vê pela última vez aquela cidade ameaçadora. Aconchega-se e fecha os olhos, como que expulsando toda a tristeza de seu interior, numa tentativa de reter apenas as coisas boas e a vã esperança de que um dia essa distância será menor e que ele poderá viver ao lado de sua amada.

Ps: Digitado no computador em maio de 2007, mas escrito, acho, entre janeiro e fevereiro do mesmo ano, com a mente ainda avivada pelo cenário bucólico da rodoferroviária de Curitiba e o coração aplastado por uma longa viagem e uma dolorosa despedida no verão daquele ano.

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