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Sobre a virada…

Um texto que fiz à época pro Boivoador, mas acabou não indo pro ar. O site não tem sido atualizado há um tempo, deve ser por isso. Problemas acontecem…

Um olhar próprio da virada

Atrações estelares, clima família, festa, tribos, guetos, fila, sujeira e alegria. Uma síntese de um ponto de vista da agitação cultural vivida em São Paulo durante a Virada Cultural

Texto e fotos Rodrigo Herrero

A 5ª Virada Cultural aconteceu na cidade de São Paulo nos dias 2 e 3 de maio e reuniu mais de 800 atrações, contando com mais de 4 milhões de pessoas, segundo a organização do evento. Foram muitos espetáculos de música, teatro, cinema, dança, artes, que fervilharam toda a capital paulista, que já está acostumada a tanta agitação cultural em um período tão curto.

Os trabalhos tiveram início com a fantástica apresentação do tecladista Jon Lord, do Deep Purple, com a Orquestra Sinfônica Municipal, no palco principal, na avenida São João. Fantástica porque, além de ser um encontro inusitado, o fato do músico estar acompanhado com uma banda, com direito a bateria e guitarra, proporcionou uma mescla interessante em várias canções, incluindo alguns hits clássicos da antiga banda, que levantaram a platéia, seja a que estava perto do palco, seja a que vibrava com um telão na mesma rua, mas bem distante do palco.

Público distante do palco assiste ao show de Jon Lord pelo telão

Público distante do palco assiste ao show de Jon Lord pelo telão

Apesar de toda a badalação pelos artistas que vão estar nos palcos, o maior barato da Virada, no entanto, para mim, é a multidão perambulando pelas ruas do centro da cidade, algo incomum nos fins de semana, principalmente à noite. Famílias, crianças, casais, saem de suas fortalezas condominiais e partem para as ruas e calçadas do centro velho paulistano para ver os espetáculos culturais. E enquanto você caminha de um lugar ao outro, diversas intervenções ocorrem no meio do trajeto.

E o Viaduto do Chá parece ser um dos aglutinadores disso: estátuas vivas brincando e tirando fotos com os passantes; no gradil do viaduto, dezenas empoleirados para ver a apresentação de balé no Vale do Anhangabaú; no meio da rua, doidos vestidos de branco com luzes espaciais e um carrinho de som agitavam as pessoas.

Um número inusitado, mas digno de nota foi a apresentação francesa Le Chant des Sirènes – Mécanique Vivante, por conta do ano da França no Brasil. Uma orquestra feita de sirenes e instrumentos estrombólicos foi das coisas mais malucas que vi na vida. E foi bem interessante. O conceito de dialogar com o frenesi cotidiano da cidade foi bem explorado e entendido. Sem falar nas apresentações de luzes e cores no prédio da Prefeitura e na região da avenida Rio Branco, com palhaços, artistas circenses e outros.

Prédio da prefeitura paulistana também sofreu intervenção artística

Prédio da prefeitura paulistana também sofreu intervenção artística

Interessante também é ver os jovens de diversas tribos e estilos conviverem pacificamente pelos guetos da Virada. Guetos porque os palcos são segregados para um só estilo musical, até para evitar uma mistura maior que faísque uma pólvora nos ânimos exaltados e embriagados de muitos (o vinho barato e a cerveja cara rolam a solta com os ambulantes), como ocorreu em 2007, quando, na praça da Sé, durante o show dos Racionais MC’s, a pancadaria rolou solta, com agressiva intervenção da Polícia Militar sobre o público. Essa divisão propicia que cada um curta o seu som sossegado, gerando apenas alguns encontros casuais nas ruas, sem brigas ou provocações, travando um clima mais amistoso.

Fila e sujeira

Então, o problema acaba sendo mesmo o da quantidade de pessoas nos shows mais procurados. Por exemplo, para ver as apresentações musicais no Teatro Municipal é sempre um tormento, com uma fila a dar voltas no Teatro e a adentrar sem fim na rua 24 de maio.

Avenida São João, domingo de manhã - sujeira predomina após virada

Avenida São João, domingo de manhã - sujeira predomina após virada

Outro exemplo foi o palco do rock, montado pela segunda vez na praça da República, um local inapropriado para abrigar tantos roqueiros. Tentei assistir ao Camisa de Vênus na madrugada de domingo e, simplesmente, estava impossível de ficar parado na praça: não havia espaço e você era empurrado para a rua do Arouche, que, equivocadamente, ficou aberta para a passagem de ônibus e carros (no domingo notaram o erro e fecharam), que permaneceram estáticos devido ao acúmulo de pessoas. E mesmo ali não compensava ficar, pois o áudio estava baixo e ouvia-se mais o conversar das pessoas.

A sujeira foi outro problema que atormentou as ruas e calçadas da região. Bastava botar a cara pra fora no domingo pela manhã para perceber a quantidade de lixo espalhado. Sem mencionar os banheiros, fétidos e encharcados de urina. Claro, tudo acompanhado de muitos bêbados e cansados que se encostavam aonde podiam no início da manhã. Voltando ao lixo, o problema foi tanto que a prefeitura prometeu espaçar mais o intervalos entre os shows do próximo ano para dar tempo de limpar.

Domingo

O domingo começou cedo, com a apresentação na avenida São João do Cordel do Fogo Encantado. Show para acordar a cidade: animado, pra cima e alegre, como a banda e sua batucada gostosa. Ao cabo da apresentação, mais passeio, com direito a um espetáculo de balé no Anhangabaú. Ao meio-dia entrou no palco do rock a Nação Zumbi, para um belo show para um público que se aglomerava, mas não era tão lotado quanto na madrugada daquele dia, permitindo uma melhor curtição do show.

Público durante show do Cordel do Fogo Encantado

Público durante show do Cordel do Fogo Encantado

Antes de encerrar o passeio, vale sempre a pena passar pela praça Dom José Gaspar e ver uma exibição de piano, algo muito diferente da agitação da Virada. Enquanto nos bares próximos a conversa rolava folgada e alta, no centro da praça, circundada por cadeiras de plástico, se apresentava o pianista Rafael Vernet.

Já no caminho para casa, passada obrigatória – tanto por ser caminho do apartamento, quanto por ser o palco rock – pela praça da República. No palco, Nasi e sua carreira solo: “vou ver um pouco pra ver se vale a pena”. Valeu. Foi uma grata surpresa. Ao som de vários clássicos do rock (e quase nada de Ira!), Nasi brindou o público com The Clash, Raul Seixas, Legião Urbana e até Cazuza. Um bom fim de evento para um roqueiro das antigas.

Claro que a Virada prosseguiu até mais ou menos oito da noite, com o show de encerramento da cantoria Maria Rita, no palco principal, mas a Virada deste ano já havia se encerrado para mim, vencido pelo cansaço e pelo som de “é campeão” dos corinthianos, que começavam a agitar desde o estádio do Pacaembu, próximo à região central da cidade.

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