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Compreender = abraçar

A aula de hoje da professora Cremilda Medina foi mais uma vez especial. Ela convidou o coordenador da pós-graduação da Cásper Líbero, professor Dimas Kunsch, seu ex-aluno, para falar sobre a importância da compreensão, tanto no jornalismo, na comunicação, quanto na produção científica, ao contrário da explicação, impregnada na mídia e na academia em geral.

Resumidamente, foi possível apreender que, mais que explicar alguma coisa, com as ferramentas argumentativas e objetivistas, é importante compreender as coisas, o ser humano, o mundo em que vivemos, enfim, tentar entender a complexidade na qual estamos inseridos, que impede que cerquemos algo num estudo e qualifiquemos, definindo o resultado daquilo como uma verdade absoluta.

Pois, como ele explanou, o que nos faz humanos é a busca, é o perguntar, mesmo sabendo que as principais dúvidas humanas não serão respondidas. Se encontrássemos a verdade, seríamos divindades, partindo do pressuposto de que há um deus e que nele está a verdade.

Teve uma coisa que me chamou a atenção novamente – pois eu havia lido o doutorado do professor, dedicado ao tema compreensão, intitulado “O Eixo da Incompreensão”, em que ele abordou a cobertura da imprensa brasileira sobre a última Guerra no Iraque – é a significação da palavra compreender (do latim comprehendere) que quer dizer “juntar”, “abraçar”, na qual ele acha mais atraente e eu concordo. Compreender é mais que decodificar algo, é interagir com o mundo, é respeitar as peculiaridades, perceber as multicausalidades, é, enfim, sair da arrogância racional que a tudo dualiza, divide, reparte. Como o professor Dimas disse: “Conhece melhor quem compreensivo é”.

E em relação à crítica entre racional e não-racional, que bate de frente com o dualismo citado acima, o professor trouxe a poesia “Traduzir-se”, de Ferreira Gullar, que tenta traduzir essa divisão imposta a nós por nós mesmos, como se fôssemos duas coisas distintas. Enquanto que, em realidade, somos uma mistura indivisível de um todo maior do que partes quantificáveis.

Vale a pena a poesia, pela beleza e como contribuição para aprofundar esse pensamento. Até amanhã.

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte;
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

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