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Antes do encanto quebrado…

Olá.

Ontem, enquanto dava uma pausa nos estudos na biblioteca da PUC, fiz algo que costumo fazer de vez enquando: vasculhei meus arquivos da graduação no computador, em busca de algum texto interessante, ou somente pra lembrar algumas coisas de um período difícil, porém bacana de minha vida, afinal, as preocupaçõres ainda apenas cresciam, não eram esse Leviatã que temos hoje, onde só existe a gente e mais ninguém por perto pra sustar sua queda.

E eu acabei por encontrar um texo interessante, escrito no primeiro semestre de 2004, portanto, no meu último ano da faculdade. Fazia parte da disciplina “Redação Jornalística II”, onde se aprende a técnica e não alma da profissão. A idéia era fazer uma crítica ao texto “O repórter e o linotipo”, do escritor Mario Prata, publicado em O Estado de S. Paulo.

Fora alguns deslizes técnicos (que se dane!) eu sorri com o texto porque ali tinha muito de um fervor juvenil que se esvaiu com a formatura, num dia em que eu trabalhara feito um cão quando, à noite, “colei grau”. A paixão que o texto fala e está preenchido já não anda mais por esses lados. A melancolia, eterna companheira, venceu a guerra.

A dureza do cotidiano, a aspereza do jornalismo, a distância dos relacionamentos, a ilusão perdida, o ideal destruído pela realidade que pouco se importa com o “mudar o mundo” a que somos incentivados na universidade – mesmo que alguns bons valores nos preparem para “o que vem por aí”. Tudo isso sobrepõe um clamor inocente pelas transformações da profissão, fundamentado no texto abaixo, escrito há apenas cinco anos. Quanta coisa muda em cinco anos. Até amanhã.

A Paixão e o Jornalismo

O jornalismo nunca perderá sua veia romântica. Homens como Mário Prata, Rubem Braga e Ricardo Kotscho, com talento nato para as redações e faro jornalístico sempre terão voz e lugar nas grandes empresas midiáticas, para dar vazão a suas opiniões e engrandecer as páginas impressas com seus eloquentes ensinamentos como a crônica “O Repórter e o linotipo”, de Mario Prata para O Estado de S. Paulo. Só que, não se pode esquecer que vivemos um outro mundo.

A síndrome da globalização “persegue” cada urbanóide que corre como um louco atrás de um tempo que nunca vai controlar. E os representantes dessa nova desordem cotidiana são os jornalistas. Deadline, competitividade, pressão, falsidade, humilhação, estresse, loucura…. São algumas das “maravilhas” do século XXI herdadas a quem escolhe esta profissão hoje. Não há mais, como Prata disse, de ficar “um mês na rua” atrás de um furo de reportagem. Não existe a preocupação com a crase, com a vírgula (não sei ambas direito), nem com o linotipo que saiu de cena há uns 100 anos, mas ainda resiste em algumas gráficas espalhadas pelo nosso Brasil em chamas. Não há preocupação com a reportagem aprofundada, investigativa. São feitos são pacotes de notícias, fragmentos tortos de uma realidade vazia e distante da maioria do povo brasileiro. Um povo marcado pela dor e pelo sofrimento, mas que muitos insistem dizer que é feliz.

Não se pensa mais na preparação, dentro da redação, para os chamados “focas”. Eles são jogados diretos nas covas dos leões, vindos de um ensino privado parco e porco, sem investimento das empresas de educação, sem incentivo material e humano e sem atitude e paixão pela profissão dos estudantes letárgicos de jornalismo. Mas não são somente nós, a juventude em geral não vai atrás de seus sonhos, assim como os repórteres não vão mais atrás das novidades.

Concordo com Prata quando ele coloca que falta um conhecimento maior dos jovens jornalistas, justamente por nós não termos um contato com as redações, nem nos casos de prazo de experiência. As redações estão cada vez mais enxutas, sem tempo de “dar atenção” às moças e garotos. Acredito, porém, que seja necessária a formação do jornalista em uma universidade, por conta da bagagem humanista que ele recebe através de disciplinas diversas do jornalismo, mas que estão intrinsecamente ligadas a profissão. Seria preciso apenas trazer esse bojo teórico para a prática jornalística do dia-a-dia, aperfeiçoando o ensino.

Mas isso não vai acontecer com essas universidades privadas que tomam o dinheiro do aluno sem fornecer um ensino firme, transformando-os em espectros de repórteres e isso não é só culpa do estudante. Falta mais comprometimento da imprensa, das universidades, dos professores e dos alunos, em formar pessoas capazes de compreender o mundo como ele é, e não como querem transformar.

Por isso, Mario Prata, ser repórter depende de muito mais coisas externas do que somente internas. Mas reconheço que falta empenho e amor a quem resolve se enfiar no escuro meio do papel-jornal. As assessorias de imprensa amansaram os jornalistas, deram a eles uma possibilidade de ter vida social (mas afinal, prá que serve isso hoje?), mas os afastaram da rua e do contato com as pessoas. O discurso hoje é contra o ócio e, consequentemente, contra o pensar, a leitura, a reflexão, os sonhos, contra viajar em pensamentos até cair no sono. Precisamos sonhar mais, acreditar e lutar. Precisamos ler e escrever mais também. Com muito mais paixão.

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