Início > Política e América Latina > Venezuela – parte II

Venezuela – parte II

Olá. Aqui está mais um texto relativo à Venezuela. Perdão pelo hiato de ontem, mas estive na rua o dia todo: resolvendo questões particulares pela manhã, participando de um seminário sobre crise internacional e América Latina na FEA/USP à tarde e tomando vinho em um lugar bem agradável à noite, que deverá ser tema de um post em breve.

O texto abaixo aborda a segunda fase da política externa chavista, em curso. Talvez tenha continuidade este especial, depende de umas interpretações de texto que ainda não terminei de um livro recente sobre a Venezuela.

Até amanhã. Sábado, folga para muitos, não para mim. Como diria o outro, faz parte.

A Política Externa de Chávez – Segunda fase

Hoje o texto trata do artigo “Limites do ativismo venezuelano para América do Sul”, também do professor de Ciências Políticas da Universidade de São Paulo e coordenador do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (NUPRI/USP), Rafael Duarte Villa.

Este artigo é de 2007, portanto, mais atual que o anterior, e trata da política externa de Chávez pós-golpe sofrido em 2002. A partir deste evento, o líder venezuelano toma posições mais radicais em sua política externa, colocando-se na centralidade da mesma, dispensando profissionais de carreira especializados na área. O objetivo agora é implantar o “socialismo do século XXI” na Venezuela e a criação do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), no primeiro semestre de 2007, demonstra claramente isto.

Segundo Villa, essa radicalização interna se dá ainda mais forte após sua reeleição em 2006, com 63% dos votos, tendo 19 dos 23 governos estaduais e toda a Câmara Legislativa chavista, já que a oposição se absteve. Fica clara uma concentração de poder para aprofundar seu projeto e, por consequência, desenvolver uma política externa mais ideológica, relacionada com a base política que conseguiu formar em seu país. No entanto, os vizinhos podem ver como um problema, sobretudo o Mercosul, pelas “dificuldades futuras de lidar com um governante que toma medidas internas sem levar em conta os impactos sobre o processo de integração”.

O autor aponta para onde foi direcionada a política externa chavista, voltada à América Latina e, ainda mais prioritariamente, à América do Sul, resultando numa dupla relação de cooperação e conflito com alguns países sul-americanos, em especial o Brasil. “O ponto de inflexão do distanciamento venezuelano-brasileiro seria a participação da Venezuela na decisão boliviana de renacionalizar o gás e o petróleo em maio de 2006”. Outro ponto que incomoda, principalmente o Brasil, é a intervenção venezuelana nos assuntos dos vizinhos, como exemplo, as eleições no Equador e Peru, sem falar nas condicionalidades que Chávez vira e mexe fala para entrar no “velho Mercosul”, referindo-se ao aspecto meramente econômico que o bloco teria se focado até os dias de hoje.

Um dos pontos centrais da minha pesquisa é mencionado por Villa. Trata-se da criação da Alba, ao lado de outros governos de esquerda mais radical (palavras dele) na América Latina, como Cuba, Nicarágua, Equador e Bolívia, defendendo também uma agenda mais ampla, de aliança entre empresas estatais latino-americanas, como a Petrosul, o Banco do Sul, o Gadosuto do Sul, e as já formadas no Caribe, Telesul e Petrocaribe.

Uma das causas do que Villa chama de ativismo da diplomacia venezuelana estaria na já costumeira tradição da democracia no país, de querer se lançar no cenário internacional, o que, devido ao fato do país não ter recursos de uma política externa, não ser uma potência média, nem ter recursos de poder, nem tamanho geográfico para tal, não corresponde ao desejo de ser um ator regional, sem falar nos problemas internos. Ou seja, mesmo investindo o petróleo numa maior aproximação com a América Central e o Caribe, praticando um voluntarismo crescente na América do Sul – que confronta com a agenda de política externa brasileira –, a falta de um maior peso geopolítico dificulta qualquer projeção maior da Venezuela.

O autor critica o personalismo de Chávez no comando da política externa, tendo trocado, até a metade de 2007, seis chanceleres no comando da Casa Amarela, a chancelaria venezuelana. Isso faz com que Villa traga um pensamento comum na teoria liberal das relações internacionais, em que “governos de países com regimes de natureza política parecida tendem a ser mais cooperativos entre si, e que governos com regimes de natureza diferente tendem a ser mais conflitivos nas suas relações”. Essa teoria é mais conhecida como “paz democrática”.

Num item seguinte, o autor destaca, em contraposição, as proximidades entre Brasil e Venezuela na política externa enumeradas pelo professor Amado Luiz Cervo: a) conceito de globalização assimétrica como correção ao conceito de globalização benéfica; b) o conceito político e estratégico da América do Sul; c) o reforço do núcleo central robusto da economia nacional como condicionante da interdependência global; d) prévia integração da América do Sul como condicionante da integração hemisférica; e) a percepção da nocividade da Alça, caso se estabeleça sem os condicionantes anteriores e sem a reciprocidade comercial efetiva; f) reservas ante o aspecto militar do Plano Colômbia; g) o repúdio a qualquer presença militar-norte-americana e a seus vôos na Amazônia; h) a decisão de não privatizar o setor petrolífero.

No entanto, Villa relata que houve mudanças que produziram um distanciamento entre os dois países: o Brasil passou a reivindicar seu lugar como potência média dentro da “globalização assimétrica” e o congelamento praticamente definitivo da Alca. No entanto, ele aprofunda em outras discrepâncias ainda mais substanciais para esse distanciamento: primeiro, que não há um projeto de política externa comum. Para isso, ele cita os três projetos em andamento: Mercosul, liderada pela aliança argentino-brasileira; a relação bilateral de países como Chile e Colômbia com os EUA; e a Alba, sob liderança cubano-venezuelana.

Outra diferença é de natureza política do processo de integração regional: “Venezuela concebe um processo de integração em bases não só econômicas, mas também profundamente políticas. Também concebe o processo de integração como um processo anticapitalista, coerente com sua visão do ‘socialismo do século XXI’’, o que dista da visão centro-esquerda e moderada, com forte ênfase na natureza econômica do processo de integração, sustentada tanto pelo Brasil quanto pelo resto dos países originais do Mercosul”.

Villa critica a Alba, ao dizer que “o órgão é uma espécie de clientelismo de política externa que funciona na base da troca de influência por petróleo”, sem deixar de ter razão, ao alfinetar o crescimento econômico e a barganha política da Venezuela estarem fundamentadas somente no petróleo. Tanto que não convence atores como a Argentina, mesmo com Chávez tendo comprado 5% da dívida externa daquele país.

Mesmo as relações com o Brasil se mostram um iô-iô de distanciamento-proximidade, com a demora da aprovação pelo Senado da entrada da Venezuela, fortemente criticada por Chávez, mas, depois, atenuada por seu chanceler. Villa analisa essa variação de posição por diversos aspectos: pressões de Chávez sobre as instituições políticas, mal vistas na Europa e EUA, aliando uma imagem negativa ao Brasil (distanciamento); questão comercial, já que o Brasil aumentou e muito seu mercado com a Venezuela (proximidade); liderança regional (distanciamento). Neste último, Villa cita a questão do gás, já mencionada acima, explicada pelo interesse realista da Venezuela em internacionalizar seu petróleo, vendo com bons olhos a nacionalização do gás boliviano, seu mais profícuo parceiro ideológico em território sul-americano. Para sintetizar essa guinada realista, uma frase do autor: “como ensina qualquer teoria básica das relações internacionais, Estados são atores racionais e egoístas, e, mesmo pregando o discurso da cooperação e da integração (ganhos absolutos), podem ao mesmo tempo perseguir objetivos individuais (ganhos relativos)”.

Outro aspecto também é citado: “Chávez tem mostrado uma boa capacidade de iniciativa diplomática e econômica, e que se choca bastante com as aspirações brasileiras da liderança sul-americana. Esse fato parece a chave para o Brasil passar a perceber que Hugo Chávez leva a sério o projeto de construção de uma liderança regional, que em perspectiva tinha como vizinho não um aliado mas um concorrente em potencial”, fazendo com que aumentasse “sua influência política” e fosse “uma referência constante em assuntos políticos domésticos, em países da região andina e do Mercosul”.

Outro problema é a crise política interna que afetou o Brasil a partir de 2005, tirando um pouco da diplomacia brasileira sua “capacidade de iniciativa política regional”. Além disso, a falta de ações concretas em relação ao discurso brasileiro, repleto de iniciativas que não chegam a se realizar. Enquanto isso, a Venezuela tem levado sua agenda social para os outros países, legitimando internacionalmente suas políticas públicas, apresentando suas melhoras e mostrando o que pode fazer para desenvolver e ajudar a integrar.

Na conclusão, Villa coloca que “o ativismo venezuelano para a América do Sul fortemente carregado de nacionalismo e de referências a lugares comuns da esquerda tradicional, encontra nas resistências de alguns países da região seu ‘mecanismo de reverso”. Isto é, sua intromissão em assuntos internos nos países pode prejudicar sua projeção no subcontinente, devido ao afã chavista, denominado de ativismo pelo autor.

Ele acredita que o principal dilema da diplomacia de Hugo Chávez “é decidir se opta por ser a liderança de um grupo com pouca capacidade de influenciar de maneira substantiva as agendas externas sul-americanas, como é a Alba, ou se aceita participar de um bloco de países, como o Mercosul, em que suas metas de liderança e sua capacidade de iniciativa passarão pelo crivo da aceitação de atores e de táticas dilatórias regionais de maior peso como Brasil e Argentina. Ou, em último caso, lhe restaria ser a liderança moral dos movimentos sociais na América do Sul, opção de limitadas ambições não só para o governante venezuelano, mas para a liderança venezuelana histórica, tão dada a lances de grandeza em política externa regional”. Estão aí postos, os problemas e os rumos da política externa venezuelana e, conseqüentemente, a relação com o Brasil nesse jogo políticos no subcontinente.

Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: