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Em meio a uma crise criativo-intelectual…

A preguiça está grande hoje, apanhei muito pra conseguir ler míseras 30 páginas de um livro sobre a Sociologia das Relações Internacionais (pode?), tenho uma pilha de louça pra lavar, mas ao menos parte da roupa eu cuidei, escrevi um post pra semana que vem aqui no blog, mas fiquei sem idéia e paciência pra escrever algo hoje.

Portanto, publico a seguir um conto antigo, feito há dois anos, a partir de algumas idéias de um companheiro de trabalho, com o objetivo de ser rodado um curta-metragem, daí eu escrevi o conto como argumento. A idéia do curta para esta estória não vingou, mas gerou outros projetos bem interessantes, acabou por ser um dos impulsos para pularmos de vez no oceano das impossibilidades cinematográficas.

Até amanhã.

Déjà vu*

Do lado direito da passarela do metrô, um dia maravilhoso se finda. Uma mistura de cores, laranja, rosa, roxo e azul, se fundem no céu de São Paulo, trazendo um pouco de beleza àquele dia duro de trabalho. Do lado esquerdo, porém, a noite já chegara, com seu manto negro cobrindo prédios e ruas, amparada somente por uma lua cheia esplendorosa, amarela, transbordando a luz refletida de seu círculo imperfeito.

Um contraste no céu paulistano, proporcionando belezas distintas, alegres, tristes, perfazendo um ambiente turbulento na mente de Roberto, que se dirigia para sua casa, acompanhado de duas noites opostas, como dois pensamentos diferentes a povoar-lhe a mente. Mas ele preferia não pensar em nada. Exausto e cansado de seu emprego, sua cabeça estava voltada para o jantar e para a televisão.

Morando sozinho há três anos em um apartamento, depois de deixar a casa dos pais, já perdera o contato com o mundo externo. Poucos amigos o visitam, até porque ele não faz da amizade algo que devesse ser cultivado. Sua personalidade solitária e distante afasta qualquer possibilidade de contato com outras pessoas. Por que ele era assim? Se ele soubesse a resposta, talvez não seria. Mas preferia ocultar todo e qualquer pensamento que o tirasse de sua rotina, opcionalmente repetitiva. Preferia pensar que tinha um dia a menos, depois de viver sufocantes horas em seu emprego chato como analista de processos numa repartição pública.

– Porra, cadê o controle do som?, esbravejava, já dentro de casa.
– Essa casa está uma bagunça. Ah, foda-se. – dizia, sem nenhuma preocupação.

Ligou o aparelho e no CD rolava Alice in Chains. A música? Coincidentemente, “We Die Young”, o que, numa tradução livre quer dizer “nós morremos jovens”. Nada mais absurdo e sem sentido do que uma afirmação dessas. No entanto, caía exatamente com o que sentia no fundo de sua alma e que ele afastara ao longo dos anos. Afinal de contas, já atingira os 30 e tardara a oportunidade de morrer na juventude, como muitos roqueiros, inclusive, aquele que cantava versos soturnos como esses.

Agora, Roberto precisava se preocupar em pagar contas, analisar processos que não terminavam nunca, cuidar de sua casa e só. Não percebera o passar dos anos em sua face, na folhinha do calendário, muito menos nos acontecimentos da vida. Vivia numa redoma que fechara em sua casa, perdido nas obrigações cotidianas, para não sofrer, sem perceber o quanto alienado estava do mundo ao seu redor. Deixara seu passado morto e enterrado num canto obscuro de sua mente, para nunca mais se lembrar dele e conseguir sobreviver a cada dia com o menos de dor possível.

Depois de botar uma sopa instantânea pra fazer num panelão sujo que estava há dias no fogão, desligou o som para fazer aquilo que mais gostava, no fundo: ver TV. Isso porque, o rádio fora seu companheiro de jovem, quando as músicas exprimiam suas angústias de adolescente. Agora, já não sentia coisa alguma, se anestesiara de tudo o que vivesse e só precisava de uma coisa para manter esse estado de coisas. A televisão.

Via qualquer coisa que passasse pelos canais. Programas de auditório esdrúxulos, novelas, telejornais de entretenimento, jogos de futebol, seriados, filmes. Gostava de tudo. Ao menos fazia passar o tempo. Divertia-se assistindo tudo aquilo. Sentia que ali podia viver um mundo que não conseguia fora dali. As ruas são muito violentas, as pessoas são maldosas, os amigos te sacaneiam, os amores fazem você sofrer. Então, por que vou perder tempo me machucando e me desiludindo com o mundo real, sendo que eu posso presenciar todas essas coisas, sem sentir nada, dentro da minha própria casa? Era assim que Roberto pensava, ou fazia-se pensar.

Em dias que estava mais animado, abria um dos vinhos que costuma comprar de vez enquando, deitava no sofá e tomava o líquido no gargalo, vendo alguma série que gostava. Tinham várias, assim como filmes. Era um devorador de películas estilo blockbuster. Não gostava de filme com conteúdo, que o trazia à reflexão, preferia dar risada, ver explosões, essas coisas.

– Puta que pariu, esqueci a sopa! – bradava da sala, correndo para a cozinha, tropeçando nas cadeiras. Por pouco ele não coloca a casa em chamas. A sopa ficou tanto tempo na panela com o fogo ligado que quase evaporou por completo. Mesmo assim, ele botou num prato, esperou esfriar, largou a sujeira de lado e tomou a sopa com gosto de queimado.

O despertador tocou e Roberto não ouviu. Terça-feira, dia de ralar no escritório. Mas ele só conseguiu acordar com a caminhonete que vende produtos de limpeza: “Olha a cândida, olha a cândida”, repetia insistentemente uma voz que parecia de um senhor de idade.

– Caralho, esse cara todo o dia enche o saco na minha janela. Um dia vou dar um jeito nele – reclamava. Mas já há cinco anos que a mesma caminhonete passava três vezes por semana. Roberto chiava, mas nada fazia. Preferia xingar dentro de si, fazer o café, colocar o paletó amarrotado e sair de casa, naquele dia, atrasado.

Mais um dia de trabalho que se vai. A rotina se repete. Assim que entra em casa, põe alguma música para que o som preencha o vazio silencioso de seu simples apartamento de um quarto, sala, cozinha, banheiro e lavanderia minúsculos. Depois de procurar o que vai comer, liga a TV e se deixa levar por mais momentos de entretenimento fácil, desligando-se do mundo como um botão on/off. Pára em um telejornal. “Cinqüenta mortos em atentado no Iraque”. “Felipe Massa treina duro para a corrida no Japão”. “Assalto a banco deixa três feridos em São Paulo. “Seleção Brasileira vai a Inglaterra para mais um amistoso”. Esses e outros destaques passam batido pela mente de Roberto. Muda de canal e começa a ver um programa de entrevistas. Deixa se absorver até meia-noite, quando dorme estatelado no sofá, quase caindo no chão.

O despertador toca. Sexta-feira. Roberto ouve, solta um palavrão e o desliga. Toma um banho, prepara o café, pega o paletó, esquece a gravata e sai para mais um ônibus lotado e um novo dia de marasmo no trabalho. Entediado, se esquece que é seu aniversário. Só vai se tocar mesmo quando olha no calendário da repartição pública. Pouco afetado em relação a data, retoma suas atividades burocráticas. Na volta pra casa, compra numa padaria um bolo de chocolate pronto e velho.

Ao abrir a porta, percebe a mesma bagunça de sempre, joga sapato e o paletó num canto da sala e leva o bolo até a mesa, na cozinha. Acende uma vela, fica em silêncio por um curto espaço de tempo, apaga a vela e corta um pedaço de bolo para si. Coloca em um prato com um garfo e volta para a sala. Enquanto assiste a um programa humorístico, ele devora aquele naco de bolo como se fosse a sua janta. “Boa idéia comprar esse bolo. Assim não preciso cozinhar nada”, pensa.

* Escrito em 10/06/2007.

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