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Inquietações + incertezas + dúvidas = ?*

Inicio por uma descrição partitiva da tarefa solicitada, ou seja, a leitura do livro Ciência e Jornalismo, da herança positivista ao diálogo dos afetos, em especial a primeira parte “Positivo não operante, ou Auguste Comte Revisto”. Ali é tratada a crítica ao positivismo como regente da produção científica e mesmo do jornalismo, sendo a teoria positivista regida pela razão como o princípio e o fim de toda a nossa existência, enquanto que a professora, com contribuições de vários autores, propõe uma leveza de olhar em nosso cotidiano e mesmo na academia, afastando a rigidez matemática de René Descartes e a objetividade absoluta de Auguste Comte.

O relato objetivo termina aqui.

Fui educado, como todos, acho, dentro do positivismo. No entanto, fora do meu trabalho enquanto jornalista ou enquanto pesquisador, abro espaço para percepções mais poéticas da vida, principalmente, na observação cotidiana da vida, vivendo, e eu, sentindo, cada um desses momentos. Dentro disso, acredito que a música também proporcione essa transcendência do cenário objetivo, pois costuma ser uma síntese de nossas angústias e alegrias. A música tem na minha vida um espaço cativo de respiro, reflexão, bem-estar e novas experiências, sentimentais e sensoriais. E ela está presente o tempo todo – nesse momento mesmo escuto Los Hermanos, uma banda pop brasileira que fala de amor, do tempo, do cotidiano, de sensações e sentimentos, da vida, enfim.

Outro dia, em um encontro com meu orientador, o professor Renato Seixas, ele comentara sobre a relação que a música tem com muitas coisas da Filosofia que não os alunos nunca imaginam e citou um exemplo de uma canção que levara a seus alunos de graduação. Ou seja, o conhecimento, o saber, não está apenas nos livros, na rigidez normativa, na academia, em um telejornal, mas em qualquer lugar: em uma canção, na rua, em um parque, em um bate-papo, etc.

Gostaria de relatar um episódio ocorrido durante a leitura. Ao ler sobre as “marcas epistemológicas herdadas do Discurso sobre o espírito positivo”, mais especificamente o item “ênfase na utilidade pública dos serviços informativos”, me senti profundamente atingido. Sempre nos lugares que trabalhei e nos projetos que colaborei, defendi a tese de que a informação tinha que ser útil, pois o papel do jornalista era justamente esse, de levar uma informação de utilidade pública, com a utopia de ajudar o consumidor daquela notícia. E, ao ver esse ponto dentro da crítica do texto, me senti confuso: “então, isso não é bom? O que tem de errado nisso? O que fazer então pra que ajude o leitor?”. Minhas dúvidas saltadas assim que percorri os olhos pela fatídica linha talvez estejam focadas, erroneamente, no como fazer, sendo que o problema está no que fazer. Continuo sem resposta.

A minha inquietação – existente desde antes da leitura do texto, mas já no princípio dos encontros das quartas-feiras –, no sentido acadêmico, reside no fato de que, ao concordar com a pobreza da visão positivista encalacrada no nosso âmago intelectual (agravado pela minha formação de jornalista, que não bebe, mergulha na fonte comteana), me vejo em um beco sem saída do que fazer a partir dessa constatação: como produzir conhecimento sem os rigores acadêmicos? O abandono do positivismo como metodologia não impede esse rigor acadêmico pautada em hipóteses, justificativas, objetivos? Como diferenciar as armadilhas cartesianas-positivistas de uma produção condizente com uma preocupação com a realidade, só que, com uma realidade aberta, subjetiva? Como produzir conhecimento, debater teorias, formular e testar hipóteses, sem fugir da discussão reducionista do certo e o errado?

A minha dificuldade maior ainda é transportar essa quebra de paradigma para a produção teórica, em especifico, para o meu projeto de pesquisa, que não busca um mergulho em uma comunidade, não pretende ir às ruas (creio, nesses casos, menos complicado para a “arte de tecer o presente”), mas sim estudar documentos, declarações, discursos, de diplomatas e presidentes de Brasil e Venezuela, sobre a política externa para a América Latina, sob o recorte dos projetos de integração em andamento no subcontinente. Há a possibilidade de trazer a intuição-poética para um trabalho como esse? Ou, pelo menos, não incorrer no risco de uma sentença afirmativa, absoluta, de uma verdade a respeito do objeto estudado?

Confesso que participar desse curso e do mestrado em geral está sendo mais duro do que imaginava. Eu acreditava que teria todas as respostas, mas as dúvidas se assomam assustadoramente, me deixando, por vezes, perdido. Essa crise de paradigmas, ou o simples fato de haver esse tipo de discussão, essa “pulga atrás da orelha”, para mim, revela uma crise existencial, pois, se tudo em que acreditamos até hoje está equivocado, no que acreditar hoje?

Nós temos essa obrigatoriedade de ter algo em que crer, seja uma fé, uma teoria, um teórico, um time de futebol, um partido político, um parente. Precisamos nos apegar a algo como se fosse a última coisa existente, como uma verdade que nos proteja desse mundo confuso. Mas talvez seja o momento de perceber que as incertezas, as assimetrias e as instabilidades, tanto na vida quanto na academia (parte desta), devam ser aceitas como elementos vitais de nosso crescimento, tanto interior quanto em sociedade.

* Texto feito para discussão em sala de aula do dia 15/04/09, da disciplina “Signo da Relação: Revisão Epistemológica e Fundamentos Metodológicos da Dialogia na Comunicação Social”.

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