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Brasil: baluarte do Ocidente?

O post de hoje parece brincadeira, mas é um resumo que pretender anotar os pontos principais de um livro de uma das mentes da famosa Revolução de 64, na verdade, golpe de Estado que culminou na Ditadura Militar, que impregnou o Brasil até 1985: General Golbery do Couto e Silva, que foi ministro-chefe do gabinete Civil, durante o governo de Ernesto Geisel (1974-79).

Golbery – que também foi responsável pelo início da distensão da ditadura, a partir do governo de Geisel – foi um estrategista entre os seus, principalmente no que tange às relações internacionais, à parte seu posicionamento militarista e anti-comunista até a medula. E no livro em questão, “Geopolítica do Brasil”, publicado em 1967, mas com escritos também dos anos 50, ele trata de vários aspectos teóricos, discussões e formulações a respeito da Geopolítica, Política, Estratégia, Geoestratégia, e demais debates relacionados à disputa Ocidente x Oriente, no embate americano-soviético do período.

Mas o mais interessante aqui para o blog (já que dessa parte teórica eu pouparei o leitor) é o que o general fala sobre a importância do Brasil para a Defesa do Ocidente, sob o ponto de vista da Geopolítica, devido, entre outras coisas: a seu tamanho continental; a sua posição estratégica no Atlântico Sul; sua projeção para a África e Europa pelo promontório nordestino – aquela lança que se aponta para o oceano, sendo Natal (capital do Rio Grande do Norte) a cidade mais próxima da África-Europa. Esses dois últimos elementos, vitais, para uma atuação brasileira na região além-mar – é bom lembrar da base aérea que os EUA possuía em Natal durante a Segunda Guerra, em troca de uns trocados para a criação da Petrobrás, durante o primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945), que quase foi para o lado dos alemães.

O autor traz um mapa em que a projeção azimutal equidistante está centrada em São Paulo, ou seja, o centro do planisfério (ou mapa múndi) é o Brasil. Essa análise coloca o país no centro da análise geopolítica, em que o Atlântico é um mero mediterrâneo e se configura uma divisão hemisférica nova: do lado esquerdo de quem olha, ou seja, ao oeste, a predominância é oceânica, com apenas algumas ilhas do Pacífico, sendo que toda a massa continental se fixa no leste do hemisfério.

Projeção Azimutal Equidistante centrada na cidade de São Paulo

Projeção Azimutal Equidistante centrada na cidade de São Paulo

Outra curiosidade é que, pelo fato da Eurásia subir ao norte, o Sudeste da Ásia e a Oceania se espalharem pelo leste e sudeste, indo até onde conhecemos a Antártida pelo mapa de Mercator (aquele que todo mundo se habituou a ver, como centro Paris e Londres), envolvendo a África e se cercando mais perto da América do Sul, pode ser um possível problema na visão do autor. Isso porque, numa hipotética luta comunista por espaço (relembro: levando-se em conta o período da obra escrita), tendo a URSS e a China numa aliança Moscou-Pequim, uma forma de atacar os EUA seria tomando esses postos avançados, países como a Indonésia, Nova Guiné, Austrália e Nova Zelândia, sobrando a massa gelada da Antártida como proteção, que forma um círculo protetor do Atlântico Sul com a América do Sul e a África meridional.

Só que, com o crescimento de rebeliões anticolonialistas no continente africano naqueles tempos, impulsionadas, em sua maioria, por movimentos marxistas, isso, segundo Golbery, poderia criar uma segunda frente de ameaça ao Brasil, com a tomada de países do sudoeste africano, se aproximando da rota de estrangulamento Natal-Dacar (regiões territoriais mais próximas, separadas pelo fosso oceânico do Atlântico Sul), muito prejudicial ao Brasil e, na esteira, aos Estados Unidos e sua projeção Ocidntal. E, ao dominar o Atlântico Sul (mais importante que dominar o continente sul-americano, mesmo que este não seja descartado) poderia interferir decisivamente na disputa URSS x EUA, já que a aliança sino-soviética teria acesso mais próximo, tanto dos EUA quanto da Europa Ocidental e, conseqüentemente, o Atlântico Norte.

Esses dois pontos expõem a importância, na formulaçãlo do general, do Brasil no contexto geopolítico. Sempre ameaçado por uma caminhada via Ásia (Golbery usa uma frase atribuída a ao revolucionário russo Lênin que, para tomar o Ocidente, o caminho teria que ser pelo Oriente), o Brasil teria a articulação Antártida-América do Sul-África como uma defesa do Atlântico Sul, desde que não sofresse também investidas comunistas no seu subcontinente.

A tese é para chamar a atenção para esta região do planeta, pouco vigiada, por vezes inóspita no ponto de vista estratégico-militar, mas, que, num futuro próximo, pode dar as cartas num embate mundial. Só que, no caso, Golbery acreditava que fosse o recrudescimento da guerra capital x comunismo que realmente, à época, parecia que explodiria. No entanto, creio que seja pertinente a reflexão, pois, mesmo a Guerra Fria tendo acabado, nada impede que novos confrontos surjam no futuro, trazendo à baila novamente a importância geopolítica da região. E a briga por recursos naturais, no momento em que o Brasil descobre cada vez mais petróleo em seu litoral, pode ser a próxima divergência que volte os olhares para nosso subcontinente latino-americano.

Imagem retirada do site do Cursinho do Objetivo, via Google.

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