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Brasil e Argentina no centro do debate

Terminei de ler ontem um livro indicado pelo meu orientador do mestrado chamado “Argentina e Brasil: A Balança de Poder no Cone Sul” (editora Annablume), do professor Leonel Itaussu Almeida Mello, que por sinal “dá” aula para mim às tardes das segundas-feiras na disciplina de Análise das Relações Internacionais, no prédio de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFLCH), da USP.

E esse post é mais como um comentário (bastante inacabado e preliminar) do entendimento meu deste livro, bem interessantes, aliás, e que vai servir de base para meu relatório de compreensão da obra lida, que poderá ajudar na formatação mais clara de meu objeto de pesquisa e do foco de análise – estive às voltas nas duas últimas semanas a verdadeiros vendavais conceituais sobre meu projeto aprovado no Prolam que me obrigarão a uma revisão do material para um andamento convincente.

Porquê, então, eu posto aqui? Primeiro, para o leitor ter a idéia da dificuldade de tempo e espaço para a produção de textos no blog, ainda mais posts que não tenham a ver com o que eu estou pesquisando – gostaria de trazer outros temas, penso em assuntos, mas não consigo colocá-los no computador. Segundo, porque é um tema bem interessante e achei que poderia compartilhar neste espaço, que, como disse em seu nascimento, serviria também para discussões sobre a América Latina, sob o ponto de vista das Relações Internacionais, afinal de contas, é a linha mestra da minha pesquisa.

O livro trata das (conflituosas) relações entre Brasil e Argentina, principalmente entre o período das décadas de 1970 a 1980, passando da competição, para a distensão, culminando com a integração. É importante o livro, porque dele é possível compreender os objetivos brasileiros no cenário internacional, bem como sua relação no subsistema platino (composto por Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia e que corresponde a Bacia do Prata) no subcontinente latino-americano, tendo mudado ao longo do arco temporal analisado pelo autor. Os conceitos de equilíbrio, hegemonia e império, com o subtipo da preponderância, são retirados de Raymond Aron, dos grandes teóricos do realismo, linha das Relações Internacionais, e que cabe muito bem no estudo realizado.

Por exemplo, conforme o autor, o Brasil alçou uma posição de preponderância no subsistema platino, que significa que o país exerce uma influência e superioridade maiores em relação a seus vizinhos, mas ainda ser subordinado a um poder hegemônico superior, no caso, os Estados Unidos, o poder superior e hegemônico no continente americano. Outro motivo do Brasil ter a preponderância na região está no fato do país se mostrar aberto para a América Latina e, por isso, não se tornar hegemônico, pois se trata de uma relação de cooperação entre os estados sul-americanos e de anti-hegemonia no subcontinente.

Essa posição é importante para o Brasil conseguir se aproximar de seus vizinhos. E segundo o autor, o primeiro passo para “neutralizar o sentimento antibrasileiro” na região foi a criação do Tratado de Cooperação Amazônica, firmado em Brasília pelos oito países que detém parte dessas terras: Venezuela, Colômbia, Brasil, Equador, Guiana e Suriname. O então ministro das Relações Exteriores da época, Azeredo da Silveira, reforçou a posição anti-hegemônica brasileira, ao afirmar que “o Brasil está convencido de que somente um sistema de cooperação, que ofereça a todos e a cada um dos participantes uma clara mutualidade de benefícios e vantagens adequadas, terá, a longo prazo, condições de solidez e durabilidade”.

Se a distensão foi marcada pela resolução do conflito Itaipu-Corpus, em 1979, após Acordo Tripartite, assinado por Brasil, Argentina e Paraguai a respeito da querela das hidrelétricas, o Programa de Integração argentino-brasileiro, formulado em 1986 pelos presidentes José Sarney e Raúl Alfonsín, com cada um dos países já vivendo a abertura democrática, foi o motor possível do atual Mercosul, por marcar a evolução da distensão para o clima de cooperação entre os principais atores do subsistema platino. No que tange ao Brasil, segundo Mônica Hirst, “a negociação do acordo representou o abandono de uma postura hegemônica que por 150 anos havia prevalecido em diferentes momentos frente ao país vizinho. É a partir desse quadro que começa a diluir-se o peso determinante da hipótese de conflito com a Argentina, sempre presente na doutrina militar brasileira”.

Para finalizar, Leonel Mello coloca a questão da integração como centro da análise, referindo-se a três os pressupostos importantes para formar uma integração regional, dentro do que foi estudado no livro, ou seja, a relação argentino-brasileira: consolidação do regime democrático; participação da sociedade civil; relação de eqüidistância aos Estados Unidos; postura anti-hegemônica brasileira como “princípio retor do processo integracionista”. Esse último, a meu ver, é o fator mais fundamental no caso de se evitar uma visão subimperialista ou hegemônica dos vizinhos perante o Brasil, isto é, para ter os vizinhos ao seu lado, o Brasil precisa cooperar com ele, crescer com eles, e não dominá-los.

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  1. 13/05/2009 às 12:55 PM

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